Clínica Cirúrgica - Perguntas e Respostas 07
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Clínica Cirúrgica - perguntas e respostas
Faculdade de Medicina da UFMG

EXERCÍCIO 1- PRÉ-OPERATÓRIO: GENERALIDADES

EXERCÍCIO 5 - HIDRATAÇÃO VENOSA PÓS-OPERATÓRIA

EXERCÍCIO 2 - PRÉ-OPERATÓRIO ESPECIAL I

EXERCÍCIO 6 - COMPLICAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO

EXERCÍCIO 3 - PRÉ-OPERATÓRIO ESPECIAL II

EXERCÍCIO 7 - INFECÇÕES CIRÚRGICAS

EXERCÍCIO 4 - RESPOSTA ENDÓCRINO-METABÓLICA AO TRAUMA

EXERCÍCIO 8 - PACIENTE IDOSO

EXERCÍCIO 7 - INFECÇÕES CIRÚRGICAS

 

1. Conceitue infecção hospitalar e infecção comunitária.
Infecção hospitalar ou nosocomial é aquela adquirida durante o período de internação e que não está presente, nem em estágio de incubação no momento da hospitalização. Muitas vezes, as infecções incisionais hospitalares são diagnosticadas no ambulatório.
Infecção comunitária é aquela infecção adquirida fora do ambiente hospitalar, ou aquela infecção cirúrgica de paciente transferido, adquirida no hospital anterior que é considerada comunitária pelo hospital atual.
 
2. Qual é a definição de infecção cirúrgica?
Infecção cirúrgica é aquela que ocorre em conseqüência de um ato cirúrgico, seja ela no sítio cirúrgico ou distante deste (ITU, pneumonia).
 
3. Qual a origem mais comum (endógena ou exógena) da infecção cirúrgica?
Setenta porcento das infecções cirúrgicas têm origem endógena, ou seja, a fonte do inóculo bacteriano é o paciente, e mais particularmente, sua flora bacteriana transitória. Em 30% das infecções cirúrgicas, a origem é exógena, ou seja, o inóculo bacteriano se origina do ambiente.
 
4. O que é virulência?
Virulência é a capacidade quantitativa de um agente de provocar doença. Os agentes virulentos provocam doença quando inoculados no hospedeiro em número menor. A virulência depende: da capacidade da bactéria de invadir, sobreviver e multiplicar-se nos tecidos do hospedeiro, da capacidade de combater os mecanismos de defesa orgânica e de provocar lesão com destruição celular e do poder toxigênico.
 
5. Comente a relação entre os seguintes fatores: 1. O número de bactérias, 2. Virulência e 3. Mecanismos de defesa do hospedeiro.
A infecção depende do número de bactérias inoculadas que deve ser maior que 105 bactérias/grama de tecido ou mL de secreção para que uma infecção seja determinada. Depende também da virulência do microorganismo infectante, que poderá fazer com que o número de bactérias necessário seja menor. E depende, fundamentalmente, do estado imunológico do paciente agredido, ou seja, que os mecanismos de defesa do hospedeiro estejam patentes ou diminuídos, o que vai levar a um menor ou maior risco de infecção.
 
6. Quais são os fatores que diminuem a defesa local?
Necrose tecidual e tecidos desvitalizados, corpo estranho, isquemia, espaço morto, hematoma, coleção serosa, deficiência de mediadores locais com menor aporte de células fagocitárias ao foco de infecção.
 
7. Quais são os fatores que diminuem a defesa sistêmica?
Deficiências de anticorpos (hipogamaglobulinemias); deficiência do complemento; deficiência na produção, liberação, migração, função leucocitária ou na transferência da informação antigênica dos monócitos aos linfócitos; leucopenia; medicamentos imunossupressores; desnutrição; obesidade; idade avançada; diabetes mellitus descompensado; prematuridade; esplenectomia; doenças malignas; quimioterapia e radioterapia; doenças imunológicas (AIDS).
 
