SARTRE NEGA O INCONSCIENTE FREUDIANO
(CLIQUE AQUI para fazer download deste texto em word - compactação em zip)
(Fonte: http://www.cobra.pages.nom.br/fc-sartre.html)
Rubem Queiroz Cobra
Sartre rejeita enfaticamente a idéia de causas inconscientes dos fatos psíquicos; para ele tudo que está na mente é consciente. Rompeu com a psicanálise por esta retirar a responsabilidade do indivíduo ao invocar a ação de uma força subconsciente e estados mentais inconscientes, que, para Sartre, não existem. Sustenta que a consciência é necessariamente transparente para si mesma. Todos os aspectos de nossas vidas mentais são intencionais, escolhidos, e de nossa responsabilidade, o que é incompatível com o total determinismo psíquico postulado por Freud.
Teríamos de atribuir a repressão inconsciente a alguma instância dentro da mente (a "censura") que distingue entre o que será reprimido e o que pode ficar consciente, de forma que essa censura tem de estar a par da idéia reprimida a fim de não estar a par dela. Portanto, o inconsciente não é verdadeiramente inconsciente. Em algum nível eu estou consciente, e escolho, o que vou e o que não vou permitir vir claramente à minha consciência. Por isso não posso usar "o inconsciente" como uma desculpa para meu comportamento. Mesmo que eu não possa admitir para mim mesmo, eu estou consciente e escolhendo. Mesmo na decepção que sofro, eu sei que sou eu aquele que me decepciona, e o assim chamado "Censor" de Freud deve estar consciente para saber o que reprimir.
Aqueles que usam o inconsciente como desculpa do comportamento acreditam que nossos instintos, nossas inclinações e nossos complexos constituem uma realidade que simplesmente é; que não é verdadeira nem falsa em si mesma mas simplesmente real.
Somos responsáveis por nossas emoções, visto que há maneiras que escolhemos para reagir frente ao mundo. Somos também responsáveis pelos traços duradouros da nossa própria personalidade. Não podemos dizer "sou tímido", como se isto fosse um fato imutável, uma vez que nossa timidez representa a forma como agimos, e que podemos escolher agir diferentemente.
Nossos atos nos definem. Na vida, o homem se compromete, desenha seu próprio retrato e não há mais nada senão esse retrato. Nossas ilusões e imaginação a nosso respeito, sobre o que poderíamos ter sido, são decepções auto-infligidas. Permanentemente estamos a nos fazer do modo que somos. Uma pessoa "corajosa" é simplesmente alguém que geralmente age com bravura. Cada ato contribui para nos definir como somos, e em qualquer momento podemos começar a agir de modo diferente e desenhar um retrato diferente de nós mesmos. Há sempre uma possibilidade de mudança, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos o poder de nos transformar indefinidamente.
O instrumento proposto por Sartre para que possamos conseguir um auto-conhecimento genuíno é a Análise existencial. Ele chama "Psicanálise Existencial" a "Uma psicanálise que busca não as causas do comportamento de uma pessoa, mas o seu sentido" (O que o comportamento exprime como escolha). A função desta psicanálise não é procurar as causas do comportamento de uma pessoa, mas o seu sentido. A realidade humana identifica-se e se define pelos fins que busca e não por pretensas "causas" no passado.
Nenhuma "essência" determinada de mim mesmo orienta a priori meu comportamento. Porém, há o que Sartre chama "Projeto Original". Como uma pessoa é essencialmente uma unidade, e não apenas um amontoado de desejos ou hábitos sem relação, deve haver para cada uma delas uma escolha fundamental por um papel ou script de vida, o "projeto original", o qual dá o significado de qualquer aspecto específico de seu comportamento.
A radical oposição de Sartre à psicanálise influiu grandemente na psiquiatria de seu tempo. Ronald David Laing (1927-1989), um conhecido psiquiatra inglês de origem escocesa, que buscou um novo método de tratamento da loucura seguindo a filosofia existencialista. Entre suas principais obras está Reason & Violence: A Decade of Sartre's Philosophy ("Razão e violência: uma década da filosofia de Sartre"), em co-autoria com D.G. Cooper, de 1971.
MÁ FÉ E INCONSCIENTE - (Do livro: "Má fé e autenticidade", Júlio César Burdzinski, Editora Unijuí, 1999, Rio Grande do Sul, pág. 37-53) - "O núcleo da proposta psicanalítica situa-se no inconsciente. Para explicar a situação na qual a consciência se constitui ao mesmo tempo como enganador e enganado, a psicanálise atribui à consciência uma dimensão subterrânea que subsiste sob a esfera consciente. Agindo por detrás da consciência propriamente dita, o inconsciente pode motivar, influenciar e mesmo determinar, sem ser percebido, as decisões que o indivíduo conscientemente assume.... Na medida em que supomos o inconsciente agindo à revelia da própria consciência, é razoável supormos igualmente esse mesmo inconsciente a mentir e a enganar à consciência. Com a cisão consciente/inconsciente, a psicanálise reproduz a opacidade que caracteriza a relação de transcendência entre várias consciências......
Que a proposta psicanalítica para a compreensão da má-fé está fadada ao fracasso, é o que Sartre ilustra por meio do conhecido fenômeno psicanalítico da resistência que oferece o paciente durante a análise. No decorrer de um tratamento psicanalítico, é freqüente ocorrer que, na medida em que o psicanalista aproxima-se da origem dos problemas psíquicos de seu paciente, o psicanalisando principie a oferecer certa resistência ao tratamento e pretenda, inclusive, desviar a análise de seu curso. A psicanálise explica este comportamento do psicanalisado pela postulação de uma instância intermediária entre a dimensão consciente e a inconsciente. A necessidade dessa postulação evidencia-se uma vez que compreendemos que o paciente não poderia oferecer resistência alguma a menos que ele de alguma forma fosse consciente de que o psicanalista estivesse aproximando-se da suposta fonte inconsciente de sua neurose.
Como, entretanto, pode o psicanalisando constatar essa aproximação se ela é, justamente, inconsciente? Tendo inicialmente cindido a consciência em consciente e inconsciente, a psicanálise deve agora prover uma instância que estabeleça uma ponte de comunicação entre essas duas dimensões: é a censura. É pela censura que se estabelece o elo sem o qual o psicanalisando não saberia jamais que o psicanalista aproxima-se das origens de sua neurose; é por meio dela que o psicanalisando se dá conta daquilo que disfarça por detrás de todas as manifestações - manifestações que, ao mesmo tempo, manifestam e encobrem - de sua neurose. É por meio dessa instância intermediária que a consciência, de alguma forma, alcança o inconsciente....