“A justiça não existe nem dentro nem fora dos tribunais”

Clarence Darrow

 


Titãs do Tribunal: Darrow e Bryan fotografados durante o julgamento

 

O Julgamento Que Abalou o Mundo

 

JOHN T. SCOPES

 

Há 37 anos* a atenção mundial concentrou-se nas Mon­tanhas Cumberland, no Tennessee,

onde um professor desconhecido defendia seu direito de ensinar a verdade.

 

Ouviu-se um murmúrio na multidão quando tomei o meu assento no tribunal superlotado da cidadezinha de Dayton, no Tennessee, naquele dia sufocante do mês de julho de 1925. Sentado ao meu lado, na mesa da defesa, estava o meu principal advogado, o famoso criminalista Clarence Darrow. Oposto a nós, abanando-se indo­lentemente com um leque de palmas, achava-se o astro da acusação, William Jennings Bryan, orador primoroso, três vezes candidato pelo Partido Democrático à Presidência da República e chefe do movimento fundamentalista que motivara o processo contra mim.

Poucas semanas antes eu era apenas um professor secundário des­conhecido, lecionando em uma cidadezinha das montanhas. De repente eu me vi envolvido em um processo discutido no mundo in­teiro. Sentados na sala do tribunal, prontos para deporem a meu favor, achavam-se uma dúzia de professores e cientistas de renome, tendo à frente o Professor Kirtley Mather, catedrático da Universi­dade de Harvard. Estavam presentes mais de 100 repórteres, e até locutores de rádio, que pela primeira vez na História iriam trans­mitir uma sessão do júri.

Não se preocupe, meu filho, mostrar-lhes-emos uns quantos ardis sussurrou Darrow, passando o braço pelos meus ombros enquanto o juiz se encaminhava para o assento.

O caso caíra sobre mim pouco depois de eu ter chegado a Dayton para ensinar Ciências Naturais e futebol no ginásio local. Ha­via muitos anos que se preparava um choque entre os fundamenta­listas e os modernistas. Os primeiros apegavam-se a uma interpretação literal do Velho Testamento; os modernistas, ao contrário, acei­tavam a teoria proposta pelo biologista inglês do século XIX, Char­les Darwin, de que toda a vida animal, incluindo macacos e homens, promanara de um ancestral comum.


John T. Scopes

 

O fundamentalismo era poderoso no Tennessee, e a Assembléia Legislativa estadual aprovara recentemente uma lei proibindo o en­sino de “qualquer teoria que negue a história da criação conforme é ensinada na Bíblia”. A nova lei visava diretamente a teoria da evo­lução de Darwin. Um engenheiro, George Rappelyea, costumava ficar sentado conversando na Farmácia Robinson e discutia com os habitantes da localidade comba­tendo a lei. Numa dessas discussões, Rappelyea disse que ninguém po­dia ensinar Biologia sem falar em evolucionismo. Como eu estava en­sinando Biologia, fui chamado.

Rappelyea está certo dis­se-lhes.

Então você tem violado a lei - disse o farmacêutico Robinson.

E assim têm feito todos os outros professores repliquei. O evolucionismo é explicado na Civic Biology de Hunter, que é o nosso compêndio.

Rappelyea a seguir fez uma sugestão:

 – Levemos este caso ao tribunal e verifiquemos a legalidade da coisa.

Quando fui indiciado a sete de maio, ninguém, e muito menos eu, previa que esse caso se avolumaria como uma bola de neve e se transformaria em um dos mais famosos julgamentos da história dos Estados Unidos. A União Americana de Liberdades Civis anunciou que levaria meu caso à Suprema Corte Federal, se necessário, para “ficar estabelecido que um professor pode dizer a verdade sem ser mandado para a cadeia”. Aí Bryan apresentou-se voluntariamente para auxiliar o Estado a processar-me. Imediatamente, o célebre ad­vogado Clarence Darrow ofereceu seus serviços para defender-me. Por uma ironia, eu não conhecera Darrow antes de meu processo, mas sim a Bryan, quando este fez um discurso na formatura de mi­nha turma na universidade: eu o admirava, apesar de não concordar com as opiniões dele.

