Ana Maria Medeiros da Costa - Herança e Dívida

HERANÇA E DÍVIDA

Ana Maria Medeiros da Costa

Posso entender se soar um pouco ultrapassado falar de herança e dívida – ou seja, de uma referência à história – numa organização social que todos concordam em definir como individualista. Isso porque, no pressuposto do ideal do individualismo, está contida a condição de uma certa reclusão num "bastar-se" na pessoa. O indivíduo parece ser hoje o centro do interesse e das preocupações das diferentes produções. O coletivo somente aparece referido nos momentos de denúncia da violência social, ou das questões que dizem respeito a uma espécie de má formação do laço social, que capturam os olhares para suas margens. No entanto, mesmo essas colocações não indicam uma preocupação com o coletivo em si mesmo. Elas partem da denúncia da invasão do indivíduo em seus direitos. Partem do pressuposto da constituição de uma organização social onde o indivíduo esteja confortável, com seu lugar preservado da intrusão do outro. Mesmo as críticas que hoje são feitas ao individualismo, não indicam outro lugar enunciativo que o sustentado pelo ideal individualista.

A clínica cotidiana não está fora dessa organização discursiva. Somos procurados para dar a solução para que as pessoas possam "bastar-se": ter sucesso, conseguir ganhar dinheiro, não depender tanto do outro, etc. Na verdade a psicanálise pode ser confundida com essa espécie de preocupação com o individual. Em outros tempos, ela já concentrou essa crítica. Mas, como hoje os tempos são outros, aparentemente ninguém mais se preocupa com isso.

Faço esse breve preâmbulo porque gostaria de deixar melhor formuladas as bases de onde pretendo abordar o tema que me ocupa. De início, digo o seguinte: não penso que a saída para as manifestações da crise do individualismo possam ser colocadas do lado de uma pretensa volta ao culto da tradição ou da transcendência. Ao menos enquanto psicanalista não é isso que me move. Já que vou falar de herança e dívida, isso precisa estar claro. Em segundo lugar, essa aparente oposição entre individual e coletivo não se sustenta dentro da psicanálise. Temos em Freud essa colocação constante em "Psicologia das Massas" de que a psicologia individual é, desde o início, psicologia coletiva. Temos em Lacan a afirmação de que todo laço social, que é um laço discursivo, somente se sustenta de um sujeito interpretante. Ou seja, indivíduo e coletivo são verso e reverso de uma mesma questão: a de que a cultura somente se sustenta pela transmissão da linguagem, que traz nos seus pressupostos a necessidade de um enunciante e de um endereçamento, aquilo que denominamos Outro. Posso dizer isso de uma forma muito banal: eu somente falo porque suponho um outro que me escuta. Sujeito e Outro são referenciais interligados, determinados pela sustentação do campo cultural que só se mantém pela transmissão da linguagem. Todas as produções discursivas são resultantes dessa interdependência, quer as denominemos de tradição ou de individualismo. E mais, não é somente no individualismo que acontece uma certa negação da castração, ela está também colocada na tradição. Nesse ponto sou bastante freudiana, porque acredito que a cultura somente se mantém por um efeito de recalcamento, que produz sintomas sociais diversos, dependendo do laço discursivo que a organiza.

Dito isso, tratemos de nosso tema. Vou abordar uma questão muito corriqueira ao nosso contexto do sul e que gira em torno do significante "gaúcho". Tenho feito algumas comunicações, em outras oportunidades, a respeito desse assunto, mas é o ponto onde me engato nessa questão da colonização. Eu sempre me surpreendo com a constante força apelativa desse significante, enquanto indicador de uma identidade regional, que se sobrepõe à nacional. Recentemente, quando o time do Grêmio ganhou a Copa do Brasil, acompanhamos uma certa manifestação desse apelo. A torcida carioca inventou um chamado "grito de guerra" de: "Ah! Eu sou maluco!". Depois da vitória do Grêmio, o jogador Paulo Nunes berra ao microfone: "Ah! Eu sou gaúcho!". Diga-se de passagem que ele não é oriundo do sul. Muito bem, e o que indica essa enunciação jubilatória do "Ah! Eu sou gaúcho"? O gaúcho parece alguém bem postado na sua identidade regional de tal forma a diferenciar-se nacionalmente. O nordestino tem um dito espirituoso de que onde dois gaúchos se juntam, fundam um CTG. Teria alguma particularidade na colonização do sul que sustente essa questão?