8. Quais são os agente infecciosos mais comuns da infecção do sítio cirúrgico?
O principal agente etiológico é o Staphylococcus aureus, mas também são encontrados E. coli, Staphylococcus epidermidis, Pseudomonas e Enterococos. A Candida albicans é encontrada em pacientes imunossuprimidos, ou em caso de pacientes em uso de antibióticos de largo espectro, pacientes em nutrição parenteral total ou pacientes diabéticos descompensados.
As bactérias anaeróbicas estão presentes nas cirurgias colorretais, cirurgias ginecológicas e obstétricas e cirurgias com via de acesso pela mucosa oral.
 
9. Qual o papel da adrenalina associada a anestésico local na produção de infecção superficial do sítio cirúrgico?
A isquemia provocada pela adrenalina favorece à infecção conforme demonstrado em estudos farmacológicos. O uso de soluções anestésicas com vasoconstritores deve ser restrito às feridas com mínima contaminação. A isquemia reduz o aporte de oxigênio e nutrientes retardando o processo de cicatrização, e diminui o número de leucócitos que atingem a área com risco de infecção.
 
10. Qual o papel da hospitalização pré-operatória na infecção cirúrgica?
Quanto maior o tempo de hospitalização pré-operatória, maior a alteração da flora bacteriana endógena transitória, através da colonização por bactérias hospitalares virulentas e resistentes (ocorre modificação total da flora endógena transitória do paciente quando o indivíduo fica internado três dias ou mais no pré-operatório), aumentando o risco de infecção cirúrgica em até quatro vezes.
 
11.     Qual é a utilidade do banho com degermantes no pré-operatório?
Já foi demonstrado em alguns estudos que o banho com degermantes no pré operatório é capaz de reduzir significativamente a infecção, ao reduzir a flora bacteriana endógena transitória da pele. Nos pacientes que permanecem por períodos prolongados no hospital ou que apresentam doença significativa, observa-se maior número de microrganismos na flora bacteriana da pele, principalmente na região inguinal e áreas intertriginosas. Nestes pacientes, o banho com degermantes tem especial importância.
 
12. Deve-se ou não fazer remoção de pêlos pré-operatória? Comente os princípios básicos da tricotomia.
A tricotomia deve ser usada de forma criteriosa. Deve ser utilizada em cirurgias das regiões inguinais e perineal ou em pacientes excessivamente piloso. Deve ser restrita às áreas próximas ao local da incisão e realizada 1 a 2 horas antes do procedimento cirúrgico. A tricotomia elétrica é preferível à raspagem com lâmina, e a tonsura é preferível à tricotomia. A raspagem dos pêlos leva a microescarificações da pele que são colonizados pela flora bacteriana da pele, predispondo a infecção do sítio cirúrgico.
 
13. Qual é a influência da duração da cirurgia no aparecimento de infecção cirúrgica?
As cirurgias mais prolongadas aumentam a exposição tecidual aos microrganismos, além de levar a uma maior destruição de tecidos, elevando assim a incidência de infecção do sítio cirúrgico.
 
14. Qual é a relação entre drenos cirúrgicos e infecção cirúrgica?
O cirurgião deve utilizar drenos quando não consegue uma limpeza ou remoção adequada de líquidos ou materiais de uma cavidade. O dreno é uma porta de saída destes materiais, porém, é também uma porta de entrada de bactérias. Assim, deve ser evitado, na medida do possível. Se houver necessidade, o dreno deve ser utilizado mas retirado tão logo tenha cumprido sua finalidade. Se, no entanto, não for retirado, vai aumentar o risco de infecção cirúrgica.
 
15. Uma operação efetuada na presença de uma infecção a distância aumenta o risco de infecção cirúrgica?
Sim. A presença de um foco infeccioso é um fator predisponente à infecção no sítio cirúrgico.
 
16. O que é desinfecção?
Processo de destruição de microrganismos patogênicos, em superfícies inertes ou objetos inanimados, mediante a aplicação de agentes físicos ou químicos. Os microrganismos esporulados não são destruídos.
 
