Publicado no Jornal O Globo em 04/07/2002
SÃO PAULO - O pastor Samuel Ferreira, representante da Convenção
Nacional das Assembléias de Deus, afirmou há pouco em discurso,
durante almoço de apoio a de Anthony Garotinho (PSB) à presidência
da República, que há 208 mil pessoas inscritas para fazer trabalho
de boca de urna para o candidato. O pastor, que é de Madureira,
Rio de Janeiro, integra uma ala da Assembléia de Deus que reúne
cerca de 30% dos fiéis dessa religião no país.
Segundo Ferreira, que se retirou em seguida do almoço, essas
pessoas serão 'visitadas' pela igreja.
- Vamos fazer o que a lei não impede - completou.
Garotinho ainda não falou aos cerca de 300 pastores de diversas
partes do país que estão reunidos num hotel em São Paulo.
POR QUE NÃO VOTAR EM GAROTINHO
Publicado na Revista Carta Capital em 20/05/2002
A HISTÓRIA PROIBIDA
Como o pré-candidato do PSB, Anthony Garotinho, preferiu o
caminho das liminares à transparência que ele prega e se espera
de um presidenciável
O leitor deveria encontrar nesta e nas próximas quatro páginas
uma outra história. A que envolve o pré-candidato à Presidência
da República pelo PSB, Anthony Garotinho, e Guilherme Freire,
cidadão que declarou em entrevista a CartaCapital ter sido freqüente
doador de campanhas políticas e intermediário de negócios do
agora presidenciável.
Garotinho, apesar de seus assessores terem sido informados
de que CartaCapital não publicaria o conteúdo de fitas - e sim
uma entrevista em que Freire contava, inclusive, por que gravou
conversas de e com o ex-governador -, buscou na Justiça o embargo
à reportagem.
O que se lê a seguir, enquanto a revista vai à Justiça em busca
do direito líquido e certo de publicar uma entrevista com um
cidadão que acusa, e diz ter como provar, é o estilo e algo
mais de um homem que quer governar 170 milhões de cidadãos brasileiros.
CartaCapital confia na Justiça e tem a certeza de que seus
leitores, em breve, terão acesso a esse capítulo pregresso da
história de Garotinho. Aos fatos.
No dia 24 de abril, CartaCapital conversou pela primeira vez,
por telefone, com o empresário Guilherme Freire, que afirmava
ter denúncias, e provas, contra o ex-governador do Rio de Janeiro
e candidato à Presidência, Anthony Garotinho.
Freire afirmou ter provas também de seu passado como colaborador
de campanha do presidenciável. E relatou negócios feitos em
nome de Garotinho. Freire disse ter resolvido falar como forma
de proteger sua vida e a dos seus familiares.
Três dias depois, no Rio de Janeiro, deu-se o primeiro encontro
do editor Flávio Lobo com o empresário. A conversa, num prédio
em Ipanema, durou 50 minutos.
No dia 1º de maio, o editor encontrou-se com Freire em São
Paulo. A conversa se esticou das 7 da manhã às 5 da tarde. Foi
gravada uma entrevista. Presente o subeditor Sérgio Lírio, que
se encontraria outra vez com Freire em Campos, no Rio de Janeiro,
já nos dias 7 e 8 deste maio.
Lobo esteve duas vezes no Rio, onde, por cinco dias, checou
informações fornecidas por Freire. Sérgio Lírio, entre Campos
e o Rio de Janeiro, passou outros quatro dias. Juntos, ambos
ouviram 19 testemunhas de fatos, ações, relações e negócios
que, segundo Guilherme Freire, envolvem o seu passado de ligações
com o ex-governador Anthony Garotinho.
Na segunda-feira 13, Sérgio Lírio encontrou-se rapidamente
com o presidenciável na redação do jornalismo da Rede Bandeirantes,
em São Paulo, onde Garotinho gravaria uma entrevista.
Com testemunhas - que, no caso, são sempre necessárias -, o
subeditor descreveu para Garotinho o cerne do que seria a reportagem
e pediu-lhe uma entrevista. O ex-governador respondeu, sem saber
dos detalhes da investigação da revista:
- Não falo sobre bandidos.
Lírio, na mesma noite, insistiu com Paulo Fona, um dos assessores
de imprensa do ex-governador. Discorreu sobre os fatos em questão
e quanto à necessidade de ouvir o pré-candidato.
