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A Fogueira Santa de
Israel
“Embora nos ensinem, em nossos compêndios,
a astronomia de Copérnico, ela ainda não penetrou em nossa religião ou em nossa
moral, não conseguindo nem mesmo destruir a nossa crença na astrologia. Há pessoas
que ainda julgam que o Plano Divino se refere, especialmente, às criaturas
humanas, e que uma Providência especial não apenas zela pelos bons, mas, ainda,
pune os maus.”
(Bertrand Russell, Ensaios
Impopulares, Companhia Editora Nacional, 1956, página 97).
Quando me deparei com o trecho acima no livro
de Bertrand Russell, a lembrança de uma situação vivida ano passado me veio à
memória. Tentarei descrever o que aconteceu (que não posso afirmar ser uma
situação singela e sem importância), mesmo sabendo que corro o risco (sério) de
não mais conseguir reproduzir o ocorrido com toda fidelidade e todos os
detalhes que merece. Para tanto não citarei nomes, exceto um, que não poderei –
e não quero – evitar.
Dentre os conteúdos para o segundo ano do
ensino médio, na disciplina de Física, estava Gravitação Universal. Normalmente
este conteúdo deveria ser visto ainda no primeiro ano, mas com a redução da
carga horária de três para duas horas-aula semanais, este
tópico, como outros, ficou para o segundo ano (e alguns do segundo ficaram para
o terceiro, e alguns do terceiro ano ficaram para o quarto, que por sinal não
existe...). Seria fácil, e cômodo, trabalhar simplesmente o que aparece no livro didático, que condensa a Lei da Gravitação Universal e as
três Leis de Kepler (nessa ordem) em uma (é, uma) página. Ora, isto não
me pareceu (ou parecia) satisfatório. A idéia do conhecimento
científico frio, morto, não me agrada, e sempre que possível procuro
expandir o assunto, mesmo sabendo que ao relacionar o conteúdo com a Química,
Biologia, Filosofia ou Religião, possa sofrer algum tipo de retaliação...
Afinal, como já ouvi, minha disciplina é Física.
Resolvi então dar um encaminhamento que
considerei mais humano ao assunto. Ao invés de simplesmente passar uma fórmula
para cálculo, dei um encaminhamento histórico ao conteúdo: Ptolomeu e como seu
sistema geocêntrico não atendia a todas as observações, a visão do Universo na
época de Copérnico, por que Giordano Bruno (minha inspiração aos quinze anos)
foi queimado vivo, Galileu e seu método científico, além de uma abordagem mais
questionadora a respeito do homem e suas idéias: o que implica para nós o fato
de a Terra não ser o centro do Universo, e por que, cientificamente falando, é
impossível o Sol ter parado no céu como relata a bíblia, por exemplo, assim
como uma abordagem crítica dos erros cometidos pela igreja católica nessa
época, assunto que, por razões óbvias, ninguém gosta de tocar. (Há alguns anos
João Paulo II reconheceu os erros cometidos pela igreja na época (desculpas?) –
meio tarde, convenhamos –, mas nos colégios o assunto ainda é tabu.) Comentei
ainda sobre um filme que assistira – O Vento Será Tua Herança – que
relata o caso verídico do professor John Scopes, que em 1925 foi julgado e
condenado no Tennessee por ensinar a evolução das
espécies em suas aulas de Biologia. Como alguns alunos mostraram curiosidade
sobre o assunto, comentei sobre a semelhança genética entre os seres vivos, e
sobre o que algumas pessoas passaram para que adquiríssemos a liberdade de
ensinar ciência e mostrar a visão científica dos fatos.
Procurei levar às aulas, além de um globo
terrestre (um viva a Eratóstenes!),
livros da biblioteca do colégio, deixando claro que minhas aulas possuíam
embasamento e que o que falava poderia ser questionado, e, lógico, verificado.
Certo dia, no horário de intervalo, fui
chamado pela supervisora dizendo que queria falar comigo. Quatro alunos de uma
turma haviam se queixado com ela sobre a minha postura e o encaminhamento das
aulas. Segundo ela: ‘A idéia de que deus não existe para eles é complicada’.
