Da realidade da mentira à mentira da realidade

Jorge Larrosa*

"... Vou tomar .... a partir de agora, uma tese formulada por um filósofo italiano chamado Gianni Vattimo, no primeiro capítulo de um livro menor, mas muito vigoroso, intitulado a sociedade transparente. O ponto de partida da tese de Vattimo consiste em uma determinada interpretação da sociedade na qual vivemos, na medida em que ela pode ser caracterizada como um sociedade da comunicação generalizada ou, mais concretamente, na medida em que ela pode ser definida como uma sociedade na qual os aparatos de comunicação de massa (os periódicos, o rádio, o cinema, a televisão, mas também os aparatos culturais e educacionais de massa) são determinantes para a produção, a reprodução e também para a dissolução disso que chamamos de realidade.

E observem você que eu disse "produção" e "dissolução" da realidade e não, como também se poderia dizer, "manipulação" ou "falsificação" da realidade. E não se trata de que a manipulação ou a falsificação não sejam importantes ou que não nos causem um particular desassossego a certeza de que vivemos em um mundo no qual a informação generalizada corresponde a um engano generalizado, em um mundo da simulação, em um mundo no qual, como diz o magnífico escritor espanhol Manuel Vasquez Montalbán, impera, quase sem simulação, a dupla verdade, a dupla moral e a dupla contabilidade. O jogo da mentira e da denúncia da mentira têm, em nossos tempos, uma importância que dificilmente pode ser exagerada – como em todos os tempos, talvez.

E esse provérbio grego provavelmente cunhado por Solón, um dos míticos Sete Sábios, enormemente citado e parafraseado no mundo antigo, esse provérbio que diz que "muito mentem os poetas", pode ser substituído hoje por "muito mentem os jornais, o rádio, ou a televisão, ou o cinema".

Talvez, em nossos tempos, como em todos os tempos, a honradez tenha uma de suas formas de manifestação na declaração de guerra à mentira, na suspeita permanente, no ceticismo sistemático, no continuar dizendo que, talvez, as coisas não sejam como nos dizem que elas são, que os fatos não ocorrem como nos dizem que eles ocorrem e, talvez, de forma mais importante, que aquilo que nos dizem que tem que ser e que tem que ocorrer não é tudo o que pode ser e não é tudo o que pode ocorrer.

Talvez, em nossos tempos, como em todos os tempos, a tarefa consista em educar um ser que não se deixe enganar. Mas que não se deixe enganar não apenas pelos jornais, ou pelo rádio, ou pela televisão ou pelo cinema, mas que não se deixe enganar tampouco por todos esses aparatos educativos ou culturais que, pretendendo imunizá-lo contra a mentira da mídia, inculcam, talvez, outras formas de mentira, disfarçadas, desta vez, com o manto da realidade."

....Adorno (filósofo da chamada escola de Frankfurt) no livro "dialética da Ilustração’ ... considera a indústria cultural como um gigantesco aparato de homogeneização e de padronização das consciências e das visões de mundo, através da produção de uma realidade única.

Entretanto, frente á conclusão de Adorno, Vattimo sugere que os meios de comunicação de massa produziram uma explosão e uma multiplicação generalizada das visões de mundo.

Para Vattimo, ‘o ocidente vive uma situação explosiva, uma pluralização que parece irrefreável e que torna impossível conceber o mundo e a história de acordo com pontos de vista unitários’.

E um pouco mais adiante: ‘a intensificação das possibilidades de informação sobre a realidade e seus mais diversos aspectos torna cada vez menos concebível a idéia mesma de uma realidade’. Talvez se cumpra, no mundo dos meios de comunicação de massa, uma ‘profecia de Nietzsche: o mundo verdadeiro, afinal, converte-se em fábula. Se nós fazemos hoje uma idéia da realidade esta, em nossa condição de existência tardo-moderna, não pode ser entendida como dado objetivo que está debaixo, ou mais além das imagens que a mídia nos proporciona.

Como e onde poderíamos aceder a uma tal realidade em si? Realidade, para nós, é, antes, o resultado do entrecruzar-se, do contaminar-se (no sentido latino) das múltiplas imagens, interpretações e reconstruções que competem entre si ou que, de qualquer maneira, sem coordenação central alguma, são distribuídas pela mídia.

... Na sociedade da informação e da comunicação generalizada, diz Vattimo, já não temos uma realidade que seja distinta das interpretações e que nos possa servir como princípio ou como fundamento da verdadeira interpretação, já não temos um mundo verdadeiro, independentemente das fábulas que contamos sobre ele. Multiplicam-se, assim, as formas possíveis do engano e da falsificação, permitem-se formas inéditas de manipulação, favorecem-se a trivialização e o vazio de sentido, apresentam-se novos perigos, mas, ao mesmo tempo, temos a possibilidade de nos libertarmos da tirania do princípio e realidade e da ditadura do mundo verdadeiro. Poder-se-ia dizer, com as mesmas palavras que Heidegger tomou emprestadas de Holderlin para concluir seu ensaio sobre a técnica, que "onde está o perigo, ali cresce também o que salva".

...Com certeza, vocês têm ouvido freqüentemente a afirmação de que ‘é preciso partir da realidade’. E se terão dado conta de que quando alguém diz isso, às vezes dá enérgicos golpes sobre a mesa, como se a realidade fosse o que existe sobre a mesa (e sobre a mesa, às vezes, existem papéis com palavras escritas) ou a própria mesa, com essa presença sólida e como que evidente que costumam ter as mesas. Além disso, às vezes, quando alguém faz essa afirmação, costuma agitar diante dos olhos um punho cerrado, como se a realidade fosse o que existe dentro do punho ou o próprio punho, que se move diante de nossos narizes com essa contundência ameaçadora que é própria dos punhos.

A pergunta, naturalmente, é: quem fala em nome da realidade, quem dá os golpes em cima da mesa e quem agita o punho diante de nossos narizes? E creio que estarão você de acordo comigo se lhes digo que são os experts e, idealmente, os cientistas, os que tomaram, hoje em dia, o controle da realidade, o controle das mesas e o controle dos punhos.

".... agora concluirei esta breve consideração da verdade dizendo....: que para combater a verdade do poder é necessário colocar em dúvida o poder da verdade."

"... Como educadores, movemo-nos, constantemente, nesta tensão entre a produção e a imposição de uma verdade única e o surgimento de múltiplas verdades. Nas escolas, às vezes, oferecemos como realidade as interpretações dominantes. Nós mesmos falamos em nome da verdade ou em nome da realidade e enunciados imperativos como "a verdade é a verdade" ou a "a realidade é a realidade" são demasiado freqüentes em nossas bocas.

Os aparatos educacionais e culturais nos quais trabalhamos, são também, juntamente com os meios de comunicação de massa, lugares de produção, de reprodução, de crítica e de dissolução disso que chamamos verdade e disso que chamamos realidade.

"... Talvez... a realidade não é outra coisa que o assunto da discussão, o que a realidade é a questão, isto é, ‘o que está em questão’, ou que a realidade é o problema, isto é, o que é problemático e pode ser problematizado. E desse ponto de vista a verdade não é já a verdade, mas um dos modos possíveis de determinar o assunto, de encarar a questão, de dar conta do problema."

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Jorge Larrosa é professor de Filosofia da educação na Universidade de Barcelona, Espanha

(Do livro: "A Escola cidadã no Contexto d Globalização", Editora Vozes, Petrópolis, 1998, pág. 48 – 63)

 

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OBSERVAÇÃO: o negrito, o itálico, o sublinhado são do professor Laerte