MAÇONARIA ORGANIZADA 1

 

MAÇONARIA ORGANIZADA





Silpinto



    1. O PRINCÍPIO - OU A PRIMEIRA POTÊNCIA

    Quando, em 24 de junho de 1717, fundou-se a Grande Loja de Londres e Westminster, na Inglaterra, teve início o que hoje chamamos de Sistema Obediencial da Franco-Maçonaria. A palavra mágica, aí, é Obediencial. Significa que uma "obediência" está sendo gerada, que algo com poder de "mando" está se estruturando, se impondo sobre outros, que lhe devem "obediência", que lhe devem obedecer, como um poder, central, e mais alto.

    E assim foi. A partir daquela data, nos meios maçônicos estabeleceu-se um novo tipo de relação, através da qual as Lojas passaram a se vincular a esse novo órgão, a Grande Loja de Londres e Westminster. Isso, claro, na Inglaterra. Em outros países, como França, Alemanha e Itália, as mudanças só vão ocorrer muito tempo depois, quando o novo sistema acabar convencendo que era superior ao anterior.

    Ao ser inaugurado esse novo sistema, nem todas as Lojas inglesas a ele aderiram. Na verdade, de início. foram apenas aquelas quatro, responsáveis pela inovação, a saber: 1) - The Goose and Gridiron (o Ganso e o Grilo); 2) - The Crown (A Coroa); 3 - The Apple Tree (A Macieira) e 4 - The Rummer and Grapes (A Taça e as Uvas). As demais Lojas, tanto da capital como do resto da Inglaterra, Escócia e Irlanda, continuaram a seguir o antigo sistema, aquele do "maçom livre em loja livre". Quer dizer, aquele em que cada oficina era totalmente independente, nenhum organismo central a interferir em suas respectivas formas e maneiras de existir. No máximo,  com precariedade, observavam os antigos costumes, as velhas regras da época operativa, as lendas, os princípios religiosos e cristãos de que estavam eivadas.   Sem nenhuma uniformidade.  Daí, quem sabe, a principal razão da fundação do novo órgão, um meio de ganhar essa unidade.

    Veja-se que, com a edição de suas Constituições, em 1723, ficou determinado pela Grande Loja de Londres e Westminster, que ela, as Constituições, com História, Leis, Obrigações, Ordens, Regulamentos e Usos da "Mui Venerável Fraternidade dos Maçons Livres e Aceitos", coligidos "de seus Arquivos gerais, e de suas fiéis Tradições de muitas Eras", era para uso das Lojas de Londres e deviam ser lidas "ao se fazerem NOVOS IRMÃOS, ou quando o Mestre o ordenar."

    Além do que, ficou definido,  regra XI, dos Regulamentos Gerais:
"Todas as Lojas particulares devem observar os mesmos Usos o quanto for possível; é por essa razão, e para cultivar uma boa Inteligência entre os Maçons, que alguns Membros de cada Loja serão incumbidos de visitar as outras Lojas sempre que isso for julgado conveniente."

    Com absoluta evidência, aí está, clara e expressamente, o objetivo de uma pretendida uniformidade, dentro das Lojas. E mais, ainda. Essa preocupação por implantar um novo sistema, de natureza obediencial, de cunho indiscutivelmente administrativo e organizacional, acima das Lojas, está, então, obviamente materializado na regra XII, assim redigida:

    "A Grande Loja é formada por Mestres e Vigilantes de todas as Lojas regulares e particulares Registradas, com o GRÃO-MESTRE à Frente, e seu Deputado à sua Mão esquerda, e os Grandes Vigilantes em seus Lugares respectivos, e deverá ter uma COMUNICAÇÃO TRIMESTRAL nos dias de São Miguel, Natal e Anunciação, num lugar apropriado, que o Grão-Mestre designará, e a qual nenhum Irmão assistirá, se não for nesse momento Membro, sem Dispensa, e enquanto estiver presente, não lhe será permitido votar, nem mesmo exprimir sua Opinião, sem que tenha sido pedido e obtido Autorização da Grande Loja, ou a menos que tenha sido devidamente solicitada pela dita Loja. Todos os Assuntos devem ser decididos na Grande Loja pela Maioria de Votos, cada Membro tendo um Voto, e o Grão-Mestre dois Votos, a menos que a dita Loja defira algum assunto particular para a Decisão do Grão-Mestre, por motivo de Urgência."