Tentei lembrar se usara a palavra deus em algum momento nas
aulas, e nenhuma lembrança me ocorreu. Ela me disse que chamaria os quatro para conversarmos ali, na sala da supervisão, e eu
– num ataque de bom senso – disse que conversaria sim, mas em sala de aula, com
toda a turma, afinal minhas aulas não foram só para os quatro. Apesar de alguma
insistência para que a conversa fosse ali, fui, com a supervisora e a
diretora, até a sala de aula. Ao relatar o problema à turma houve um certo ‘ahhh....’ dos
outros alunos, como se dissessem ‘não me surpreendo...’. Os alunos reclamantes
eram fundamentalistas evangélicos (embora não possa dizer precisamente de qual
facção), e por isso os outros alunos, sabendo de suas posições religiosas, não
se assustaram com o fato. Entendi, então, o motivo que fez com que houvesse a
intenção de que eu conversasse só com os quatro, é que eles não contavam com o
apoio da turma.
Após os tradicionais comentários água com açúcar
da supervisora e da diretora, e depois de os alunos terem confirmado que eu não
usara a palavra deus em minhas aulas, chegou a hora de
os reclamantes falarem. Uma das meninas disse que ela ficava ofendida quando eu
dizia que alguns fatos da bíblia não teriam ocorrido – ela se referia ao que
citei, sobre o fato de o Sol parar no céu, e sobre Adão e Eva. (Vale a pena
lembrar que até mesmo o vaticano reconhece Adão e Eva como lenda, e que o atual
papa chamou um grupo de cosmólogos – Hawking incluso – para conversar sobre as mais recentes
descobertas sobre a origem (gênese...) do Universo.) Ela relatou também que eu
dissera em uma de minhas aulas que um homem e uma ave são a mesma coisa. Eu
disse que ela estava enganada (provavelmente ela fizera ‘confusão’ com o que eu
dissera sobre parentesco genético entre os seres vivos). Dos quatro
só ela falou. Foi aí que uma menina sentada justamente na sua frente –
Camila é seu nome – virou-se para ela e disse algo que ninguém ali teve a
coragem de colocar claramente: ‘Vocês aprendem isto na sua igreja. Aqui não
é igreja, é colégio. O professor estudou pra falar o que está falando. E o que
ele fala não é só opinião dele, está nos livros.’ Houve então silêncio, e
após os comentários pacificadores da diretora, cuja posição ali não ficou bem
clara nem pra mim, nem pra eles, a discussão, momentaneamente, findou-se.
A diretora disse que: ‘Há relatos
históricos de que Jesus existiu’. Fiquei com vontade de perguntar se também
havia relatos históricos de seus milagres e do assassinato de todas as
crianças, exceto uma, na época, fato que dificilmente escaparia aos
historiadores, como parece ter acontecido. Mas não quis prolongar a discussão.
Após a discussão eu e a diretora conversamos
com o professor de Filosofia, que relatou que ao falar sobre evolução, recebeu
o seguinte comentário da mesma aluna que reclamou da mim: ‘Eu não acredito
nisso, e minha religião não aceita isso’. O professor disse: ‘Então tudo
bem’, e não tocou mais no assunto. Uma solução bastante prática, mas que a
mim não contenta... E os outros 90% da turma, os que foram mais sensatamente
educados? Não merecem eles saber das novas descobertas da Biologia, da
Astronomia, enfim, deste novo mundo mostrado pela ciência moderna? Essa maioria
tem que continuar a usar a medicina moderna, a ver um mundo cada vez mais
tecnológico, mas ainda continuar com idéias fundamentais vindas da idade das
trevas?