Quando visitamos as narrativas históricas, deparamo-nos com algumas surpresas. Como se sabe, o sul foi primeiro colonizado pelas missões jesuíticas espanholas. Nesse ponto, ele tem uma particularidade que o distingue do resto do Brasil. A intenção de converter o índio e de transmitir a religião se sobrepõe a da ocupação. Nos restos que ficaram na cultura resultante desse primeiro encontro, podemos testemunhar os efeitos dessa colonização. As imagens de santos, talhadas pelos índios, têm todas traços indígenas. Ou seja, não houve uma anulação de sua referência narcísica, na medida em que ela pode ser representada dentro da cultura da colonização. É interessante acompanhar também a força de nomeação desse pai espanhol. Mesmo índios que permaneciam nômades e que não ficavam nas Missões, compareciam a elas para ganhar um nome de batismo, com o qual se faziam reconhecer daí por diante.

É interessante pensar nos dois elementos que passam a fazer fronteira: por um lado, a bacia do Prata atraindo os portugueses pela briga da ocupação. Por outro, o gado trazido pelos espanhóis, que ficando disperso reproduziu-se rapidamente. Surge, então, uma nova figura de nômade e que foi denominada "gaúcho". Na sua origem essa expressão significava andarilho e ladrão. Ele se posicionava numa faixa de terra que não pertencia a nenhuma das duas coroas (portuguesa ou espanhola), uma "terra de ninguém", surgindo basicamente com uma função predatória: matar o gado para tirar o couro. Era composto tanto de índios, quanto de portugueses e espanhóis, que se posicionavam à margem das intenções colonizadoras. Ou seja, o gaúcho era o resto.

É surpreendente que encontremos na origem desse significante esse sem lei nem pai. O que será que faz com que esse significante se imponha como um representante paterno, representante da lei e da transmissão, tanto da posse quanto de um ideal identitário?

Esse exemplo leva-nos a pensar na peculiaridade dos significantes que ocupam o lugar de uma função paterna. É muito comum, na série de análises que fazemos sobre o Brasil, chegarmos à conclusão de que aqui não teve pai e de que há uma espécie de perversão generalizada, pela ausência de função paterna. Mas se nos detivermos nessas análises, vamos encontrar nelas o olhar do colonizador: aquele que quer se impor como pai. Ao fazer essa afirmação para vocês, imediatamente me deparo com o problema oposto. Ou seja, de que vocês possam escutar-me desde um lugar de ataque à nossa história, de que o colonizador era o bandido e o colonizado o mocinho. Também temos essa posição nas análises da colonização. Muito bem, não se trata disso. Qualquer uma dessas análises que se opõem – seja pelo lado do colonizador, seja pelo do colonizado – trazem em si a referência ilusória a um pai ideal.

O pai ideal – já está no seu próprio enunciado – é aquele que nunca se realiza, nunca se materializa. Frente a esse ideal impossível vamos encontrar as duas posições da neurose, pois é graças a ela que temos uma referência histórica: ou bem a posição obsessiva, que limita seus atos, suas realizações, para manter um pai imaginariamente não castrado. Ou bem a posição histérica, que acusa toda referência paterna de insuficiência para continuar buscando a ilusão de produzir o pai ideal. Essas duas posições, a custa de um sacrifício sintomático, impedem o reconhecimento de que o pai já está realizado nos próprios significantes, esses que organizam os lugares nos laços discursivos que sustentamos. A função paterna não está num pai que saberia criar seus filhos. A função paterna está na própria transmissão do legado cultural da linguagem.