No dia seguinte, terça-feira 14, Fona telefonou para a redação
de CartaCapital e informou que Garotinho não falaria. Na quarta-feira
15, por volta das 19 horas, o redator-chefe insistia com os
assessores Fona e Peninha para ouvir o ex-governador.
Enquanto seguia a conversa, e se tratava da possibilidade de
uma entrevista, chegava à redação de CartaCapital uma liminar
expedida pelo juiz Marcelo Oliveira da Silva, da 21ª Vara Cível,
com ação indenizatória contra a revista (leia à página 31).
No despacho, Oliveira adianta: "Ficando, desde já, INTIMADA
de que deverá abster-se publicamente, perante a imprensa escrita
e falada, e ainda pela internet, o conteúdo de quaisquer gravações
ou fitas, ou ainda transcrições ou escritos, relativos a interceptações
de ligações telefônicas dos autores".
Na liminar, o juiz estipulava uma multa de R$ 100 mil por dia
em caso da divulgação. O redator-chefe, Bob Fernandes, observou
ao assessor Peninha:
- Mas como é que vocês fazem de conta que tratam de uma entrevista
enquanto pedem à Justiça uma liminar para impedir a publicação
de uma reportagem?
Os assessores disseram não ter informação alguma sobre a liminar.
O redator-chefe disse ainda que a reportagem não se baseava
em fitas, e sim numa entrevista e em fatos revelados por Guilherme
Freire. O assessor Fona mostrou-se surpreso:
- Ah, não são fitas? É uma entrevista com ele?
Uma hora depois, Sérgio Lírio conversava com o assessor Peninha.
Este, depois de informar que estava com o presidenciável, a
caminho da Paraíba, sugeriu:
- Mande perguntas detalhadas por escrito que o governador irá
responder.
Dez perguntas foram enviadas, às 23h19 para o Hotel Tambaú,
em João Pessoa (PB). A recepção confirmou a chegada do fax em
perfeitas condições, o que foi reconfirmado por volta das 11h30
da manhã seguinte pelo assessor Fona:
- O fax já está com ele. Vão te ligar.
Cinco telefonemas durante o dia, e sempre a mesma resposta:
"Daqui a pouco alguém te liga". Já às 17h30, sem que houvesse
resposta alguma por parte de Garotinho, toca o telefone na redação
de CartaCapital. Alguém, que se identificou como o escrivão
Benedito, da 21ª Vara Cível, informou:
- O juiz expediu um outro mandado.
Dito isso, passou a transmitir por telefone o teor da petição
(leia à página 29) dos advogados de Garotinho e o conteúdo da
decisão do juiz (leia à página 28).
É inédito, ao menos na história do jornalismo brasileiro, e
desconhecido pela lei processual, que um escrivão faça, por
telefone, uma intimação para embargo de uma reportagem. Dizia
o escrivão falar em nome do juiz.
Por volta das 18h30 chegaram à redação, via fax, a petição
dos advogados de Garotinho e o despacho do juiz, parte dele
escrito de próprio punho.
Para ilustração dos leitores quanto à personalidade do candidato,
adiante-se um trecho do que solicitaram seus advogados ao juiz.
Que, neste particular, indeferiu. Pediu Garotinho por meio dos
seus:
- Fiquem impedidos de imprimir e distribuir qualquer material
da ré (CartaCapital) envolvendo as pessoas dos autores (Anthony
William Garotinho Matheus de Oliveira, Jonas Lopes de Carvalho
Júnior - advogado, ex-sócio do presidenciável, hoje conselheiro
do Tribunal de Contas, e Waldemar Linhares Duarte, contador)
sem prévia autorização do juízo, fixando-se multa não inferior
a R$ 500 mil para o caso de descumprimento da ordem.
Não se especifica se a multa é diária, como no mandado anterior,
ou não. A ordem envolvia também a gráfica que imprime CartaCapital
e a distribuidora.
Entenda-se: um dos candidatos que pretendem presidir o Brasil
no início do século XXI, no caso Garotinho, pediu a um juiz,
por meio de seus advogados, que a Justiça simplesmente impeça
a publicação de toda e qualquer informação sobre a sua pessoa.
Não se admite publicar nada, sem prévia autorização. Inclusive,
citá-lo. Quiçá mencionar um espirro que tivesse dado. Chega-se,
assim, ao clímax, aos píncaros, à perfeição do jornalismo ideal
para quem está no poder.
