Chineses
acham o menor mamífero

Reconstituição do Hadrocodium wui; no destaque, seu crânio
Você
quase certamente já se pegou olhando uma fotografia antiga e procurando no seu
avô, traços parecidos com os seus. O
chinês Ze-Xi Luo, do museu Carnegie de história natural, nos eua, também é adepto do
passatempo. Só que, em vez de fotografias ele examina fósseis de ancestrais dos
mamíferos. E acaba de descobrir o menor de todos eles: um ser de 12 milímetros
de comprimento que viveu há 195 milhões de anos.
O
animalzinho, batizado Hadrocodium wui (“crânio completo de Wu”,
em latim), não é notável só pelas suas dimensões econômicas. ele
é o ancestral mais próximo dos mamíferos já encontrado, o que acrescenta uma
fotografia importante no álbum de família da classe.
“O
Hadrocodium adiciona um novo ramo à arvore evolutiva dos mamíferos", disse Luo à Folha de São Paulo por e-mail. “Ele mostra que o
episódio mais antigo da evolução dos mamíferos (do Triássico
superior ao Jurássico inferior) teve uma magnitude maior do que suspeitávamos
antes”.
O
microbicho data do Jurássico inferior (208 milhões a
187 milhões de anos atrás), quando os primeiros ancestrais dos mamíferos já
caminhavam sobre a Terra.
Os
paleontólogos não achavam que muita coisa interessante tivesse acontecido com a
evolução desses animais naquela época. Afinal, os primeiros traços físicos
comuns aos fósseis de mamaliformes e aos mamíferos
de hoje em dia só surgiriam 45 milhões de anos mais tarde.
O
H. wui,
no entanto, parece ter estado à frente de seu tempo. Uma análise de 90
caracteres do crânio do bichinho, publicada por Wu e
dois colegas em edição da revista “Science” (www.sciencemag.org), mostra que
esse “avô” de tatus, ornitorrincos e humanos já tinha feições
consideradas “moderninhas”.
Os
ossículos do ouvido são separados do maxilar, a mandíbula
é composta de um único osso e a caixa craniana é
relativamente grande, o que faz supor que o cérebro do nanico tenha sido maior
que o de seus parentes.
Desenterrado
em 1985 na província chinesa de Yunnan,
o fóssil do crânio do animal ficou três anos engavetado - de tão pequeno, achava-se
que fosse um fragmento de osso. “Só em 1993 nós o limpamos e percebemos que se
tratava de um mamífero importante”, disse Luo.
Reportagem
Cláudio Ângelo
Matéria publicada na:
Folha de São Paulo, caderno Ciência,
p. A-14
Data
Sexta-feira, 25 de maio de 2001