página de abertura do site
  A Capoeira-Mãe de João Pequeno

     Considerado o mais antigo capoeirista vivo, 79 anos de vida e 67 de capoeira angola, diariamente este "menino de Pastinha" ainda vai para sua academia no Fonte Santo Antônio, no Pelourinho em Salvador (BA), onde joga, toca e canta nas rodas. Mestre João-Pequeno foi discípulo de mestre Pastinha, o mais famoso angoleiro do País, e é um dos poucos capoeiristas que defende a tradição da capoeira angola, a capoeira-mãe dos escravos em luta pela liberdade.

     O somaterapeuta Rui Takeguma, do Grupo IÊ de Capoeira Angola Libertária da Casa da Soma de Sampa, entrevistou mestre João Pequeno e mestre Pé de Chumbo, ex-aluno do "menino de Pastinha".

Rui Takeguma: Qual a diferença para o senhor de ser capoeirista e ser mandingeuiro?
João Pequeno: A capoeira não é mandinga, mandinga é essa coisa que a pessoa se esconde por aí...
Pé de Chumbo: É a magia. Vocês de São Paulo entendem a capoeira como mandinga, "ah, sou mandingueiro", fiz um movimento, quebrei, é mandinga. A mandinga não tá nessa movimentaçãp da capoeira, tá na magia, É estranho dizer "todo capoeira é mandingueiro". Tem muitos capoeiristas...

RT: Tem muitos mandingueiros que não são capoeiristas...
PC: É... mostrar que ele não é capoeiristas, mas ele se mostra mandingueiro, no candomblé. Então não é capoeira. Principalmente o pessoal do Rio e São Paulo: "É sou mandingueiro, não sei o que!" Eu sempre falo pros meus alunos que a mandinga veio não é da capoeira, é do camdomblé.

RT: E dá par ser capoeirista sem essa mandinga?
JP: Com certeza. Meu pai vinha de cá para lá e se ele não quisesse que você visse ele, ele entrava numa rua qualquer, achava como cobrisse de sua vista, passava e você não via ele.

RT: Por isso ele era mandingueiro?
JP: Era.

RT: Mas seu pai era capoeirista?
JP: Não.

RT: Antigamente os capoeiristas do Pastinha, na época em que o senhor chegou aqui em Salvador, eles faziam a capoeira na folga, como trabalho ou como diversão?
JP: Não, eles faziam como diversão. Só quem fazia como trablho era... (nem o Cobrinha Verde fazia...) só o Waldemar, que tinha academia, academia não, mas ele ensinava num espaço lá na rua, no quintal.

RT: E os outros trabalhavam em outras profissões...
JP: Os capoeiristas daquele tempo eram carregadores, eram das docas, estivadores...

RT Eram pessoas mais humildes, mais pobres... Depois que o mestre Bimba criou a capoeira regional, daí outras pessoas foram fazer também capoeira?
JP: O Bimba selecionava as pessoas, só entrava lá filhinho de papai...

RT: Mestre, o Pastinha fala aqui numa entrevista que a capoeira antes de mais nada é uma luta de libertação, ajudou o negro a se libertar e ajuda as pessoas a se libertarem, o senhor concorda com isso?
JP: Concordo. A capoeira... toda luta faz parte da libertação da vida das pessoas e a capoeira era uma dança. Ela tornou-se capoeira aqui no Brasil porque os senhores não consentiam que os escravos fizessem capoeira na Senzala, eles iam então fazer no mato. Essa era a dança chamada n'golo, o passo da zebra, mas os negros aim fazer no mato... Aí perguntavam: "Cadê fulano de tal?" - "Tá na capoeira!"


A lenda do Besouro Preto de Santo Amaro
     Segundo mestre João Pequeno, Besouro Mangangá era primo de seu pai e não foi capoeirista e sim valentão e mandingueiro. Tinha o corpo fechado por magia: faca não entrava e bala não matava. Várias histórias são contadas e a de sua morte, aos 35 anos, já virou lenda. Na véspera de sua morte, o dono de uma fazenda arrumou uma mulher para dormir com Besouro. No dia seguinte, indo para a fazenda ele se cortou nas costas ao passar por uma cerca de arame farpado, simbolizando a quebra da magia que o prtegia, por ter transado com a mulher. Ao chegar na fazenda, depois de muita briga foi ferido com uma faca de tucum (veneno que não deixa o ferimento cicatrizar), foi para o hospital e enquanto se recuperava já combinava com seus cúmplices a vingança ao fazendeiro. Mas ouviu do médico que ele nunca ficaria bom como antes. Besouro preferiu a morte a não ser mais o mesmo.


 
1