Espiritualidade sem Deus

Um sermão de Sarah Oelberg em 9 de fevereiro de 2003 

      Eu costumava odiar a palavra espiritualidade. Era uma palavra que eu tentava evitar a todo custo. Talvez eu a evitasse porque não a compreendia – provavelmente porque ela parecia significar muitas coisas, e algo diferente a cada indivíduo. Se é verdade que, se você perguntar a 25 unitários-universalistas em que eles crêem, você vai ter 26 respostas diferentes, é ainda mais verdade que, se você perguntar a dez pessoas o que significa “espiritualidade” para eles, você vai ter cinqüenta ou mais respostas. Assim, é difícil opinar sobre o que é essa espiritualidade que tantos buscam. Ela se converteu em uma espécie de “palavra lata-de-lixo”, possivelmente significando qualquer coisa entre astrologia e Zen-Budismo.

      Acho que parte de minha resistência em usar a palavra espiritualidade é por causa de alguns dos significados que ela parece ter para as pessoas – significados que não têm a ver com minha experiência. Por exemplo, para alguns, espiritualidade é equivalente a aceitar Cristo como Senhor e Salvador. Noções tradicionais de espiritualidade lidam com um mundo não-físico separado da terra e de seus habitantes – um mundo cheio de deuses, espíritos, fantasmas e coisas do tipo. É a desavergonhada crença em deuses, deusas e espíritos. Nesse sentido, parece ser, para mim, apenas uma nova maneira de dizer as mesmas velhas coisas.

      Mas a espiritualidade também se tornou um mantra para pagãos, praticantes de wicca e de variadas religiões da Nova Era, que a usam para se referir a algum espírito ou figura transcendental que é incompreensível a eles, mas não disponível ao resto das pessoas que não concordam com suas visões particulares. Se você pedir-lhes para tentar explicar o que significa espiritualidade para eles, uma espécie de brilho celestial sai de seus olhos e eles falam sobre uma experiência espiritual e esperam que você a compartilhe e acredite nela sem maiores explicações. Eu me sinto mal quando pessoas ou grupos tentam reivindicar exclusividade sobre o conhecimento de algo que eles dizem que é maravilhoso, e não o tornam acessível a todos.

      Tenho também notado que a palavra espiritualidade é freqüentemente usada para descrever tudo o que foi enfiado na categoria Nova era: cristais, anjos da guarda, entidades, vários métodos de adivinhação, magias, experiências extra-corporais e assim por diante. Como humanista racional, acredito ter dificuldades com esse retrato da espiritualidade, se é assim que as pessoas vão ouvir a palavra, não quero ser acusada de usá-la dessa forma.

      A espiritualidade vendida em livrarias, retiros e programas de auditório na TV tende a ser tênue, nebulosa e rica em apelos ao narcisismo. As pessoas “altamente espirituais” que se destacam nesses âmbitos não são do tipo de pessoas que constroem abrigos para os sem-teto ou que desenvolvem obras de caridade; eles desprezam religião organizada, e preferem a evanescência pessoal, em vez de se desempenhar bem em grupo. Agora eu sei que a religião deve ser uma coisa bastante pessoal – Jesus não disse que devemos rezar sozinhos? –, mas não acho que ele queria dizer que nossa prática de religião, ou de espiritualidade, deve remover-nos da vida em sociedade. Pelo contrário, acho que ele queria que contemplássemos o mundo, para que pudéssemos entrar nele mais efetivamente. Não é sobre nós enquanto indivíduos; é sobre como nós movemos, vivemos e servimos o mundo ao nosso redor.

      Eu sinto, também, que, para alguns, “espiritualidade” serve como uma forma de escapismo. Parece não ser fundamentada: não fundamentada no mundo real; não fundamentada no que conhecemos, em nossa época, sobre a natureza do mundo e a natureza do universo. Parece, freqüentemente, ser um retorno a um mundo prístino, anterior, o mundo passado do índio americano, ou de alguma outra religião, seja lá o que for. E parece-me que uma espiritualidade autêntica exige que encaremos duramente e corajosamente o nosso mundo, o mundo de nossa época, o mundo como o conhecemos hoje – encaremo-lo e abracemo-lo.

