| |
|
|
|
ASSÉDIO
SEXUAL NO BAILE DE MÁSCARAS

Monica Lewinsky não é
propriamente a Cinderela que ingenuamente perdeu o
sapatinho de cristal no palácio real, nem Bill Clinton
é o lobo mau que, nesta mediática floresta de mal
entendidos, se sujeita a expor-se às ratoeiras de
qualquer encapuçada donzela menos escrupulosa em guardar
para si a intimidade dos factos eventualmente ocorridos
nesta nova modalidade de "desportos radicais".
Mas, se no chorudo negócio da
devassa pública, Monica não perdeu o sapatinho nem
qualquer outro adereço íntimo, por certo terá perdido
o verniz da sua suposta inocência, ao querer
implicitamente assumir-se como miniatura tamagochiana
de uma invejável e insubstituível Marylin Monroe.
O que deveras me irrita nesta
história é o facto de, em si mesma, ela não ter nem
rabo nem cornos por onde se lhe pegar e de, por
acréscimo, revelar a existência de uma cultura
vulnerável à mercantilização dos afectos e à
consequente estupidificação da dignidade humana; uma
cultura tristemente assexuada, incapaz de compreender que
o Amor nada tem a ver com o fast-food e impotente
para assumir que a sedução, o enamoramento e a paixão
constituem sublimes e intocáveis atributos da condição
humana e da sua natural maturação bio-psicológica
muito mais complexos que a composição química da Coca
e da Cola.
Em Portugal (goste-se ou não)
o assédio sexual resolve-se, regra geral, com um ou dois
pares de bofetadas. Na América de Clinton, o fenómeno
parece agigantar-se e carecer de um bode expiatório
passível de desculpabilizar a malandrice dos seus reais
co-autores. Ora, neste imbróglio, o Iraque parece ser,
uma vez mais, a solução perfeita para ludibriar o
atento e (a)crítico moralismo americano.
Curiosamente, a mesma opinião
pública (pretensamente púdica) que condena o alegado
assédio de Bill Clinton a Monica Lewinsky, é a mesma
opinião pública que aplaude a anunciada intenção de
invasão norte-americana ao Iraque, o que comprova a
minha teoria de existência de um cúmplice e interactivo
voyeurismo sado-masoquista de "Sexo,
Mentiras e Vídeo" a encimar os desígnios da
moderna mitologia norte-americana. Pena é que o mundo
ocidental esteja a importar os usos e abusos deste
corrosivo produto culturalmente atípico e tipicamente
inculto, sem que o mesmo, à semelhança dos automóveis
usados, não esteja devidamente identificado com uma
qualquer matrícula "K".
Enfim, é Carnaval e ninguém
leva a mal que esta crónica tenha resvalado para a
insignificância dos alegados comportamentos namoradeiros
do Presidente Bill Clinton. Porém, é legítimo esperar
que a comprovarem-se as acusações de Monica Lewinsky, o
poder político norte-americano deixe de a elas ripostar
com o papão iraquiano e resolva, por exemplo, levantar o
velho e arrastado embargo económico a Cuba ou ouse
denunciar e acusar a Indonésia de permanente violação
dos direitos humanos em Timor. Se assim for (e com os
votos para que assim seja), "Play it again,
Monica".
Fernando Manuel
Cortes Leal,
Fevereiro
de 1998
|