APRENDIZ DE FEITICEIRO


 
- Lucas!- soou repreensiva a voz do jovem mestre- Você está ouvindo uma palavra do que eu estou dizendo?
 - Hã? Hum?- Lucas “acordou”, des-norteado. Seu professor balancou a cabeça, deixando esvair-se a energia mágica do tru-que que acabara de demonstrar. - Ih... des-culpa, “fessor”!
 - É. Desculpa, diz ele. - ironizava o outro, as mãos cobrindo o rosto, buscando paciência.- Acorda cara! Isso aqui não é aula de matemática não!
 - Tá, tá, tá bom... não força, também, Rafa!- Lucas buscava intimidade com o companheiro, tentando amenizar a mancada- Não é só porque você tá dando uma de pro-fessor comigo que vai ficar me sacaneando...
 - Como é? Te sacaneando?- Raphael rebateu, de imediato- Você tem uma idéia do que estou te ensinando? Hein? Da grandiosi-dade, das consequências?
 Lucas já abria a boca para responder “é claro”, mas Raphael continuou, sem dar tempo para respostas:
 - Isso é magia, cara! Magia! O pró-prio tecido da existência! A força diante da qual até os deuses se curvam!- Raphael irri-tava-se, levando as mãos acima da cabeça e depois baixando-as, dando a idéia de descida.
 Lucas fez cara de quem já tinha ouvi-do aquilo antes (de fato, já tinha mesmo), entojado, aproveitando para dar uma outra olhada no amigo que revia, depois de tantos anos separados. Talvez, a princípio parecesse o mesmo de sempre: os cabelos claros ainda enrolavam-se em sua cabeça; os olhos casta-nhos, quase marrons, conservavam sua sim-patia, ainda protegidos pelo desajeitado óculos de aro vermelho, com grau gigantes-co. Mas ele havia mudado muito. Sua face não mostrava mais a inexperiência de um adolescente, parecia ter envelhecido uns 20 anos ao invés de 3, a atitude alegre e des-contraído havia sido substituída por uma estranha seriedade e até preocupação. E ago-ra, o jeans e a camiseta davam lugar a um pesado manto negro adornado com símbolos arcanos, na maioria losângos, ou outros se-melhantes à estrutura atômica. Todo seu ser parecia carregado com o peso da responsa-bilidade.
 - Engraçado... sempre pensei que você gostasse de azul.- Lucas comentou, mudando totalmente de assunto.
 Raphael olhou pro amigo, surpreso. Não queria enrolar muito, tinha uma aula pra dar, muitos compromissos... mas também não ia simplesmente virar um “cala boca” na cara do amigo. Além do mais, era sempre bom descontrair um pouco:
 - E nunca deixei de gostar. Eu só uso um preto porque... bem...
 - Porque o azul já tem “dono”, não é?- Lucas interrompeu, chegando onde que-ria.
 Raphael mostrou-se novamente sur-preso, um pouco irritado talvez, mas além de tudo, espantado com seu amigo, por per-guntar sobre algo que nunca achava que teria de falar de novo.
 - É. Mais ou menos isso.- parou um tempo, pensando num jeito de esclarecer mais as coisas- Você sabe, além do Ivan gostar muito de azul também, ela era a cor do manto do...
 - Do Arquimago, não é?- Lucas inter-rompeu- Aquele cara não era só sinistro... ele era é mau mesmo...
 - O Arquimago era outra pessoa!- Raphel interrompeu, já nervoso.- Será que não dá pra entender isso? Ele era apenas a manifestação da personalidade de um imortal ligada à de um humano! Era o que nós preci-sávamos na hora!
 Encararam-se por algum tempo, am-bos de cara fechada, se estudando. Lucas quebrou o silêncio, com um comentário seco:
 - Foi o que disseram quando inventa-ram a bomba atômica.
 Raphael pensou em responder, mas vendo que havia uma pitada de razão, calou-se. Deu uma ajeitada no óculos, quase caindo do rosto, pensativo.
 - Olha,- Lucas continuou- não tenho nada contra ele. Só não entendo porque os magos idolatram tanto esse cara. Especial-mente os espiritualistas. E eles são tão estra-nhos quanto ele. Talvez até legais, mas bem estranhos de todo o jeito.
 Raphael soltou um suspiro, que car-regava não só sua falta de paciência, mas também um bocado de decepção. Pois, se Lucas havia surpreendido pelo seu potencial e perspicácia, agora decepcionava ao de-monstrar  dentro de si boa dose do precon-ceito que tanto procuravam combater. Ainda podia se lembrar do ideal que unia as 3 es-colas de magia, um ideal de respeito e igual-dade entre todos os seres humanos. Era frustrante ver a estranheza que atualmente as escolas tinham umas pelas outras, algo que tentavam evitar a todo o custo.