17. O que é esterilização?
Processos usados para a destruição de todos os microrganismos: vírus, fungos, bactérias patogênicas e não patogênicas, tanto nas formas vegetativas e esporuladas,  através de agentes físicos (calor seco, vapor saturado, sob pressão e raios gama), quanto químicos (óxido de etileno e glutaraldeído).
 
18. O que é assepsia?
Assepsia é o conjunto de meios usados para impedir a penetração de bactérias em um local que não as contenha.
 
19. O que é anti-sepsia?
Anti-sepsia é a destruição ou a redução do número de microrganismos diversos (bactérias nas formas vegetativas ou esporuladas, vírus e fungos) na pele ou na mucosa de  um ser vivo, através de agentes físicos, químicos (povidona tintura a 1%) ou agentes mistos.
 
20. O que é degermação?
É o processo de lavagem e escovação das mãos e antebraços dos componentes da equipe cirúrgica, utilizando anti-séptico (principalmente PVPI degermante), com o intuito de diminuir a flora bacteriana transitória da pele. Deve ser realizada durante 05 minutos.
 
21. Quando utilizar o PVP-I tópico, o PVP-I degermante, o PVP-I tintura e a clorohexidina?
PVPI tópico: na anti-sepsia de mucosas ou feridas traumáticas com pele lesada, troca de curativos.
PVPI degermante: utilizado no banho pré-operatório , anti-sepsia de pele íntegra, lavagem e escovação de mãos e antebraços dos componentes da equipe cirúrgica, descontaminação do campo operatório, luva química após escovação.
PVPI tintura: utilizado principalmente na anti-sepsia da área a ser operada, que deve ser ampla, e bem feita. Possui efeito residual longo e ação germicida
Clorohexidina tem as mesmas utilizações do PVPI, entretanto é mais cara, e é usada principalmente em caso de hipersensibilidade à polivinil-pirrolidona e em banhos degermantes em crianças (berçário).
 
22. Quais são os princípios da profilaxia antibiótica?
Administrar antibiótico imediatamente antes da indução anestésica, com o objetivo de que este atinja concentração adequada no sangue e nos tecidos no momento da incisão
repetir a dose de acordo com a meia vida do antibiótico escolhido (cefalotina: 1g a cada 2hs; cefazolina: 1g a cada 3hs).
Escolher droga que previna adequadamente a infecção por germes prováveis de contaminação da região operada.
Não usar em cirurgias infectadas, pois nesses casos, o antibiótico deve ser terapêutico.
Utilizar criteriosamente, obedecendo às indicações;
Não prolongar por mais de 24hs;
Não substitui cuidadosa técnica cirúrgica, asséptica.
 
23. Discutir a classificação das feridas cirúrgicas quanto ao seu potencial de contaminação.
Ferida limpa: representada pela ferida não traumática e sem processo inflamatório. Durante o ato cirúrgico não ocorreu penetração nos tratos respiratório, digestivo, e gênito-urinário nem houve infração dos princípios da boa técnica.
Ferida potencialmente contaminada: quando ocorre penetração nos sistemas respiratório, digestivo ou genito-urinário sem contaminação significativa. Cirurgias com pequenas infrações técnicas, com drenagem ou em áreas de difícil anti-sepsia.
Ferida contaminada: ocorrendo infração técnica, grande contaminação, principalmente a partir do trato gastrointestinal, e ferida traumática com menos de 4 a 6 horas. Penetração nos tratos gênito-urinário ou biliar na presença de urina ou bile infectadas;
Ferida suja ou infectada: os microrganismos já se encontram no campo operatório. Coleções purulentas; vísceras perfuradas, e feridas traumáticas com mais de 06 horas de evolução, apresentando tecidos desvitalizados.
 
24. Qual a fonte de contaminação de uma ferida limpa?
A flora bacteriana endógena transitória, a equipe cirúrgica, o instrumental cirúrgico, visitantes, o ambiente hospitalar, curativos sem os devidos cuidados.
 