Tivesse sido atendido o pedido de Garotinho - e o juiz não
o atendeu, registre-se - o máximo que o leitor estaria a ler
aqui seria algo no gênero:
- O cidadão, aquele que carrega no nome o que não mais tem
na alma, o que já morou e governou aquela cidade, cujo nome
remete a um lugar que contém capim, plantas, vacas, passarinhos,
galinhas, carrapatos, fauna e flora, enfim, e que já habitou
naquele palácio, aquele, aquele, isso, aquele, é candidato a
tomar conta daquele outro palácio. Aquele, o da rampona, que
tem uns soldados com baioneta na porta. E ele é candidato por
aquele partido. Aquele, que tem na sigla aquela ideologia que
o barburdão alemão em grande parte formulou...
Quanto a essa porção da manifestação de inequívoco pendor democrático
e respeito às liberdades básicas, o juiz recusou o pedido do
candidato a presidir o Brasil e dos seus colaboradores.
O que o juiz Silva deferiu na noite da quinta-feira 16, foi:
- Em razão dos documentos anexados que demonstram o firme propósito
de publicação do conteúdo das gravações, majoro a penalidade
para R$ 500 mil caso o teor das fitas venha a ser divulgado.
Registre-se que a colunista Márcia Peltier teve uma pequena
participação no espetáculo. Em sua coluna no Jornal do Brasil,
ainda na quinta-feira 16, Márcia, sem sequer ter ouvido CartaCapital,
divulgou versão dos advogados de Garotinho - que falavam em
fitas - e já comemoravam o embargo à publicação antes de ela
ir às bancas.
Caro leitor. O candidato, ator nesta peça, é o mesmo que vive,
nestes dias, a cobrar transparência e explicações de seus adversários.
É o mesmo candidato que acusou o presidente da República, Fernando
Henrique Cardoso, de obstruir as investigações em torno dos
grampos do BNDES.
É o mesmo candidato que gravou seu ex-secretário de Segurança,
Luís Eduardo Soares. Gravou e divulgou o conteúdo da conversa
a toda imprensa e à mídia em geral.
É o mesmo que, relatam assessores da governadora Benedita da
Silva, permitiu, ao deixar o Palácio da Guanabara, que se destruíssem
os cabos da rede de informática da sede do governo carioca,
entre outras malfeitorias.
O mesmo que assinou, no último dia de governo, o ato que lhe
daria o direito a uma pensão de R$ 9,6 mil. E que só voltou
atrás depois da divulgação da história.
É o mesmo que, agora, fez crer à Justiça que CartaCapital publicaria
fitas sob embargo, embora já soubesse, desde a segunda-feira
13, que a reportagem se baseava numa entrevista de Guilherme
Freire, seu ex-colaborador.
Na entrevista, Freire conta por que gravou conversas com e
de Garotinho e revela o teor de outros assuntos graves, que
não apenas os contidos nas fitas.
CartaCapital, depois de ouvir seus advogados, e como o despacho
incluía seus parceiros - gráfica e distribuidora - optou por
buscar na Justiça o desbloqueio da reportagem e evitar problemas
a terceiros.
Por ora, serve a seus leitores um retrato de Garotinho pincelado
pelo próprio. Esta é uma crônica sobre quem é e como age o pré-candidato
do PSB à Presidência da República.
Diria um padre, ou um pastor, num púlpito, diante de seus fiéis:
- O destino é implacável.
É mesmo. Na noite da quinta-feira 16, enquanto CartaCapital
recebia o despacho já mencionado e escrevia-se esta história,
em rede nacional de televisão, no horário eleitoral gratuito
a que tem direito, Garotinho verberava. Verbo entrecortado por
palavras transformadas em slogans publicitários a piscar na
tela da tevê:
- Justiça... Seriedade... Honestidade... Verdade.
É da tradição da imprensa norte-americana, e a de outros países,
indicar um candidato de sua preferência em algum momento da
campanha eleitoral.
CartaCapital, por ora, depois das informações obtidas nos últimos
20 dias e da ação de Garotinho e dos seus, vista e vivida tal
história, permite-se pelo menos sugerir em quem não parece ser
prudente votar.
COM A PALAVRA, O INIMIGO ÍNTIMO
Publicada na Revista Carta Capital em 27/05/2002
Negócios, artimanhas e ameaças de Garotinho no relato do empreiteiro.
A Flavio Lobo e Sérgio Lírio
Na entrevista que segue, o empresário Guilherme Freire conta
sua versão da amizade com o presidenciável Anthony Garotinho
e os motivos do rompimento. Parte da conversa com CartaCapital
tratou do conteúdo de fitas gravadas pelo ex-empreiteiro, mas,
seguindo a determinação da Justiça, a revista suprimiu os detalhes
nos trechos publicados abaixo. Até porque CartaCapital só teve
acesso à parte do conteúdo de um número desconhecido de fitas.
