Alexandre Matias
Qualquer disco do Air é um convite ao mundo dos sonhos. Tecladinhos velha-guarda em
acordes que cheiram a éter e um groove redondo em câmera lenta compõem uma fórmula
infalível, que o grupo conduz com muita propriedade, explorando as diferentes variantes e
atmosferas que ela pode percorrer. A dupla francesa dirige o som com tanta intimidade que
nem de longe lembram os nerds que realmente são.
Seu novo disco ainda não é o sucessor do aclamado Moon Safari, de 98. The Virgin
Suicides (Astralwerks, importado) é uma trilha sonora, não contando como um álbum
propriamente dito na discografia. Ilustrando o primeiro filme de Sophia "meu pai é o
Francis Ford" Coppola (aquela ginasta do clipe dos Chemical Brothers), o macio fluir
das canções de Virgin Suicides ganha o caráter experimental e instrumental de uma
trilha cinematográfica. Semelhante tática foi usada pelo Pink Floyd à saída de seu
líder original, Syd Barrett. Sem Syd, Roger Waters, Rick Wright, Dave Gilmour e Nick
Manson passaram a se dedicar a jam sessions experimentais em ensaios, destinando a parte
mais ousada - que mais tarde se tornaria característica do som do grupo - às trilhas
sonoras. Houve a trilha de More antes de Ummagumma, a de Zabriskie Point antes de Meddle e
de Obscured by Clouds antes do Dark Side of the Moon.
Esta fase de transição do Pink Floyd (os anos entre 1969 e 1972), uma das mais
subestimadas do grupo (há fãs que ousam preferir a badtrip The Wall) vem sendo
assimilada por toda uma geração de bandas e finalmente aos poucos ganha o reconhecimento
atual. Do Radiohead ao Orb, passando pelo Blur e pelo Spiritualized, cada vez mais bandas
importantes acabam abraçando a sonoridade épica e ao mesmo tempo onírica criada apenas
pelo casamento do baixo, bateria, teclados e guitarra. Uma espécie de continuação do
som previsto pelos Beatles em seu maior álbum, Abbey Road, esta fase do Pink Floyd
encaixa-se como uma luva no novo disco do Air.
Usando o fato de Virgin Suicides não ser um disco oficial deixa Jean-Benoît Dunkcel e
Nicolas Godin à vontade para escolherem novos rumos musicais. Não fogem da fórmula já
estabelecida, querem apenas testá-la em outras condições. O clima sombrio dado pelo
filme é motivo para a dupla explorar seu lado escuro, pintando suas texturas sonoras com
tintas escuras e frias.
Playground Love começa com o vocal (o único do disco) do baterista Gordon Tracks
sussurrando a melodia tema do filme, enquanto conta que "eu sou um amor colegial/ E
você é meu sabor favorito". A melancolia juvenil da letra é refletida no arranjo
semi-inerte escolhido pelo grupo, que escolhe cordas estáticas, um vibrafone
fantasmagórico (uma de suas marcas registradas) e um sax com uma colher a mais de soul
para abrir o disco. Clouds Up continua exatamente na mesma atmosfera, pensativa por não
ter letra, enquanto Bathroom Girl escancara o clima pinkfloydesco com um solo de guitarra
que pontua o ritmo.
Esta sensação que a qualquer momento podemos parar no meio de um disco do Pink Floyd
nos persegue o disco inteiro: Cemetery Party parece nos conduzir para a gigantesca Echoes,
The Word "Hurricane" e Highschool Lover citam literalmente a introdução de The
Great Gig in the Sky antes de entrar no tema principal, a forma agressiva que a bateria é
tocada em momentos bucólicos é típica de Nick Manson e a assustadora Sunshine
Underground, perdida entre os dois lados de Atom Heart Mother. Vapores dos vulcões de
Pompéia (onde o Floyd gravou um de seus mais memoráveis espetáculos) passam a tomar
conta do disco por inteiro. Mas o cheiro não é de enxofre, mas de... Sonho tem cheiro?
Títulos como Cemetery Party, Dark Messages, Dirty Trip, Empty House, Ghost Song e Dead
Bodies ajudam a não elevar o astral do disco, mas em momento algum caímos em um
pesadelo. O Air trata o lado negro da vida como um Tim Burton infantil, descobrindo
ingenuamente a beleza da feiúra. Usando o velho Floyd como cimento, eles erguem um muro
usando como tijolos timbres criados por diferentes sotaques à procura do pop perfeito:
música italiana, Burt Bacharach, cool jazz, Eumir Deodato, lounge... E constróem um
álbum que soa datado ao mesmo tempo que atemporal - mantendo sua reputação não apenas
intacta, mas crescendo. Driblando assim a famosa "síndrome do segundo álbum".
Vão longe, esses dois.