Canções de Osvaldo Lacerda buscam a verdade

 

 

Osvaldo Lacerda (1998)

        Por Luís Antônio Giron

O nacionalismo musical brasileiro  pejorativamente pela crítica contemporânea. Mas cinco gerações moldadas na prática de lançar mão do folclore brasileiro ou de material local locais não podem ser jogadas ao esquecimento só porque adotaram uma postura. Esta é histórica, ao passo que o ouvido é capaz de atualizá-la em contextos incalculáveis. Lançado nesta semana, o CD intitulado "Canções de Câmara de Osvaldo Lacerda" (Paulinas/Comep) soa fora do esquadro das modas. Afinal, o compositor paulista Osvaldo Lacerda, 71 anos, produtor artístico da gravação e autor das músicas, foi aluno do arquinacionalista Camargo Guarnieri. É filho caçula e dileto da escola que um dia dominou a cena musical brasileira e agora padece do desprezo de público e crítica. Independentemente do ideário estético, o CD é excelente.

 

O nacionalismo de Lacerda deve ser acolhido de forma menos automática. Ele já vem dosado pela crítica ao excesso das gerações anteriores. O CD demonstra bem a situação. Traz doze canções, além dos arranjos para o ciclo de doze modinhas "Márília de Dirceu", do compositor português Marcos Portugal (1762-1830), sobre versos de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1809). As obras recebem interpretação eficiente do tenor Tomasino Castelli e da pianista Eudoxia de Barros. Os artistas e o repertório foram escolhidos pelo compositor.

Muitos chamam Lacerda de "pós-nacionalista", já que incorporou outros modelos. Lacerda nunca desprezou a vivência de outras culturas musicais. Em 1963, estudou nos Estados Unidos com o compositro Aaron Copland –aliás, monumento do nacionalismo musical norte-americano. O brasileiro pode ser definido como nacionalista globalizado.

A exemplo de seu contemporâneo Tom Jobim na área popular, Lacerda foi vincado pelo internacionalismo e a influência de Villa-Lobos. Ao longo de 46 anos de atividade ele se dedicou especialmente ao gênero de câmara. Realizou, no âmbito da canção, aquilo que Tom Jobim, para citar um exemplo, tanto ambicionou sem conseguir: criar peças refinadas para voz e instrumentos. Lacerda já escreveu perto de seis dezenas de lieder de câmara. Continua em atividade intensa em São Paulo, compondo e ensinando, preocupado em incutir nos discípulos princípios coerentes, em que o patrimônio sonoro local recebe um peso específico.

Segundo ele, o compositor deve ter em mente que canção é poesia cantada. "Se ele se esquece desse fato ou o desconhece, o resultado podeerá ser desastroso: a poesia ea música seguirão, or assim dizer, direções opostas". Ele reconhece que cada compositor tenha uma personalidade e que a poesia se preste a tratamentos diversos. "Mas... Não haverá sempre um enfoque mais próximo da ‘verdade´poética? Foi o que sempre me preocupei em conseguir na composição das canções".

A "verdade" poética segundo Lacerda está na transparência mútua entre partitura e poema. O CD representa uma intervenção direta do artista e, só por isso, já merece figurar na discoteca dos que gostam de boa música brasileira. Não há como negar a bela escritura tonal e modal do compositor e a maneira como articula a linha vocal com o acompanhamento agitado, muitas vezes polifônico, do piano. No Cd estão desde a primeira canção composta por Lacerda, "Minha Maria", sobre versos de Castro Alves, até produções mais recentes, como "Em uma Frondosa Roseira", com versos de Tomas Anonio Gonzaga, de 1991. De 1949 data também a canção "Teus Olhos", com texto do poeta romântico Laurindo Rabelo (1816-1864), rica em harmonias e saltos de intervalos.

A delicadeza de textura é o traço distintivo das canções. Basta ouvir "Bilhete Àquela que Ainda está por Nascer", baseada em versos de Paulo Bonfim, em que o poeta fala a uma amada que há de nascer "no ano três ou quatro mil". O tema, diga-se de passagem, é reaproveitado por Chico Buarque em "Futuros Amantes’. Mais ousadas são as músicas para o "Poemeto Erótico’, de Manuel Bandeira (1886-1968),com dramatização quae politonal do acompanhamento, e "Noturno" (Vicente de Carvalho), suave canção sobre um tema plano. O disco termina com uma canção de sabor nordestino: "Menina, Minha Menina", baseada em trovas de amigo do Nordeste.

O nacionalismo de Osvaldo Lacerda nunca é óbvio ou caricato. Ele repercute no plano dos temas, mas nem sempre; comparece à melodia, mas não de forma explícita. Talvez por temor de acusações dos antinacionalistas, o compositor esclarece no livreto do disco: "As melodias são de minha autoria, nenhuma delas provindo do folclore". Tampouco a interpretação Castelli e Eudoxia recai no folclorismo. É preciso ouvir o CD como se a fé nacionalista fosse um eco distante e refratário que a personalidde artística de Lacerda não conseguiu evitar. Nacionalismo, enfim, não é um pecado capital.                             

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