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TRECHOS DE O LIVRO DOS INSULTOS

H. L. Mencken
(1880-1956)
“A consciência é uma voz interior que nos adverte que alguém pode estar olhando”
1. HOMO SAPIENS
A VIDA DO HOMEM
A velha noção antropomórfica de que a vida de todo o universo se centraliza
no homem - de que a existência humana é a suprema expressão do processo cósmico
- parece galopar alegremente para o balaioo das ilusões perdidas. O fato é que a
vida do homem, quanto mais estudada à luz da biologia geral, parece cada vez
mais vazia de significado. O que, no passado, deu a impressão de ser a
principal preocupação e obra-prima dos deuses, a espécie humana começa agora a
apresentar o aspecto de um subproduto acidental das maquinações vastas,
inescrutáveis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
Um ferreiro fabricando uma ferradura produz também algo quase tão brilhante e misterioso - uma chuva de faíscas. Mas seus olhos e pensamentos, como sabemos, não estão nas faíscas, e sim na ferradura. As faíscas, na verdade, constituem uma espécie de doença da ferradura; sua existência depende de um desperdício de seus tecidos. Da mesma maneira, talvez o homem seja uma doença localizada do cosmos - uma espécie de eczema ou uretrite pestífera. Existem, é claro, diferentes graus de eczemas, assim como há diferentes graus de homens. Sem dúvida, um cosmos afligido por uma infecção de Beethovens jamais precisaria de um médico. Mas um cosmos infestado por socialistas, escoceses ou corretores da Bolsa deve sofrer como o diabo. Não é surpresa que o sol seja tão quente e a lua tão diabeticamente verde.
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1918
O LUGAR DO HOMEM NA NATUREZA
Como já disse, a teoria antropomórfica do mundo revelou-se absurda diante da moderna biologia - o que não quer dizer, naturalmente,
que um dia a tal teoria será abandonada pela grande maioria dos homens. Ao
contrário, estes a abraçarão à medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa.
De fato, hoje, a teoria antropomórfica ainda é mais adotada do que nas eras de
obscurantismo, quando a doutrina de que o homem era um quase-Deus foi no mínimo
aperfeiçoada pela doutrina de que as mulheres eram inferiores. O que mais está
por trás da caridade, da filantropia, do pacifismo, da “inspiração” e do resto
dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices são baseadas na
noção de que o homem é um animal glorioso e indescritível, e que sua contínua
existência no mundo deve ser facilitada e assegurada. Mas esta idéia é
obviamente uma estupidez. No que se refere aos animais, mesmo num espaço tão
limitado como o nosso mundo, o homem é tosco e ridículo. Poucos bichos são tão
estúpidos ou covardes quanto o homem.
O mais vira-lata dos cães tem sentidos mais agudos e é infinitamente
mais corajoso, para não dizer mais honesto e confiável. As formigas e abelhas
são, de várias formas, mais inteligentes e engenhosas; tocam para frente seus
sistemas de governo com muito menos arranca-rabos,
desperdícios e imbecilidades. O leão é mais bonito, digno e majestoso. O
antílope é infinitamente mais rápido e gracioso. Qualquer gato doméstico comum
é mais limpo. O cavalo, mesmo suado do trabalho, cheira melhor. O gorila é mais
gentil com seus filhotes e mais fiel à companheira. O boi e o asno são mais
produtivos e serenos. Mas, acima de tudo, o homem é deficiente em coragem,
talvez a mais nobre de todas as qualidades. Seu pavor mortal não se limita a
todos os animais do seu próprio peso ou mesmo da metade do seu peso - exceto
uns poucos que ele degradou por cruzamentos artificiais - seu pavor mortal é
também daqueles da sua própria espécie - e não apenas de seus punhos e pés, mas
até de suas risotas.
Nenhum outro animal é tão incompetente para se adaptar ao seu próprio
ambiente. A criança, quando vem ao mundo, é tão frágil que, se for deixada sozinha
por aí durante dias, infalivelmente morrerá, e essa enfermidade congênita,
embora mais ou menos disfarçada depois, continuará até a morte. O homem adoece
mais do que qualquer outro animal, tanto em seu estado selvagem quanto abrigado
pela civilização. Sofre de uma variedade maior de doenças e com mais
freqüência. Cansa-se ou fere-se com mais facilidade. Finalmente, morre de
forma horrível e geralmente mais cedo. Praticamente todos os outros vertebrados
superiores, pelo menos em seu ambiente selvagem, vivem e retêm suas faculdades
por muito mais tempo. Mesmo os macacos antropóides estão bem à frente de seus
primos humanos. Um orangotango casa-se aos sete ou oito anos de idade, constrói
uma família de setenta ou oitenta filhos, e continua tão vigoroso e sadio aos oitenta quanto um europeu de 45 anos.