Quando o processo teve início, em l0 de julho, nosso vilarejo de 1.500 habitantes adquirira um aspecto de circo. Os prédios ao longo da rua principal estavam enfeitados com bandeiras. As ruas contí­guas ao prédio de três andares do tribunal estavam atravancadas com barracas improvisadas em que se vendia cachorro-quente, livros religiosos e melancia. Os evangelistas armaram suas tendas para exor­tarem os transeuntes. Gente dos morros das vizinhanças, na maioria fundamentalistas, veio para aplaudir Bryan contra os “ímpios forasteiros”. Entre eles estava John Butler, amável deputado esta­dual que redigira a lei antievolucionista. Butler era fazendeiro, tinha 49 anos, e antes da eleição nunca saíra do município onde nascera.

O juiz que presidia ao julgamento era John T. Raulston, um ho­mem rubicundo, que proclamou: “Sou apenas um juiz caipira.” Na mesa da acusação, com o idoso e obeso Bryan, sentavam-se seu filho, também advogado, e o jovem e brilhante Procurador-Geral do Es­tado do Tennessee, Tom Stewart. Além do astuto Darrow, de 68 anos, minha defesa compunha-se do simpático e atraente advogado Dudley Field Malone, de 43 anos, e Arthur Garfield Hays, caladão, erudito e enfronhado em jurisprudência. Em um julgamento em que a religião desempenhava papel relevante, Darrow era agnóstico, Malone católico e Hays judeu. Meu pai viera do Kentucky para ficar comigo durante o julgamento.

O Juiz Raulston pediu a um ministro local que abrisse a sessão com uma prece e o julgamento teve início com a escolha do júri. Dos 12 jurados, três disseram que nunca tinham lido outro livro a não ser a Bíblia; um admitiu que não sabia ler. Quando ficou formado o júri, meu pai resmungou:

Raios me partam se isto é um júri!

Após os debates preliminares acerca de formalidades legais, Dar­row ergueu-se para fazer sua exposição inicial.

Meu amigo, o Procurador-Geral, diz que John Scopes sabe por que está aqui. Eu também sei por que ele está aqui. Ele está aqui porque a ignorância e o fanatismo campeiam; e essa é uma combinação bastante poderosa.

Bryan, sentado, mordiscava o leque enquanto Darrow perambu­lava lentamente pela sala quente como um forno.

Hoje são os professores públicos continuou Darrow e amanhã serão os particulares. A seguir, as revistas, os livros, os jornais. Depois de algum tempo teremos os homens uns contra os outros, e os credos uns contra os outros, até que estaremos marchando para trás, para aquela gloriosa era do século XVI, em que os fanáticos ateavam fogueiras para queimar os homens que ousavam proporcio­nar qualquer dose de inteligência, esclarecimento e cultura ao espí­rito humano.

Maldito infiel murmurou em voz alta uma mulher quando ele terminou a peroração.

No dia seguinte a acusação iniciou a apresentação das testemu­nhas contra mim. Dois de meus alunos depuseram, sorrindo para mim encabulados, que eu lhes ensinara o evolucionismo, mas acres­centando que não haviam ficado contaminados pela experiência. Howard Morgan, um inteligente rapaz de 14 anos, declarou que eu ensinara que o homem era um mamífero como as vacas, os cavalos, os cães e os gatos.

Ele não disse que um gato era a mesma coisa que um homem, não é? interrogou Darrow.

Não, senhor! retrucou o jovem. Ele disse que o homem tinha capacidade de raciocínio.

Há alguma dúvida quanto a isso? bufou Darrow.

Concluídos os depoimentos, Bryan levantou-se para se dirigir ao júri. O caso era simples, declarou.

