Nossa Fé Unitária-Universalista: Perguntas Mais Freqüentes 
por Alice Blair Wesley

(traduzido do site http://www.uua.org/pamphlet/3017.html)

Num serviço religioso ou encontro Unitário-Universalista, provavelmente você encontrará membros cujas posturas em relação à fé podem ser derivadas de uma grande variedade de crenças religiosas: judeus, cristãos, budistas, naturistas, ateus ou agnósticos. Os membros podem lhe dizer que são humanistas religiosos, cristãos liberais ou religionistas universais.

Todas essas pessoas, e ainda outras que rotulam suas crenças de maneira diferente, são fiéis Unitários-Universalistas empenhados na prática de livre religião. Nós meditamos, cantamos, tocamos, estudamos, ensinamos e trabalhamos por justiça social unidos como congregações – enquanto continuamos fortes em nossas convicções individuais.

Se os Unitários-Universalistas têm convicções tão variadas, o que significa ser um Unitário-Universalista?

Quem são os Unitários-Universalistas?

Somos pessoas religiosas que teceram os fios de um passado rico numa tapeçaria do presente.

Nos primeiros séculos da era cristã, os cristãos tinham uma variedade de crenças em relação à natureza de Jesus. No ano de 325 d. C., entretanto, o Concílio de Nicéia promulgou a doutrina da Trindade – Deus como Pai, Filho e Espírito Santo – e acusou todos aqueles que acreditavam em outra forma de hereges.

No século XVI, humanistas cristãos na Europa Central – Polônia e Transilvânia – estudaram a Bíblia cuidadosamente. Eles não conseguiram encontrar o dogma ortodoxo da Trindade nos textos. Portanto, eles afirmaram – como fez Jesus, de acordo com os Evangelhos – a unidade de Deus. Assim, receberam o nome de Unitários.

Esses Unitários do século XVI pregaram e organizaram igrejas de acordo com suas próprias convicções racionais diante da esmagadora oposição e perseguição ortodoxa. Eles também apoiaram a liberdade de religião para todos. Na Transilvânia, hoje parte da Romênia, os Unitários persuadiram a Diet (legislatura) a aprovar o Edito de Tolerância. Em 1568 a lei declarava que, como “a fé é um dom de Deus”, as pessoas não deveriam ser forçadas a aderir a uma fé que não tivessem escolhido.

Nos séculos XVII e XVIII, reformadores radicais da Europa e América também estudaram a Bíblia cuidadosamente. Eles encontraram apenas algumas poucas referências ao inferno, o qual eles acreditavam que os cristãos ortodoxos haviam mal interpretado. Eles encontraram, tanto na Bíblia quanto em seus próprios corações, um Deus que ama incondicionalmente. Eles acreditavam que Deus não julgaria nenhum ser humano como não sendo digno do amor divino, e que a salvação era para todos. Por causa dessa ênfase na salvação universal, eles se autodenominaram Universalistas.

No século XVIII, uma insistência dogmática calvinista na predestinação e depravação humanas pareceu aos cristãos liberais irracional, perversa e contrária tanto à tradição bíblica quanto à experiência imediata. Os cristãos liberais acreditam que os seres humanos são livres para levar em consideração seus chamados internos de consciência e caráter. Negar a liberdade humana é fazer de Deus um tirano e substimar a dignidade humana, dada por Deus.

Em continuidade com nossos antepassados Unitários do século XVI, hoje nós Unitários-Universalistas somos determinados a seguir nossas próprias convicções razoadas, não importa o que os outros possam dizer, e nós consideramos a tolerância um princípio central, dentro e fora de nossas próprias igrejas.

Ainda durante o século XVII, reformadores de vários países europeus, especialmente da Inglaterra, não conseguiram encontrar uma base bíblica para a autoridade e poder dos bispos eclesiásticos. Eles afirmaram, dessa forma, a autoridade e poder do Espírito Santo para guiar seus membros locais. Esses reformadores, na ala esquerdista radical da Reforma, buscando “purificar” a igreja de suas “corrupções”, recuperaram o que eles acreditavam ser a antiga prática da igreja, e a denominaram política congregacional.

Esses mesmos radicais do século XVII suprimiram os credos, ou seja, aquelas fórmulas fixas com afirmações de crença com as quais os membros deveriam concordar. Os membros que se juntavam às suas igrejas assinavam um “acordo” ou “convênio” simples e de redação livre, como este, por exemplo: “Nós nos empenhamos em caminhar juntos pelos caminhos do Senhor da forma que agradar a Ele, para que nós os conheçamos, agora e nos dias que virão”.