Todos os erros e incompetências do Criador chegaram ao seu clímax no
homem. Como peça de um mecanismo, o homem é o pior de todos; comparados com
ele, até um salmão ou um estafilococo são máquinas sólidas e eficientes. O
homem transporta os piores rins conhecidos da zoologia comparativa, os piores
pulmões e o pior coração. Seus olhos, considerando-se o trabalho
que são obrigados a desempenhar, são menos eficientes do que o olho de
uma minhoca; o Criador de tal aparato ótico, capaz de fabricar um instrumento
tão cambeta, deveria ser surrado por seus fregueses. Ao contrário de todos os
animais, terrestres, celestes ou marinhos, o homem é incapaz, por natureza, de
deixar o mundo em que habita [1919 (N. T.)]. Precisa
vestir-se, proteger-se e armar-se para sobreviver. Está eternamente na posição
de uma tartaruga que nasceu sem o casco, um cachorro sem pêlos ou um peixe sem
barbatanas. Sem sua pesada e desajeitada carapaça, torna-se indefeso até contra
as moscas. E Deus não lhe concedeu nem um rabo para espantá-las.
Vou chegar agora a um ponto de inquestionável superioridade natural do
homem: ele tem alma. É isto que o separa de todos os outros
animais e o torna, de certa maneira, senhor deles. A exata natureza de
tal alma vem sendo discutida há milhares de anos, mas é possível falar com
autoridade a respeito de sua função. A qual seria a de fazer o homem entrar em
contato direto com Deus, torná-lo consciente de Deus e, principalmente,
torná-lo parecido com Deus. Bem, considere o colossal fracasso desta tentativa.
Se presumirmos que o homem realmente se parece com Deus, somos levados à
inevitável conclusão de que Deus é um covarde, um idiota e um pilantra. E, se
presumirmos que o homem, depois de todos esses anos, não se parece com Deus,
então fica claro imediatamente que a alma é uma máquina tão ineficiente quanto
o fígado ou as amídalas, e que o homem poderia passar sem ela, assim como,o chimpanzé, indubitavelmente, passa muito bem sem
alma.
Pois é este o caso. O único efeito prático de se ter uma alma é o de
que ela infla o homem com vaidades antropomórficas e antropocêntricas - em
suma, com superstições arrogantes e presunçosas. Ele se empertiga e se empluma
só porque tem alma - e subestima o fato de que ela não funciona. Assim, ele é
o supremo palhaço da criação, o reductio ad
absurdum da natureza animada. Não passa de uma
vaca que acredita dar um pulo à Lua e organiza toda a sua vida sobre esta
teoria. É como um sapo que se gaba de combater contra leões, voar sobre o Matterhorn ou atravessar o Helesponto.
No entanto, é esta pobre besta que somos obrigados a venerar como uma pedra
preciosa na testa do cosmos. É o verme que somos
convidados a defender como o favorito de Deus na Terra, com todos os seus
milhões de quadrúpedes muito mais bravos, nobres e decentes - seus soberbos
leões, seus ágeis e galantes leopardos, seus imperiais elefantes, seus fiéis
cães, seus corajosos ratos. O homem é o inseto a que nos imploram, depois de
infinitos problemas, trabalho e despesas, a reproduzir.
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1919
MEDITAÇÃO SOBRE A MEDITAÇÃO
A capacidade do homem para o pensamento abstrato, que parece faltar à
maioria dos outros mamíferos, sem dúvida conferiu-lhe seu atual domínio sobre a
superfície da Terra - um domínio disputado apenas por centenas de milhares de
tipos de insetos e organismos microscópicos. Este pensamento abstrato é o
responsável por sua sensação de superioridade e por que, sob esta sensação,
existe uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites.
Mas o que é freqüentemente subestimado é o fato de que a capacidade de
desempenhar um ato não é, de forma alguma, sinônima de seu exercício salubre. É
fácil observar que a maior parte do pensamento do homem é estúpida, sem sentido
e injuriosa a ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos
preparado para tirar conclusões apropriadas nas questões que afetam mais
desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das idéias dos ratos, chegando a
noções tão ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo,
a homeopatia, a danação infantil ou a telepatia mental. O instinto natural do
homem, de fato, nunca se dirige para o que é sólido e verdadeiro; prefere tudo
que é especioso e falso. Se uma grande nação moderna se confrontar com dois
problemas conflitantes - um deles baseado em argumentos prováveis e racionais,
o outro disparando em direção ao erro mais óbvio -, ela, quase invariavelmente,
adotará este último. Isto se aplica à política, que consiste inteiramente numa
sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como
palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a qualquer declaração
lógica.
