* * *
Uma grande porta de ferro bloqueava a entrada para a câmara
do Mestre Espiritual, sólida, imóvel e fria. Mas, ao contrário
do que se poderia esperar, não dava a sensação de
quietude, ou silêncio. Parecia ser, de alguma forma, sensível
a cada movimento pró-ximo a si.
Lucas quase não notou que tocava sua superfície
de leve, intrigado. Era fasci-nante, não só esta entrada,
como todo o complexo no qual residiam os espiritualistas. Tudo parecia
emitir energia, mas não algo físico, cientificamente explanável
dentro dos conceitos que ele durante muito tempo estu-dou. O lugar transmitia,
transpirava, emo-ções, de um jeito diferente, quase natural,
como se elas viessem embutidas em sua pró-pria matéria. A
porta lhe dava uma estranha sensação de vigilância,
de estar sendo obser-vado. Como se, ao seu menor movimento ofensivo, ela
fosse jogar-se por cima dele e esmagar-lhe como se fosse um inseto.
Qual não foi sua surpresa quando, ao tocá-la, pôde
sentir que se movia? Por um momento, um pavor enorme assolou seu coração,
medo de que um movimento errado tivesse provocado sua morte iminente. Mas
logo o pavor era substituído por um imenso alívio, ao ver
que a porta movia-se não em sua direção, mas para
o outro lado. Estava se abrindo.
As poucas experiências que havia tido neste lugar até
agora em nada agrada-vam Lucas. Não conseguia ficar um só
se-gundo sem que seu coração tentasse subir-lhe à
boca. Era desesperador.
Assim que a porta abriu espaço sufi-ciente para sua passagem,
entrou rapida-mente, quase correndo, ansioso para pôr-se o mais longe
possível daquela maldita porta. De fato, só se deu conta
que entrara quando já estava quase no meio do aposento. Parou e
olhou em volta, atônito.
Não era o que esperava, sem dúvida. Já havia
visitado as câmaras dos outros dois mestres, e eram todas adornadas,
cheias de livros, objetos mágicos, prateleiras, estan-tes... A de
Raphael em particular possuía vários tubos de ensaio e materiais
para expe-riências, e até um computador; já a de Mar-cos
tinha um saco de areia, ou algo muito mais forte, para resistir aos seus
golpes for-tíssimos, e uma “maquivara”, aquele pedaço de
madeira fortemente pregado ao chão, em que os praticantes de artes
marciais costu-mam enfiar os maiores murros (só que essa era de
ferro).
Mas não esse lugar. Aqui as paredes e o chão eram
nus, e o aposento apresentava forma circular. No seu centro brilhava uma
intensa chama azulada, e, ao lado desta, de costas, estava uma figura de
manto azul, flutuando, pernas cruzadas. Assim que Lucas entrou, o homem
saiu de seu aparente estado de transe, e desceu os pés ao chão,
lenta-mente. Tirou o capuz que cobria seu rosto, devagar, e, debaixo deste,
apareceu, quem diria, um sorriso.
Não um sorriso destes abertos, de dentes a mostra. Era
mais um meio-sorriso, de satisfação. O homem tinha um rosto
ami-gável, apesar de tudo. Se é que se podia di-zer homem
por completo, já que Lucas sabia que não teria muito mais
que 23 anos. Talvez a príncipio parecesse meio moleque, com o cabelo
liso descendo de lado, quase até o olho, e seu sorriso alegre dando
a impressão de que em breve se transformaria em garga-lhadas. Mas
isso seria apenas até que chegas-se à seus olhos. Negros.
Se havia palavra capaz de definir seus olhos, é esta. Não
digo castanhos escuros, meio amarronzados. Eram negros mesmo, como um buraco
negro dentro de suas pupilas, sugando toda a luz que passasse próxima
a si. Tão grande era a negritude de seu olhar, que mal podia se
di-zer a direção em que fitava.
Aproximou-se de Lucas, e sua voz soou calma e satisfeita:
- Seja bem vindo.