Na próxima aula com a turma, levei vários
livros que abordavam não só temas de Biologia como a evolução, mas que
continham também explicações científicas que eu havia usado, além de outros que
falavam sobre intolerância religiosa. Percebi uma certa inquietação em alguns
enquanto eu lia trechos de livros de Albert Einstein, Carl Sagan, dos irmãos Brody e de Bertrand Russell. Houve interesse de alguns
alunos pelos livros, então preparei um texto com uma lista de títulos como
sugestão para leitura.
Vários alunos sentiram-se atraídos pela
discussão, embora uma parte deles só conversasse comigo sobre o assunto fora da
sala de aula. Perguntei para eles se já haviam estudado evolução, pois sei que
faz parte dos conteúdos de Biologia e de Ciências, no ensino fundamental.
Disseram que não. Algum tempo depois, a supervisora pediu para a professora de
Biologia que trabalhasse a evolução com os alunos, mas ela se negou. Dependendo
de como seriam suas aulas, talvez fosse melhor assim.
Tudo o que aconteceu deixou algumas coisas
claras para mim. Como o porquê de alguns alunos, já anteriormente, não
conversarem comigo nem me cumprimentarem, já que nunca havia tido nenhum tipo
de discussão ou desavença com eles. Era a tão falada discriminação religiosa.
Eles sabiam de minhas posições céticas. Eu tocava o intocável, fazia perguntas
difíceis, embaraçosas. Eu era perigoso demais, não merecia seu bom-dia.
Normalmente as escolas e colégios funcionam
assim. Ninguém quer tocar nos grandes tabus: sexo, religião, drogas e política.
Quando tocam no assunto drogas, por exemplo, é para reproduzir as campanhas
horríveis da tv. Just say
no. Falta autenticidade. Quando o assunto é religião há a política de que
todas as idéias são válidas e devem ser respeitadas (até as absurdas?). Ninguém
comenta o fato de que idéias fundamentalistas têm que ser rebatidas, e que os
fundamentalistas não vivem só no Afeganistão e
Paquistão e são muçulmanos. Alguns alunos recebem uma educação típica de
crianças mimadas, acreditando que suas idéias não podem ser questionadas e que
seus desejos têm que ser atendidos. Quando sentem suas idéias ameaçadas, não
procuram descobrir se o que está sendo apresentado pode fazer sentido. Não
perceberam ainda (ou simplesmente não querem aceitar) que não há nada de errado
em mudar de opinião, em descobrir que o mundo não funciona como acreditamos,
como queremos. Preferem correr para sua mãe mais próxima, em busca de apoio. Em
um sistema de ensino cientificamente ignorante não é raro que encontrem.
Ainda bem que (por enquanto...) nenhum aluno
disse que sua religião não aceitava as Leis de Newton. É possível que alguns
professores, neste caso, não passassem este conteúdo, e talvez o assunto saísse
dos planejamentos.
Após o ocorrido, quando pude parar para pensar
mais sobre o assunto, percebi que havia percorrido um pouco do caminho que
Galileu e o professor Scopes trilharam, há décadas, séculos. Confesso que hoje
sinto um pouco de orgulho disso, de ter, numa época de obscurantismo
científico, revivido e realimentado (um pouco) a racionalidade humana, e de ter
sentido, ainda que de forma mais branda, o calor da fogueira santa dos
fundamentalistas.
Mauricio
Abril de 2002.
“Deveria haver muito mais liberdade do que
a que existe na profissão de professor. Deveria haver muito mais oportunidades
de autodeterminação, mais independência quanto à interferência de burocratas e
intolerantes. Ninguém consentiria, em nossos dias, que se sujeitasse os médicos
ao controle de autoridades que nada entendessem de medicina e tencionassem
dizer-lhes de que maneira deveriam tratar seus pacientes, exceto, naturalmente,
quando se apartassem criminosamente do propósito da medicina, que é o de curar
o paciente. O professor é uma espécie de médico cujo propósito é curar o
paciente de infantilidade, mas não lhe permitem decidir por si mesmo, baseado
em sua experiência, quais os métodos mais apropriados para tal fim.”
(Bertrand Russell, Ensaios
Impopulares, Companhia Editora Nacional, 1956, página 155).
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