Acontece o mesmo na religião, que, como a poesia, não passa de uma
partitura orquestrada para negar as mais óbvias realidades. E é assim em quase
todos os campos do pensamento. As idéias que mais rapidamente conquistam a
raça, levantam os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas
com a maior tenacidade, são justamente as mais insanas. Isto pode ser
provado desde que o primeiro gorila “avançado” vestiu cuecas, franziu a testa e
saiu por aí dando conferências. E será assim até que os poderes superiores,
finalmente cansados desta farsa, exterminem a raça com um gigantesco e
definitivo coquetel de fogo, gases mortais e estreptococos.
Não surpreende que a imaginação do homem seja a culpada por esta
singular fraqueza. Tal imaginação, eu diria, foi o que lhe permitiu dar o seu
primeiro salto sobre seus colegas primatas. Permitiu-lhe visualizar uma condição
de existência melhor do que a que ele vinha experimentando e, pouco a pouco,
tornou-o capaz de retocar o quadro com uma certa realidade crua. E até hoje ele
continua do mesmo jeito. Quer dizer, ele pensa em qualquer coisa que gostaria
de ser ou ter, algo bem melhor do que ele já é ou já tem, e, então, por um
processo custoso e difícil de erros e acertos, gradualmente chega ao que quer.
Durante o processo, muitas vezes é severamente punido por seu descontentamento
com as sagradas ordens de Deus. Rói as unhas, coça o queixo, tropeça e cai e,
finalmente, o prêmio que ele tanto buscava derrete em suas mãos. Mas, aos
pouquinhos, ele segue em frente ou, na pior das hipóteses, passa o bastão a
seus herdeiros ou sucessores. Pouco a pouco, ele asfalta o caminho para sua
perna restante e conquista belos brinquedos para a mão que lhe resta, com os
quais brinca, e permite a seu olho ou ouvido sobrevivente desfrutar aquela
delicia.
Infelizmente, nunca se contenta com este processo lento e sanguinário.
Está sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive imaginando coisas
além do arco-íris. Este corpo de imagens constitui seu estoque de doces
credulidades, fé e confiança - em suma, seu fardo de erros. E este fardo de
erros é o que distingue o homem, mesmo acima de sua capacidade de chorar, seu
talento para mentir, sua excessiva hipocrisia e bazófia, de todas as outras
ordens de mamíferos. O homem é o caipira par excellence,
um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e
inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da
natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo - por seu
incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso e por negar ou
desmentir o que é verdadeiro.
A capacidade para discernir a verdade essencial, de fato, é tão rara
nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. O homem capaz
desse discernimento é de uma qualidade mais do que extraordinária - mesmo,
talvez, que seja profundamente mórbido. Demonstre uma nova verdade lastreada de
qualquer plausibilidade natural para uma multidão, e nem uma pessoa em 10 mil
suspeitará de sua existência, e nem uma em 100 mil irá adotá-la sem feroz
resistência. Todas as verdades duradouras que se impuseram ao mundo no decorrer
da História foram mais combatidas do que a varíola, e todo indivíduo que as
recebeu bem e lutou por elas foi, absolutamente sem exceção, denunciado e
punido como um inimigo da espécie. Talvez o “absolutamente sem exceção” seja um
exagero. Eu o substituiria por “cinco ou seis exceções”. Mas quem seriam essas
cinco ou seis exceções? Deixo a resposta a cargo de vocês; eu próprio não
conheço nenhuma.
Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços
abertos. Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de
palmas e torna-se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o beau ideal da humanidade. Dê um giro pelos
últimos mil anos da História e você descobrirá que 90% dos ídolos populares do
mundo - não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas a ídolos mundialmente
populares - não passaram de mascates baratos de nonsense.
Tem sido assim em política, religião e em qualquer outro departamento do
pensamento humano. Mesmo tal mascate já enfrentou alguma oposição, uma vez ou
outra, de críticos que o denunciaram como charlatão e o refutaram assim que ele
abriu a boca. Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da
credulidade humana, e isto bastava para destruir seus inimigos e estabelecer
sua imortalidade.