Lucas nada falou, dando como res-posta apenas um “hum”, que não
podia se distinguir como sendo positivo ou negativo. O outro continuou:
- Raphael estava certo quando disse que era teimoso. Percorrer
toda a distância até aqui e ainda conseguir dar um jeito de
falar comigo, tudo em um dia... Você deve estar cansado. Sinta-se
à vontade, não preci-sa ter medo. Quer beber alguma coisa?
- Não, senhor, obrigado.- Lucas mentiu. Estava morrendo
de sede, mas não queria demonstrar qualquer sinal de fraque-za.
Também não se sentia à vontade neste lugar vazio e
escuro. Além do mais, de onde que ele tiraria algo para beber? Não
tinha absolutamente nada aqui.
- Pode me chamar de Ivan.- disse o outro, virando-se e
andando até a parede, de modo descontraído.
- Claro.- Lucas soou baixinho, quase irônico.
Ivan abaixou-se proximo à parede, e nela formou-se uma
espécie de torneira, da qual jorrou um líquido vermelho,
parecia vinho. Ivan tirou um copo sabe-lá-de-onde, e começou
a enchê-lo. Puxou conversa:
- Então, você conhecia Julia, não é?
- Sim.- Lucas tentava fechar-se ao máximo, com medo de
que o misterioso ser à sua frente pudesse penetrar nas profundezas
de sua alma à menor distração. E, pior de tudo, era
bem provável que realmente pudes-se.
- Boa aluna. Ela tinha tino pra coisa. Talento.- tomou um gole
do vinho, e depois continuou- E disposição. Ela gostava muito
de magia, sim senhor.
Nenhuma novidade até agora. Ra-phael já tinha
dito isto também. E daí que ela gostava de magia? Vai morrer
por isso?
Então uma curiosidade surgiu em sua cabeça. Não
queria fazer perguntas, queria apenas respostas. Não havia necessidade
de perguntar por nada, esses caras sempre adi-vinham tudo. Mas a vontade
foi crescendo, o silêncio aumentando. Os dois “buracos ne-gros” no
lugar dos olhos de Ivan penetravam profundamente nos seus, provocando nervo-sismo.
Por fim, desistiu:
- Você que convidou ela pra entrar na escola?
Ivan tomou outro gole do vinho, sempre devagar, e respondeu:
- De fato, não. Ela despertou seu dom sozinha. O destino
nos fez cruzar, e, ao saber de minha posição como líder
de uma escola de magia, pediu para ingressar. Era ansiosa por aprender.
Se havia algo que ela não tinha, era paciência, sem dúvida.
Nervo-sinha que só ela. Mas você deve saber disso, se a conhecia.
Se bem que ela foi ficando mais nervosa com o tempo, era muita sede por
magia, pelas emoções. Isso pode fazer até mal, se
você...
Nossa! Como falava o homem! Não que fossem apenas bobagens,
soava bem como a Julia que ele conhecia. Mas o cara não poupava
palavras! Resolveu mudar de assunto antes que Ivan ficasse nisso a noite
inteira:
- Mas você foi o mestre dela, não foi?
Ivan fez cara de surpreso quando interrompido. Respondeu:
- Nunca achei a palavra mestre ade-quada. Coisa do Raphael, mesmo.
Eu não fui “mestre” de ninguém. Aliás, foi ela que
me ensinou muito nessa vida. Era uma pessoa esperta, viva. Acima de tudo,
minha amiga.- parou para beber mais um gole do vinho, enquanto Lucas observava
o quase monólo-go, já ciente de que teria de se acostumar
com a língua solta de Ivan. Este terminou o gole, baixou o copo,
e continuou- Mas, sim, eu lhe ensinei magia, se é isso que quer
sa-ber.
Lucas soltou um “hum” de entendi-mento, e calou-se. O silêncio
perdurou, irri-tante, enquanto Ivan terminava de beber o vinho. Ao acabar,
soltou um suspiro, e virou o copo de cabeça para baixo, constatando
que não restava nem mais uma gota. Então quebrou o silêncio:
- Ah! Como as coisas boas da vida duram pouco!
