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Fátima de Portugal
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By VMoreira
Uma vida de reclusão

JACINTA ROMÃO


   No livro das suas memórias, a última vidente de Fátima escreveu "Deus quis apenas servir-se de mim para recordar ao mundo a necessidade que há de evitar o pecado e reparar a Deus ofendido, pela oração e penitência." Palavras que carregam a missão que Lúcia assumiu: dar a conhecer ao mundo o que acreditou serem os desejos de Nossa Senhora.

Lúcia de Jesus, nascida perto de Fátima em 1907, viveu 97 anos, sempre devotada à penitência e oração. No seu íntimo tentou guardar durante décadas a mensagem de uma tal "Senhora" que, aos 12 anos, lhe terá aparecido enquanto pastava o gado com os primos Jacinta e Francisco. Uma mensagem que diz ter escutado e que lhe valeu a incredulidade e troça dos que a rodeavam, até da própria família.

No meio da desconfiança e forte inquirição de religiosos, governantes e anónimos, que tentavam a todo o custo arrancar-lhe a verdade, muitas vezes a troco de ameaças, Lúcia diz ter ganho forças na oração e sofrimento que aprendeu com a dita "Senhora", a "entregar a Jesus em prol da conversão dos pecadores". Durante as aparições e nos anos que lhes sucederam, Lúcia sofreu com a prisão e com a morte dos primos que com ela partilharam o mistério que viria a revolucionar a história da Igreja Católica.

Aos 14 anos, a pequena pastora entrou no convento das doroteias, de onde viria a sair anos mais tarde para a ordem das carmelitas. Quem com ela conviveu exalta-lhe a modéstia e simplicidade, vividas em simultâneo com a serenidade de quem carrega no coração o mistério de Fátima. João Paulo II foi um dos que com ela partilharam o segredo.

Rita Carvalho

Silêncio em Fátima e na aldeia da pastorinhaA aldeia de Aljustrel e o Santuário de Fátima foram invadidos, ontem, pelo silêncio que se sucedeu à morte de Lúcia. O mesmo recolhimento invadiu a missa da tarde, celebrada na basílica a pedido do bispo, D. Serafim Ferreira e Silva, a assistência fez meio minuto de silêncio entre as orações por intenção da vidente.

Mais de 500 pessoas encheram o templo onde repousam já os outros dois pastorinhos, falecidos quando Lúcia ainda era uma menina. A missa assemelhava-se mais a uma cerimónia privada que a um acontecimento em honra de uma figura da Igreja Católica, mundialmente conhecida.

Nem as câmaras de televisão e o vaivém dos jornalistas retiraram o carácter intimista da oração dos crentes de Fátima, que ali se deslocaram para rezar por Lúcia, 24 horas após a sua morte. D. Serafim não deixou, todavia, de chamar o quotidiano para dentro da igreja. No mesmo registo de tranquilidade com que anunciou ter "rezado [após receber a notícia da morte da religiosa] uma parte do do Rosário, como Nossa Senhora recomendou a Lúcia e que esta tanto praticou", saudou a presença da comunicação social. "Não para encher o vazio da pausa na campanha eleitoral", mas para, "numa salva de prata, apresentar ao povo português os valores da fé". Os mesmos que Lúcia representa.

Já D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, disse que, se houve aproveitamente da morte de Lúcia pelos dirigentes partidários, "estes vão responder por isso". O cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, recusou-se a comentar o assunto. "Ela não fez marketing, não recebeu influências; falou na sua simplicidade de camponesa, pastorinha, e entregou o segredo à hierarquia da Igreja", disse D. Serafim, quando resumia a história dos interrogatórios após a declaração dos pastorinhos de que haviam visto Nossa Senhora em 1917.

"Dou graças a Deus por ser bispo desta diocese e espero assistir à canonização dos dois pastorinhos", declarou o responsável religioso à assistência - anunciando que os bispos vão interromper hoje o seu retiro espiritual em Fátima para assistir ao funeral de Lúcia em Coimbra. A maior parte viaja rá em autocarros para se juntar às cerimónias que serão presididas pelo cardeal Bertone, arcebispo de Génova.

O cardeal Bertone "acompanhou a irmã Lúcia e conhece muito bem a mensagem de Fátima", disse o bispo de Leiria, precisando que "deu um contributo preciosíssimo para a revelação da terceira parte do Segredo". D. Serafim declarou- -se satisfeito com a presença de pessoas que conhece de Lisboa e de outros locais do País e que não deixaram de estar presentes neste momento de dor.No Santuário, o cenário era de vazio.Viam-se muito poucos peregrinos. Cláudia Gil, a mãe e uma amiga desta estavam no recinto só de passagem. Iam à missa por Lúcia. Cláudia tem dez anos e é a figura do rancho folclórico local que usa o trajo de Lúcia . Fátima, apurou o DN, está a preparar-se para ir assistir ao funeral. Não há uma organização tipo excursões. Muitas famílias preparavam-se, ao princípio da noite, para viajar em carros particulares até Coimbra. Algumas iam sair de madrugada, pelas quatro, cinco e seis da manhã.

O mesmo silêncio do Santuário e o mesmo vazio eram sentidos na aldeia de Aljustrel, terra de onde Lúcia era natural e onde viveu enquanto criança. As visitas à casa-museu eram escassas, tal como é hábito fora das datas das grandes peregrinações.

Repercussão na família

Uma sobrinha-neta de Lúcia passava na rua. Mora muito próximo da casa onde nasceu a sua tia-avó e diz que a mãe, Maria dos Anjos, é que conhece a história da família. Mas Maria dos Anjos já estava em Coimbra, tal como a maioria dos familiares mais próximos. Todos tinham ido assistir a uma cerimónia religiosa expressamente destinada à família.Para a sobrinha-neta, a condição de Lúcia "teve grandes repercussões em toda a família, mesmo sendo numerosa". Em Aljustrel vivem algumas sobrinhas. Tem muitos sobrinhos-netos; "uns mais devotos, outros menos".
DESAPARECEU A MEMÓRIA VIVA DAS APARIÇÕES DE FÁTIMA
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DIÁRIO DE NOTÍCIAS     Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2005