 - O que há de errado com os espiritu-alistas?- Raphael perguntou, fingindo inge-nuidade.
 - Ora, você sabe.- Lucas respondeu, quase naturalmente.- Quer dizer, não dá pra se sentir à vontade com alguém que pode simplesmente ler seus pensamentos.
 Raphael pregou os olhos no amigo, e pôde sentir um certo nervosismo nele.
 - Não é só isso.- afirmou, com uma certeza surpreendente.
 Lucas fez cara de surpreso, mas Ra-phael podia dizer que era encenada. Por um momento manteve seu olhar fixo no amigo, sério, e este parecia se indagar o que estava havendo, porém continuava quieto. Após alguns momentos, Raphael virou o rosto bruscamente, e soltou um “ah” de entendi-mento. Lucas franziu o celho, confuso.
 - Então foi isso, não é?- Raphael in-dagou- Por isso não gosta de espiritualistas.
 - Hã? Por isso o que?- Lucas retru-cou, ainda mais confuso.
 - Você ainda acha eles culpados pelo que aconteceu com Julia, não é?
 Lucas engoliu em seco. Raphael aba-nou a cabeça, vendo que ainda teria muito o que explicar.
 - Você, você, leu...- Lucas balbucia-va, um tanto incrédulo.
 - Sua mente?- Raphael tirou-lhe as palavras da boca- Exatamente.
 - Mas... por quê? Como?
 - Que isso sirva como lição.- decla-rou Raphael, prosseguindo indiferente.- Tanto para provar que não só os espiritua-listas lêem pensamentos; como para ver que nem eles, nem nenhum de nós, são “estra-nhos”, ou “má gente” , como você pensa.
 Lucas, prestes a proferir um palavrão, conteve-se e tentou se acalmar. Levantou-se, mas voltou a sentar na cadeira imediatamen-te, levando as mãos a cabeça. Raphael come-çou a andar de um lado da sala pro outro, levantando a mão em sinal explicativo:
 - É preciso que você entenda, Lucas, que a escola espriritualista é a que tem mais ligação com as outras. Todo o ser humano, mesmo os não-arcanos, têm dentro de si al-gum conhecimento espiritual, e mesmo as outras escolas ensinam os princípios dos feitiços psíquicos para seus estudantes. As-sim sendo, é perfeitamente normal que o mestre da escola metafísica conheça os sim-ples procedimentos da percepção extra sen-sorial.- parou de andar- Está dentro de mim, Lucas, de todos nós, o potencial espiritual. Mesmo eu já... fui, um espiritualista, de certo modo...
 Aproximou-se de Lucas, que fazia sinal de entendimento, mas ainda lhe desvia-va os olhos. Este último, contendo em parte sua fúria interna, perguntou:
 - Por que isso, Raphael? Por quê você tinha que invadir minha mente?
 - E por que você não me falou isso antes?- retrucou Raphael.
 - Por que eu não quis, droga! Só isso! Eu acho que ainda tenho o direito de não querer falar de alguma coisa!
 Longos momentos passaram-se en-quanto Raphael ponderava na verdade que o amigo acabara de dizer. Talvez tivesse sido um erro invadir sua privacidade. Talvez ti-vesse sido um erro tentar lhe ensinar magia. Mas, por outro lado, o Mestre da escola metafísica também tem o direito de errar. Ou não tem?
 - De todo o jeito,- Raphael mudou bruscamente de assunto, quase que ame-drontado diante da possibilidade de ter co-metido um erro grave- ainda verá que está muito enganado quanto aos espiritualistas.
 - Ah, é?- Lucas perguntou, irônico- E quem vai me mostrar isso? Você?
 - Claro.- Raphael tentava soar natu-ral- Afinal, eu estava lá quando... recruta-ram... magos para a batalha do Atlântico.
 - O quê?!- Lucas pulou da cadeira- Você estava lá? Então por que não impediu que levassem ela?
 - Por dois bons motivos. - Raphael respondeu, voltando a caminhar pela sala, levantando a mão com dois dedos em pé.- 1o., por que eu não fazia idéia de quem ela era. E 2o., por que eles não “levaram” ela.
 Lucas, que agora acompanhava cada passo de Raphael pela sala, parou lentamen-te, confuso:
 - Como assim  “não levaram ela”?
 - Na hora, reuniram todos os arcanos espiritualistas na sede, já que eles são os úni-cos capazes de penetrar no plano espiritual, e esclareceram toda a situação. Era claramente uma missão arriscadíssima, da qual poucos ousariam fazer parte. Eu mesmo não poderia participar pessoalmente, precisavam de mim em outro lugar. A princípio o plano era usar apenas veteranos e magos experientes, mas estes não eram suficientes. Então pediram por voluntários. Não dava pra usar magos de outras escolas, e a missão era quase suicida até mesmo para os veteranos, então não dava pra simplesmente mandar alguns infelizes pra lá.