Balançou a cabeça negativamente, e deixou o copo
cair. Mas nunca chegou ao chão. Lucas o viu desaparecer pouco antes,
sugado por uma espécie de portal. Mas não se surpreendeu:
espiritualistas costumam ser bem excêntricos. Ivan puxou assunto,
nova-mente:
- Mas, diga-me, de onde conhecia ela? Há quanto tempo?
Vamos, deve ter muito a me contar!
Lucas não deixou de se irritar com suas questões.
Ele sabia a resposta, droga, por quê fazia perguntas tão bestas,
desneces-sárias?
- Você sabe.- Lucas afirmou, seco.
Ivan deu um outro meio sorriso, e respondeu, com tom irônico:
- Não, é claro que não sei! Acha que sou
adivinho?- o modo como Ivan falava ocultava o verdadeiro objetivo das palavras.
Não dava pra dizer se ele sabia de fato e brincava com Lucas, ou
se não sabia mesmo e falava a verdade.
- Acho.- afirmou Lucas, com enorme certeza, até por que
não deixava de achá-lo.
- Ótimo, você é um garoto esperto, sabe das
coisas. É, eu poderia ter lido sua mente mesmo, e daí? Eu
não quero, não gosto. Não é educado, além
de ser sem graça pacas. Tá bom assim?
Sua voz carregava a usual pitada de sarcasmo. Não agradava
Lucas, mas pelo menos ele dizia a verdade. Dava-lhe um mo-tivo para contar-lhe
toda a estória:
- Nos conhecemos numa festa. A coisa mais improvável:
ela morava longe, estudava noutro lado da cidade, e eu quase nunca ia à
festas. Quer dizer, ela ia a todas, em todos os cantos. Mas aquele dia
um cole-ga meu me convenceu a ir também. Não sei o que diabos
eu fui fazer naquela festa, não tinha motivo nenhum pra ir.
Era uma dessas que grêmio faz, o dela, no caso. Eu não
conhecia ninguém, cara, nin-guém. O meu colega, Paulo, era
esse o nome, que eu também não era muito chega-do, é
que conhecia umas amigas dela, que também não eram muito
chegadas dela, mas na hora estavam com ela.
Lucas parou um pouco, e Ivan, inte-ressadíssimo, fez sinal
para que continuasse. E ele continuou:
- Nós só nos olhamos, por um tempo. Quase no final
da parada, e a essa altura já eram altas 2 da madrugada, eu esbarrei
nela e derrubei um copo de coca.
- Esbarrou, é?- Ivan deu uma risada, em tom sarcático
- E eu juro que foi sem querer!- Lu-cas levantou o dedo, com
ênfase no juro- Bom, eu esbarrei nela, e nessa de pedir des-culpas,
de deixa que eu te ajudo, ela puxou conversa. E eu continuei, empolgado.
Fica-mos assim um tempão, e, quando eu vi, já estava de manhã,
e já tavam chegando os faxineiros pra limpar o lugar. Eu
pedi pra levar ela em casa, e até tive a idéia de passar
numa padaria pra dizer que apro-veitamos pra ir à missa.-
Ivan riu- E olhe que a mãe dela adorou a brincadeira!- Lucas
riu também.
- E quantos anos você tinha na épo-ca?- Ivan perguntou,
depois de parar de rir.
- Dezessete. Eu sou um ano mais velho que o Rafa, sabe. Isso
foi no início de 1999. Já faz... 5 anos. Putz, parece que
foi ontem!
- É... E vocês começaram a namorar?
- Bem.. oficialmente, digamos, só no final de semana seguinte.
- Ah!...
- Não reclama! Ela era da Barra, e eu lá em Botafogo,
pra pegar ela, putz!- Lucas se defendia, empolgado- Era um sacrifício,
só! Mas bem que valia...
- Claro...
