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ÁREA DE SOCIEDADE E CULTURA

Escola Técnica Federal de São Paulo

 

 

O PESO DOS FATOS – A polêmica entre Pasteur e Pouchet

(Do livro "A ciência em Ação" , Claude Chrétien. Papirus Editora, 1994 - pág. 90-93)

 

... Para os hagiógrafos que contam a lenda dourada da epopéia científica, Pasteur é o símbolo do cientista rigoroso e generoso, zeloso da verdade e benfeitor da humanidade. Mesmo quando não se atêm ao santinho com a figura do velho cientista condoído com o pastorzinho alsaciano que acaba de salvar da raiva, eles nos apresentam um Pasteur descobrindo os agentes microbianos das fermentações e derrotando o obscurantismo que se exprimia na teoria da geração espontânea.

Ora, sobre este último ponto, a história é menos simples que a lenda. Em primeiro lugar, a "vitória" de Pasteur, consagrada pelo veredicto de uma Comissão da Academia de Ciências em 1864, nada atem de decisiva, visto que a polêmica prosseguirá ainda por alguns anos com Bastian, Tyndall ou Cohn. Em seguida, o principal adversário de Pasteur, Archimède Pouchet, não é um espírito medíocre; é um professor eminente e rigoroso, um experimentador metódico. As duas teses em confronto são, conforme confessa o próprio Pasteur, igualmente racionais e plausíveis.

Pouchet afirma que, num frasco hermeticamente fechado, matéria orgânica em decomposição gera espontaneamente microorganismos. O que significa que existe uma força vital difusa na matéria e capaz de criar a qualquer momento novos seres vivos.

Para Pasteur, se animálculos se desenvolvem e aparecem, é porque foram introduzidos em germe no frasco e ele questiona a vedação deste. A vida só se reproduz a partir de seres semelhantes, e os semens invisíveis dos micróbios que pululam no frasco devem ter sido introduzidos pelo ar, no qual estavam em suspensão.

Entre as duas teses, só os fatos podem decidir. Cada um dos adversários admite isso, o que refina suas próprias experiências e desafia o outro a produzir a contraprova:

É uma questão de fato, diz Pasteur em sua conferência à Academia das Ciências em 7 de abril de 1864; eu a abordei sem idéia preconcebida, tão disposto a declarar, se a experiência me impusesse a confissão disto, que existem gerações espontâneas, quanto estou convencido, hoje, de que aqueles que as afirmam estão com os olhos vendados.

Mas que dizem os fatos? Eles são antes indecisos e, a priori, menos favoráveis a Pasteur que a Pouchet: na verdade, basta para este último, produzir em um frasco vedado uma infusão turvada pela presença microbiana, enquanto Pasteur deve manter estéreis todos os balões de ensaio, ou pelo menos constatar sua contaminação por agentes externos. Ora, em Paris como em Rouen, nos laboratórios tanto de um como do outro, a maioria dos frascos se turva...

A vida pulula no laboratório dos anos 1860. Se Pouchet quer fatos, ele os recolhe a plenos frascos.

Sabe-se que nas alturas o ar é mais puro... Pasteur vai a Montenvers, perto de Chamonix, e, a dois mil metros, consegue uma infusão límpida. Não seja por isso! Pouchet sobre a três mil metros, no pico da Maladetta, nos Pirineus, e, com os mesmos frascos de pescoço de cisne, suas infusões se turvam...

Para que lado pende portanto a balança dos fatos? Historiadores e sociólogos das ciências demonstraram depois que, no prato de Pasteur, outros elementos, sócio-ideológicos, pesaram com um peso determinante. O fato não é mais puro e estéril que os frascos! Ele é prenhe (e forte) de idéias ou interesses adventícios que é indispensável desvendar.

Antes de mais nada, a controvérsia sobre a geração espontânea está ligada, nos espíritos da época, ao escândalo provocado pela teoria darwiniana da evolução.

Pasteur admite isso no início de sua conferência de 1864: se a vida pode surgir espontaneamente da matéria, eis um ângulo suplementar a favor da tese anticriacionista, materialista e atéia dos darwinianos. Ora, Pasteur é um bom católico, bem estabelecido na intelligentsia, goza da consideração do imperador, e a seu conservantismo repugna a idéia de que a vida possa não se reproduzir de maneira idêntica, mas gerar subitamente seres diferentes. Por outro lado, por trás desse caso de micróbios, enfileiram-se interesse industriais e econômicos que nada têm de microscópico. Pasteur foi orientado para essas questões microbianas por uma solicitação de cervejeiros de Lille, inquietos ao verem sua cerveja azedar após a fermentação. Ele demonstrará, através de uma série de experiências, que as fermentações (da cerveja, do vinagre, do leite...) resultam de agentes biológicos, e não de reações químicas e que a cada uma delas corresponde um fermento específico. As "doenças" ou acidentes constatados pelos industriais provêm de fermentos estrangeiros cuja ação perturba aquela do fermento normal. Procedendo á segregação dos micróbios e isolando um fermento puro, evita-se estes inconvenientes. Ora, a teoria de Pouchet, que introduz a "heterogenia" (a palavra é dele), sito é, a geração de um organismo a partir de um tronco dissemelhante, volta a semear a desordem nesta bela ordem biológica e econômica restaurada.

Que se pode fazer com uma teoria dessas? Nada: ela é ruinosa antes de ser falsa. Pasteur confessa, aliás, após os primeiros resultados experimentais que invalidam suas hipóteses:

Não tornei públicas essas experiências pois as conseqüências que seria preciso deduzir delas eram graves demais para que eu não receasse alguma causa de erro escondida, apear do cuidado que eu tivera para torná-las irrepreensíveis.

Daquilo que o futuro dará razão a Pasteur, não vamos deduzir que ele só se curva ante a evidência dos fatos e a sanção do real....


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