 Lucas acompanhava com expectativa cada sílaba, e Raphael podia sentir seu cora-ção apreensivo, faminto pela verdade. Deu uma breve pausa, tentando aliviar o peso do que estava por vir, e continuou:
 - Os poucos afiliados da escola espi-ritual tinham ingressado por vontade própria. Os líderes da escola não estavam lá, portanto eu e Marcos decidimos que seria também deles a escolha de participar ou não da mis-são. Nós perguntamos, ela levantou a mão...
 Lucas engoliu em seco. Durante todo esse tempo amaldiçoara a ordem espiritua-lista por ter seduzido sua amada, por tê-la levado tão jovem para uma batalha com a qual nada tinha a ver. Sempre tinha visto os magos da escola como vilões, malandros com o intuito de atrair mais vítimas para lutar suas batalhas. Encontrara muitos espi-ritualistas desde que ingressou na sociedade, e, apesar de não parecerem má gente, não lhe tiravam a impressão que tinha deles. E ago-ra...
 - Por quê?- soluçou, em voz baixa, sentindo as lágrimas começando a sair dos olhos, escondendo o rosto entre as mãos.
 Raphael andou em direção à porta, parando por um momento.
 - Eu... vou falar com Ivan. Se seu problema é com espiritualistas, ninguém melhor pra resolver que o líder deles.- deu uma pequena pausa- Acho que podemos continuar nossa aula amanhã.
 E saiu, deixando Lucas sozinho com sua tristeza.

* * *

 Uma grande porta de ferro bloqueava a entrada para a câmara do Mestre Espiritual, sólida, imóvel e fria. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, não dava a sensação de quietude, ou silêncio. Parecia ser, de alguma forma, sensível a cada movimento pró-ximo a si.
 Lucas quase não notou que tocava sua superfície de leve, intrigado. Era fasci-nante, não só esta entrada, como todo o complexo no qual residiam os espiritualistas. Tudo parecia emitir energia, mas não algo físico, cientificamente explanável dentro dos conceitos que ele durante muito tempo estu-dou. O lugar transmitia, transpirava, emo-ções, de um jeito diferente, quase natural, como se elas viessem embutidas em sua pró-pria matéria. A porta lhe dava uma estranha sensação de vigilância, de estar sendo obser-vado. Como se, ao seu menor movimento ofensivo, ela fosse jogar-se por cima dele e esmagar-lhe como se fosse um inseto.
 Qual não foi sua surpresa quando, ao tocá-la, pôde sentir que se movia? Por um momento, um pavor enorme assolou seu coração, medo de que um movimento errado tivesse provocado sua morte iminente. Mas logo o pavor era substituído por um imenso alívio, ao ver que a porta movia-se não em sua direção, mas para o outro lado. Estava se abrindo.
  As poucas experiências que havia tido neste lugar até agora em nada agrada-vam Lucas. Não conseguia ficar um só se-gundo sem que seu coração tentasse subir-lhe à boca. Era desesperador.
 Assim que a porta abriu espaço sufi-ciente para sua passagem, entrou rapida-mente, quase correndo, ansioso para pôr-se o mais longe possível daquela maldita porta. De fato, só se deu conta que entrara quando já estava quase no meio do aposento. Parou e olhou em volta, atônito.
 Não era o que esperava, sem dúvida. Já havia visitado as câmaras dos outros dois mestres, e eram todas adornadas, cheias de livros, objetos mágicos, prateleiras, estan-tes... A de Raphael em particular possuía vários tubos de ensaio e materiais para expe-riências, e até um computador; já a de Mar-cos tinha um saco de areia, ou algo muito mais forte, para resistir aos seus golpes for-tíssimos, e uma “maquivara”, aquele pedaço de madeira fortemente pregado ao chão, em que os praticantes de artes marciais costu-mam enfiar os maiores murros (só que essa era de ferro).
 Mas não esse lugar. Aqui as paredes e o chão eram nus, e o aposento apresentava forma circular. No seu centro brilhava uma intensa chama azulada, e, ao lado desta, de costas, estava uma figura de manto azul, flutuando, pernas cruzadas. Assim que Lucas entrou, o homem saiu de seu aparente estado de transe, e desceu os pés ao chão, lenta-mente. Tirou o capuz que cobria seu rosto, devagar, e, debaixo deste, apareceu, quem diria, um sorriso.
 Não um sorriso destes abertos, de dentes a mostra. Era mais um meio-sorriso, de satisfação. O homem tinha um rosto ami-gável, apesar de tudo. Se é que se podia di-zer homem por completo, já que Lucas sabia que não teria muito mais que 23 anos. Talvez a príncipio parecesse meio moleque, com o cabelo liso descendo de lado, quase até o olho, e seu sorriso alegre dando a impressão de que em breve se transformaria em garga-lhadas. Mas isso seria apenas até que chegas-se à seus olhos. Negros. Se havia palavra capaz de definir seus olhos, é esta. Não digo castanhos escuros, meio amarronzados. Eram negros mesmo, como um buraco negro dentro de suas pupilas, sugando toda a luz que passasse próxima a si. Tão grande era a negritude de seu olhar, que mal podia se di-zer a direção em que fitava.
