Ross Brawn

"Por que razão

Schumacher

é o melhor piloto do mundo"

Schumacher impressiona-o, desconcerta-o. O melhor piloto do planeta. Brawn, explica-nos os seus segredos.

1991 é um ano crucial para a F1, no qual se juntam dois talentos excepcionais: Michael Schumacher e Ross Brawn. No primeiro caso, um piloto que afiou as mortíferas garras e musculou o cérebro e os braços sob a alçada do team Mercedes Junior, nos extintos Campeonatos de Sport-Protótipos. Destinado a "explodir" na F1. O segundo, engenheiro por formação e súbdito dos automóveis por paixão, depressa chegou ás equipas de ponta, também para provocar a explosão. Afinal de contas, a sua especialidade, ou não tivesse trabalhado como especialista atómico numa central nuclear! Brawn, director-técnico, e Schumacher, aluno-piloto-prodígio, foram feitos um para o outro. E a explosão deu-se. Ao cabo de nove anos, a dupla consegue estar em permanente discussão pelo título mundial de F1. Outro exemplo da cumplicidade entre ambos: quando Schumacher se transferiu para a Ferrari- com dois títulos no bolso- deixou a sua família no Mónaco, mas pediu imediatamente a Brawn para o acompanhar. Ligado a Alesi (muito distante de Schumacher), o técnico inglês penou durante um ano antes de apanhar o avião para Maranello. Qualidades, defeitos e manias, Brawn conhece Schumacher como a palma da sua mão. Em contrapartida, Michael demonstra uma confiança absoluta no seu braço direito, tendo mesmo aprendido muito com o seu engenheiro, que, no entanto, recusa esse mérito: "não sou o mentor, nem o seu professor. O Michael de 1991 era já muito próximo do de 1999. um excelente piloto com todas as qualidades para se tornar o melhor piloto do mundo". A palavra nasce suave, sem sobressaltos, nem falsas modéstias. Refastelado no canapé da sua sala de estar, por entre as suas canas de pesca de colecção e peixes embalsamados, Brawn constata: "Michael é o melhor piloto do mundo porque aborda a sua profissão de uma forma global. ser um grande piloto não resulta apenas de se ser rápido em pista. Ele é intelectualmente e fisicamente o mais evoluído. Intelectualmente, aprendeu a gerir a pressão de acordo com as suas necessidades. Um bom exemplo é a forma relaxada e descontraída de falar durante as conversas por rádio em prova, de onde sobressai a sua capacidade de auto-controlo. A maioria dos pilotos (sabemo-lo porque todos ouvimos as comunicações dos concorrentes...) gritam e vociferam, tal o nervosismo, enquanto Michael se comporta como se estivesse calmamente instalado no seu escritório ou diante da televisão. E raramente se enerva ao volante". assim conseguimos elaborar tácticas de corrida complexas ou arriscadas, ou simplesmente alterá-las durante a corrida. Ao mesmo tempo que está concentrado na pilotagem, consegue ter mais qualquer coisa em mente. uma qualidade que deve à sua excelente condição física. Digna de um atleta, que soube adequar a massa muscular ao desporto que da sua eleição. E nem sequer se esforça para treinar. É algo que faz de boa vontade". Cabeça e pernas a funcionar chegam para fazer um campeão do mundo? "Não chegam, de facto, mas são duas condições essenciais na F1". prossegue o analítico Brawn. "O problema dos seus adversários ´que ele também é muito bom noutros domínio do jogo, como qualificaríamos num desporto colectivo. Antes de entrar no cockpit, ou depois de sair, Michael continua a ser o melhor".`É um piloto-engenheiro como Senna ou Lauda? "Acima de tudo é um colaborador do mais alto nível, que compreendeu que não deveria tentar afinar o carro exclusivamente de acordo com a sua sensibilidade. Consegue transmirtir-nos muito boas informações, muito fiáveis e muito completas, sobre o comportamento do monolugar.