25. Quais são os primeiros sinais de infecção cirúrgica?
Febre, mal estar, adinamina, anorexia, fase de injúria da REMT prolongada, seguidos das manifestações locais: dor, calor, vermelhidão, edema, presença de secreção serosanguinolenta ou purulenta, ou necrose tecidual.
 
26. Qual é o conceito de profilaxia antibiótica?
É a utilização de antibióticos em dose única ou por até 24hs, em cirurgias com risco de infecção do sítio cirúrgico, com o objetivo de reduzir o índice de infecção incisional. A administração deverá ser feita imediatamente antes da indução da anestesia. Atingem concentrações bactericidas no sangue e nos tecidos durante a cirurgia e impedem a adesão de bacterias aos tecidos e sua multiplicação.
27. Quem deve receber antibióticos profiláticos?
A antibioticoprofilaxia está indicada nas cirurgias limpa-contaminadas (potencialmente contaminadas) e cirurgias contaminadas; cirurgias em pacientes obesos; cirurgias com grande descolamento; cirurgias em paciente diabético; cirurgia em paciente desnutrido; cirurgias estéticas ou em áreas funcionalmente nobre; inserção de próteses; procedimentos invasivos em valvulopatas; transplantes de órgãos; cirurgia em paciente imunosuprimido; cirurgias de urgência; cirurgias em pacientes portadores de outras afecções associadas; esplenectomias.
 
28. Quando devemos usar profilaxia antibiótica em cirurgias limpas?
Pacientes acima de 70 anos, pacientes portadores de doenças associadas, imunossuprimidos, portadores de prótese ou que vão recebê-la, portadores de doença valvular, reumática, obesidade mórbida, diabéticos, desnutridos, cirurgias de urgência, portadores de hérnias multi-recidivadas, esplenectomias, transplantes de órgãos, cirurgias prolongadas, cirurgias em áreas estéticas ou funcionalmente nobres.
 
29. Quais são os antibióticos mais usados para profilaxia de infecção cirúrgica?
As cefalosporinas de 1a geração, cefalozina e cefalotina, são os antibióticas mais usados em antibióticoprofilaxia devido ao seu baixo custo, pequeno número e/ou infreqüência de reações colaterais, bons níveis teciduais, excelente ação anti-estafilocócica. Em caso de profilaxia de infecção por anaeróbios, as cefalosporinas de 1a geração devem ser associadas à clindamicina ou metronidazol. Neste caso, outra alternativa é a cefoxitina (cefalosporina de 2a geração) que possui boa ação contra gram positivos e anaeróbios. Entretanto, é de alto custo e pode induzir resistência bacteriana (indutor de B-lactamase).
 
30. Discutir as vias de administração e a posologia da antibioticoprofilaxia em  cirurgia.
A via de administração deve ser a endovenosa, durante a indução anestésica, e a dose deve ser de 1g de cefalotina ou 1g de cefazolina, com repiques a cada duas horas com o uso de cefalotina, e a cada 3 horas com o uso de cefazolina.
 
31. Qual a vantagem da cefazolina sobre a cefalotina na antibioticoprofilaxia cirúrgica?
A cefazolina possui meia vida mais longa, e atinge níveis teciduais maior que a cefalotina, necessitando menos repiques durante a cirurgia.
 
32. Há vantagem em usar cefalosporinas de 2a geração em vez de cefalosporinas de 1a geração na antibioticoprofilaxia cirúrgica?
A cefoxitina (cefalosporina de 2a geração) possui maior ação contra gram-negativos e cobre Bacteróides fragilis e outros anaeróbios, podendo ser utilizada na profilaxia de infecção em cirurgia ginecológica, colorretal ou com via de acesso pela cavidade oral. Somente nestes casos, as cefalosporinas de 2a geração são mais vantajosas do que as de 1a geração. Entretanto, a cefoxitina possui alto custo e pode predispor a resistência bacteriana. As cefalosporinas de 3a geração não devem ser utilizadas em antibioticoprofilaxia.

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Autor/digitação: Departamento de Cirurgia da UFMG/ Doutor "Fredão". Data de Publicação: 06/2003. Categoria: apostila de exercícios

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