O mais antigo livro de Medicina que se conhece, escrito cerca de 1000 anos antes de Cristo — o "Livro de Medicina Interna do Imperador Amarelo" — faz referência ao uso do magnetismo nas artes da cura. Há evidências, em obras hindus, egípcias e persas, de que as propriedades da magnetita eram conhecidas mesmo em épocas ainda mais remotas.
Quando se descobriu a eletrização por atrito, começou-se a suspeitar de uma possível relação entre esse fenômeno e o magnetismo, já que ambos apresentavam a característica da atração. Mas não existiam meios para investigar se a suposição tinha fundamento.
Tendo observado que pedaços de magnetita, quando em formas mais ou menos semelhantes a cilindros ou barras, apresentavam a tendência de se orientar na direção (aproximada) norte-sul, os chineses inventaram a bússola. Originalmente as bússolas não possuíam indicadores delgados como as atuais "agulhas imantadas"; tinham uma base em feitio de tigela rasa, sobre a qual repousava uma "concha de sopa" feita de magnetita. Essa concha era construída de tal maneira que o cabo não se apoiava na beirada da tigela, mas ficava livre para se mover, e sempre acabava apontando no sentido sul.
Nos séculos seguintes descobriram-se alguns fatos intrigantes: os ímãs (que nada mais eram do que os tais cilindros ou barras de magnetita) dispõem de "pólos", em número de dois, e opostos. O comportamento de dois ímãs, ao serem aproximados, depende dos tipos de pólos em aproximação: os opostos se atraem e os semelhantes se repelem. E talvez o maior mistério de todos: não se podem obter pólos isolados ("monopolos magnéticos")! Sempre que um ímã é quebrado, instantaneamente aparecem pólos opostos nas extremidades partidas. Cada fragmento do ímã original é também um ímã completo, não importando em quantos pedaços tenha sido quebrado — ou esmigalhado — o primeiro.
A relação entre eletricidade e magnetismo, comprovada em 1820, autorizou Ampère a sugerir a existência de correntes elétricas microscópicas e permanentes na matéria imantada.
Quanto ao fenômeno da orientação espontânea na direção (aproximada) norte-sul, a hipótese de que o planeta Terra é um grande ímã, como sugeriu William Gilbert, parece razoável: uma vez que pólos diferentes se atraem, o sul magnético da Terra atrai o norte do ímã, e vice-versa.
Maricourt batizou os pólos do ímã de acordo com o sentido para o qual apontavam; concluimos então que o norte geográfico corresponde (aproximadamente) ao sul magnético da Terra, e vice-versa. Só falta descobrir o que está provocando o magnetismo do planeta.
Por volta de 1600 Gilbert ainda pensava em "eflúvios" na tentativa de entender o magnetismo, mas, um século depois, idéias semelhantes a essa estavam banidas do pensamento científico devido ao prestígio da obra publicada por Isaac Newton em 1687, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural), um tratado de Mecânica Clássica que incluía a Teoria da Gravitação Universal.
Essa teoria, que teve grande sucesso em explicar fenômenos até então incompreendidos, passou a ser aceita livremente, e a filosofia na qual se baseava acabou sendo estendida a campos não abrangidos por ela, como por exemplo a Eletricidade e o Magnetismo.
O fato é que a Teoria da Gravitação Universal de Newton supunha a atração gravitacional como uma força que agia à distância — ou seja, sem necessidade da existência de coisa nenhuma entre os dois corpos em interação. Dispensava eflúvios, almas, ou qualquer coisa que emanasse dos objetos. Bastava haver um corpo de massa m1 aqui, outro de massa m2 ali, e pronto! os dois atraíam-se instantaneamente com uma força proporcional ao produto das massas, e inversamente proporcional ao quadrado da distância.
A respeitabilidade (até hoje indiscutível) dos trabalhos de Newton influenciou o modo de pensar dos outros estudiosos, e foram elaboradas fórmulas parecidas com a da Lei da Gravidade tanto para as interações magnéticas (John Michell, 1750) quanto para as interações elétricas (Augustin Coulomb, 1785). Hoje se sabe que essas expressões — baseadas não só na Mecânica de Newton como também em cuidadosas medições — não estão erradas; no entanto (como a própria teoria em que foram inspiradas), são úteis em um número limitado — embora grande — de casos, não tendo validade universal.
As evidências da correlação entre eletricidade e magnetismo, obtidas por Oersted, Faraday e outros, eram experimentais (fundamentadas em experiências), sem sustentação em nenhuma teoria que lhes desse legitimidade matemática. Essa teoria — o Eletromagnetismo — foi construída depois por James Clerk Maxwell, que se baseou principalmente nos experimentos de Faraday, e na sua própria criatividade e erudição.
USO DO MAGNETISMO PELOS POVOS ANTIGOS
Existem indícios, na antiga literatura de vários povos (hebreus, árabes, hindus, egípcios e chineses), de que o fenômeno do magnetismo é conhecido há alguns milhares de anos.
A magnetita era usada com finalidades terapêuticas; as doenças tratadas iam desde reumatismo e espasmos musculares (câimbras) até prisão de ventre. Os médicos chineses usavam as pedrinhas magnéticas juntamente com a acupuntura, na tentativa de aliviar dores e de restabelecer a saúde de seus pacientes.
Quando a bússola foi inventada, seu uso não se destinava à orientação dos viajantes, mas sim à prática do Feng Shui, uma arte chinesa exercida ainda hoje. Os praticantes do Feng Shui acreditam que a construção de edifícios, túmulos e monumentos, e também a disposição dos móveis e objetos dentro destes, devem obedecer a uma certa orientação em relação aos pontos cardeais. O objetivo é harmonizar os ambientes para a obtenção de bem-estar e felicidade.
Atualmente comercializam-se muitos objetos magnéticos para tratamento de saúde: braceletes, calçados, adesivos, colchões, etc. Porém não há, até agora, nenhuma evidência científica (isto é, obtida por meio do "método científico") de que esses métodos sejam realmente eficazes.
Comentários
A sugestão de Ampère sobre a causa do magnetismo dos ímãs naturais é interessante, mas precisamos imaginar que "correntes elétricas microscópicas e permanentes" seriam essas. Sabemos que os átomos, embora neutros, possuem cargas positivas e negativas, e portanto as correntes (se existirem) poderiam ter aí sua origem.
Corrente elétrica significa carga em movimento. Seriam elétrons girando ao redor do núcleo?
Não, os elétrons não giram ao redor do núcleo!
A resposta para a causa do magnetismo natural é dada pela Mecânica Quântica.
E quanto ao magnetismo da Terra? Haverá correntes elétricas no interior do planeta? Se houver, como foram iniciadas e como se mantêm? Ou existirá talvez um grande ímã permanente enterrado nas profundezas? Será uma enorme pedra de magnetita ou um descomunal bloco de ferro? E como isso foi parar lá?
Parece que a tentativa de responder algumas perguntas faz aparecer muitas outras.
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