CartaCapital: Por que houve o rompimento entre o senhor e o
ex-governador?
Guilherme Freire: Em meados do ano passado, o Garotinho falou
à imprensa que rompemos em 1992. Depois, deu uma entrevista
ao Boris (Casoy), na Record (programa Passando a Limpo), dizendo
que mal me conhecia. Em 1996, Garotinho me ligava insistentemente
para que eu comprasse a TV Norte Fluminense. Estávamos formando
um grupo. A TV Norte, naquela época, era repetidora da Rede
Globo (hoje é da Record), possuía rádio AM e FM. Garotinho tinha
um grande interesse nela. O preço era US$ 6 milhões. Ele não
tinha o dinheiro todo, precisava de outras pessoas e começou
a montar o grupo de financiadores. Eu não tinha interesse em
sociedade com o Garotinho. De uma certa forma, comecei a fazer
corpo mole para não comprar.
CC: Por quê?
GF: Porque uma tevê nas mãos do Garotinho seria um perigo.
Chantagem? Sem dúvida. A menina dos olhos dele sempre foi televisão,
jornal, rádio. É a área que ele gosta como empresário. Tenho
certeza de que um dos primeiros com quem ele iria querer brigar
seria comigo. Eu fiz corpo mole na compra. E a partir daí começamos
a nos separar. O deputado Aloísio Castro comprou à época. Depois,
o negócio não foi para a frente. A Igreja Universal comprou
recentemente.
CC: Além da compra da TV Norte, o senhor intermediou outros
negócios para o Garotinho?
GF: Eu intermediei vários negócios para o Garotinho. Sempre
fui considerado por ele uma pessoa de altíssima confiança.
CC: Por exemplo.
GF: Eu comprei, a pedido dele, e para ele, 50% de uma rádio
de Macaé.
CC: Foi a Rádio Jornal Macaé?
GF: Foi.
CC: Com quanto o senhor entrou?
GF: Com cerca de US$ 200 mil.
CC: O senhor passou a ter algum envolvimento com a direção
da rádio?
GF: Eu nem sei onde ela fica. Nunca estive lá. Depois da compra,
não participei de mais nada. Garotinho colocou o Paulo (Mafra,
empresário, colaborador de campanhas do ex-governador) para
administrar a rádio. O Paulo sempre foi muito amigo dele. Depois
de algum tempo, a rádio foi vendida (para Aluysio Barbosa, empresário
de Campos).
CC: Como o senhor define o relacionamento com o candidato.
A que ponto chegava a intimidade de vocês?
GF: Festas de Garotinho, dos filhos, da esposa dele, eram na
minha casa. Lá comemoravam os aniversários dos filhos, por exemplo.
Para quem diz que não me conhecia, têm festas recentes. Tudo
por minha conta. Ele só entrava com os convidados. O Garotinho
sempre gostou de ter seu empreiteiro da moda. Quando éramos
próximos, me chamava de Odebrecht. Depois de mim, ele passou
a fazer festas na casa de outros. O aniversário do filho dele,
no ano passado, foi na casa do Ari "Mãozinha" (Ari Pessanha).
O Ari tem um defeito na mão. O Garotinho dizia que esse defeito
é de tanto roubar. Na tal festa, ele aparece abraçado ao Ari.
Eu vi aquela mão no ombro do Garotinho e disse: fechou. O Garotinho
é daqueles: "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço".
Ele sempre usa o ditado "Dize-me com quem andas que eu te direi
quem és". Ele, que adora essa expressão, se auto-rotulou.
CC: Mas o senhor tinha trânsito com ele?
GF: Livre. Não precisava nem botar crachá. Abria e entrava.
Se ele estivesse conversando com alguém, terminava logo para
me atender. Sempre foi assim. O Garotinho tinha uma porta paralela
na casa dele que eu sempre usava para entrar sem qualquer restrição.
Sempre fui um alto financiador das campanhas. Dele e de quem
ele indicava. Já botei até escola de samba para desfilar no
sambódromo fazendo homenagem a ele (A Independentes de Cordovil,
em 1994). Banquei tudo. O que ele me pediu e eu pude atender,
atendi. Bonés, panfletos, gasolina.
CC: Os senhores se encontravam onde?