 Aproximou-se de Lucas, e sua voz soou calma e satisfeita:
 - Seja bem vindo.
 Lucas nada falou, dando como res-posta apenas um “hum”, que não podia se distinguir como sendo positivo ou negativo. O outro continuou:
 - Raphael estava certo quando disse que era teimoso. Percorrer toda a distância até aqui e ainda conseguir dar um jeito de falar comigo, tudo em um dia... Você deve estar cansado. Sinta-se à vontade, não preci-sa ter medo. Quer beber alguma coisa?
 - Não, senhor, obrigado.- Lucas mentiu. Estava morrendo de sede, mas não queria demonstrar qualquer sinal de fraque-za. Também não se sentia à vontade neste lugar vazio e escuro. Além do mais, de onde que ele tiraria algo para beber? Não tinha absolutamente nada aqui.
 - Pode me chamar de Ivan.- disse o outro,  virando-se e andando até a parede, de modo descontraído.
 - Claro.- Lucas soou baixinho, quase irônico.
 Ivan abaixou-se proximo à parede, e nela formou-se uma espécie de torneira, da qual jorrou um líquido vermelho, parecia vinho. Ivan tirou um copo sabe-lá-de-onde, e começou a enchê-lo. Puxou conversa:
 - Então, você conhecia Julia, não é?
 - Sim.- Lucas tentava fechar-se ao máximo, com medo de que o misterioso ser à sua frente pudesse penetrar nas profundezas de sua alma à menor distração. E, pior de tudo, era bem provável que realmente pudes-se.
 - Boa aluna. Ela tinha tino pra coisa. Talento.- tomou um gole do vinho, e depois continuou- E disposição. Ela gostava muito de magia, sim senhor.
  Nenhuma novidade até agora. Ra-phael já tinha dito isto também. E daí que ela gostava de magia? Vai morrer por isso?
 Então uma curiosidade surgiu em sua cabeça. Não queria fazer perguntas, queria apenas respostas. Não havia necessidade de perguntar por nada, esses caras sempre adi-vinham tudo. Mas a vontade foi crescendo, o silêncio aumentando. Os dois “buracos ne-gros” no lugar dos olhos de Ivan penetravam profundamente nos seus, provocando nervo-sismo. Por fim, desistiu:
 - Você que convidou ela pra entrar na escola?
 Ivan tomou outro gole do vinho, sempre devagar, e respondeu:
 - De fato, não. Ela despertou seu dom sozinha. O destino nos fez cruzar, e, ao saber de minha posição como líder de uma escola de magia, pediu para ingressar. Era ansiosa por aprender. Se havia algo que ela não tinha, era paciência, sem dúvida. Nervo-sinha que só ela. Mas você deve saber disso, se a conhecia. Se bem que ela foi ficando mais nervosa com o tempo, era muita sede por magia, pelas emoções. Isso pode fazer até mal, se você...
 Nossa! Como falava o homem! Não que fossem apenas bobagens, soava bem como a Julia que ele conhecia. Mas o cara não poupava palavras! Resolveu mudar de assunto antes que Ivan ficasse nisso a noite inteira:
 - Mas você foi o mestre dela, não foi?
 Ivan fez cara de surpreso quando interrompido. Respondeu:
 - Nunca achei a palavra mestre ade-quada. Coisa do Raphael, mesmo. Eu não fui “mestre” de ninguém. Aliás, foi ela que me ensinou muito nessa vida. Era uma pessoa esperta, viva. Acima de tudo, minha amiga.- parou para beber mais um gole do vinho, enquanto Lucas observava o quase monólo-go, já ciente de que teria de se acostumar com a língua solta de Ivan. Este terminou o gole, baixou o copo, e continuou- Mas, sim, eu lhe ensinei magia, se é isso que quer sa-ber.
 Lucas soltou um “hum” de entendi-mento, e calou-se. O silêncio perdurou, irri-tante, enquanto Ivan terminava de beber o vinho. Ao acabar, soltou um suspiro, e virou o copo de cabeça para baixo, constatando que não restava nem mais uma gota. Então quebrou o silêncio:
 - Ah! Como as coisas boas da vida duram pouco!
 Balançou a cabeça negativamente, e deixou o copo cair. Mas nunca chegou ao chão. Lucas o viu desaparecer pouco antes, sugado por uma espécie de portal. Mas não se surpreendeu: espiritualistas costumam ser bem excêntricos. Ivan puxou assunto, nova-mente:
 - Mas, diga-me, de onde conhecia ela? Há quanto tempo? Vamos, deve ter muito a me contar!