Alguns desses reformadores, os Peregrinos e os Puritanos, cruzaram o Atlântico e se aventuraram pelas selvas norte-americanas, com o objetivo de fundar congregações conveniadas cujas direção era feita pelos membros locais. Alguns dessas igrejas congregacionais originais desenvolveram crenças teológicas cada vez mais liberais após 1750, e no início do século XIX, muitas delas acrescentaram a palavra Unitário a seus nomes. Assim, algumas das igrejas mais antigas dos EUA, inclusive a Primeira Paróquia de Plymouth, Massachussets, tornaram-se Unitárias. No final do século XVIII, outros radicais que acreditavam na liberdade religiosa e na salvação universal organizaram congregações Universalistas separadamente.

Em continuidade aos nossos antepassados independentes, as congregações Unitárias-Universalistas de hoje são conveniadas, não aderindo a um credo. A política congregacional é uma doutrina básica. No espírito da liberdade, nós apreciamos o diálogo e a persuasão honestas, não a coerção. Nós adotamos o método democrático como um princípio central. Nossos membros locais se unem para engajar-se e apoiar ministérios de sua própria escolha.

A revolução científica do século XVII iniciou uma grande mudança no pensamento ocidental. No século XVIII, o Iluminismo trouxe uma disposição cada vez maior em olhar criticamente e analiticamente a todas as instituições humanas, sem pressupor a santidade ou o privilégio de nenhuma.

Muitos grupos religiosos resistiram ferozmente a essas idéias científicas e analíticas. Alguns ainda o fazem. Nas igrejas de nossos antepassados, novas idéias científicas e sociais – desde a física Newtoniana até a evolução, a psicologia e a relatividade – encontraram pronta aceitação. De fato, os grandes cientistas e teóricos sociais desse período eram, assumidamente ou não, Unitários ou Universalistas: Joseph Priestley, Charles Darwin, Maria Mitchell e Benjamin Rush, por exemplo.

No século XIX, o aumento das viagens e das traduções dos textos religiosos orientais trouxe uma maior consciência das diferentes religiões. Novamente, muitos de nossos antepassados eram incrivelmente abertos a novas idéias das culturas orientais. Ralph Waldo Emerson foi profundamente influenciado pelo Hinduísmo, e James Freeman Clarke estava entre os primeiros no mundo a incentivar e a ensinar o estudo da religião comparada.

Em continuidade aos nossos antepassados, os Unitários-Universalistas de hoje têm a expectativa de que as novas descobertas científicas coexistam, e não entrem em conflito, com nossa fé religiosa. Nós adotamos o desafio e a alegria da irmandade religiosa intercultural.

Como foi que o movimento ficou com um nome tão grande?

Na América do Norte, o Unitarismo e o Universalismo desenvolveram-se separadamente. As congregações universalistas começaram a se estabelecer na década de 1770. Outras congregações, muitas estabelecidas anteriormente, passaram a adotar o nome de unitárias na década de 1820. Com o passar dos anos, os dois grupos foram convergindo em sua ênfase e estilo liberais, e em 1961 eles se uniram para formar a Associação Unitária-Universalista.

Onde é possível encontrar congregações unitárias-universalistas atualmente?

Mais de mil congregações nos Estados Unidos e no Canadá pertencem à Associação Unitária-Universalista (UUA) de Congregações, com sua sede em Boston, Massachussets.

As mais antigas congregações unitárias ficam na Romência. Há grandes congregações unitárias nos montes Khasi, na Índia. Outras podem ser encontradas na Hungria, República Checa, Polônia, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Austrália, Nigéria, África do Sul, Filipinas e Japão. (Algumas dessas são unitárias e outras são universalistas.)

Os Unitários-Universalistas da América do Norte mantêm relações com outros Unitários-Universalistas no mundo, a maioria através da Associação Internacional pela Liberdade Religiosa (IARF), organizada em 1900. Dentre os membros da IARF estão outros grupos cristãos liberais, bem como grupos humanistas, hinduístas reformados, xintoístas e budistas.

O que os UUs acreditam a respeito de Deus?

Alguns Unitários-Universalistas são não-deístas e não acreditam que falar de Deus é útil. A fé de outros Unitários-Universalistas em Deus pode ser profunda, embora também entre eles falar de Deus por vezes é evitado. Por quê?

A palavra Deus é muito abusada. Com bastante freqüência, a palavra parece referir-se a uma espécie de vovô do céu ou a um super-feiticeiro. Para evitar confusão, muitos Unitários-Universalistas preferem falar em “reverência pela vida” (nas palavras de Albert Schweitzer, um unitário), o espírito do amor ou da verdade, o sagrado, o gracioso. Muitos também preferem esse vocabulário porque ele é inclusivo; é usado com integridade por membros deístas e não-deístas.