GF: A gente se encontrava mais na casa dele. Ofereço meu sigilo
telefônico para provar nossos contatos. Em vésperas de eleição,
ele me ligava quatro, cinco vezes por dia. Que amor é esse com
uma pessoa que mal se conhece? Por que ele me ligava tanto?
Sem me conhecer, por quê?
CC: Além de tratar de negócios, tinham uma relação de amizade,
de sair para bater papo?
GF: Tínhamos. Íamos a restaurantes, ao Rio juntos várias vezes…
CC: O senhor ajudou na campanha para governador?
GF: E muito. Nessa última não, na que ele disputou com o Marcello
Alencar (1994). Principalmente na pré-campanha, quando o Garotinho
disputou a indicação do PDT com o Noel de Carvalho e o Jorge
Roberto Silveira. Brizola era o governador. Naquela pré-campanha,
toda a ajuda foi minha. Saí arrecadando fundos com terceiros,
procurando pessoas. Fiz o possível. A partir do momento em que
ele ficou como candidato do PDT, o próprio partido, com sua
estrutura política, entrou e fez a campanha. Aí já foi outra
etapa. Garotinho deu uma entrevista dizendo que ia entrar com
uma ação trabalhista contra o Brizola por serviços prestados
sem remuneração. Eu quero uma cópia dessa ação para entrar com
uma igual contra o Garotinho. Os serviços que eu prestei para
ele não foram pequenos, não, foram dos grandes. E eu tenho provas
disso. Quero mostrá-las.
CC: Quanto o senhor gastou ajudando o Garotinho?
GF: Dei muita, muita ajuda...
CC: Quando exatamente houve o rompimento?
GF: Depois da história da tevê. O Garotinho criou ali o que
chamo de "secretaria da maldade". O secretário, doutor Jonas
Lopes, o subsecretário, Antonio Maurício Costa. Eram as duas
pessoas incumbidas de agenciar pessoas e advogados para entrar
com ações contra mim. O Jonas combinou com o Maurício para colocar
a Receita Federal em cima de mim e que outros processos viriam.
E que havia conseguido mandado de prisão contra mim. O Maurício
Costa, conversando com terceiros, diz que eu estava sofrendo
uma fiscalização da Receita Federal. Como ele sabia, se a fiscalização
da Receita é uma coisa sigilosa? Como vazou isso? Falar em outros
processos? Jonas é incapaz de tomar uma atitude sem o Garotinho
participar. Não é uma pessoa que tem autonomia. Nunca teve autonomia
nem na casa dele.
CC: O ex-governador se defende dizendo que o senhor o acusa
porque ele teria descoberto irregularidades nos serviços prestados
por sua empresa.
GF: Ele diz que me colocou para fora da prefeitura em 1992,
o que é uma inverdade. Totalmente mentira. Depois de eu me recusar
a comprar a tevê, um pouco antes do segundo mandato de prefeito
(1997), o Garotinho colocou a Receita em cima da minha empresa,
aí ele entrou na prefeitura, mandou as empresas revalidarem
as certidões, o cadastro junto às prefeituras, justamente para
que não desse espaço para participarmos da obra. A Receita não
forneceu a certidão. Ele armou para tirar a minha empresa da
prefeitura.
CC: Por que o senhor resolveu falar agora?
GF: Eu não tinha como confrontar o Garotinho antes. É delicado
para um cidadão comum enfrentar a fúria de um governador e de
um cidadão milionário, diria até perto de bilionário. Tenho
sofrido muitas perseguições e a única forma de me defender foi
me preparar para denunciar. É o que estou fazendo agora.
CC: Mas não é estranho que o senhor apareça justamente no momento
em que o ex-governador sobe nas pesquisas eleitorais como candidato
à Presidência?
GF: Não sou político, não tenho afinidade política com ninguém.
Não me interessa a posição dele na campanha eleitoral. Quero
ser ouvido, mostrar o que está sendo feito comigo. O Garotinho
tem mandado vários recados via terceiros de que ele tem uma
vasta documentação contra mim. Eu o desafio: mostre. Torne público.
Estou perdendo meu direito de ir e vir, me ameaçam falando em
documentos que me incriminam. Chantagem, não. Estou disposto
a entregar todas as provas que tenho ao deputado Aécio Neves
(presidente da Câmara dos Deputados). Sei que no Brasil é uma
prática questionável, mas as fitas contêm o raio X de um político
que pretende ser o presidente do Brasil. Se eu não conseguir
espaço para falar aqui, vou ao exterior, à OEA (Organização
dos Estados Americanos), à comissão de direitos humanos mostrar
o que tenho passado.