      Também acho que alguns que usam essa palavra a usam para exprimir seu desafeto com religião organizada. Eles dizem: “Bem, você sabe, eu não sou religioso. Eu não vou à igreja – mas sou muito espiritualizado!” Eu acho que isso significa: “Eu tive uma experiência ruim com religiões organizadas, ou eu acho isso suspeito ou mesmo mau, mas eu gosto de sentir fascínio diante das estrelas sozinho”. Ou talvez signifique “a religião institucionalizada me chateia, não me empolga, me deixa frio e eu tive que procurar um grupo de Wicca, ou um curso de astrologia, ou um curso sobre anjos da guarda, ou qualquer outro grupo fora das igrejas para preencher minhas necessidades espirituais”.

      Não concordo com isso. Acho que todo mundo é religioso de alguma maneira. Muitos especialistas já estudaram o impulso religioso que está aparentemente gravado em nosso ser. Sim, nós encontramos diferentes maneiras de expressá-lo e de alimentá-lo; mas ele está lá. E o próprio fato de que as pessoas que evitam as igrejas parecem ter uma necessidade de ser parte de algo além deles mesmos é também muito forte. Para muitos, é bastante aparente que esses grupos “alternativos” se tornaram equivalentes a igrejas – ouvimos até mesmo pessoas dizerem que seus grupos de estudo são sua igreja, e seus ensinamentos são sua religião.

      Assim, você pode ver por que eu hesitei em usar a palavra espiritualidade no passado – e, de fato, porque eu ainda tenho problemas com ela. Eu não sou a única ministra UUista que tem essas reservas. Muitos ministros já zombaram da espiritualidade que está “correndo solta” em nossas congregações. Como disse Ron Knapp, nós não somos mais o “povo congelado de Deus”1, como já fomos anteriormente acusados; nós nos descongelamos completamente e estamos fluindo, por bem ou por mal, derramando-nos por todos os lados. Para unir as metáforas, ele disse: “nós somos como a pessoa que conseguiu, penosamente, montar sobre um cavalo e saiu cavalgando em disparada nas quatro direções ao mesmo tempo”.

      Entretanto, eu comecei a perceber que negar ou ignorar completamente a palavra me poria na mesma categoria do ateu que, como não consegue mais acreditar no Deus Pai antropomórfico, onisciente e onipotente, que se senta num trono no Paraíso e interfere na vida de todos, declara-se ser ateu, nega completamente a existência de qualquer tipo de deus, e recusa-se a usar a palavra “Deus” para qualquer finalidade.

      Eu me lembro de que, no simpósio Bragg na Igreja UU de Todos os Santos, na cidade de Kansas, uns anos atrás, eu estava numa sessão com o rabino Sherwin Wine, líder da Sociedade para o Humanismo Judeu. De alguma forma, entramos no assunto da linguagem relacionada a deus, e por duas horas, o distinto e insistente rabino argumentou que não há nunca, jamais, em quaisquer circunstâncias, qualquer razão para usar a palavra Deus. Há sempre uma substituta aceitável, dizia ele. Alguns de nós tentamos sugerir que, às vezes, para sermos capazes de nos comunicar com os outros, precisamos usar de uma linguagem comum; que, poderíamos dar nosso próprio significado à palavra, mas não deveríamos descartá-la completamente apenas porque não gostamos do significado de outras pessoas. NÃO, ele gritava, essa seria a saída fácil – não há desculpa para uma pessoa racional usar palavras irracionais, e assim por diante. Por sinal, depois daquela dolorosa sessão, eu fui bisbilhotar as prateleiras da livraria e vi seu mais recente livro; o título era Humanismo além de Deus (Humanism beyond God). Eu tive que comprá-lo.

      Pensando novamente naquela experiência, eu percebi que talvez eu estava sendo tão dogmática com a palavra “espiritualidade” quanto Sherwin era com a palavra “deus”. E eu percebi que há muitas outras interpretações dela do que as que me incomodavam; muitos outros significados que as pessoas atribuem a ela. Então, decidi revisitar a palavra, para ver se eu poderia descobrir alguns significados que fizessem sentido para mim; algumas experiências em minha vida que não são de fato religiosas (pelo menos no sentido tradicional), mas que poderiam ser... bem, espirituais.

      Aqui estão algumas que eu descobri. Você pode chamar de “Espiritualidade além de Deus” – ou sem Deus. Pode ser a melhor palavra para descrever um acontecimento indescritível como um pôr-do-sol, o odor de uma rosa, uma caminhada solitária num bosque, estar apaixonado, ou o sentimento de fascínio quando vemos ou experimentamos algo maravilhoso ou belo. Eu acho que foi assim que Laurel Clark2 se sentiu quando olhou pela janela do Colúmbia e se embebedou da glória daquilo que ela viu. Talvez seja assim que nos conectemos com o divino – o que quer que tenha feito este universo e tudo o que há nele.