Seja qual for nossa posição teológica, os Unitários-Universalistas em geral acreditam que os frutos da crença religiosa importam mais do que as crenças na religião – ou mesmo em Deus. Portanto, nós geralmente falamos mais dos frutos: gratidão pelas bênçãos, aspirações dignas, a renovação da esperança e o trabalho em prol da justiça.

E a respeito de Jesus?

Historicamente, os cristãos unitários-universalistas têm entendido Jesus como um salvador porque ele era um ser humano repleto de Deus, não um ser sobrenatural. Ele foi, e ainda é para muitos UUs, um exemplo, alguém que mostrou o caminho do amor redentor, em cujo espírito qualquer um pode viver generosamente e abundantemente. Entre nós, a muito humana vida e os ensinamentos de Jesus foram entendidos como produtos de, e alinhados com, a grande tradição judaica de profetas e professores. Ele nem quebrou com essa tradição nem a superou.

Muitos de nós honram Jesus, e muitos de nós honram outros mestres professores das gerações passadas e presentes, como Moisés ou o Buda. Como resultado, famílias de tradição mista podem encontrar um solo comum na irmandade UU sem comprometer outras crenças.

E a respeito da Bíblia?

Em muitas de nossas congregações, as crianças aprendem histórias da Bíblia como parte do currículo da escola religiosa. Não é incomum ver grupos de estudo de adultos nas igrejas, ou em oficinas em acampamentos de verão e conferências, enfocando a Bíblia. Alusões a símbolos e eventos bíblicos são freqüentes em nossos sermões. Em muitas de nossas congregações, a Bíblia é lida como qualquer outro texto sagrado pode ser – de tempos em tempos, mas não rotineiramente.

Nós temos apreciado especialmente os livros proféticos da Bíblia. Amós, Oséias, Isaías e outros profetas ousaram dizer palavras críticas de amor aos poderosos, clamando por justiça aos oprimidos. Muitos reformadores sociais universalistas e unitários inspiraram-se nos profetas bíblicos. Nós louvamos os nomes dos profetas unitários e universalistas: Joseph Tuckerman, Dorothea Dix, Clara Barton, Theodore Parker, Susan B. Anthony e muitos outros.

Entretanto, nós não tomamos a Bíblia – ou qualquer outro relato da experiência humana – como um guia infalível ou como a única fonte de verdade. Muito do material bíblico é mítico ou lendário. Não que deva ser descartado por isso! Pelo contrário, ele deve ser guardado como um tesouro. Nós acreditamos que devemos ler a Bíblia como lemos outros livros (ou jornais) – com imaginação e olhar crítico.

Nós também respeitamos a literatura sagrada de outras religiões. Trabalhos contemporâneos de ciência, arte e sociedade são também valorizados. Nós defendemos, nas palavras de uma antiga formulação liberal, que “a revelação não está lacrada”. Os Unitários-Universalistas buscam aspiram a uma verdade tão grande quanto o mundo – procuramos encontrar a verdade em qualquer lugar, universalmente.

Como os UUs entendem a salvação?

A palavra portuguesa salvação deriva do latim salus, que significa saúde. Os Universtalistas Unitários se preocupam com a salvação, no sentido de saúde ou completude espiritual, como qualquer pessoa religiosa.

Entretanto, em muitas igrejas ocidentais, a salvação vem associada a um conjunto específico de crenças ou a uma transformação espiritual de um tipo muito limitado.

Entre os Unitários-Universalistas, ao invés de salvação você vai ouvir nossa ânsia e nossa experiência de crescimento pessoal, aperfeiçoamento da sabedoria, força de caráter e dons de intuição, compreendendo a paz interior e exterior, a coragem, a paciência e a compaixão. As maneiras pelas quais essas coisas nos chegam, nos transformam e nos curam, são muitas. Nós as buscamos e as celebramos em nossas cerimônias.

Que cerimônias são observadas, que datas são celebradas?

Nossas cerimônias – de casamento e início de uma nova família, de nomeação ou dedicação de nossas crianças, e de lembrança de nossos falecidos – são proferidas em linguagem simples e contemporânea. Nós observamos esses ritos em comunidade, não porque isso é necessário devido a alguma regra ou dogma, mas porque neles nós podemos expressar nossas afeições, esperanças e dedicação.

Embora as práticas variem em nossas congregações e mudem com o tempo, os UUs celebram muitos dos grandes feriados religiosos com entusiasmo. Não importa se nós nos reunimos para celebrar o Natal, a Páscoa ou o feriado hindu Divali; nós o fazemos em um contexto universal, reconhecendo e honrando as observâncias e festivais religiosos como inatos e necessários em todas as culturas humanas.