CC: O senhor tem idéia do que seriam esses documentos?
GF: Não, estou até curioso, abro o espaço para que se faça
o raio X de um cidadão. Por que não se pode também fazer o raio
X de um político, de um presidenciável? A população tem de saber
quem ele é. Por que barrar? Por que calar a imprensa? O Garotinho
diz que eu fiz fitas. As fitas salvaram vidas, a minha vida
e a de outras pessoas. Tenho provas de que ele corrompeu um
consulado. E isso é como corromper um país.
CC: Corromper como?
GF: O Garotinho conseguiu um esquema com um consulado no Rio
para obter materiais hospitalares sem ter de pagar impostos
de importação. O consulado importava produtos farmacêuticos
em forma de doação e repassava para ele. O Garotinho tinha um
contato lá, alguém identificado como primo do cônsul. Isso era
repassado para parceiros. É um tipo de negociação envolvendo
um presidenciável da qual, acredito, a população brasileira
precisa ser informada.
CC: O que mais?
GF: Quando parte das fitas sobre os acertos no Show do Garotinho
foi divulgada no ano passado, o Garotinho disse também que em
momento algum corrompeu ou autorizou alguém a corromper o fiscal
da Receita. É outra mentira. Ele corrompeu, autorizou e até
comemorou. Houve a participação direta do ex-governador na negociação.
CC: O senhor fez fitas?
GF: Eu tive de entrar num certo submundo para não morrer. Eles
queriam me matar. Tive que me defender, juntar documentos que
salvaram vidas. Tem fita falando em matar juiz. Há uma conversa
em que gente ligada a Garotinho fala abertamente em matar uma
empresária de Campos, dona Sila Chebabe. Eu mostrei a fita a
ela e isso salvou a sua vida (a empresária confirmou ter ouvido
a tal fita). Se não fossem esses documentos, eles teriam me
matado. O policial Melchiades (Luiz Carlos), que foi contratado
para me matar, havia sido expulso da polícia nos anos 80 por
assassinato, roubo e seqüestro. Aí o Garotinho entra para o
governo do Estado e o que ele faz: bota o cara de volta na polícia
para ele se calar, para não falar que tinha sido pago para me
matar. Eu fui ao Ministério Público e levei provas. O depoimento
do Josenildo Ramos (empresário), que me informou da trama, é
muito contundente. (O inquérito foi arquivado. Leia detalhes
à pág. 29).
CC: O senhor diz que sofreu muitas pressões desde as desavenças.
GF: A perseguição que o Garotinho faz comigo, principalmente
psicológica, é demais. Eu vivo um momento turbulento, sem saber
o que eles vão fazer. Estou sem direito de ir e vir. Quero pedir
encarecidamente, ao deputado Aécio Neves, como presidente da
Câmara, que me receba, ele ou alguém da Comissão de Justiça,
para mostrar tudo o que se tem passado. Está tudo documentado.
Quero entregar em mãos. É um pedido que faço. Peço que ele veja
o que tenho para mostrar. Sofro perseguições que nem na época
da ditadura militar aconteceram neste País. Corro sério risco
de vida. Quero mostrar o que estou passando. Eu não agüento
mais. Tive de tirar minha família de Campos. Meus filhos começaram
a ser discriminados. Há cópias de todos os documentos e fitas
guardadas em lugar seguro. Elas serão divulgadas caso aconteça
a mim ou à minha família.
CC: Conte melhor essa história do plano para matá-lo.
GF: Garotinho, em 1997, mandou me matar. O Josenildo (Ramos,
empresário em Campos) começou a ligar para a minha casa, sem
se identificar, avisando o que estava para acontecer. O que
ele queria, na verdade, era deixar uma janela para escapulir
depois, já que o assassinato teria muita repercussão na região.
O matador seria o Melchiades. Com essas informações nas mãos,
contratei um escritório de investigação. Eles levantaram e checaram
tudo. Eu fui ao Ministério Público e denunciei que o Garotinho
tinha armado para me matar. Sobre isso há um inquérito no MP.
O promotor Marcelo Lessa convocou várias pessoas para depor,
inclusive o então prefeito Garotinho. O ex-governador ligava,
em meio a reuniões, para saber o porquê da demora. Eles iam
me matar. Tentaram me matar fisicamente. Como não conseguiram,
partiram para me matar nos negócios. Inclusive procurando pessoas
que me devem e fechando acordos com eles para que não me pagassem.