Lucas falava mais para si próprio do que para qualquer
outro. Já Ivan, parecia se divertir muito com a estória.
- Ah... cara...- Lucas continuou, sus-pirando- Foram os dois
melhores anos da minha vida... Nos dávamos tão bem. Não
éramos parecidos, não, nem um pouco, mas... sei lá,
era...
- Dois anos, você disse?- Ivan inter-rompeu bruscamente.
- Quê? Ah, é. Dois anos, mas tão rápidos...
- O tempo passa rápido quanto se está feliz.
- É... Eu me lembro, quando aconte-ceu. Eu estava de férias
em Teresópolis, te-nho família lá, sabe, final do
ano a gente sempre ia pra lá. Eu não queria ir, queria ficar
perto de Julia. Tinha um mal pressenti-mento.
Falava mais calmo agora, mais triste, como se revivesse as emoções
que descrevia. Ivan olhava tudo aparentemente muito intri-gado, conduzindo
a conversa. Lucas conti-nuou, depois de uma pausa:
- E estava certo, como você sabe.
- Sim, estava, claro. Afinal de contas, o ano 2000 foi...
- O Apocalipse. Eu não podia ter deixado ela no Rio, cara,
não podia. Como é que eu ia adivinhar que era a última
vez que íamos nos ver? Quer dizer, eu ia... ia...eu estava apaixonado,
nós estávamos! E eu ti-nha tantos planos...- Lucas se agachava
en-quanto falava, cada vez mais deprimido.
- Sabe,- Ivan começou, em tom ex-plicativo- esse seu caso
é mais uma prova para uma teoria muito interessante da escola espiritualista
sobre...
- Ah calaboca!- Lucas gritou, nervo-so. Ivan deu com os ombros.-
Será que você não entende? Eu ia fazer ela feliz! Eu
ia... ia pedir ela em casamento, droga! Mas tudo deu errado, tudo... Nós
só queríamos viver uma vida normal, e, então, pinta
um maluco e resolve de acabar com o mundo, começan-do pelo Rio!
Que merda, que merda...
Seus olhos se avermelharam, e lágri-mas começaram
a escorrer por seu rosto. Lucas sentia-se miserável. Então,
Ivan soltou um “tsc” negativo, e o sorriso sumiu de seu rosto, súbito.
- Então, mais uma vítima do Inquisi-dor... Isso
nunca vai terminar...
Virou-se de costas e estalou os de-dos. O som ecoou várias
vezes pelo apo-sento fechado, como se fosse desligando a energia em cada
canto do lugar. Lucas tirou as mãos do rosto, e olhou em volta,
estarre-cido, e muito, muito confuso:
- Hein? Mas o quê diabos?...- seu olhar dirigiu-se a Ivan,
já distante- Você! Você fez isso! Me... me forçou
a falar! Seu...
- Eu não o forcei a nada!- Ivan inter-rompeu bruscamente,
virando-se. O manto azul parecia flutuar por vontade própria en-quanto
ele se movia, e as sombras que ocul-tavam seu rosto tornavam-o diferente,
quase sombrio.- Apenas fiz aflorarem as emoções latentes
em você.
- Ah, e que beleza de emoções! Ape-nas todo o ódio
que eu tenho pelo porcaria do Inquisidor por ter nos separado, e toda a
minha raiva pelo que aconteceu com esse merda desse mundo!- Lucas gritava,
deses-perado.
Ivan esperou um pouco antes de res-ponder, talvez na esperança
vã de que Lucas fosse se acalmar um pouco. Mas de nada adiantou,
ele continuava lá, quase bufando. “Pois bem”, pensava, “sobrou pra
mim acalmá-lo”:
- E que culpa eu tenho, se você foge dessas emoções?
Os olhos negros de Ivan pregaram em Lucas, tranquilos, sérios,
misteriosos. Suge-riam... reflexão. Aos poucos Lucas baixou sua
respiração, e pôde entender melhor a causa de sua fúria:
não era Ivan que influen-ciara seus sentimentos, e sim o próprio
lugar. Era, como Lucas suspeitou, um depósito de energia espiritual:
ele não parecia emanar emoções, ele realmente o fazia,
e com incrí-vel eficiência.
