Nos 120 anos do nascimento do
jornalista, que morreu em 1956, o tempo tem mostrado que ele fundou o moderno ensaísmo americano e ainda é um exemplo de como manter a
frieza no caos.
H. L. Mencken (1880-1956) era
um atirador de elite. Sua extrema capacidade de manter a frieza no meio do caos
o punha numa situação exclusiva nas letras e no jornalismo americanos do começo
do século. De seu posto em Baltimore, ele caçava os clichês com que o ser
humano vai escudando sua covardia e ignorância.
Em especial, mirava o que
chamou de “Boobus americanus”
(expressão que voltou à moda, recentemente, mas sem o devido crédito a
Mencken), o típico cidadão dos Estados Unidos, em sua típica adesão moralista a
grupos e bandeiras. Mas fazia isso de uma forma que, para quem soubesse ler,
injetava um ânimo intelectual, um prazer de viver e pensar naquela mesma
América, incapaz de passar despercebido.
O tempo tem feito muito bem a
Mencken. Quanto mais distante ficamos dele, menos precisamos nos indignar com
seu nietzschianismo elitista e mais podemos vê-lo
como o homem que levou o ensaio americano a novo patamar.
Antes de Mencken, o ensaísta americano tinha uma (im)postura intelectual europeizante, cujos textos eram, em média, conversações eruditas. Tirando menos de Henry James e mais de Mark Twain (o Twain de O Que é o Homem?), Mencken criou uma modalidade ensaística que hoje podemos chamar, por falta de melhor adjetivo, “americana”. Ele deu incisividade e velocidade ao ensaio tradicional, que vinha de Montaigne a Matthew Arnold, sem lhe tirar a civilidade e densidade.
Tal feito gerou os mais diversos frutos. Não haveria Edmund Wilson, Lionel Trilling, Philip Rahv ou Dwight MacDonald, os grandes ensaístas americanos modernos, sem Mencken. E não haveria o polemismo de uma Pauline Kael, muito menos o de um Tom Wolfe, sem ele. (Tom Wolfe, por sinal, escreveu recentemente um ensaio sobre a intelectualidade europeizante atual, que devia tudo e mais um pouco a Mencken. Infelizmente, não foi interpretado como deveria, isto é, como um elogio à América.)
Armadilha - Mas, com exceção de Wilson, é difícil igualar
qualquer um deles a Mencken. De um lado, ele era antiacadêmico até a ponta do
charuto. De outro, sempre esteve ciente da armadilha polemista, formulada da
seguinte maneira pelo jornalista Adam Gopnik, em
referência exatamente a Kael: “Comece a escrever num estilo apimentado, e o estilo
apimentado começa a escrever você.”
Senhor de seu estilo, Mencken
primeiro ficou famoso pelo polemismo. Abatendo um a
um os principais conceitos da intelligentsia de seu país, começou a ser temido
e, o mais importante, lido mesmo pelos que discordavam frontalmente de suas
idéias. Então, começou a reunir seus artigos numa série marotamente intitulada Prejudices.
Nunca tendo dado um “furo”
jornalístico, cobriu como ninguém o famoso Julgamento dos Macacos,
em que satirizou os que queriam impedir um professor de dar aulas de
Evolucionismo no Tennessee. (Mencken
se divertiria muito com os protestos contra os transgênicos,
ora tratados como o próprio alimento do diabo.) Havia nele um tom
social-darwinista característico da época, mas Mencken nunca se julgou dono da
verdade. Um de seus irônicos aforismos diz:
“Quem se gaba de só dizer a verdade é um sujeito sem nenhum respeito
por ela.”
Problemas - Sua vida não era o passeio que ele muitas
vezes fazia parecer. Sua opinião forte lhe rendeu muitos problemas, e até hoje
sua campanha contra F. D. Roosevelt nos anos 30 é tida como um “flop” de sua carreira jornalística, porque afinal Roosevelt
(na verdade, a guerra) tiraria os EUA da crise.
Mencken saiu um pouco de cena e
se devotou a dois projetos de fôlego: The American Language, um compêndio
de filologia em defesa das variantes locais do inglês; e suas memórias em três
volumes, um prodígio de leveza. Mas não havia por que se surpreender, como
então se surpreenderam, com a capacidade de Mencken de adotar gêneros tão
diferentes: a elasticidade de seu estilo inconfundível já estava ali, em
qualquer de seus textos, já nos anos 10.
É esse estilo ao mesmo tempo
elástico e incisivo que explica boa parte do revival
de Mencken. Se o mérito de sua escrita fosse apenas a dose de pimenta, seus
admiradores já teriam enjoado dele.
Mas, como o próprio Mencken não
cansava de apontar, estigmas são estigmas e só resta conviver com eles. No
Brasil, onde seu Livro dos Insultos (organizado e traduzido por Ruy Castro em 1988
para a Companhia das Letras) fez considerável sucesso de estima, esses estigmas
o fizeram ser comparado a Paulo Francis. Mas Francis era leitor mesmo do grande
parceiro de Mencken, George Jean Nathan, o crítico de
teatro, mais mundano e descontraído.
Palavras - Mencken era criticado em sua época por usar palavras
sofisticadas, por exemplo; ao que ele respondia: “Me acusam de usar termos rebuscados porque suas idéias não conseguem
chegar aonde as minhas chegam.” (Boa história recente da relação, e das
diferenças, entre Nathan e Mencken, lançada há dois
anos pela Applause Books, é
The Smart Set, de Thomas Quinn Curtis, um relato sobre a famosa revista cultural
editada por ambos.) Escrevendo para a “gente sabida” de sua época, Mencken
atingiu em cheio a posteridade. Hoje, 120 anos depois de seu nascimento, o
caçador de clichês continua tão vivo quanto os clichês que combateu com tanta
perícia e charme.
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