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Ângela Marques(*)
IN MEMORIAM - José Augusto Seabra
José Augusto Seabra, inesperadamente falecido a 27 de Maio de 2004, em Paris,
merece-nos aqui uma breve homenagem, no entanto muito sentida.
É uma figura que constaria inevitavelmente dos "Ilustres" que Sampaio Bruno deu a conhecer, não só da cidade do Porto, mas do país. Figura política antes e depois do 25 de Abril de 1974, pela postura firme a favor da República e da Democracia; intelectual de renome que escreveu a sua tese de doutoramento, sob a orientação de Roland Barthes, com uma perspectiva inovadora sobre a questão da heteronimia em Fernando Pessoa, Fernando Pessoa ou o Poetodrama,; professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; deputado da Assembleia Constituinte; Ministro da Educação; Embaixador de Portugal junto da UNESCO; Embaixador de Portugal na Roménia e na Argentina conciliava toda esta diversificada actividade cívica com a de poeta.
É ao poeta que aqui vamos dedicar algumas palavras.
O poeta da escrita e também o poeta da vida. Com um percurso lento, calcorreado a pés descalços sobre a terra e sobre as rochas, desde os tempos da Antiguidade conhecida, respirada na sua Grécia amada até aos do Modernismo sentido pelas ruas de Paris. Uma poesia que habilmente entrelaça a referência cultural aos sentidos mais chãos, a gramática à desconstrução, a vida à morte.
Uma poesia que os deuses ironicamente povoaram de "metastases", plena de movimento pendular, bisturi e bálsamo. Lugar de intimidade de um eu poético que é criador e criatura.
Desde A Vida Toda (1961) até Sete Tangos Mentais (2002) a poesia foi uma actividade ininterrupta, apenas mais silenciada, por vezes, pelos trabalhos a que o cidadão e o político não podiam furtar-se. Mas a poesia estava sempre lá: no intervalo de reuniões, em viagens, na preparação de um ensaio, nos momentos que antecediam uma aula, certamente. Não foi um capricho de intelectual com uma formação polifacetada, nem uma habilidade de malabarista da língua. Foi um exercício meticuloso e suado; foi
da luz, ó rumorosa
sombra de água e de sol,
acordando radiosa
num perfume de incenso,
num espasmo de rosa. (in Gramática Grega, 1985);
foi um encontro com a música e o amor:
À N. (ouvindo a Norma, de Bellini
sem que amor se rebele com paixão
num parto a repartir-se no pecado
do corpo apunhalado sem perdão?
Como pode e não pode o outro lado
da morte recusar ressurreição?
(in, Conspiração da neve, 1999.
Quando morre um poeta, que se lhe ouçam as palavras.
Porto, 16 de Junho de 2004
(*)Ângela Marques, Porto, 1957. Poeta. Publicou pela Editorial 100: Confissões dispersas