- Agora, controle-se.- Ivan soou, tranquilizador.- Você
pode evitar que ele o domine novemente, basta a força de vontade
necessária.
Esperou um minuto, até certificar-se de que Lucas já
tinha controle total sobre si próprio, e continuou com as explicações:
- Peço desculpas por não ter impedi-do a influência
do santuário sobre você an-tes, mas eu precisava saber mais
sobre ela, e você não me contaria de outra maneira.
Sua voz carregava pesar, e sincerida-de. Novamente, não
agradava Lucas. Os pensamentos vieram à sua cabeça quase
au-tomaticamente: “sempre há outra maneira”. Mas, pelo menos desta
vez, estava sendo sincero.
- Agora, acho que lhe devo algumas explicações.-
Ivan continuou- Primeiro, devo lhe assegurar de que isso não se
repetirá: uma vez que se aprende a escapar da influên-cia
do santuário, nunca mais se esquece.- Lucas fez sinal positivo-
E segundo, há duas coisas sobre Julia que eu preciso lhe contar...
Os olhos de Lucas imediatamente se abriram, em expectativa:
- Sim...?
Ivan continuou, com um certo pesar em suas palavras:
- Quando chegou aqui, no início de 2002 Julia estava,
no mínimo, desanimada. Tinha perdido a família, a maioria
dos ami-gos, seu lar... Mas ainda havia nela uma certa vontade, uma fagulha
de esperança. Não podia dizer o que, mas ela teve forças
para juntar-se à escola. Em menos de um ano, já dominava
com facilidade magias do quinto ciclo, e participava de todas as
missões pos-síveis com entusiasmo, em especial aquelas fora
da cidade...
Parou um pouco para tomar fôlego, deixando Lucas com o
coração na boca. Missões fora da cidade? Se ele estava
fora da cidade, então só tinha um motivo...
- Mas então,- Ivan continuou- um dia, ela me chamou de
lado, e disse que pre-cisava confessar algumas coisas....
- Confessar?- Lucas interrompeu- Mas o quê?...
- Sobre quem lhe dava forças para continuar durante aquele
tempo todo. Sobre o único resto de felicidade que ainda tinha, o
que faria todo aquele esforço valer a pena.
Ivan parou, de certo que para au-mentar o suspense. Parecia querer
fazer tudo cinematográfico, dramático. Ele era uma figura
mesmo, o tipo de pessoa que não se esquece. E esse pensamento o
fazia mais pessoa e menos mito na cabeça de Lucas, que começava
a gostar um pouco mais dele, mesmo sem admitir. Um momento longo, muito
longo, passou enquanto Lucas ponde-rava sobre isso, e sobre as palavras
de Ivan. Ela o amava verdadeiramente, podia ter cer-teza agora. Uma satisfação
enorme passou por seu coração. Pois o suspense de nada adiantou,
Lucas já sabia a próxima frase:
- Ela me falou de você, Lucas.
Por um momento, Lucas tomou seu tempo para se deliciar na doçura
dessas pala-vras, devaneiando. Ela era tão linda... podia lembrar
de seu rosto claramente , agora, seu sorriso...
Mas os bons momentos duram pou-co, e, ao sentir-se flutuar, Lucas
de imediato puxou-se novamente ao chão, com medo de que o santuário
estivesse comandando seus sentimentos outra vez. Mais tarde pôde
ver que, de fato, o lugar deixara de influenciá-lo: esses sentimentos
eram naturalmente seus, eram verdadeiros. Mas, por hora, devia prender-se
à realidade, afinal, Ivan parecia ter mais para contar, mesmo que
não lhe importasse muito agora. Deixou que ele continuasse:
- Ela me disse que procurou você por todos os lugares que
passou, mas nunca teve ao menos uma pista. Ela pediu para usar o amplificador.
