LUIZ COSTA
Uma série de TV é sempre termômetro do que os produtores acreditam ser as preocupações do público ou até de uma geração. Nos anos 70 e 80, a cultura neoliberal (do individualismo radical e sem escrúpulos, da falência do humanismo dos anos 60 e da vida levada no controle remoto) legou policiais do tipo chumbo grosso à Miami Vice e melodramas à Dallas. Aos poucos, o tom mudou. O mundo visto como grande mercado dá sinais de cansaço nos anos 90.
As duas melhores novidades norte-americanas da temporada denunciam os novos apelos para atrair o público médio. A comédia ligeira Ally McBeal (canal Fox) e o drama adolescente Dawson's Creek (Sony) fazem o elogio do vulnerável e da sensibilidade em meio à selva humana.
Cara serelepe, tremeliques de maior abandonada, a atriz Calista Flockhart explodiu como a zebra vitoriosa no Globo de Ouro que premiou sua Ally McBeal. Já Dawson's Creek é folhetim à antiga com uma garotada de alma adulta.
Calista tirou o Globo de Ouro das cotadíssimas Helen Hunt, Ellen DeGeneres, Brooke Shields e Kirstie Alley. Não é pouco. Nem injusto. Seu olhar de solteirona antes dos 30, romântica e prática deram à protagonista uma densidade rara à telecomédia norte-americana.
A protagonista cursou Direito para ficar perto de um namorado que, anos depois da separação, vira seu colega de escritório. Ally passará a temporada dividida entre se firmar profissionalmente ou reconquistar o antigo amante e fazer escândalo com toda ninharia sobre a condição feminina nas metrópoles.
A linguagem dos quadrinhos salva Ally McBeal da banalidade sentimental. A série mistura recursos que lembram Armação Ilimitada e Anos Incríveis, da Globo. Flechas espetam Ally, quando magoada, balões com frases surgem sobre sua cabeça e balas de canhão aparecem quando ela comete uma gafe. A narração é ágil e as tiradas, nem tão engraçadas, são agradavelmente descartáveis: fazem "ping!" e evaporam, sem deixar vestígios.
Já Dawson's Creek tem como trunfo os personagens. O núcleo central é clichê, mas clichê classudo. Dawson Leery (James Van Der Beek) tem 15 anos, tutano para desafinar o coro dos "aborrecentes" do colégio e uma ingenuidade amorosa que beira a estupidez.
Dawson idolatra a vizinha Jen (Michelle Williams) e ignora o amor de sua amiga Joey (Katie Holmes). O triângulo é previsível. Já o colega de Dawson surpreende. Pacey (Josh Jackson) ama sua professora. É o pivetão tão seguro de si que suas falas, maduras e ferinas, roubam a cena - são a vingança do guerreiro com espinhas contra o dragão da puberdade.
O segredo de Dawson's Creek é forjar uma turma com reações e diálogos de gente grande - e é duvidoso flagrar diálogos tão bons entre gente grande de verdade. O foco é a impaciência com a geração Coca-Cola e o valor da amizade. A geração do clipe faz, na série, a critica de um mundo de emoções fragmentadas e sensações videomaníacas das quais é fruto.
Em outros tempos, Dawson Leery e Ally McBeal talvez nem virassem protagonistas. Seriam considerados nerds nos anos 80. Nos 90, são um sopro de leveza contra o festival de besteiras que assola o livre mercado.