O Dom do Perdão

CARL SCOVEL, MINISTRO EMÉRITO, KING'S CHAPEL, BOSTON, MASSACHUSETTS

“Senhor, eu sei que você diz que nós devemos perdoar uns aos outros”, Pedro deve ter dito a Jesus. “Mas o que fazemos quando perdoamos alguém e ele não for tão gentil quanto nós? E se ele continuar pecando contra mim? Quantas vezes eu devo perdoá-lo? Sete? Ou sete vezes sete?”

“Não”, disse Jesus, “setenta vezes sete. Pois é assim no Reino de Deus”.

A resposta de Pedro não foi registrada. Aposto que ele pensou: “Então quem é que quer ir para lá?”

Se nós tomarmos o que Jesus disse como uma regra, vamos compreendê-lo mal. Jesus não disse que Pedro ou nós devemos contar as ofensas até a 490.ª e revidar na 491.ª. Jesus quis dizer que perdoar é um modo de vida. Devemos perdoar sempre. E que raios isso significa?

Primeiramente, devemos entender que há três coisas que o perdão não é. Ele não é negação. Quando nós perdoamos, nós não esquecemos que fomos magoados, que nós estamos magoados agora, que podemos permanecer magoados por muito tempo — talvez pela vida toda. O perdão não é negação.

Em segundo lugar, o perdão não é isenção de culpa. Não é “ser legal”. Quando perdoamos, não fingimos que o ofensor não é responsável por causa de infantilidade ou biologia. O ser humano é responsável. O perdão não é isenção de culpa.

Em terceiro lugar, o perdão não pe esquecimento. Quando perdoamos, não bloqueamos a memória, tampouco a alimentamos. Mas não, não esquecemos.

O que é, então, o perdão? Essa é uma pergunta muito difícil, mas à medida que eu fui pensando nessa discussão, veio a mim uma resposta.

O perdão não é algo que nós damos ou fazemos, mas algo que recebemos. Não é uma ação. É um dom. Ele vem quando nós o desejamos, e não antes.

É fácil alimentar a raiva e a mágoa. Elas nos dão uma identidade, por mais falsa que seja, e por vezes a cólera e a dor nos deixam melhor do que o vazio que vem quando nós as reprimimos. Mas nós pagamos um preço por ceder à nossa ira. Ela nos mutila. Nós ficamos paralisados.

Quando nós perdoamos, nós nos libertamos, não da mágoa, mas do poder dominador da mágoa. Nós somos capazes de deixar de lado nossa ira. A mágoa e a cólera não mais nos conduzem. Seja de que forma isso aconteça, nós estamos livres. Nós podemos ainda sofrer as conseqüências da ofensa, mas a ofensa não mais nos domina.

Você percebe? O perdão vem primeiro para o nosso próprio bem, e em seguida para o bem dos ofensores, se eles se arrependerem. Eles podem não se arrepender. Eles podem não saber. Eles podem não querer saber. Mas nós, os magoados, estaremos livres.

Este texto foi publicado pela Skinner House em 2003 em Never Far from Home: Stories from the Radio Pulpit (Nunca longe de casa: histórias do púlpito do rádio). 1