Estréia mostra que MPB pode explodir em 2000
(FSP de 26/03/98,
por PEDRO ALEXANDRE SANCHES)

Alguns artistas se anunciam ao público como quem não quer nada, e assim vinha acontecendo com Cris Braun, até há pouco vocalista pouco exibicionista dos pouco exibicionistas Sex Beatles. Tal pode até se repetir em sua estréia solo, "Cuidado com Pessoas Como Eu", um disco despretensioso, que não deve levar ao susto o ouvinte desavisado.

Mas a despretensão é cortina de fumaça. Há, sim, motivos para sustos. O núcleo nervoso de ousadia se esconde numa canção antiga de um artista hoje plantado no establishment: "Bom Conselho", de Chico Buarque. Outro estreante pedindo bênção a mandachuvas para existir? Poderia ser, mas não.

"Bom Conselho" é elemento desnudador da inteligência pop sofisticada de Cris, já insinuada nas brincadeiras dos Sex Beatles. Atente para os versos: "Tá provado, quem espera nunca alcança", "aja duas vezes antes de pensar", "devagar é que não se vai longe".

O que ela fez? Chamou Humberto Effe (outro expoente pop subvalorizado) para uma esperta urdidura de vocais, apanhou frases representativas de um contexto vencido (72, quando Chico era sistematicamente censurado), somou-as a um vigoroso arranjo tecno e redimensionou o discurso.

A provocação antes se dirigia às instâncias opressoras do regime militar; agora se estende a todos, à sociedade: em era de Internet e Chemical Brothers, tudo anda muito lento, e é hora de acordar.

Ainda no quesito "vanguarda da retaguarda", eletroniza a antiquíssima "Brigas", ostentando grau equivalente de estranhamento.

A voz intensa, bem conformada, destaca as baladas melancólicas: "Filme Antigo", "Tudo Meu", "Dry Martini Drama". Esta, da lavra de Alvin L. e dotada de divertida introdução de motel (entre Procol Harum e Serge Gainsbourg), restabelece o organismo Alvin/Cris. Fica evidente: sós, nem ele nem ela são tão ousados quanto eram juntos. Um parece padecer da falta do outro, e quando voltam a se cruzar tudo vira festa.

É o que acontece, indiretamente, na poderosa faixa-título, em que Cris dialoga com o existencialismo neo-romântico de Alvin (e, por extensão, de Marina Lima. Alvin diz que "nove entre dez maus elementos preferem as más companhias"; Cris é mais atirada, menos cética: "Dizem que se deve ter cuidado com pessoas como eu/ vão logo dando presentes/ dizendo te amo no primeiro adeus".

Dá-se ao luxo de ser romântica, não neo-romântica. O conjunto é de audácia contida, sem espalhafatos. Nesse passo, a MPB vai se dando conta aos poucos das encruzilhadas em que se meteu e ameaça dar um novo bote lá pelo ano 2000. E, se for, camarão que dormir a onda vai levar.


As vozes da beirada do milênio

A dois anos da troca de dígitos no relógio dos milênios, a música pop procura vozes que possam representar o início da era 2000. Candidatas não faltam, e muitas, no Brasil de hoje, resolveram estar no Rio de Janeiro. Dessas, duas saltam à frente em 1998: a de Cris Braun e a de Arícia Mess.

Chegam trazendo peculiaridades a um meio já inflacionado, o das cantoras pop: são também compositoras e começam a lidar com o mercado de maneira mais ou menos paralela à do esquemão institucionalizado pela indústria.

Fruto do Brasil globalizado, Cris Braun é gaúcha-alagoana- carioca (gaúcha até os 9 anos, alagoana dos 9 aos 18 e carioca daí em diante), tem 35 anos e lança nos próximos dias seu disco de estréia, "Cuidado com Pessoas Como Eu".

Egressa dos Sex Beatles (banda pop liderada pelo compositor Alvin L., que lançou entre 93 e 95 dois discos sem grande repercussão comercial), é inauguradora do selo Fullgás, da também cantora-compositora Marina Lima.

O selo é vinculado à "major" PolyGram, mas, segundo Marina, propósitos comerciais não são prioritários. "É uma espécie de cooperativa minha com a PolyGram, que me deu uma carta em branco para contratar quem tiver talento. É um trabalho ideológico meu: quero lançar artistas comercialmente viáveis, mas criando um ruído novo no mercado. O cenário anda um pouco igual demais."

Cris Braun estréia apostando no pop com inflexões eletrônicas ("de trip hop, drum'n'bass, trip'n'bass, sei lá, nunca sei esses nomes"), que ela usa em covers inesperados como os de "Brigas" (do repertório de Angela Maria e Agnaldo Timóteo) e "Bom Conselho", de Chico Buarque.

"A música do Chico é muito atual, é mais que rock'n'roll. Pode ser tanto a posição de um cretino como a de um revolucionário. É essa ambiguidade que busco. Pode ser ser um manifesto pela velocidade (eu não cantaria "eu quero uma casa no campo...'), mas pode ser também um "calma lá', um chamado de atenção para o excesso de velocidade".

Cris ousa no formato CD, em que a longa duração e o grande número de canções é regra. Seu álbum tem oito músicas em 30 minutos, só. "Não dá para pegar um artista desconhecido e entulhar o ouvinte de música. Ele vai cansar, não vai absorver tudo."

Nenhuma das duas sabe explicar a demora de sua geração em aparecer ao grande público."Demorei porque fiz muita doideira, viajei, era louca varrida de vassoura", diz Cris, pendendo ao individual. A política de individualismo que a geração a que pertencem parece perseguir é também objeto de reflexão para elas.

"Minha política é essa: cuidado com pessoas como eu. Quero desmascarar essa coisa do sedutor e da vítima - acho que as vítimas são muito perigosas também. Pode ser uma questão individual, mas hoje é difícil se agregar, porque há muitas vertentes. O que agrega é objetivo em comum, que acho que hoje não há. E as agregações podem ser perigosas, podem ser inimigas delas mesmas".

Tal não resulta em apatia, para ela: "O que parece apatia pode ser gestação. Não haveria esse desejo de raiz de hoje se os 80 não tivessem sido tão fechados nas boates pretas. A coisa solar dos 90 estava sendo gestada no escuro dos 80".

Noutro ponto são uníssonas: rejeitam a denominação cunhada na imprensa carioca para uma movimentação que se avoluma no pop nacional, a "música popular carioca". "Isso é mais um título que uma característica, todo verão há uma historinha nova. É lamentável que o nome faça transparecer bairrismo, uma atitude do Rio de se isolar em si", afirma Cris.

Disco: Cuidado com Pessoas Como Eu
Artista: Cris Braun
Lançamento: Fullgás/PolyGram

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