Como é o caso de um processo em torno de R$ 500 mil que tramita
na Justiça de Campos.
CC: Que tipo de perseguição o senhor sofria?
GF: Várias. Posso citar, por exemplo, duas perseguições a mando
de Garotinho contra mim via Ibama. Em junho do ano passado,
foi montada uma operação na minha fazenda. Havia um conjunto
de irrigação trabalhando, molhando a lavoura. A chefe do Ibama
em Campos, dona Rosa Castelo Branco, casada com um empreiteiro
da prefeitura, mandou apreender máquinas e tratores. Ela alegou
que a água estava sendo tirada de uma lagoa. Fiquei detido um
dia na Polícia Federal. Ela mentiu. Não era uma lagoa, era um
açude que eu fiz, eu construí.
CC: E o outro caso?
GF: Foi algum tempo antes, em 1996. O coordenador do Ibama
em Campos era Álvaro Mateus, primo-irmão do Garotinho. Fiscais
do Ibama foram até uma obra minha, prenderam e acorrentaram
várias máquinas. Ele me procurou, disse que as máquinas estavam
presas e que precisava conversar comigo. Ele foi ao meu escritório,
me disse que havia uma certa necessidade de ajudar na campanha
da deputada Alcione Athayde e colocou um certo valor para resolver
o problema. Eu disse a ele que íamos resolver. Logo depois,
liguei e disse que ele poderia voltar que já estava tudo resolvido.
Quando ele voltou, lhe entreguei a documentação da nossa conversa,
com os pedidos que ele me fez.
CC: Que tipo de pedido ele lhe fez?
GF: Nada que se pague com uma GRED (guia de pagamento de imposto)
em banco.
CC: Ao fazer todas essas denúncias, o senhor se expõe muito.
O que espera ganhar com isso?
GF: Só quero recuperar o meu direito de ir e vir, que é sagrado.
Perseguições políticas temos de banir.
Deputado acusado de tortura é julgado no
Recife
Publicado no Jornal O Globo em 29/05/2002
RECIFE - A audiência de instrução e julgamento do pastor e
deputado estadual João de Deus (PL-PE), acusado de ter perseguido
e mandado espancar a corretora de seguros Márcia Cristina Verçosa
do Nascimento, 30 anos, acontece a partir das 15h, no 5º Juizado
Civil do Fórum Tomás de Aquino. A ação tramita na justiça desde
o início do ano passado.
Márcia, que desde setembro refugiou-se em Alagoas, está sob
cuidados do Ministério Público de Pernambuco e vem ao Recife
escoltada por oficiais da PM alagoana. Ela acusa o deputado
de calúnia, difamação e tortura. A corretora chegou a ficar
em coma depois de espancada. O deputado nega as acusações.
Catecismo municipal
Publicado na Revista Epoca em 15/05/2000
A Universal transforma pastores em cabos eleitorais para ampliar
o poder nas Câmaras de Vereadores
É uma campanha barata, rápida e com pelo menos 5 mil palanques.
Pretende contabilizar 8 milhões de votos. Nos templos da Igreja
Universal do Reino de Deus espalhados por todo o país, os fiéis
cantam, oram e escolhem candidatos. Na maioria das vezes as
opções apresentadas aos crentes pertencem aos quadros funcionais
da instituição. Em Luziânia, a 60 quilômetros de Brasília, o
pastor Irineu da Silva Ferreira usa uma passagem do livro do
Deuteronômio para cabalar os 2.500 votos necessários para se
tornar vereador. "Elegerás que rei o Senhor, teu Deus, tiver
escolhido. E este será um dos teus irmãos", diz o livro bíblico,
que faz as vezes de panfleto para Ferreira. "Quando o pastor
põe a mão na cabeça de um candidato e o abençoa na frente dos
fiéis, a eleição está ganha", crê e prega o deputado Bispo Rodrigues
(PL-RJ), estrategista político da Universal.
O conselho dos 86 bispos da igreja aprovou uma lista com 773
nomes de candidatos a vereador em todo o Brasil. A estratégia
foi traçada logo depois das eleições de 1998. O papel de Rodrigues
é avaliar, em cada município, qual partido tem maior capacidade
para eleger, com o menor número de votos, os candidatos sagrados
pelo conselho. O potencial eleitoral da Universal completa os
cálculos do bispo. Nas grandes cidades cada templo rende, em
média, 500 votos. Nas pequenas, até 300. Os escolhidos são aconselhados
a passar um "livro de ouro" entre os fiéis para arrecadar, a
cada vez, cerca de R$ 3 mil para gastar em propaganda. A estrutura
de comunicação da Universal, dona da Rede Record de TV e de
84 rádios AM e FM, e o poder de opinião dos pastores também
ajudam nas campanhas.