O cristão crê que o homem veio de cima. O evolucionista acre­dita que ele deve ter vindo de baixo.

A assistência riu e Bryan entusiasmou-se. Numa das mãos bran­dia um texto de Biologia enquanto denunciava os cientistas que tinham ido a Dayton para deporem pela defesa.

A Bíblia rugiu com sua voz de órgão não vai ser posta para fora deste tribunal por especialistas que viajaram centenas de quilômetros a fim de depor que podem conciliar o evolucionismo, com seus ancestrais da selva, com o homem criado por Deus à Sua imagem e posto aqui para Seus fins como parte de um plano divino.

Quando ele acabou de falar, com o queixo lançado para frente, os olhos brilhando, os espectadores prorromperam em aplausos e gritos de “amém”. Contudo, faltava algo. Não havia mais o ímpeto dos dias em que Bryan dominara a convenção do Partido De­mocrático como um incêndio na planície. A turba parecia sentir que o seu campeão não tinha arrasado corno devia os infiéis com a sua oratória inflamada.

Dudley Field Malone ergueu-se de um salto para responder.

O Sr. Bryan não é o único que tem o direito de falar em nome da Bíblia comentou Há outras pessoas neste país que dedica­ram suas vidas integralmente a Deus e à religião. O Sr. Bryan, com ânimo e entusiasmo apaixonados, dedicou a maior parte de sua vida à política.

Bryan bebericava água de uma bilha à medida que o volume de voz de Malone ia aumentando. Ele apelou para a liberdade inte­lectual e acusou Bryan de estar propondo um duelo de morte entre a ciência e a religião.

Nunca há duelo contra a verdade vociferou ele. A verdade sempre vence; e não temos medo dela. A verdade não necessita do Sr. Bryan. A verdade é eterna, imortal.

Quando Malone se calou, houve um silêncio momentâneo. A se­guir, o tribunal irrompeu em aplausos que ultrapassaram os aplau­sos a Bryan. Quando dei conta de mim, eu mesmo estava dando tapinhas nas costas molhadas do paletó de Malone. Todavia, apesar de Malone haver levado a melhor como orador, o Juiz Raulston não permitiu que os cientistas depusessem pela defesa.

Quando foi suspensa a sessão, encontramos as ruas de Dayton coa­lhadas de estranhos. Camelôs apregoavam suas mercadorias em todas as esquinas. Um espertalhão alugou uma vitrina para exibir um macaco; os espectadores pagavam dez cêntimos de dólar para es­piar o símio e refletir se seriam parentes.

H. L. Mencken escrevia suas crônicas veementes, de cuecas, junto de um ventilador. Falava-se em enxotá-lo da cidade montado numa trave de madeira à guisa de cavalo, para ridicularizá-lo pelo fato de estar-se referindo a cidadãos locais como caipiras. Vinte e dois telegrafistas transmitiam 165.000 palavras por dia sobre o julgamento.

Devido ao calor e ao receio de que o assoalho do velho tribunal viesse abaixo sob o peso da multidão, o julgamento foi reiniciado ao ar livre, sob os bordos. Mais de 2.000 espectadores tomaram lugar em bancos de madeira ou se acocoraram na grama, amontoaram-se sobre carros estacionados ou ficaram assistindo das janelas do tri­bunal.

Veio então o clímax do julgamento. Em face do fraseado da lei antievolucionista, a acusação viu-se obrigada a adotar a atitude de que a Bíblia tinha de ser interpretada literalmente. Aí Darrow pu­xou o seu trunfo, convocando Bryan como testemunha de defesa. O Juiz Raulston mostrou-se surpreso.

Convocamo-lo como especialista da Bíblia disse Darrow. ­Sua autoridade nas Escrituras é acatada no mundo inteiro.

Bryan estava desconfiado do ardiloso Darrow, mas não pôde fugir ao desafio. Durante anos ele fizera conferências e escrevera artigos a respeito da Bíblia. Ele combatera o darwinismo no Tennessee mesmo antes da aprovação da lei antievolucionista. Resolutamente dirigiu-se para o banco das testemunhas, levando consigo o leque de palmas como uma espada para repelir os inimigos.