Eu não devia ter deixado. Mas, na hora, quando pensei que toda a
esperança que ela nos dava poderia desaparecer, nem titubeei ao
permitir.
- Aplificador?...- Lucas perguntou, ainda metade aqui e metade
em outro lugar. Súbito, puxou-se todo de volta pra cá,
ao perceber do que deveria se tratar.- Peraí, me diz que não
é o que eu tô pensando, pela-mordedeus!
- Bem...- Ivan sentiu que Lucas já devia ter uma idéia
errada do que se tratava, e resolveu esclarecer- É, e não
é.
- Explica.
- É o mesmo amplificador que usa-ram no ano 2001, só
que não naquela inten-sidade.
Alívio. Julia sempre foi meio maluca, mas nem tanto.
- Graças a Deus...
Ivan olhou sério para ele, quase irri-tado:
- Não dê graças a alguém que você
sabe não estar lá pra ouvir.
Lucas não ligou muito para o co-mentário, a princípio,
mas depois percebeu que ele tinha razão. Já era tempo das
pessoas começarem a abandonar as antigas forças de expressão,
de pararem de acreditar em algo que já se provou não existir,
e passar a con-fiar em si mesmos. E, se ele pretendia tornar-se um mago,
devia de ser o primeiro a fazê-lo.
- Foi mal.- desculpou-se.
- Tudo bem. Só achei bom lembrar. Mas deixe-me terminar
de contar.
- Claro.
Ivan pigarreou um pouco, e continu-ou o caso:
- Ela disse que nem precisava vê-lo, mas tinha de ter certeza
de que estava vivo. Eu poderia fazer isso sozinho, mas ela prefe-riu a
garantia do amplificador. Ela queria ver por si própria. Mas, quando
completou o feitiço de procura mental, não detectou nada.
Ela achou que você estava morto.
Lucas baixou a cabeça. Então, estava explicado.
- Merda.- Lucas amaldiçoou sua sorte em voz baixa- Eu
não estava morto...
- Percebe-se- Ivan ironizou.
- Não você não entendeu, quer dizer- parou
e riu um pouco, ao ver a besteira que tinha dito- foi um colega nosso lá
de Teresó-polis, que criou um feitiço de ocultação,
com medo do Inquisidor localisar ele.
- Ah. E funcionou?
- Bem até demais.
- Como assim?- Ivan perguntou, já partindo pro lado mais
científico da coisa (ciência da magia, bem entendido).
- Bom, nós ficamos simplesmente ficamos intangíveis
e indetectáveis pra todos os outros seres vivos do universo, e assim
não dava pra comer...
- Fascinante.- Ivan levou a mão ao queixo, estilo pensador.
- E esse seu amigo, qual era o nome dele?
- Ricardo.- Lucas baixou a cabeça ao falar.
- Seria interessante conhecê-lo. Por um acaso ele se juntou
a escola?
Lucas engoliu em seco antes de falar:
- Ele está morto.
Passou-se um minuto de silêncio.
- Meus pêsames.- Ivan tentou conso-lar, meio sem saber
o que dizer.
- E o pior de tudo isso- Lucas conti-nuou, desanimado- é
que o feitiço só foi usa-do durante um dia. Significa que
ela tentou me procurar justamente no único dia em que não
podia me achar!
- Realmente. É muito azar.
Lucas suspirou. Talvez sentisse lá-grimas correrem por
seu rosto novamente, se tivesse alguma restando. Sentia-se triste, é
verdade. Mas, pensando bem, esteve triste todos esses anos. E, agora, chegara
à con-clusão de que isso não levaria a lugar ne-nhum.
Era a hora de acabar com o choro, e começar a luta. Ele era um aprendiz,
tinha um longo caminho pela frente, até que domi-nasse por completo
a arte, se é que o faria algum dia. Este lugar, este homem, já
lhe disseram tudo que precisava saber. Agora, era com ele.
- Mas não é por azar- Lucas com-pletou, resoluto-
que irei deixar minha vida ir pelo ralo.