 Lucas não deixou de se irritar com suas questões. Ele sabia a resposta, droga, por quê fazia perguntas tão bestas, desneces-sárias?
 - Você sabe.- Lucas afirmou, seco.
 Ivan deu um outro meio sorriso, e respondeu, com tom irônico:
 - Não, é claro que não sei! Acha que sou adivinho?- o modo como Ivan falava ocultava o verdadeiro objetivo das palavras. Não dava pra dizer se ele sabia de fato e brincava com Lucas, ou se não sabia mesmo e falava a verdade.
 - Acho.- afirmou Lucas, com enorme certeza, até por que não deixava de achá-lo.
 - Ótimo, você é um garoto esperto, sabe das coisas. É, eu poderia ter lido sua mente mesmo, e daí? Eu não quero, não gosto. Não é educado, além de ser sem graça pacas. Tá bom assim?
 Sua voz carregava a usual pitada de sarcasmo. Não agradava Lucas, mas pelo menos ele dizia a verdade. Dava-lhe um mo-tivo para contar-lhe toda a estória:
 - Nos conhecemos numa festa. A coisa mais improvável: ela morava longe, estudava noutro lado da cidade, e eu quase nunca ia à festas. Quer dizer, ela ia a todas, em todos os cantos. Mas aquele dia um cole-ga meu me convenceu a ir também. Não sei o que diabos eu fui fazer naquela festa, não tinha motivo nenhum pra ir.
Era uma dessas que grêmio faz, o dela, no caso. Eu não conhecia ninguém, cara, nin-guém. O meu colega, Paulo, era esse o nome, que eu também não era muito chega-do, é que conhecia umas amigas dela, que também não eram muito chegadas dela, mas na hora estavam com ela.
 Lucas parou um pouco, e Ivan, inte-ressadíssimo, fez sinal para que continuasse. E ele continuou:
 - Nós só nos olhamos, por um tempo. Quase no final da parada, e a essa altura já eram altas 2 da madrugada, eu esbarrei nela e derrubei um copo de coca.
 - Esbarrou, é?- Ivan deu uma risada, em tom sarcático
  - E eu juro que foi sem querer!- Lu-cas levantou o dedo, com ênfase no juro- Bom, eu esbarrei nela, e nessa de pedir des-culpas, de deixa que eu te ajudo, ela puxou conversa. E eu continuei, empolgado. Fica-mos assim um tempão, e, quando eu vi, já estava de manhã, e já tavam chegando os faxineiros pra limpar o lugar. Eu
pedi pra levar ela em casa, e até tive a idéia de passar numa padaria pra dizer que apro-veitamos pra ir à missa.-
Ivan riu- E olhe que a mãe dela adorou a brincadeira!- Lucas riu também.
 - E quantos anos você tinha na épo-ca?- Ivan perguntou, depois de parar de rir.
 - Dezessete. Eu sou um ano mais velho que o Rafa, sabe. Isso foi no início de 1999. Já faz... 5 anos. Putz, parece que foi ontem!
 - É... E vocês começaram a namorar?
 - Bem.. oficialmente, digamos, só no final de semana seguinte.
 - Ah!...
 - Não reclama! Ela era da Barra, e eu lá em Botafogo, pra pegar ela, putz!- Lucas se defendia, empolgado- Era um sacrifício, só! Mas bem que valia...
 - Claro...
 Lucas falava mais para si próprio do que para qualquer outro. Já Ivan, parecia se divertir muito com a estória.
 - Ah... cara...- Lucas continuou, sus-pirando- Foram os dois melhores anos da minha vida... Nos dávamos tão bem. Não éramos parecidos, não, nem um pouco, mas... sei lá, era...
 - Dois anos, você disse?- Ivan inter-rompeu bruscamente.
 - Quê? Ah, é. Dois anos, mas tão rápidos...
 - O tempo passa rápido quanto se está feliz.
 - É... Eu me lembro, quando aconte-ceu. Eu estava de férias em Teresópolis, te-nho família lá, sabe, final do ano a gente sempre ia pra lá. Eu não queria ir, queria ficar perto de Julia. Tinha um mal pressenti-mento.
 Falava mais calmo agora, mais triste, como se revivesse as emoções que descrevia. Ivan olhava tudo aparentemente muito intri-gado, conduzindo a conversa. Lucas conti-nuou, depois de uma pausa:
 - E estava certo, como você sabe.
 - Sim, estava, claro. Afinal de contas, o ano 2000 foi...
 - O Apocalipse. Eu não podia ter deixado ela no Rio, cara, não podia. Como é que eu ia adivinhar que era a última vez que íamos nos ver? Quer dizer, eu ia... ia...eu estava apaixonado, nós estávamos! E eu ti-nha tantos planos...- Lucas se agachava en-quanto falava, cada vez mais deprimido.
