Boga do rio Maior

Boga de Almoster ou do Trancão (Chondrostoma olisiponensis)

 

"Descoberta nova espécie de peixe em afluentes do rio Tejo
24.10.2007 - 10h02 Teresa Firmino

 

Certa vez, Hugo Gante e Carlos Santos, colegas no último ano do curso de Biologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, foram pescar para o Trancão já despoluído, para ver que peixes já se tinham arriscado a regressar ao rio. O peixinho que apanharam, no final de 1998, parecia tão diferente de outros que o entregaram ao Museu de História Natural de Lisboa. Ficou lá estes anos todos num frasco com álcool, até que Hugo Gante voltou a cruzar-se com a sua pescaria e a olhá-la com olhos de biólogo. Afinal, tinham descoberto uma espécie nova.

Hugo Gante tem agora 29 anos e trabalha no Museu de História Natural de Lisboa com Maria Judite Alves, orientadora da sua tese de doutoramento. Quanto a Carlos Santos, de 30 anos, também está a doutorar-se, na Faculdade de Ciências de Lisboa. Só no ano passado Hugo Gante tirou o peixinho do esquecimento: "Fiz umas análises genéticas às amostras que tínhamos pescado, com linha e anzol, como fazem as populações locais, e confirmámos a sua diferença."

Foram novamente para as ribeiras e rios afluentes do Tejo, à procura de mais peixes iguais. Só os encontraram em dois pontos, já perto de Lisboa: no Trancão e na bacia do rio Maior. Mas as análises genéticas e as comparações morfológicas com outros peixes, do género Chondrostoma, permitiram concluir que é mesmo uma espécie nova.

 Chamaram-lhe Chondrostoma olisiponensis, inspirados no nome romano de Lisboa, Olisipo. Apresentaram-na num artigo, assinado por Hugo Gante, Carlos Santos e Judite Alves, na revista Zootaxa: é uma espécie pequena, cujos exemplares têm dez centímetros, esverdeada ao longo da linha lateral e com reflexos dourados e prateados.

"Nos pequenos peixes de rio, as fêmeas e os machos são iguais. Neste caso, os machos distinguem-se por terem barbatanas anais mais compridas", explica Judite Alves. "É uma espécie muito rara, com uma distribuição super-localizada. Estamos preocupados com o seu futuro, porque os habitats estão sob pressão agrícola e urbanística à volta de Lisboa", acrescenta. "Esta descoberta é simultaneamente uma surpresa e um motivo de preocupação, pela sua frágil situação", frisa Gante. "É impressionante como um vertebrado pode passar despercebido tanto tempo, numa zona próxima da capital."

Apenas é pescado por lazer, como aliás fez Carlos Santos em criança, e até o mantêm em casa. Se o pior acontecer, restará a dezena de exemplares nos frascos do museu."

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1308542&idCanal=13

Chondrostoma olisiponensis (HUGO F. GANTE, et al., 2007) espécie nova é descrita apenas para a região do baixo Rio Tejo. A nova espécie é pequena (todos os espécimes examinados são menores do que 120 mm em comprimento padrão) e distingue-se das restantes espécies de Chondrostoma s.l. pela seguinte combinação de características: ausência de lâmina córnea no lábio inferior, boca muito arqueada e ausência de intensa coloração avermelhada na base das barbatanas. As barbatanas pélvicas são alongadas, chegam ao ânus e frequentemente passam a inserção da barbatana anal nos machos. Possui 36 a 43 escamas na linha lateral. Chondrostoma olisiponensis distingue-se ainda de C. lusitanicum, uma espécie filogeneticamente próxima que habita a mesma área geográfica, por ter o corpo mais alto, cabeça mais longa, olhos maiores, barbatanas peitoral e pélvica e último raio anal mais longos, etc. Contrariamente às outras espécies do género, C. olisiponensis apresenta dimorfismo sexual externo (diferenciação entre macho e fêmea) , em que os machos possuem barbatanas pélvicas mais longas que passam o ânus e frequentemente se sobrepõem com a barbatana anal.

Apenas aparece no rio Trancão e na ribeira de Almoster que pertence à Sub-bacia hidrográfica do rio Maior. Sendo que tenho acompanhado a situação da população da ribeira de Almoster em cooperação com uma equipa de Biólogos do ISPA, dirigida pela Doutor Vitor Almada.

 

A espécie deve ser considerada criticamente ameaçada segundo os critérios CR B1ab(ii,iii,iv)c(iv)+2ab(ii,iii,iv)c(iv) da IUCN. (HUGO F. GANTE, et al., 2007)

Apenas nos dois rios assinalados no mapa com uma circunferência foi confirmada a sua presença.

 

        

 

 

 As três fotos (em cima) são de peixes capturados na ribª de Almoster, fotos de Marco Arruda - 2008.

 

 

 

Fotografia publicada no artigo de HUGO F. GANTE, et al., 2007.