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Resposta ao poeta*

            M. Vinícius? Teixeira? Poeta...

            Comi  do pão dos seus Deuses. E gostaria de dizer que gostei... gostei muito. O pão está no ponto, está pronto. Eis o poeta. Li e reli e enquanto lia Lia, Léctor, Dado, Sofia, Braz todos passaram por mim, inclusive o homem de preto, aquele do início do livro... Peguei táxi, andei de trem, li o que Sofia Lia. “Voyeurizei” o Voyeur Dado e o vi em seus ímpetos humanos, urbanos. Subi e desci o  Basil. Entrei em quartos diversos, dispersos.

            Não me pediu sugestões, mas sou leitor intrujão. Faço apenas uma pequena ressalva, banal, simples. Acho inclusive que não deve ser novidade para o poeta, deve ter pensado, relutado, voltado atrás. Se não pensou, fica a sugestão. Quando Lia viaja com Dado, um pouco antes do beijo descompassado, lê-se: “Lia ia fingindo que lia”.  O problema está na forma verbal, pouco natural, além do quê “ia” já está em “Lia”. O melhor verbo para o verso é “fingia”. Veja: “Lia [fingia] que lia”. O eco de “ia” fica mais harmônico, pois espalha-se por todo o verso. A medida do verso também fica melhor, vira uma redondilha maior, ganha suas sete sílabas métricas, tão populares, tão língua brasileira. Sem dúvida soa melhor. O verbo como está é uma “pedra no meio do caminho”.

Dois versos ótimos são esses: “Não conhecer o próprio pai/ o herói de estória nenhuma”. Sem preocupações métricas, mas com uma sonoridade exemplar. Versos simples e expressivos. Dignos de lembrança. Versos de poeta. Assim também são aqueles que nos mostram o olhar do porteiro e o olhar da mulher. Modos de ver e escrever com simplicidade e efeito. Aliás, seus versos jamais gritam, antes sussurram, cochicham ao ouvido ávido do leitor.

Enfim, tenho pouco mais a dizer. Digo apenas que Os deuses comem pão merecem capa dura e lugar na estante.

 

Um cordial abraço,

       

Anselmo Campos

05/02/2004

*O texto "Resposta ao poeta" é uma mensagem enviada por Anselmo Campos a Marcos Teixeira, quando da leitura do livro nos seus originais. O texto foi reproduzido parcialmente na orelha do livro. Anselmo é mestre em Literatura Brasileira pela UFMG.

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