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1920
2. TIPOS DE HOMENS
O ROMÂNTICO
Há uma variedade enorme de homens cujo olho inevitavelmente exagera o
que vê, cujo ouvido ouve mais do que a orquestra toca e cuja imaginação duplica
ou triplica as informações captadas por seus cinco sentidos. É o entusiasta, o crédulo,
o romântico. É o tipo do sujeito que, se fosse um bacteriologista, diria que
uma mísera pulga é do tamanho de um cachorro São Bernardo, tão bela quanto a
catedral de Beauvais e tão respeitável quanto um
professor de Yale.
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1918
O CÉTICO
Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar
piamente numa idéia, mas não em um homem. No mais alto grau de confiança que
ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida - uma sensação meio
instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter
um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que
justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada -
sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema
do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de
que tendem a ser confiantes demais - e de que ainda
confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito
que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras
coisas. Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age como se
confiasse nele. Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de
carteiras: a de que o guarda que o flagrou poderá ser subornado.
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1919
O CRÉDULO
A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência
do improvável. Ela contém um sabor patológico; extrapola o processo
intelectual normal e atravessa o viscoso domínio da metafísica transcendental. O
homem de fé é aquele que simplesmente perdeu (ou nunca teve) a capacidade para
um pensamento claro e realista. Não que ele seja uma mula; é, na realidade, um
doente. Pior ainda, é incurável, porque o desapontamento, sendo essencialmente
um fenômeno objetivo, não consegue afetar sua enfermidade subjetiva. Sua fé se
apodera da virulência de uma infecção crônica. O que ele diz, em suma, é:
“Vamos confiar em Deus, Aquele que sempre nos tapeou no passado”.
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1919
O OPERÁRIO
Todas as teorias democráticas, sejam burguesas
ou socialistas, levam necessariamente em seu recheio algum conceito de
dignidade do trabalho. Se os despossuídos fossem
privados desta ilusão de que seus sofrimentos na linha de montagem são, de
alguma forma, louváveis e agradáveis a Deus, só lhes restaria em seu ego uma
dor de barriga. Não obstante, uma ilusão é uma ilusão, e esta é das piores. Ela
é fruto da confusão entre um artista que se orgulha do seu trabalho e a
docilidade canina e penosa do operário em sua máquina. A diferença é importante
e enorme. Mesmo sem qualquer remuneração, o artista continuará a trabalhar do
mesmo jeito; sua verdadeira recompensa, de fato, é quase sempre tão mísera que
ele chega a passar fome. Mas suponha que o operário de uma fábrica de tecidos
não ganhe nada por seu trabalho: continuaria trabalhando do mesmo jeito?
Pode-se imaginá-lo submetendo-se voluntariamente a uma compulsão irresistível
de expressar sua alma em mais 200 pares de calcinhas femininas?
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1919
O MÉDICO
A medicina preventiva é a corrupção da medicina pela moralidade. É
impossível encontrar um médico que não avacalhe a sua teoria da saúde com a
teoria da virtude. Toda a medicina, de fato, culmina numa exortação ética. Isto
resulta num conflito diametral com a idéia da medicina em si. O verdadeiro
objetivo da medicina não é tornar o homem virtuoso; é o de protegê-lo e
salvá-lo das conseqüências de seus vícios. O médico não prega o arrependimento;
ele oferece a absolvição.
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1919
O CIENTISTA
O valor dado pelo mundo sobre os motivos que levam os cientistas
a fazer isto ou aquilo é freqüente é grosseiramente injusto e inexato.
Considere, por exemplo, dois motivos: uma mera curiosidade insaciável e o
desejo de fazer o bem. O último é considerado muito mais importante que o
primeiro e, no entanto, é o primeiro que aciona um dos homens mais úteis que a
raça humana produziu até hoje: o pesquisador científico. O que realmente o desperta não é a idéia de prestar um serviço de araque, mas uma sede ilimitada e quase patológica de
penetrar o desconhecido, de descobrir o segredo, de chegar aonde nunca se tinha
chegado. Seu protótipo não é o do benfeitor que liberta seus escravos, nem o do
bom samaritano que levanta os caídos, mas o de um sabujo farejando furiosamente
em busca de infinitos buracos de ratos.
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1919
O EMPRESÁRIO
Existe um sólido instinto que põe o empresário abaixo de todos os
outros profissionais e joga-lhe às costas um fardo de inferioridade social do
qual ele não consegue se livrar, mesmo na América. O próprio empresário
reconhece esta suposição de sua inferioridade, mesmo quando protesta contra
ela. É o único homem, além do verdugo e do gari, que vive se desculpando por
sua ocupação, para fazer parecer, quando atinge o objetivo de seu trabalho - i. e. , ter ganho uma montanha de dinheiro -, que o dinheiro
não era o objetivo de seu trabalho.
