versiones, versiones y versiones...Director, editor y operador: Diego Martínez Lora
A poesia húmida(*)
Entrevista a Ângela Marques, a propósito da publicação do seu livro "Confissões dispersas"
(Perguntas: DML)
1) Porquê Confissões dispersas?
Os poemas aqui reunidos têm um tom essencialmente confessional, pelo menos numa primeira leitura. Confessional no sentido de que giram obsessivamente em torno de um “eu”. Dispersas porque não seguem um percurso qualquer, à procura de um sentido, mas como se fossem poemas/confissões respigadas de um longo caminho, ao acaso, ao sabor do vento…
2) Poesia ferida e cicatriz?
Talvez ferida, em processo de cicatrização com certeza. A menos que o sistema imunológico estivesse deficiente, todas as feridas tendem a cicatrizar.
3) A quem e o que deixa a Ângela com este livro para passar a outra etapa?
Os processos de intenções são sempre perigosos: eu disse, de facto, que com este livro pretendia fechar uma etapa e abrir outra. Continuo a ter esse desejo, mas os nossos desejos estão sistematicamente em interacção com circunstâncias da vida. Assim é mais seguro, talvez, dizer que uma etapa se fechou, mas não tanto que outra vai começar.
Deixo este livro ao meu Pai, como testemunho de uma gratidão inefável pela herança que me deixou de liberdade, de independência, de frontalidade. E sobretudo de uma sensibilidade artística muito afinada.
O que deixo para trás é a subserviência à integração simbólica na sociedade, a tentativa, sempre falhada, de agrado ao verniz, o segredo, o postiço.
A nova etapa será a de um caminho solitário, tranquilo, em direcção ao essencial.
Uma depuração.
4) a poesia de Confissões dispersas é húmida como a querer evaporar-se inutilmente, ainda o granito não resiste. Uma lágrima que quer fugir, um tecido muito fino e sensível que apenas pode suportar o peso das palavras...
Agrada-me particularmente a “humidade” referida, como elemento feminino que me é indissociável, e o advérbio “inutilmente”. É a inutilidade, a efemeridade que me move, não a função, o dever, a obediência, por isso é inútil aquilo que escrevo.
Sendo inútil, perguntar-se-á então porque o faço: justamente para mostrar o peso das palavras, a sua opacidade, que em vez de revelar, esconde.
Resumindo é dizer o paradoxo, o que não é apanágio dos modernistas, mas podemos encontrar já desde o século XV. É entre Camões e Mário de Sá-Carneiro que me movo e comovo. Continuando, obviamente, nos contemporâneos de que destaco a ideia pura de poesia e a simplicidade sublime de Eugénio de Andrade.
5) A morte é um desespero? uma fuga? um refúgio? ou um acto de amor, uma entrega total?
Ouvia há poucos dias Mário Cesariny de Vasconcelos dizer, numa entrevista, “a morte não existe”, no que eu concordo plenamente com ele. Ela é uma ficção dos que estão vivos e é seguramente para mim, nos meus poemas, um acto de amor, uma entrega total.
6 )Quase todos os teus poemas tem a palavra olhos ou fazem referência à vista, ao acto de ver ou a imagens visuais. Será que só o que se olha se pode tocar, apalpar?
Há uma personagem de uma peça de teatro que escrevi que diz com ar de desdenho que o “olhar é o sentido mais cerebral que existe”. É de facto o mais distante e por isso aquele que mais tem a ver com as palavras: olha-se e diz-se aquilo que não se tem, porventura numa busca desesperada de tocar, de apalpar, saborear.
7)A poesia como resignação, frustração ou salvação? como compensação ou recompensa ao vivido ou não vivido?
A poesia nunca, de qualquer forma, como uma escolha entre duas opções. A poesia é frustração e salvação, compensação ao vivido e ao não vivido. A poesia esconde e liberta ao mesmo tempo.
(*)Ângela Marques, poeta, escritora, dramaturga e crítica literaria portuguesa. Mora no Porto