No entanto, essa herança tem uma peculiaridade. Ela não se dá pela via direta. A herança da linguagem não se transmite exclusivamente dentro da ordem simbólica. Ela se orienta pela via da dívida, de uma forma muito particular. Em relação à herança, orientamo-nos não na referência àquilo que positivamente recebemos, mas em relação ao que não está realizado dentro do que recebemos. Nesse ponto, a dívida não se coloca somente na posição do filho, mas também na posição do pai. Somente há herança se a posição paterna transmite uma falta (que vai operar como dívida). Nesse ponto a referência freudiana é paradigmática. Sempre que aparece a relação ao desejo, no texto freudiano, o pai está na posição do engano. O pai é aquele que se engana sobre o desejo e é isso que permite ao filho desejar, ou seja, tentar produzir todas as realizações do campo cultural.

Aqui retornamos ao significante "gaúcho". Nós sempre estamos interessados num mito de origem. O mito é aquele que faz parar o pai em algum lugar. Entende-se isso a partir do que coloquei antes, porque se o que nos orienta é a herança da dívida, nós sempre podemos lançá-la para além e para além, sem encontrarmos um fim. Ou seja, podemos pensar que o primeiro gaúcho é resultante da herança da dívida do europeu, que por sua vez herdou do pai que o constituiu e assim por diante, até onde tenha surgido a linguagem no mundo. Essa é uma boa forma de nunca encontrarmos referência paterna e vagarmos errantes por referências tão frágeis. O mito tem essa função de parada, de produzir uma origem.

Como o gaúcho predador errante parou? Ele precisou ocupar-se da guerra do estabelecimento das fronteiras e nelas, o estabelecimento da língua. Se revisitarmos essa história, ela certamente nos produz horror. A matança do semelhante pela posse da terra, a delimitação das fronteiras e a imposição da língua não parecem algo muito digno. Não nos identificamos com a degola do parceiro espanhol. No entanto, esse é o nosso legado, mesmo que o enfeitemos de intenções mais ou menos nobres.

Aqui se coloca outra questão: o que fazemos com o mito de fundação – essa referência paterna – o que fazemos com a história? Escolherei responder, de uma forma mais rápida, que fazemos ficção. Temos essa necessidade imperiosa de recontá-la, de reescrevê-la. A literatura é o testemunho mais evidente disso. Tomem, por exemplo, essa espécie de epopéia que é "O tempo e o vento", de Érico Veríssimo. Lá vocês vão encontrar os primórdios, tanto do domínio paternalista do grande proprietário, quanto essa espécie de tipologia do gaúcho herói, do guerrilheiro paramentado, daquele que ocupa a terra para estar constantemente partindo para a guerra. Lá encontramos o gaúcho errante nos dois sentidos desse termo: tanto em relação aos pecados que comente, aos abusos, aos excessos, quanto em relação a estar sempre partindo para outra guerra.

E o que ele deixa no lugar de onde parte? As mulheres. Na narrativa elas têm a função dessa fixidez, dessa permanência silenciosa na espera, de escutar o tempo passar no vento e enlouquecer. A mulher aparece como a referência da terra, na fixação de um recorte no infinito do pampa, que fazia os homens quererem voltar. Naturalmente, esse tema da mulher interessa-me particularmente. É interessante como em muitos momentos ela aparece como um certo constrangimento na tipologia do gaúcho. Veja-se, por exemplo, no movimento tradicionalista, quando não se soube como vestir a prenda. A paramenta do gaúcho foi inspirada numa certa pesquisa histórica. Já para a prenda inventaram esse vestidinho de chita, porque, aparentemente, ela não fez história.

Um outro exemplo, dessa mesma questão, encontramos no conto de Jorge Luís Borges, "A intrusa", onde a mulher é necessária no seu mutismo para produzir o encontro do homem com seu espelho.

Desta forma, para que algo pudesse permanecer, produzir uma constância, um traço identificatório, as mulheres não podiam ser errantes. Eu ainda me pergunto sobre essa história. Não estou bem certa, mas talvez possa se apostar hoje que um traço identificatório, para ser efetivo, não precise silenciar e imobilizar algum dos personagens comcernidos por ele. Talvez possa se apostar que, afinal de contas, às mulheres também seja permitido errar: seja no trânsito da linguagem, seja na falta.

Ana Maria Medeiros da Costa


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