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1921
O REI
Talvez a qualidade mais valiosa que qualquer homem possa ter neste
mundo seja um ar naturalmente superior, um talento para empinar o nariz com desprezo.
A generalidade dos homens se impressiona e aceita isto como prova de um mérito.
legítimo. Portanto, basta desdenhá-los para ganhar o seu respeito. A estupidez
e a covardia congênitas dos homens fazem com que eles se curvem a qualquer
líder que apareça, e o sinal de liderança que reconhecem mais prontamente é
aquele que se mostra externamente. Esta é a verdadeira explicação para a
sobrevivência da monarquia, que sempre ressuscita depois de suas mortes
sucessivas.
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1921
O METAFÍSICO
Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende por vezes,
o que significa dois, e o que quer dizer são e por que isto dá quatro.
Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas
universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes.
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Inédita
O HOMEM MÉDIO
Costuma-se jogar na cara dos marxistas, com a sua
concepção materialista da História, que eles subestimam certas
qualidades espirituais do homem que não dependem de quanto ele ganhe ou deixe
de ganhar. O argumento é o de que essas qualidades colorem as aspirações e
atividades do homem civilizado tanto quanto são coloridas
pela sua condição material, tornando assim impossível simplesmente reduzir o
homem a uma máquina econômica. Como exemplos, os antimarxistas citam o
patriotismo, a piedade, o senso estético e a vontade de conhecer Deus.
Infelizmente, os exemplos são mal escolhidos. Milhões de homens não ligam para
o patriotismo, a piedade ou o senso estético, e não têm
o menor interesse ativo em conhecer Deus. Por que os antimarxistas não citam
uma qualidade espiritual que seja verdadeiramente universal? Pois aqui vai uma.
Refiro-me à covardia. De uma forma ou de outra, ela é visível em todo ser
humano; serve também para separar o homem de todos os outros animais
superiores. A covardia, acredito, está na base de todo
sistema de castas e na formação de todas as sociedades organizadas, inclusive
as mais democráticas. Para escapar de ir à guerra ele próprio, o camponês dava
de mão beijada certos privilégios aos guerreiros - e destes privilégios brotou
toda a estrutura da civilização. Vamos recuar mais ainda no tempo. Foi a
propriedade que levantou a lebre de que uns poucos homens relativamente
corajosos foram capazes de acumular mais posses do que hordas de covardes - e,
como se fosse pouco, de mantê-las depois de acumuladas.
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1922
O DONO DA VERDADE
O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem
nenhum respeito por ela. A verdade não é uma coisa que rola por aí, como
dinheiro trocado; é algo para ser acalentada, acumulada e desembolsada apenas
quando absolutamente necessário. O menor átomo da verdade representa a amarga
labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há o túmulo de um bravo dono
da verdade sobre algumas cinzas solitárias e uma alma
fritando no Inferno.
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1922
O PARENTE
A normal antipatia do homem por seus parentes, principalmente pelos de
segundo grau, é explicada pelos psicólogos de várias maneiras torturantes e improváveis.
A real explicação me parece muito mais simples. Reside no simples fato de que
todo homem vê em seus parentes (especialmente em seus primos) uma série de
grotescas caricaturas de si próprio. Eles exibem as qualidades dele deformadas
para o máximo ou para o mínimo; dão-lhe a impressão de
que talvez seja assim que ele próprio se mostra ao mundo, e isto é inquietante
- e por isso ferem o seu amour propre e lhe provocam intenso desconforto.
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1919
O FILÓSOFO
Não há registro na história humana de um filósofo feliz: só existem nos
contos da Carochinha. Na vida real, muitos cometeram suicídio; outros mandaram
seus filhos porta afora e surraram suas mulheres. Não admira. Se você quiser
descobrir como um filósofo se sente quando se empenha na prática de sua
profissão, dê um pulo ao zoológico mais próximo e observe um chimpanzé na sua
chatíssima e infindável tarefa de catar pulgas. Ambos - o filósofo e o
chimpanzé - sofrem como o diabo, mas nenhum dos dois consegue ganhar.
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1927
O ALTRUÍSTA
Uma grande parte do altruísmo, mesmo quando perfeitamente honesto,
baseia-se no fato de que é desconfortável ver gente infeliz ao nosso redor.
Isto se aplica especialmente à vida familiar. Um homem faz sacrifícios para
satisfazer os caprichos de sua mulher, não porque adore desistir da idéia de
comprar o que ele realmente quer para ele, mas porque seria pior ainda vê-la de
cara amarrada na mesa do jantar.
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1920
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