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Consulta Mística / última atualização em 19/11/1998 |
por Roberto Tietzmann / todos os direitos reservados, reprodução proibida.
No escritório, quando a hora do almoço se aproximava, o ritmo do trabalho ia lentamente desacelerando. Era aquele tipo de combinação que ninguém combinava. E a desculpa era irrefutável: ler jornal.
Das 11:45 em diante era a hora do horóscopo. Previsões diárias comentadas para toda a equipe. Martinha era a astróloga "de ouvido", lendo em voz alta e interpretando para cada um.
-Clara, cuidado hoje. Não coma peixe.
-Porquê, Martinha? Justo hoje que é dia!
-Seu horóscopo diz que você está passando por uma maré de infelicidade. Sua vida afetiva está rodeada de tubarões. Melhor não folgar.
Mesmo aqueles que desconfiavam de horóscopo de jornal achavam a coisa divertida. Quer dizer, todos menos o Lima.
-Mudou de idéia hoje, Lima? - Perguntava sempre a Martinha.
-Uquê? Horóscopo é uma bobagem sem tamanho! Ontem, hoje e amanhã!
-Mas precisa ser tão grosso?
O Lima não foi ateu de horóscopo a vida toda. Tornara-se um descrente quando foi estagiário em um jornal. Um dia apagou por engano uma matéria e veio o castigo: fazer o horóscopo por uma semana. Ali sua fé ruiu:
-Era o que eu lia primeiro no jornal! - Confessava a quem quisesse ouvir.
-Mesmo antes dos quadrinhos?
-SÓ LIA os quadrinhos SE o horóscopo não dizia nada contra! De repente era eu que devia redigir o futuro das pessoas. Sem nenhum preparo. Um mero estagiário! Imagine!
-Você acredita mesmo em horóscopo, não é?
-Acreditava. Acreditava.
Era muito para a sua cabeça. Então ele fez de sua vida uma missão para alertar a humanidade sobre a perda de tempo que é o horóscopo de jornal. Aproveitava a oportunidade e atirava pedras em quaisquer tipo de misticismo que passasse pela sua frente:
-E daí ela botou o tarô e... menina o que deu lá!
-Porque vocês perdem tempo com essas coisas? É um jogo de cartas marcadas! Não é adivinhação! É mistificação!
-Sai daqui, seu chato! Deixa eu conversar com a minha amiga!
-Chato por quê? Porque eu digo a verdade? É por isso? Vocês é que não sabem lidar com a democracia de opiniões aqui dentro. Só porque eu acho tarô uma bobagem preciso ficar quieto?
-Você está em minoria aqui. Isso não é um bom motivo?
-E os direitos das minorias? Hein? Hein? As minorias não têm direitos aqui? Nem de expressão? Fascismo! Fascismo!
Isso era o que mais irritava a todos no trabalho. O Lima parecia ter resposta para tudo. Discutir com ele era perder a hora do almoço em um debate irado e interminável.
Como o acaso não escolhe hora para entrar na vida da pessoa, um dia, voltando do almoço, o Lima deu de cara com uma antiga namorada. Ela distribuía panfletos na rua.
-Vamos tomar um cafezinho? - Perguntou o Lima.
-Ih, só se for de graça! Ainda tenho que dar essa pilha de folhetos pra ver a cor do dinheiro! - Disse Cecília.
-Não se preocupe. Estou sem um tostão, mas tenho caderninho na doceria.
Trocaram algumas palavras e combinaram de se encontrar. Ela deu seu novo telefone no verso do panfleto. Beijos sociais selaram a combinação.
Terminado o café e as despedidas, o Lima desceu as duas quadras até o trabalho recitando o nome e o fone da paquera antiga. "Ce-cí-lia. Dois Oito Cinco Cinco Nove Três". Aquilo era música para seus ouvidos! Definitivamente a sorte estava do seu lado! Sentia-se pronto para encarar o que viesse pela frente.
Virou o panfleto para ver com o que Cecília Sorriso Lindo (esse era o apelido não-autorizado dela!) estava ganhando a vida. CHOQUE!!! Era um panfleto com a foto de uma mulher fantasiada de cigana, emoldurado pelas frases "Mme. Janaína Futuro: Vidente" e "Descubra o amanhã hoje. Resultados garantidos. Em promoção esta semana.".
Esse era um ÓTIMO MOTIVO para nunca mais ligar para Cecília. Mas podia ser a paixão renovada ou o torpor do estômago cheio, o fato é que o Lima resolveu brincar com a própria sorte. Ia perguntar à Madame Janaína Futuro se deveria ou não ligar para a antiga amada. Além de tentar desmascarar a vidente. O endereço era perto. Com sorte, poderia ir e voltar sem que ninguém percebesse. Melhor de tudo, tinha um álibi perfeito: estava na hora de almoço.
Uma casa pequena de madeira com a pintura descascada era a casa de Mme. Janaína. Uma placa escrita com letras tortas avisava "Videmte (sic) Madame Janaína. Seu futuro está atráz (sic) desta porta.". O Lima tocou a campainha quando estava quase se arrependendo de ter ido até lá.
Ninguém abriu a porta. O Lima tocou outra vez, bateu na porta, bateu palmas, etc. fez o que pôde para chamar a atenção. Até que apareceu um vulto em uma janelinha na porta. Era a Madame! Vestida de acordo com o anúncio. "Pelo menos não era propaganda enganosa", pensou o Lima.
-Eu quero uma consulta!
-PSHT! Ouça.
-É assim que você trata os seus clientes?
-Você veio aqui por causa do anúncio. - Declarou a mística em tom solene.
"Até aí, agradeça a quem fez o panfleto.", disse para si mesmo o Lima.
-Seu coração bateu mais forte pela moça e você veio em busca de respostas.
Um arrepio pegou o Lima de surpresa: "Será que ela leu meu pensamento? Não pode ser. Afinal, quantos caras vêm aqui querendo saber de mulheres todo santo dia? Aposto que muitos!". Confiante, o Lima partiu para o ataque:
-Como eu sei que a senhora vai dizer a verdade?
-Minha bola de cristal não mente.
-E se ela falhar? Quero dizer, tipo sair fora de sintonia e mostrar o futuro de uma outra pessoa em vez do meu! Ou faltar pilha, sei lá.
-Ela não falha.
-Nunca falhou? Prove!
-Pague a consulta e eu lhe provo.
-Prove e eu pago a consulta.
A vidente fechou os olhos e levou a mão à testa. Com um gesto brusco, abaixou a mão e fitou o Lima nos olhos:
-O sr. me desculpe, mas não vou lhe atender.
-Você está com medo de mim? Medo que mostre que é um embuste? Você é uma fraude, dona vidente!
-Senhor Lima, atenção!
-Ei! Como você sabe meu nome???
-Seu futuro é tornar-se um inadimplente. Um caloteiro em bom português. O sr. não tem um centavo no bolso para pagar pela consulta. Gastou tudo no almoço. Estou dando descontos. Mas não de 100%.
-Como você descobriu isso?
-Passar bem.
E Madame Futuro bateu a janelinha. O Lima ficou com aquela cara de quem
não entendeu bem o que aconteceu. Pelo sim pelo não, passou
a não ralhar mais com as pessoas que gostavam de horóscopo.
E ligou no mesmo dia para a Cecília.