Ivan sorriu, satisfeito. Não disse uma palavra, mas não
havia necessidade.
Lucas caminhou até a saída, e, como esperava, a
enorme porta de ferro abriu-se quando se aproximou.
Pouco antes de sair, ouviu risos baixos de Ivan, e virou-se de volta,
para ver do que se tratava:
- Qual é a graça?
- A graça,- Ivan respondeu, entre risos- é que
você é tão besta, que não notou que eu não
terminei de falar!
Lucas não se sentiu ofendido, mas sim confuso. Não
conseguia entender do que diabos ele estava rindo. Já tinha dito
tudo que precisava.
Ivan ria:
- Não dá pra acreditar, que você ia, ia sair
daqui sem nem me perguntar... Ai, tem gente que não aprende a ouvir,
mesmo...
Controlou-se e parou um pouco o riso. Lucas ainda não
entendia nada:
- Como assim...?
- Ela está viva, sua anta! E você qua-se sai daqui
sem eu te dizer!
Lucas parou, estasiado. Devia ser piada, Ivan já estava
ficando louco. Julia morreu, ele mesmo tinha dito isso. Ou será
não? No fundo de seu ser, podia sentir que acreditava desesperadamente
nas palavras de Ivan, por mais que seu lado consciente dis-sesse que era
mentira. Ela estava viva! Tinha que estar! O destino não poderia
ser tão cru-el com ele.
- Mas, ela... estava... morta.. como...?- balbuciou, ainda na
dúvida sobre em que acreditar.
- Ah, e eu sei lá!- Ivan respondeu descontraído,
contente- Tem gente que não quer morrer!
Lucas passou as mãos pelo rosto, incrédulo.
- Quando você...
- Hoje!-Ivan interrompeu, animado- Vai por mim, eu também
não acreditei quan-do ela me contatou, mas ainda está presa
no plano astral. Esteve lá, por todo esse tempo, esperando por você.
- Por....mim?- Lucas continuava meio abobado.
- É claro!- Ivan riu novamente- Ela disse que não
podia morrer sabendo que você ainda estava vivo!
Não dava pra acreditar. Viva! Al-guém ouviu suas
preces.
- E como tiramos ela de lá?- agora um sorriso largo surgia
no seu rosto, por mais que tentasse segurar.
- Ah, bem...- Ivan hesitou- Essa é a parte difícil...
O coração de Lucas quase pulou, invadido pelo medo.
Parte difícil? Como assim?
- Ela não pode voltar sem seu corpo físico, entende?
- Ivan continuou.
- E sobrou pra nós pegar ele.- Lucas concluiu.
- Nós, vírgula. Você!
- Hã?- Lucas confundia-se novamen-te.
- É preciso alguém de grande impor-tância
para a pessoa, para forçar sua reentra-da no plano físico.
Você é o único que pre-enche o requisito.
- Então, o que está esperando? Leve-me pra lá,
agora!- Lucas exigiu, ansioso.
- Você deve estar brincando!- Ivan riu.- Não, não
levarei você a lugar algum. Imersão astral não é
coisa para principiantes!
- Mas, então...
- Não se preocupe.- Ivan interrompeu novamente- Você
ainda tem muito tempo. E muito a aprender antes que possa resgatá-la.
Lucas olhou para o teto, como se pudesse senti-la lá em
cima, e Ivan sentiu sua determinação crescendo, sua sede
pela magia voltando.
- Agora, vá. Volte para seu mentor, e, quando estiver
pronto, eu o ajudarei. Mas, até lá, ainda será o inexperiente,
nada mais que um aprendiz de feiticeiro. Que isso pro-teja sua humildade,
e nunca deixe que suas emoções ceguem o objetivo mais puro.
Tomou um grande, lento fôlego, an-tes de concluir:
- Ela estará esperando.
Lucas virou-se, e saiu correndo pela porta, até aonde
a vista de Ivan alcançava, sem diminuir o ritmo.
Ivan sorriu, e voltou à sua meditação.