    Estava, assim, com essas e muitas outras regras, inseridas nos Regulamentos Gerais da Grande Loja de Londres e Westminster...

   "Compilados inicialmente pelo Sr. JORGE PAYNE, no Anno de 1720, quando ele era Grão-Mestre, e aprovados pela Grande Loja no dia de São João Batista, no Anno 1721, em Stationer's-Hall, Londres, quando o mui nobre Príncipe João Duque de Montage foi unanimente eleito nosso Grão-Mestre para o Ano seguinte (...) "

    ...estabelecido, daí para o futuro, um novo sistema organizacional da Franco-maçonaria, que acabaria por lhe imprimir notável desenvolvimento, ganhando o mundo inteiro. Em 1721, somavam-se 16 lojas; em 1725, 64; em 1732, 102... 


2. A SEGUNDA OBEDIÊNCIA - OU A REAÇÃO

    A toda ação outra se lhe opõe, de igual sentido e valor. Lei física, que entre nós exprimimos como a lei do contraditório, numericamente simbolizada pelo número "dois". De modo que, fundada a Grande Loja de Londres e Westminster, trazendo em seu bojo inúmeras alterações, mexendo e remexendo no velho status quo Franco-maçonaria, alguma coisa teria de acontecer, em sentido oposto.

    Não demorou muito para que os maçons das Lojas que não haviam aderido ao novo sistema investissem contra o mesmo, acusando os modernos de heresia, de desvirtuamento dos antigos costumes, leis, regras e tradições.

    É nas lojas especulativas, simbólicas ou dos altos graus, onde se exercita a franco-maçonaria. Nessas lojas, também chamadas oficinas, é o local onde os franco-maçons apreendem a "maçonar". Por enquanto, não é o momento dizermos o que seja isso, "maçonar". O propósito, agora, é falarmos sobre a complexa organização da franco-maçonaria.

    Embora ela seja universal, porque presente nos quatro cantos da terra, ela não possui nenhum órgão mundial, centralizador, com algum tipo de Supremo Grão-Mestre, mandando em toda a franco-maçonaria, uma falsa idéia que os seus detratores já tentaram impingir.

3. ALGUNS ESCLARECIMENTOS

1. Que era uma Grande Loja? - Na Idade Média, as lojas operativas se reuniam, em assembléia geral, ordinariamente, uma vez por ano. A essas reuniões denominavam de Lojas Gerais ou, então, de Grandes Lojas. Em tais ocasiões, escolhiam um Grão Mestre, que presidia os trabalhos, e mais dois Vigilantes. Os assuntos em pauta versavam sobre questões do ofício. Como se vê, não havia nem sede nem um corpo administrativo permanente, como hoje ocorre.

2. Os Maçons Aceitos. - No entanto, um fenômeno estava acontecendo, há algum tempo (desde 18 de junho de 1600), dentro da Maçonaria Operativa. Determinadas pessoas, que não eram maçons (pedreiros), por razões, ainda não suficientemente esclarecidas, passaram a ser admitidas, na condição "maçons aceitos".