`É muito objectivo nas suas análises, além de honesto, não procurando viciar a regulação que fazemos para as condições de pilotagem que mais lhe aprouverem. E depois acompanha-nos nas discussões técnicas e nos mais pequenos pormenores, principalmente tudo o que diga respeito a ligações solo: barra estabilizadora, molas e amortecedores de suspensão... Sabe ler e interpretar a telemetria correctamente, o que não é comum nos pilotos. Chega a examinar os dados a sós no seu computador portátil, elevando o profissonalismo a um nível até aqui desconhecido num piloto. Quando volta ao volante, sabe precisamente porque o carro se comporta daquela maneira em cada curva. Outra vantagem decorre de conseguir tirar um tempo com o carro mesmo não estando afinado  . A sua condução ainda está um degrau acima dos outros". Todos os seus ex-colegas de equipa chegaram à mesma conclusão sem saber porquê. O alemão recusa-se a mostrar os seus registos da telemetria, para que ninguém possa copiar o seu estilo de condução. Que estilo? "Os seus domínios privilegiados são as travagens retardadas até ao limite e as grandes curvas negociadas a mais de 220 km/h. Na travagem procura o limite absoluto, que lhe permita, no instante anterior, atingir a velocidade máxima. Assim consegue ser o mais rápido a entrar nas curvas. Depois, conserva velocidade e acentua-a prograssivamente, uma atitude para a qual é necessário confiar a 100% no carro e na própria conduçaõ. Se algo correr mal, a saída de pista é inevitável, mas quando funciona bem, corresponde a uma décima a menos no tempo final. E em Barcelona ou Monza, o pecúlio pode chegar a meio segundo por volta." Outro ponto forte é o controlo milimétrico das trajectórias. "É no Mónaco que este seu talento revela maior expressão. Utiliza até ao último mílimetro de pista, volta após volta, com uma precisão e uma regularidade desconcertante. Ao mesmo tempo que os seus adversários passam ora um palmo mais por dentro, ora um palmo mais por fora, Michael passa rigorosamente pelo mesmo sítio, acariciando- sem tocar- as fronteiras da segurança. Os únicos que julgo terem tido esse mesmo talento form graham Hill e Ayrton Senna. michael roda permanentemente no limite, a 100% do que o carro vale, sem nunca levanter o pé. Acredite nele quando afirma que uma corrida é uma sucessão de voltas de qualificçaõ. É assim que guia. Não é necessário encorajá-lo como sucede com muitos outros. Dá sempre tudo o que tem. Se abrandar o ritmo é para poupar os pneus ou os travões, ou então um problem mecânico afecta o seu rendimento. Uma avaria qualquer..." As avarias são recebidas por Michael de form peculiar. Existem para dinamitar as corridas dos demais pilotos, mas ele chega a divertir-se: "A sua capacidade de adaptação a um monolugar que funciona mal é inagualável. Trata-se de um improvisador nato. Em Barcelona, em 1994, não deu para acreditar no que ele fez com o carro que ficou com a caixa bloqueada em 5ª. Um prodígio. Em algumas curvas, alterou a trajectória e passou a transpô-las mais depressa do que quando o F1 estava em boas condições. A única explicação que encontrámos foi o facto de, sem passagens de caixa, o carro ficar mais estável e menos afectado por transferências bruscas de massas". Concentrado, equilibrado, com noção global de tudo o que se passa e um enorme poder de antecipação. Demasiado perfeito para ser verdade? "Ele não é perfeito. Apenas forte em todos os capítulos e acredita cada vez mais no seu potencial. Michael tem toneladas de talento, tanto como Senna, mas utiliza-o melhor graças á su preparação física e á sua abordagem global da competiçaõ. A noção de que é o melhor piloto do mundo poderia levá-lo a repousar perante os louros, mas sucede o oposto. A energia que utiliza na sua preparação é cada vez maior, o seu entusiasmo crescente e contagiante. Por vezes pedimos.lhe opiniões porque são sempre construtivas, sejam elas sobre questões técnicas ou pessoais. As suas análises são sempre interessantes. Trata-se de um rapaz inteligente e trabalhador, inspirado e abnegado". Num cenário de tão grandes conquistas, ainda existe espaço para progresso? "Sem dúvida. Michael melhora com a idade porque nunca se dá como satisfeito na sua procura da perfeição. Mas entre o sucesso e o fracasso, a fronteir é muitas vezes ténue. Em 98, em Spa, por exemplo, se tivesse conseguido desviar-se 20 cm do Coulthard, seria hoje um herói. Ninguém lhe apontou o dedo acusador naquele dia, tal como ele não o faz quando o seu Ferrari não está ao melhor nível, porque percebe que existe uma lacuna entre a qualidade do material que gostaria de dispor e aquele que lhe foi confiado. O que constituiria uma frustaçaõ para muitos não lhe retira o prazer de conduzir. O seu progresso é no sentido de adquirir mais experiência, mas não se vão notar grandes melhorias. Talvez nas largadas, onde por vezes ainda comete erros, o que até ajuda o espectáculo"...

 

 

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