 - Sabe,- Ivan começou, em tom ex-plicativo- esse seu caso é mais uma prova para uma teoria muito interessante da escola espiritualista sobre...
 - Ah calaboca!- Lucas gritou, nervo-so. Ivan deu com os ombros.- Será que você não entende? Eu ia fazer ela feliz! Eu ia... ia pedir ela em casamento, droga! Mas tudo deu errado, tudo... Nós só queríamos viver uma vida normal, e, então, pinta um maluco e resolve de acabar com o mundo, começan-do pelo Rio! Que merda, que merda...
 Seus olhos se avermelharam, e lágri-mas começaram a escorrer por seu rosto. Lucas sentia-se miserável. Então, Ivan soltou um “tsc” negativo, e o sorriso sumiu de seu rosto, súbito.
 - Então, mais uma vítima do Inquisi-dor... Isso nunca vai terminar...
 Virou-se de costas e estalou os de-dos. O som ecoou várias vezes pelo apo-sento fechado, como se fosse desligando a energia em cada canto do lugar. Lucas tirou as mãos do rosto, e olhou em volta, estarre-cido, e muito, muito confuso:
 - Hein? Mas o quê diabos?...- seu olhar dirigiu-se a Ivan, já distante- Você! Você fez isso! Me... me forçou a falar! Seu...
 - Eu não o forcei a nada!- Ivan inter-rompeu bruscamente, virando-se. O manto azul parecia flutuar por vontade própria en-quanto ele se movia, e as sombras que ocul-tavam seu rosto tornavam-o diferente, quase sombrio.- Apenas fiz aflorarem as emoções latentes em você.
 - Ah, e que beleza de emoções! Ape-nas todo o ódio que eu tenho pelo porcaria do Inquisidor por ter nos separado, e toda a minha raiva pelo que aconteceu com esse merda desse mundo!- Lucas gritava, deses-perado.
 Ivan esperou um pouco antes de res-ponder, talvez na esperança vã de que Lucas fosse se acalmar um pouco. Mas de nada adiantou, ele continuava lá, quase bufando. “Pois bem”, pensava, “sobrou pra mim acalmá-lo”:
 - E que culpa eu tenho, se você foge dessas emoções?
 Os olhos negros de Ivan pregaram em Lucas, tranquilos, sérios, misteriosos. Suge-riam... reflexão. Aos poucos Lucas baixou sua respiração, e pôde entender melhor a causa de sua fúria: não era Ivan que influen-ciara seus sentimentos, e sim o próprio lugar. Era, como Lucas suspeitou, um depósito de energia espiritual: ele não parecia emanar emoções, ele realmente o fazia, e com incrí-vel eficiência.
 - Agora, controle-se.- Ivan soou, tranquilizador.- Você pode evitar que ele o domine novemente, basta a força de vontade necessária.
 Esperou um minuto, até certificar-se de que Lucas já tinha controle total sobre si próprio, e continuou com as explicações:
 - Peço desculpas por não ter impedi-do a influência do santuário sobre você an-tes, mas eu precisava saber mais sobre ela, e você não me contaria de outra maneira.
 Sua voz carregava pesar, e sincerida-de. Novamente, não agradava Lucas. Os pensamentos vieram à sua cabeça quase au-tomaticamente: “sempre há outra maneira”. Mas, pelo menos desta vez, estava sendo sincero.
 - Agora, acho que lhe devo algumas explicações.- Ivan continuou- Primeiro, devo lhe assegurar de que isso não se repetirá: uma vez que se aprende a escapar da influên-cia do santuário, nunca mais se esquece.- Lucas fez sinal positivo- E segundo, há duas coisas sobre Julia que eu preciso lhe contar...
 Os olhos de Lucas imediatamente se abriram, em expectativa:
 - Sim...?
 Ivan continuou, com um certo pesar em suas palavras:
 - Quando chegou aqui, no início de 2002 Julia estava, no mínimo, desanimada. Tinha perdido a família, a maioria dos ami-gos, seu lar... Mas ainda havia nela uma certa vontade, uma fagulha de esperança. Não podia dizer o que, mas ela teve forças para juntar-se à escola. Em menos de um ano, já dominava com facilidade magias do quinto ciclo,  e participava de todas as missões pos-síveis com entusiasmo, em especial aquelas fora da cidade...
 Parou um pouco para tomar fôlego, deixando Lucas com o coração na boca. Missões fora da cidade? Se ele estava fora da cidade, então só tinha um motivo...
 - Mas então,- Ivan continuou- um dia, ela me chamou de lado, e disse que pre-cisava confessar algumas coisas....
 - Confessar?- Lucas interrompeu- Mas o quê?...