      Eu acho que talvez a espiritualidade seja o sentimento de conexão que temos com cada um e com o todo. É a idéia de que nunca estamos realmente sozinhos, que não importa o quão isolados e atomísticos possamos estar nos sentindo, nós somos parte de uma vasta e interdependente rede de seres; somos uma pequena, mas importante, peça do mecanismo da vida. Nunca estamos de fato separados dos alicerces da existência, e o que move uma parte afeta todos nós.

      Acredito que a espiritualidade é estar em contato com o derradeiro núcleo de nosso ser. É também um esforço na direção daquilo que nos traz significado e integridade. É uma postura em direção à vida; uma atitude que se origina dentro do ser. Não é derivada de crenças, práticas, hábitos ou pressões sociais. Para atingir a espiritualidade, a pessoa deve estar alerta à voz interior. Nós falamos de espiritualidade na arte, música e literatura, e queremos dizer que o artista, escritor ou compositor teve uma consciência interior mais intensa do que ultrapassa a vida ordinária; eles foram capazes de ver além do mundano e dentro do espírito de algo.

      Richard Erhardt sugere que q espiritualidade é sobre como vivemos nossas vidas. Ele pergunta: “Estamos enfocados ou dispersos? Estamos presentes no aqui e agora ou nossas atenções estão dirigidas para outro lugar? Estamos continuamente nos desafiando, nossas visões de mundo, nossas atitudes e pontos de vista? Ou temos tanto medo de ser desafiados que nos opomos enfaticamente às correntes da mudança? A questão espiritual é de fato: Somos derrubados por cada vento que sopra em nosso caminho, ou estamos apoiados firmemente e calmamente onde quer que estejamos? Alguém que está em contato com sua própria espiritualidade pode dizer que há uma força interior que o mantém centrado e íntegro quando tudo ao redor está tentando nos fragmentar.”3

      Há outro sentido em que se pode entender que a espiritualidade tem a ver com a maneira como vivemos nossas vidas. É a maneira que Sharon Welch sugere para nos levar a um compromisso com o mundo ao nosso redor, abrindo avenidas para o ativismo e o serviço. Trata-se de usar nossas experiências para oferecer as conexões com outras pessoas e com a natureza, que nos motivam a trabalhar por justiça, honrando essa natureza, e servindo os outros. Sharon escreveu: “Eu não creio em Deus. Eu não conheço nenhum conceito, símbolo ou imagem de Deus... que eu julgo intelectualmente crível, emocionalmente satisfatório, ou eticamente desafiador diante do mal e da complexidade da vida. Entretanto, eu conheço práticas espirituais que de fato mudam nossas vidas, que nos ajudam a ver onde estamos errados, que nos impulsionam a trabalhar por justiça, que nos proporcionam uma noção de sentido e alegria... Você não precisa acreditar em Deus para servir a Deus”.4

      A noção de que a espiritualidade é de alguma forma independente e oposta ao mundo natural parece-me completamente retrógrada. Minha experiência da dimensão espiritual da vida vem de meu compromisso com o mundo natural e com meu conhecimento, ainda que limitado, de como esse mundo funciona. A espiritualidade me lembra de que logo além do meu alcance normal de visão há um mundo de verdade que eu raramente vejo, mas que influencia minha vida diariamente e integralmente. A dimensão espiritual é o que serve para aprofundar, alargar, ampliar minha compreensão de mim mesma, dos outros, e do mundo que é nossa realidade material. Ela me ajuda a reconciliar os diferentes aspectos da vida que é muito tentador manter separados. Ela me lembra que há outras maneiras de conhecer, outras maneiras de ver, outras realidades que têm a possibilidade de nos transformar quando não podemos deliberadamente transformar a nós mesmos.

      Eu ainda acrescentaria que a espiritualidade nos proporciona sentido e valores sem um deus para nos dizer o que está certo e errado. Ela pode ser um substituto para ser piedoso – ou talvez seja a mesma coisa – para ser bondoso!5 “A espiritualidade”, diz Kierkegaard, “é o poder do entendimento de uma pessoa sobre sua vida”. Matthew Fox nos lembra da tensão entre o misticismo (fascínio) e a tradição profética, a luta pela justiça. Devemos sempre equilibrar essa tensão para que a espiritualidade não se torne uma fuga que nos impeça trabalhar pela justiça, ou que sirva para nos evadirmos das dificuldades da vida neste mundo.