    Para alguns historiógrafos, seriam assim uma espécie de "maçons honorários", que quer dizer "honraria". Tudo indica que os operativos tivessem necessidade dos aceitos, e estes também necessitariam daqueles, porque as corporações dos pedreiros, da chamada arte real, recebia especial proteção da monarquia, gozando de certos privilégios, principalmente, o de livre trânsito.
    Também, estavam amparados, os operativos, pelo costume do sigilo¸ não obrigados a declinarem seus segredos, quaisquer que fossem. Nada melhor, assim, naquela época, para políticos e pensadores, então insurgentes contra uma situação política e cultural limitadíssima em que viviam, mas ao sabor das idéias revolucionárias que aportavam em toda a Europa, aos influxos do Renascentismo, e ainda, veladamente, sublinhe-se, os heréticos, os místicos, os esotéricos, os alquimistas, todos quase sempre acusados de bruxaria. Eles certamente encontrariam nessas corporações um abrigo, senão para suas idéias, ao menos para circularem, ocultarem-se.
    E, para os Operativos, também era interessante receber tais pessoas, pois, além das importâncias que pagavam, eram elas ou oriundas da aristocracia ou pessoas de grande influência e saber.

3. Declínio das Corporações de Ofício. - As corporações de ofício, desde o séc. XII, foram adquirindo forte estrutura e organização. Era-lhes reconhecido o direito de regular as condições de trabalho, determinar os preços, elegerem seus chefes, os grêmios consultivos e os dignitários honoríficos, exercendo jurisdição sobre seus membros, isto é, processos, julgamentos e condenações. Inclusive, em sistema de revezamento semanal, exerciam atividades de ronda e o policiamento da cidade.
    Quem quisesse se estabelecer com um negócio, deveria habilitar-se junto à respectiva corporação, da qual recebia a devida autorização, mediante pagamento de taxas.
    As corporações de ofício eram poderosíssimas, muito mais que um arremedo dos simples sindicatos de hoje, tanto que em muitos lugares exerciam o poder político, alijando para plano inferior a própria aristocracia.
    Criou-se uma casta de poderosos, por isso mesmo muitas rivalidades e lutas internas, tantas eram as dificuldades principalmente para companheiros e aprendizes, subordinados às exigências daqueles que estavam no comando. Na Inglaterra, alcançaram representação política no próprio Parlamento (Casa dos Comuns).

    Mas, a partir do séc. XV, as corporações passam a sofrer um processo histórico de desgaste, em toda a Europa, que cada vez mais se acentua, com a descoberta da América, a evolução do comércio internacional e o surgimento do poder financeiro, paulatinamente o sistema artesanal sendo substituído pelas formas empresariais capitalistas de comércio, produção e trabalho.

    No séc. XVIII, embora não sendo a regra, essas corporações remanesciam mais como organizações sociais e de caridade. As lojas já então eram formadas quase, senão, exclusivamente, por "aceitos", e reuniam-se em tabernas, voltadas para práticas essencialmente especulativas.

4. Nasce a Grande Loja de Londres. - Em 1717, essas lojas espalhavam-se por toda a Inglaterra. Não tinham, porém, nenhum órgão central administrativo, nem sede, e cada qual obedecia suas próprias normas, ainda que a embasá-las estivessem as velhas e antigas regras da maçonaria operativa. Indubitavelmente, essas lojas já eram especulativas.
    Mas, com tais características, o período é nominado pelos historiógrafos como o do maçom livre em loja livre.

    Urgia uma disciplinação. Algumas reuniões preliminares ocorrem, entre as lojas. Entretanto, apenas quatro delas, em 24 de junho de 1717, dia de São João, reúnem-se no pátio da Igreja de São Paulo, em Londres, e fundam a Grande Loja de Londres e Westminster.

    Essas 4 lojas eram conhecidas pelos respectivos nomes dos locais onde costumavam reunir-se, ou seja, as tabernas: 1) - The Goose and Gridiron (o Ganso e o Grilo); 2) - The Crown (A Coroa); 3 - The Apple Tree (A Macieira) e 4 - The Rummer and Grapes (A Taça e as Uvas).
    Nomes pitorescos, como se vê, que eram próprios dos estabelecimentos e se estendiam às lojas somente porque em tais lugares é que se reuniam.

    Concluindo, as 
razões que levaram à fundação da Grande Loja de Londres e Westminster, como se tem adiantado, estava a intenção de disciplinar e ordenar, sistematizar o que as lojas então faziam livremente, confusa e atabalhoadamente.
   

 
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