 - Sobre quem lhe dava forças para continuar durante aquele tempo todo. Sobre o único resto de felicidade que ainda tinha, o que faria todo aquele esforço valer a pena.
 Ivan parou, de certo que para au-mentar o suspense. Parecia querer fazer tudo cinematográfico, dramático. Ele era uma figura mesmo, o tipo de pessoa que não se esquece. E esse pensamento o fazia mais pessoa e menos mito na cabeça de Lucas, que começava a gostar um pouco mais dele, mesmo sem admitir. Um momento longo, muito longo, passou enquanto Lucas ponde-rava sobre isso, e sobre as palavras de Ivan. Ela o amava verdadeiramente, podia ter cer-teza agora. Uma satisfação enorme passou por seu coração. Pois o suspense de nada adiantou, Lucas já sabia a próxima frase:
 - Ela me falou de você, Lucas.
 Por um momento, Lucas tomou seu tempo para se deliciar na doçura dessas pala-vras, devaneiando. Ela era tão linda... podia lembrar de seu rosto claramente , agora, seu sorriso...
 Mas os bons momentos duram pou-co, e, ao sentir-se flutuar, Lucas de imediato puxou-se novamente ao chão, com medo de que o santuário estivesse comandando seus sentimentos outra vez. Mais tarde pôde ver que, de fato, o lugar deixara de influenciá-lo: esses sentimentos eram naturalmente seus, eram verdadeiros. Mas, por hora, devia prender-se à realidade, afinal, Ivan parecia ter mais para contar, mesmo que não lhe importasse muito agora. Deixou que ele continuasse:
 - Ela me disse que procurou você por todos os lugares que passou, mas nunca teve ao menos uma pista. Ela pediu para usar o amplificador. Eu não devia ter deixado. Mas, na hora, quando pensei que toda a esperança que ela nos dava poderia desaparecer, nem titubeei ao permitir.
 - Aplificador?...- Lucas perguntou, ainda metade aqui e metade em  outro lugar. Súbito, puxou-se todo de volta pra cá, ao perceber do que deveria se tratar.- Peraí, me diz que não é o que eu tô pensando, pela-mordedeus!
 - Bem...- Ivan sentiu que Lucas já devia ter uma idéia errada do que se tratava, e resolveu esclarecer- É, e não é.
 - Explica.
 - É o mesmo amplificador que usa-ram no ano 2001, só que não naquela inten-sidade.
 Alívio. Julia sempre foi meio maluca, mas nem tanto.
 - Graças a Deus...
 Ivan olhou sério para ele, quase irri-tado:
 - Não dê graças a alguém que você sabe não estar lá pra ouvir.
 Lucas não ligou muito para o co-mentário, a princípio, mas depois percebeu que ele tinha razão. Já era tempo das pessoas começarem a abandonar as antigas forças de expressão, de pararem de acreditar em algo que já se provou não existir, e passar a con-fiar em si mesmos. E, se ele pretendia tornar-se um mago, devia de ser o primeiro a fazê-lo.
 - Foi mal.- desculpou-se.
 - Tudo bem. Só achei bom lembrar. Mas deixe-me terminar de contar.
 - Claro.
 Ivan pigarreou um pouco, e continu-ou o caso:
 - Ela disse que nem precisava vê-lo, mas tinha de ter certeza de que estava vivo. Eu poderia fazer isso sozinho, mas ela prefe-riu a garantia do amplificador. Ela queria ver por si própria. Mas, quando completou o feitiço de procura mental, não detectou nada. Ela achou que você estava morto.
 Lucas baixou a cabeça. Então, estava explicado.
 - Merda.- Lucas amaldiçoou sua sorte em voz baixa- Eu não estava morto...
 - Percebe-se- Ivan ironizou.
 - Não você não entendeu, quer dizer- parou e riu um pouco, ao ver a besteira que tinha dito- foi um colega nosso lá de Teresó-polis, que criou um feitiço de ocultação, com medo do Inquisidor localisar ele.
 - Ah. E funcionou?
 - Bem até demais.
 - Como assim?- Ivan perguntou, já partindo pro lado mais científico da coisa (ciência da magia, bem entendido).
 - Bom, nós ficamos simplesmente ficamos intangíveis e indetectáveis pra todos os outros seres vivos do universo, e assim não dava pra comer...
 - Fascinante.- Ivan levou a mão ao queixo, estilo pensador. - E esse seu amigo, qual era o nome dele?
 - Ricardo.- Lucas baixou a cabeça ao falar.
 - Seria interessante conhecê-lo. Por um acaso ele se juntou a escola?
 Lucas engoliu em seco antes de falar:
 - Ele está morto.
 Passou-se um minuto de silêncio.
 - Meus pêsames.- Ivan tentou conso-lar, meio sem saber o que dizer.