      A espiritualidade começa onde começa a vida. Ela não é algo do qual podemos escapar, mesmo se a entendermos literalmente. De acordo com o dicionário Webster, ela vem da raiz latina “spiritus”, que significa sopro, relacionada ao latim “spirare”, a forma verbal, soprar ou respirar. De fato, pode ser relacionada, diz o Webster, ao antigo nórdico “fisa”, que significa “quebrar o vento” (talvez essa palavra já tivesse uma conotação diferente!). Em outras palavras, é como respirar – não podemos viver sem ela. Nós podemos não estar sempre conscientes de que ela está acontecendo, porque está muito entranhada em nós, mas nós de fato percebemos quando ela pára! A espiritualidade pode ser entendida como um tipo de respiração sagrada, sem a qual, evidentemente, não podemos viver. Quando perdemos nosso espírito, ou nos tornamos “des-animamos”, entramos numa dimensão assustadora – depressão, talvez mesmo suicídio.

      Como a respiração, a espiritualidade não é algo que podemos começar e parar quando quisermos. Uma das coisas que ainda me incomoda sobre a espiritualidade é que as pessoas esperam que eu a “dê” a elas. Os ministros UUistas freqüentemente ouvem os fiéis dizerem que querem “mais espiritualidade em nossos cultos”. De certa forma, eu posso entender o que eles estão dizendo. A espiritualidade é uma espécie de palavra-chave para uma emoção profundamente sentida. Querer mais espiritualidade nos cultos é querer sentir mais nos cultos... sentimentos de conexão, alívio, perdão, pertinência, contentamento, gozo. Às vezes é também uma palavra-chave para o uso de rituais históricos e formas de arte como orações, litanias, feriados especiais, comunhão das flores, sinos, sacramentos, coros e hinos, vestes, velas – em resumo, tudo o que seja sensual e colorido.

      Eu agora não tenho problemas em fazer muitas dessas coisas serem parte de nosso culto comum – de fato, eu uso a maioria delas. Acho que ajudam a nos atar e nos dão um fundamento comum. Mas a espiritualidade, parece-me, não é relacionada à igreja ou a religião organizada. David Bumbaugh o expressa da seguinte maneira: “Nós formamos nossos círculos, damos as mãos, acendemos nossas velas e cálices e praticamos nossos rituais não porque eles induzem a dimensão espiritual, mas num esforço para nos lembrar que há tal dimensão à vida. Quando o espiritual invade o mundano, isso é um dom de graça, pois como já se disse, “o espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz”: e isso não ocorre por ordem de ninguém”6. Às vezes uma experiência espiritual pode de fato ocorrer na igreja, mas quando ocorre, não é o resultado de planejamento e organização.

      Algo que me agrada no Unitário-Universalismo é que ele não faz exigências nem levanta expectativas sobre o que uma pessoa vai experimentar em um de nossos cultos. Farley Wheelright, um de nossos velhos ministros mais admirados, escreveu: “Até o que diz respeito a mim, nossas práticas não têm nada a ver com criar espiritualidade. Justamente o contrário, ou ela acontece conosco ou não acontece. Tampouco acredito que a espiritualidade de alguém esteja enraizada em práticas disciplinadas, sejam de liturgia ou de fé. A maioria da liturgia e toda a fé estão sujeitas a leis, rituais, obediência a um poder externo que os outros, num momento ou em outro, nos impuseram como verdade pelas quais viver, morrer e herdar a vida eterna. A espiritualidade não desponta apenas porque são 11 horas da manhã de domingo, ou quando a praticamos como uma tacada de golfe, ou quando a trombeta chama os muçulmanos a se prostrarem diante de Alá. A espiritualidade é gerada nos ossos e desafia traduções e definições.”7

      Eu concordo. Para mim, desde que a espiritualidade existe, ela existe quando se torna a melhor parte da vida de uma boa pessoa. Eu não acredito que ela possa ser empacotada dentro de piedade, ou dentro de meditação, “ismos”, dogmas ou definições. A espiritualidade não tem conexão necessária com fés religiosas; ela tem tudo a ver com a humanidade. Se meus antepassados unitários foram algum exemplo, sua espiritualidade brilhou em sua caridade, integridade, disposição a fazer o que eles acreditavam que estava certo. A espiritualidade é aquele algo indefinível que nós todos sentimos mas não podemos fabricar. É verdade e amor, ética e moralidade, paz e justiça, a fonte de luz e amor. É, definitivamente, vida – vida em sua integridade; vida como é experimentada de todas as formas.



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