versiones, versiones y versiones...renovar la aventura de compartir la vida con textos, imágenes y sonidosDirector, editor y operador: Diego Martínez Lora    Número 54 - Febrero - Marzo 2004


Sara Gomes(*)

Assassinos profissionais


Reformado

 

Estava na rua a passear, quando reparei numa mulher gorda que passeava um cão igualmente gordo, cuja fealdade me incomodou logo à primeira vista. A mulher largou a coleira do cão para ir buscar qualquer coisa à carteira, nisto, o cão começou a correr e a mulher aflita chamou-o de «fofinho, cãozinho lindo». Para meu espanto o cão foi ter com a dona imediatamente. A obediência do cão aborreceu-me de tal maneira que peguei nuns tijolos que por lá se encontravam e lancei-os de forma que atingissem (e matassem) o cão. Uns polícias que por lá andavam vieram ver o que se passava, acudiram a senhora muito aflita que clamava aos céus auxílio e deixaram o animal morrer de dor. A mim chamaram-me desocupado e mandaram-me de volta para o hospício.


Cozinheira:

Mandei-o buscar fígado ao talho. Passaram três horas completas e ele não chegara. Telefonei para o telemóvel mas estava desligado. Fiquei impaciente! Saí de casa à sua procura. Não estava em lado nenhum. Quando voltei, lá estava ele, todo feliz e contente a ver televisão. Perguntei-lhe pelo fígado e ele respondeu:

- Esqueci-me!

Pois eu também me esquecera da lucidez! Foi instintivo… espetei-lhe a faca e retirei-lhe o fígado… os patrões não podiam ficar sem almoço!


Padre:

 

Lá estava eu no confessionário. A mulher não se despachava! Não contava como tinha pecado! Fez montes de rodeios, contou-me o preço das calças, o seu primeiro dia de escola, a marca das sapatilhas dos filhos, contou-me anedotas e pediu-me para adivinhar o que tinha comido ao jantar há dois meses atrás! No fim de tudo, disse-me que não havia nenhuma confissão a fazer:

- Não há confissão?! Não pecou?!

- Não, senhor Padre! Eu apenas vim conversar consigo porque estava prestes a morrer de tédio… Ainda por cima o senhor Padre é tão paciente e engraçado!

Explodi de fúria. Cravei-lhe o crucifixo no olho e mordi-lhe o pescoço de modo a descarnar um pouco de músculo banhado de sangue.


Cabeleireira:

 

Estava imenso calor naquele dia. Entrou uma freira no meu estabelecimento. Pediu que lhe rapasse o cabelo. Fui buscar a máquina. A cliente pegou numa revista e começou a ler. Liguei a máquina e deixei os seus finos cabelos caírem suavemente. Nesse momento passou um vendedor de gelados, fiquei a olhar especada com vontade de abandonar a minha tarefa e comer um. Quando voltei à minha função, a freira já não tinha cabelo e olhava silenciosamente para o espelho com olhos fechados. Estaria morta ou era impressão minha?

 


(*)Sara Gomes, 14 anos, aluna do 9º ano de escolaridade de uma escola do Porto, onde nasceu e reside. Faz também curtas metragens, no âmbito de um workshop de cinema organizado pela Associação "Filhos de Luimière", tendo sido mostradas em público em Serralves e em Santarém.


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