Sob o interrogatório calmo de Darrow, ele admitiu que acredi­tava literalmente na Bíblia, e a turba pontoou suas respostas inso­lentes com fervorosos “améns”.

Darrow leu uma passagem do Gênesis: “E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.” A seguir, perguntou a Bryan se acreditava que o Sol fora criado no quarto dia. Bryan respondeu que sim.

Como pode ter havido o dia e a noite sem haver um sol? ­indagou Darrow.

Bryan enxugou a calva em silêncio. Houve risotas em meio à multidão; até mesmo entre os fiéis. Darrow dava puxões nos suspensó­rios cor de alfazema e fazia girar os óculos enquanto prosseguia com o interrogatório. Perguntou a Bryan se este cria literalmente na história de Eva. Bryan respondeu afirmativamente.

E o senhor crê que Deus castigou a serpente condenando as cobras para todo o sempre a andarem de rastos sobre o ventre?

Creio nisso.

E o senhor tem alguma idéia de como a cobra andava antes disso?

A multidão riu e Bryan ficou lívido. Sua voz subiu de diapasão era patente a cólera e o leque em sua mão agitou-se.

Meritíssimo falou ele responderei a todas as perguntas do Sr. Darrow de uma vez por todas. Quero que o mundo saiba que este homem que não crê em Deus está usando um tribunal do Tennessee para desacreditá-Lo...

Impugno essa afirmação bradou Darrow. Eu estou exami­nando suas idéias imbecis, que nenhum cristão inteligente deste mundo esposa.


Clarence Darrow na época do julgamento

 

O Juiz Raulston bateu reiteradamente com o martelo para silenciar o burburinho e suspendeu a sessão até ao dia seguinte. Bryan ficou sozinho, abandonado. Meu coração condoeu-se do velho luta­dor, enquanto os espectadores o deixavam de lado para irem aper­tar a mão de Darrow.

 

O júri retomou o caso ao meio-dia do dia seguinte. Os jurados afastaram-se para um canto do jardim do tribunal e sussurraram apenas durante nove minutos. O veredicto foi “Culpado”. O Juiz Raulston impôs-me uma multa de 100 dólares mais as custas.

Dudley Field Malone denominou a minha condenação uma “der­rota vitoriosa”. Alguns jornais sulistas, leais a seu decrépito cam­peão, saudaram o acontecimento como uma vitória de Bryan. Este, triste e exausto, morreu em Dayton dois dias após o julgamento.

Ofereceram-me novamente o lugar de professor; eu, entretanto, declinei. Alguns dos professores que tinham ido lá para depor em meu favor arranjaram-me uma bolsa de estudos na Universidade de Chicago, para que eu pudesse prosseguir estudando Ciências. Posteriormente, tornei-me geólogo de uma companhia de petróleo na América do Sul e na Luisiana.

Há poucos anos voltei a Dayton pela primeira vez desde o meu julgamento, há 37 anos. Para mim a cidadezinha mudou pouco. Mas agora existe ali a Universidade William Jennings Bryan sobre um morro que dá para o vale.

Houve também outras modificações. O evolucionismo é ensinado no Tennessee, embora a lei pela qual eu fui condenado continue figurando no código. A tempestade de eloqüência que Clarence Darrow e Dudley Field Malone desencadearam no pequeno tribunal foi como um vento vivificante que soprou nas escolas e assembléias le­gislativas dos Estados Unidos, provocando um novo clima de liber­dade intelectual e acadêmica, que tem crescido com o passar dos anos.

 

 

* Este texto foi editado em 1963.

 

 

Se você quer mais informações, transcrições do julgamento, fotos e reportagens, clica aqui: http://www.law.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/scopes/scopes.htm

(Saite em Inglês)

 

 

 


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