"Morte aos Necrófilos!"
Dado Villa-Lobos era um calouro na arte de tocar violão em 1992. "Nunca fiquei tão nervoso na minha vida", confessa Dado.
Como foram os preparativos para o Acústico?
Tomamos a decisão de fazê-lo após um tempo de conversas com a MTV. Era uma boa maneira de promover o disco V, que estava sendo lançado na época, e a gente nunca sabia se o Renato ia topar sair em turnê. Selecionamos o repertório e ensaiamos um pouco, acho que uma semana. Preparamos arranjos diferentes para algumas músicas, como "Índios" e "O Teatro dos Vampiros". Foi uma coisa muito simplíssima, com dois violões e alguma percussão, um pandeiro eventual.
Por que não houve nenhuma participação especial?
Primeiro porque ainda não havia esse formato de hoje, onde os convidados são quase obrigatórios. Depois porque a gente meio que se isolava no Rio, como tínhamos vindo de Brasília, não tínhamos interação com outras bandas. As canções de terceiros no repertório são as participações.
Como pintou a música do Menudo?
Claro que ela não estava no programa. Acho que quebrou uma corda do meu violão, o Renato foi enrolar e tirou essa da manga. A versão ficou bacana.
Foi difícil encarar um violão?
Muito. Aquele arranjo de "Índios" era complicado, tem um teminha gravado por teclados que transpusemos para o violão, parecia um fado grego, mas ficou interessante e acabamos nos empolgando. Nenhum de nós tinha a noção nem a dimensão do que poderia vir a ser um acústico. Demos o coração, como sempre.
Mas o projeto do disco já existia?
Já, tanto que o show foi registrado em uma mesa multitrack. Duas canções "Índios" e "O Teatro dos Vampiros", foram parar no nosso disco ao vivo, Música p/ Acampamentos. A idéia daquele disco era mostrar toda e qualquer formação ao vivo que a Legião já teve.
Como estava o público?
Tinha muita gente do fã-clube, que em geral é barulhenta, mas eles não podiam se manifestar, aplaudir muito, cantar junto, o Rogério Gallo proibiu. Me lembro bem disso. Eles ficavam calados, coitados. Ficou um clima meio tenso, tudo muito comportado, aqueles aplausos frios. No início era gentileza pra todo lado, eles diziam: "Vocês podem repetir essa música, por favor?". E nós: "claro, pois não". No final o Renato já estava p***: "Não, não vou repetir essa p***, não sou profissional, eu trabalho com emoção!". (risos)
Com isso se esvazia o baú da Legião?
O ciclo produtivo já estava encerrado desde que lançamos Uma Outra Estação, em 1997. O que existe agora são trechos de shows gravados, como esses da MTV. Depois da turnê de As Quatro Estações a gente gravou muita coisa. E como cada show da Legião era uma aventura diferente, pode ser interessante lançar alguma coisa.
Como é lembrar daquele show, quando você se apresenta hoje em dia no acústico dos Paralamas?
Não tem nada a ver, é uma coincidência pura e simples. Tocar com eles é muito bacana, é uma escola para mim. E, engraçado, é o oposto do que fizemos. Eles prepararam tudo com muita antecedência, têm uma repertório muito bem pensado, arranjos elaboradíssimos de sopros, percussão. Uma sofisticação. O nosso é uma coisa tosca, o que vale é o coração, mostrar como a banda era de fato, uma grande cantor interpretando aquelas músicas.
Você tem medo de ser acusado de estar lançando um disco só pelo dinheiro?
Não, pelo seguinte: você vai fazer o que com esse material? Vai deixar apodrecer? Queimar? Ele existe, está ali em um arquivo, tem um oceano de pessoas interessadas, que contam com aquilo, sabem que vai fazer parte da vida pessoal de cada uma delas. Vai fazer o quê, pegar e incinerar? O Uma Outra Estação saiu tão logo depois da Tempestade, assim que o Renato morreu, exatamente para acelerar esse processo. Tem uns idiotas aí que chegaram a falar em necrofilia. Esses caras se eu pudesse eu matava, para que, aí sim, um necrófilo fosse comer o rabo deles, que é do que devem estar precisando. Estamos falando de música, cultura, tudo o que envolve a vida dessas pessoas. Isso não pode ser tratado nesses termos.