Os interesses em jogo justificam a investida. Em São Paulo,
o vereador Celso Cardoso, eleito pelos fiéis dos bispos e pastores
que divulgam as idéias da Universal, trabalha para derrubar
uma lei municipal que proíbe emissões sonoras superiores a 80
decibéis. "O aparelho de som pode estar com defeito", argumenta
Cardoso. A norma estabelece multa de R$ 13.740 e ameaça os 260
templos paulistanos da igreja de Edir Macedo. Em São Gonçalo,
no Rio de Janeiro, o vereador Sebastião Linhares, pastor da
igreja, quer isenção para as contas de água e luz dos templos.
O objetivo das missões eleitorais empreendidas pelo deputado
Bispo Rodrigues é justamente esse: formar bancadas municipais
que ajudem os pastores em cada cidade a fermentar a pregação
da Universal.
Pastor quer tirar orixás do Parque
Publicado no Jornal Correio de Brasilia em 24/05/2002
As oito esculturas gigantes de orixás expostas no lago do
Parque da Cidade estão provocando polêmica. O deputado distrital
Agnaldo de Jesus (PFL), que é pastor evangélico, chegou a ir
ao Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios
(MPDFT) com a intenção de apresentar uma ação civil pública
contra a exposição. Mas o próprio pastor desistiu de apresentar
a ação depois que soube que se tratava de uma trabalho itinerante.
As peças são do escultor baiano Tatti Moreno e percorrerão
várias cidades. Elas já foram expostas na Lagoa Rodrigues de
Freitas (Rio de Janeiro) e no Parque do Ibirapuera (São Paulo).
"Pensei que estivessem usando dinheiro público para colocar
aquelas imagens permanentemente no Parque", explicou. "Caso
contrária, isso só poderia ser feito com um plebiscito, por
uma consulta junto aos frequentadores", complementou. O deputado-pastor
apresentou ainda uma moção de desagravo na Câmara Legislativa
contra exposição. "Não podemos privilegiar uma religião em particular.
E havia outros lugares para expor as peças, como o Vale do Amanhecer,
em Planaltina", disse.
PASTOR PEDE QUE "POVO DE DEUS" VOTE EM GAROTINHO
Publicado no NOTICIAS.TERRA em 12-08-2002
O pastor Silas Malafaia pediu, durante pregação sobre um trio
elétrico, em frente ao ginásio Nilson Nélson, em Brasília, que
"o povo de Deus vote em Garotinho para presidente e em Benedito
Domingos (PPB) para governador do Distrito Federal". De acordo
com ele, tem muita gente roubando o Brasil. "Tem candidato defendendo
acordo com o FMI e tem candidato amasiado, que não se preocupa
com os valores da família", disse, numa alusão aos candidatos
do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e do PPS, Ciro Gomes. Na avaliação
do pastor, só os candidatos "crentes e competentes" são confiáveis.
Original em: http://noticias.terra.com.br/eleicoes/interna/0,5625,OI41345-EI382,00.html
PDT requer na Justiça cassação da candidatura do 'bispo' Crivela
Publicado no Jornal Folha de S. Paulo em 04/09/2002
RIO - O PDT pediu hoje à Justiça Eleitoral a suspensão do registro da candidatura de Marcelo Crivela (PL) ao Senado. Em representação junto ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) contra o candidato do PL, o partido pede a abertura de investigação para apurar abuso do poder econômico e do poder político, já que Crivela vem vinculado sua candidatura à Igreja Universal do Reino de Deus e ao Projeto Nordeste (Fazenda Nova Canaã, em Irecê, Bahia). Na representação, o PDT alega que o candidato do PL - sobrinho do 'bispo' Edir Macedo - "notória e abusivamente ostenta o abuso do poder econômico como nas fitas de vídeo que panfleta". O candidato ao Senado pelo PDT, Carlos Lupi informou que o partido recebeu cópia de uma fita de vídeo em que os seguidores de Marcelo Crivela estão distribuindo em templos da Igreja Universal, "verdadeiras peças de marketing eleitoral, numa evidente demonstração de abuso do poder econômico e de manipulação da boa fé e dos sentimentos religiosos da população". De acordo com o PDT, as fitas são produzidas pela Rede Record de Rádio e Televisão, de propriedade de Edir Macedo.