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O
que vem a ser o ateísmo afinal?
(1996)
Richard Carrier
Aquele que decide
um caso sem ouvir a outra parte, mesmo que decida com justiça, não pode ser
considerado justo.
Sêneca
O que é
um ateísta?
Um ateísta é uma pessoa que não acredita na
existência de quaisquer deuses.
Por que
você não acredita em Deus?
Simplesmente não existe mais evidência a favor
da existência de Jeová do que de Zeus. Os cristãos não encontram motivo algum
para acreditar que Zeus exista, e, portanto, não acreditam nele. Pela mesma
razão, não acredito em Jeová. Deus em pessoa é mais que bem-vindo para ter uma
boa conversa comigo. Até que ele apareça, não tenho nenhum motivo para
acreditar que alguém seja um porta-voz confiável de qualquer deus.
Você
não quer ir para o céu?
Não acredito que haja um céu. Mas mesmo que um
céu real existisse, e por alguma razão um deus escolhesse quem entraria e quem
não, se esse deus fosse um ser bom e nobre ele me julgaria pelo meu valor como
ser humano, e não por minha crença nele.
Como
você pode virar as costas à verdadeira felicidade?
Não posso imaginar ser mais feliz do que tenho
sido. Vivo uma vida muito espiritual e enriquecedora, e sempre tive um
sentimento de plenitude por existir e pensar. Acho que o amor, a razão e uma
abordagem prática e humilde com relação à vida, são mais que o bastante para
mim.
Como
você pode confiar em humanos pecadores, ignorando todo o bem feito por Deus?
Fico ofendido que se dê crédito a um deus
invisível por toda coisa boa que acontece no mundo, enquanto todo o mal é
atribuído à humanidade. Há muita coisa ruim no mundo que não é culpa dos seres
humanos, como a ignorância, a doença e as secas, e a maioria
das coisas boas são totalmente devidas ao amor, ao esforço e ao gênio
humano, como a amizade e as vacinas, e até os canos de irrigação.
Nem todos os seres humanos são maus. Todos nós
possuímos grande potencial para o bem. Ainda assim um deus poderia fazer muita
coisa boa no mundo que não está sendo feita, como avisar crianças inocentes
quando ficar longe do perigo, ou evitar que nasça gente demais, ou transformar
todas as armas do mundo em flores. Certamente um deus amoroso faria essas
coisas, e mais, da mesma forma como qualquer ser humano sábio e compassivo
faria se tivesse os meios necessários.
Então, quando um médico salva a vida de
alguém, devemos agradecer realmente ao médico, e à sociedade que tornou sua
educação possível. É um insulto a ambos quando se agradece a um deus por algo
que ele poderia ter feito, mas não fez. Se um deus
amoroso realmente existisse, não precisaríamos de médicos, para começo de
conversa.
Se não
existe nenhum deus, então de onde você acha que veio o universo?
Eu nem sei se o universo teve um começo,
quanto mais o que possa tê-lo começado. Ninguém sabe. Inventar um deus para
fazer a criação apenas deixa aberta a questão sobre de onde veio esse deus.
Então
por que se comportar moralmente?
Eu detesto pessoas que me ferem ou que mentem
para mim, que não são sinceras e não têm consideração. Então, se eu tivesse que
ser como essas pessoas, eu não poderia evitar detestar a mim mesmo. Eu jamais
faria alguma coisa que me tornasse o tipo de pessoa que eu odeio, porque eu
nunca seria realmente feliz se eu odiasse a mim mesmo, e, portanto, para ser
realmente feliz, tenho que ser o tipo de pessoa que eu realmente gosto, e eu
gosto de pessoas que são honestas, têm princípios e se preocupam com os outros.
Então eu me esforço para ser como as pessoas que eu acho boas. Eu descobri
também que a virtude consegue amizades melhores e mais fortes, e assegura a
confiança dos meus vizinhos, e essas duas coisas são essenciais para se viver
uma vida boa e enriquecedora.
O que
você pensa que acontece quando se morre?
Sei que o cérebro é o que me dá existência, e
dependo de sua saúde para minha capacidade de pensar e sobreviver. Quando o
cérebro morre, eu morro, e quando o cérebro cessa de existir, eu também. Não
acho que isso seja triste. Todos nós gostamos de tudo que vivenciamos, mesmo
quando não dura muito. Amo a vida profundamente, e como a morte terminaria
minha experiência de viver e de amar, eu não quero morrer. Mas eu não temo a
morte, porque não há motivo para temer o fim do próprio medo.
E todas
as pessoas que experimentam Deus?
Existem pessoas no mundo que experimentam a
essência de Buda, que se lembram de vidas passadas, que realmente sentem o
poder da mágica ritual em suas vidas ou que caminham como os espíritos de seus
ancestrais. Existem tantas experiências diferentes que eu não acho que seja
sábio assumir arbitrariamente que qualquer uma delas é mais verdadeira do que a
outra.
Já examinei o mundo todo, e vejo que os
budistas estão em sua maior parte na Ásia, o hindus na
Índia, os muçulmanos no Oriente Médio, e os cristãos no ocidente. A idéia de
deus, e todas as suposições de nossas respectivas religiões,
nos são ensinadas quando crianças. O fato dos americanos serem em sua
maioria cristãos é mais provavelmente o resultado do cristianismo ser ensinado
lá, e não o resultado dessa religião ser realmente verdadeira ou superior a
qualquer outra.
Os
valores cristãos não fizeram tão bem ao mundo?
Foram as pessoas que
fizeram tão bem ao mundo, independentemente de serem cristãos como Martin
Luther King Jr., ou hindus como Gandhi, ou ateístas como Elizabeth Cady Stanton. Honestidade e
compaixão são valores bons em qualquer lugar. Não são únicos ao Cristianismo.
Então
em que você acredita?
Acredito em muitas coisas. Acredito no
potencial da humanidade, no poder da razão, no conforto do amor e no valor da
verdade. Também acredito na beleza e na alegria da experiência humana, e no
poder quase ilimitado da vontade humana em suportar quase todo sofrimento ou
resolver quase todo problema.
Acredito que a fé pode levar as pessoas à falsidade,
e que precisamos de razão e de dúvida como verificações necessárias contra
nossa capacidade de errar. Acredito que precisamos permitir aos nossos
semelhantes fazer escolhas por si próprios e viver a vida que quiserem, em paz
e boa vontade mútuas.
Acredito que negociação e compromisso –
alimentados pelo respeito por opiniões, crenças e modos de vida diferentes –
seja o único modo do mundo encontrar paz e boa vontade
universais, e que usar o método científico é o único modo do mundo poder
chegar a um acordo sobre a verdade de qualquer coisa.
Acredito que é melhor pregar o evangelho do
“seja bom para o próximo e amem um ao outro como a própria vida”, do que pregar
o evangelho do “acredite na sua religião, ou seja
condenado”. Por que é melhor sermos bons uns para com os outros e construir
sobre aquilo que todos concordamos ser verdade, do que insistir que todos
pensemos da mesma forma.
HUMANITATE MAGIS QUAM RELIGIONE NOBIS OPUS EST.
(Precisamos de humanidade mais que de
religião).
Se você quer mais textos (muitos
textos e ensaios) de Richard Carrier, vá em:
http://www.infidels.org/library/modern/richard_carrier/index.shtml
(Página em Inglês)
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