Os Unitários-Universalistas são cristãos?

Sim e não.

Sim, alguns Unitários-Universalistas são cristãos. O encontro pessoal com o espírito de Jesus como o salvador é uma importante parte de suas vidas religiosas.

Não, os Unitários-Universalistas não são cristãos, se por cristão você entende aqueles que acreditam que a aceitação de qualquer crença dogmática é necessária para a salvação. Os cristãos unitários-universalistas são considerados hereges pelos cristãos ortodoxos que afirmam que ninguém, com exceção dos cristãos, será “salvo”. (Felizmente, nem todos os ortodoxos assim o crêem.)

Sim, os Unitários-Universalistas são cristãos no sentido de que a história tanto do Universalismo quanto do Unitarismo são parte da história cristã. Nossos princípios e práticas centrais foram primeiramente articulados e estabelecidos por cristãos liberais.

Alguns Unitários-Universalistas não são cristãos. Embora eles aceitem a história cristã de nossa fé, as histórias e símbolos cristãos não são primários para eles. Eles encontram sua fé pessoal em muitas fontes: natureza, intuição, outras culturas, ciência, movimentos de liberação civil e assim por diante.

Como é conduzida a educação religiosa?

O programa de educação religiosa é determinado, como todos os outros programas, por membros da congregação local. Uma grande gama de cursos é disponível em nossa Associação. Eles são adaptados pelos membros da maneira que preferirem. Cursos apropriados para crianças podem ser oferecidos em tópicos tão variados quanto relações interpessoais, questões éticas, a Bíblia, religiões do mundo, natureza e ecologia, heróis e heroínas da reforma social, história do Unitário-Universalismo, e dias sagrados de outras culturas. O mesmo é verdadeiro para a educação religiosa de adultos.

Em muitas de nossas congregações, celebrações regulares para crianças – geralmente realizadas durante uma porção do serviço adulto – é parte do programa. Nós procuramos ensinar nossas crianças a serem responsáveis por suas próprias idéias e a alimentarem seus próprios impulsos de reverência, moralidade, respeito pelos outros e por si mesmos.

Os Unitários-Universalistas praticam o que pregam?

Os liberais religiosos enfatizam menos as crenças formais e mais a vida prática. Nosso interesse é em ações, não em credos. Nós apreciamos o texto bíblico “Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes”.

Nossos membros têm sido líderes ativos das lutas pela igualdade racial, liberdade civil, paz internacional e direitos iguais para todas as pessoas. Nós trabalhamos como indivíduos, em ação social congregacional e em outros grupos, incluindo esforços tais como o Departamento de Fé em Ação da UUAe o Escritório UU-ONU. Nós também trabalhamos com o Comitê de Trabalho Unitário-Universalista, que leva trabalhos sociais a muitas partes do mundo.

Como eu posso participar de uma congregação Unitária-Universalista?

Muitas de nossas sociedades oferecem sessões introdutórias, grupos de estudo, fitas de vídeo e, cada vez mais, sites na Internet para informar sobre nossa história, princípios e programas a aqueles interessados em se tornar membros. Incentivamos encontros individuais com ministros e membros. Muitos panfletos estão disponíveis na Livraria da UUA. Geralmente, também estão acessíveis nos saguões das igrejas, e mesmo pequenos grupos podem ter uma boa biblioteca de escritos unitários-universalistas. O site da UUA (http://www.uua.org/) é outra boa fonte de informação sobre o Unitário-Universalismo.

Tudo isso, combinado com sua presença conosco nas celebrações e em muitas outras atividades, fornecem meios para aprender mais sobre quem são os Unitários-Universalistas, e se você quer se tornar um de nós.

O último ato de unir-se à congregação é simples, mas significante: você escreve seu nome num cartão de membro ou no livro de membros ou registro paroquial.

Nós não temos exigência de credo. Com sua assinatura você afirma sua promessa de entrar e permanecer num diálogo contínuo e tolerante referente aos caminhos da verdade e amor, um diálogo em que a livre persuasão pode ocorrer; de participar de nossa irmandade e das tomadas de decisões em conjunto; e de apoiar com sua energia e contribuições financeiras nosso trabalho comum para o bem comum.

Sobre a Autora

Alice Blair Wesley é uma ministra unitária-universalista que atuou em congregações em College Station, Texas; Silver Spring, Maryland; Cherry Hill, Nova Jérsei; Hagerstown, Maryland; e Harford County, Maryland.

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