 - E o pior de tudo isso- Lucas conti-nuou, desanimado- é que o feitiço só foi usa-do durante um dia. Significa que ela tentou me procurar justamente no único dia em que não podia me achar!
 - Realmente. É muito azar.
 Lucas suspirou. Talvez sentisse lá-grimas correrem por seu rosto novamente, se tivesse alguma restando. Sentia-se triste, é verdade. Mas, pensando bem, esteve triste todos esses anos. E, agora, chegara à con-clusão de que isso não levaria a lugar ne-nhum. Era a hora de acabar com o choro, e começar a luta. Ele era um aprendiz, tinha um longo caminho pela frente, até que domi-nasse por completo a arte, se é que o faria algum dia. Este lugar, este homem, já lhe disseram tudo que precisava saber. Agora, era com ele.
 - Mas não é por azar- Lucas com-pletou, resoluto- que irei deixar minha vida ir pelo ralo.
 Ivan sorriu, satisfeito. Não disse uma palavra, mas não havia necessidade.
 Lucas caminhou até a saída, e, como esperava, a enorme porta de ferro abriu-se quando se aproximou.
Pouco antes de sair, ouviu risos baixos de Ivan, e virou-se de volta, para ver do que se tratava:
 - Qual é a graça?
 - A graça,- Ivan respondeu, entre risos- é que você é tão besta, que não notou que eu não terminei de falar!
 Lucas não se sentiu ofendido, mas sim confuso. Não conseguia entender do que diabos ele estava rindo. Já tinha dito tudo que precisava.
 Ivan ria:
 - Não dá pra acreditar, que você ia, ia sair daqui sem nem me perguntar... Ai, tem gente que não aprende a ouvir, mesmo...
 Controlou-se e parou um pouco o riso. Lucas ainda não entendia nada:
 - Como assim...?
 - Ela está viva, sua anta! E você qua-se sai daqui sem eu te dizer!
 Lucas parou, estasiado. Devia ser piada, Ivan já estava ficando louco. Julia morreu, ele mesmo tinha dito isso. Ou será não? No fundo de seu ser, podia sentir que acreditava desesperadamente nas palavras de Ivan, por mais que seu lado consciente dis-sesse que era mentira. Ela estava viva! Tinha que estar! O destino não poderia ser tão cru-el com ele.
 - Mas, ela... estava... morta.. como...?- balbuciou, ainda na dúvida sobre em que acreditar.
 - Ah, e eu sei lá!- Ivan respondeu descontraído, contente- Tem gente que não quer morrer!
 Lucas passou as mãos pelo rosto, incrédulo.
 - Quando você...
 - Hoje!-Ivan interrompeu, animado- Vai por mim, eu também não acreditei quan-do ela me contatou, mas ainda está presa no plano astral. Esteve lá, por todo esse tempo, esperando por você.
 - Por....mim?- Lucas continuava meio abobado.
 - É claro!- Ivan riu novamente- Ela disse que não podia morrer sabendo que você ainda estava vivo!
 Não dava pra acreditar. Viva! Al-guém ouviu suas preces.
 - E como tiramos ela de lá?- agora um sorriso largo surgia no seu rosto, por mais que tentasse segurar.
 - Ah, bem...- Ivan hesitou- Essa é a parte difícil...
 O coração de Lucas quase pulou, invadido pelo medo. Parte difícil? Como assim?
 - Ela não pode voltar sem seu corpo físico, entende? - Ivan continuou.
 - E sobrou pra nós pegar ele.- Lucas concluiu.
 - Nós, vírgula. Você!
 - Hã?- Lucas confundia-se novamen-te.
 - É preciso alguém de grande impor-tância para a pessoa, para forçar sua reentra-da no plano físico. Você é o único que pre-enche o requisito.
 - Então, o que está esperando? Leve-me pra lá, agora!- Lucas exigiu, ansioso.
 - Você deve estar brincando!- Ivan riu.- Não, não levarei você a lugar algum. Imersão astral não é coisa para principiantes!
 - Mas, então...
 - Não se preocupe.- Ivan interrompeu novamente- Você ainda tem muito tempo. E muito a aprender antes que possa resgatá-la.
 Lucas olhou para o teto, como se pudesse senti-la lá em cima, e Ivan sentiu sua determinação crescendo, sua sede pela magia voltando.
 - Agora, vá. Volte para seu mentor, e, quando estiver pronto, eu o ajudarei. Mas, até lá, ainda será o inexperiente, nada mais que um aprendiz de feiticeiro. Que isso pro-teja sua humildade, e nunca deixe que suas emoções ceguem o objetivo mais puro.
 Tomou um grande, lento fôlego, an-tes de concluir:
 - Ela estará esperando.
 Lucas virou-se, e saiu correndo pela porta, até aonde a vista de Ivan alcançava, sem diminuir o ritmo.
 Ivan sorriu, e voltou à sua meditação.