A teus pés
Uma cama sem estrado
retrato de um quarto fechado
quarto ato de uma história
Sem fracasso ou vitória
Sem desfecho, sem eixo, puro desleixo
Desleixada; não me enquadro
neste quadro sem esquadro
Quarto ato de um quarteto
Quarto sem teto onde não me reconheço
concluo o capítulo
termina o segundo, dia esgotado
jogado no esgoto, abotoado
O sonho já não me consola, isola
A dor já não me ataca, me ata
Mas a realidade em terra firme
É madeira de vime
e quebra sobre os meus pés
quebra meus sonhos
e me deixa a teus pés.
Vertigens em V
Voraz é a sua voz
que em veludo
discorre verdades
veladas e veementes
vertendo em mim vertigens
por promessas verdes.
Amadurece meus vinte anos
em voláteis desejos,
devorando meus enganos
e velando estes insanos beijos.
Minha palavra é uma luva
para o vácuo dos seus olhos
E o verso veterano da sua mão
é vacina em gotas pra minha pele.
Por isso varei o vértice da noite
despi os medos, vesti vontades.
Vago na viga do inviável
Vulcão em forma de verso
Vocifero contra o silêncio
e vislumbro sua boca entreaberta
Será que vê o que vejo
no vento que varre os dias
e deixa o vapor dos olhares
se equilibrando no vaivém
desta valsa, falsa melodia?
Minha vaidade vaga-lume
cai vertical no verniz do tempo.
Enquanto minha vergonha se torna
vagabunda por trás deste véu de vento.
Vértebra por vértebra
o sentimento fraturou a gramática
O verbo não tem conjugação.
Voa como vítima errática
sem veredito pra essa oração
Vencer o verão que já terminou
e vazar pra próxima estação.
Esta é a véspera do inverno
ou o vestíbulo do próximo mês,
da próxima vez?
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