TV NO MUNDO
O fracasso dos seriados dessa temporada realça o sucesso
de "Ally McBeal". O programa da Fox, emissora que ameaça
a liderança da NBC, parece conter a tão procurada
fórmula que combina repetição e inovação
em doses certas.
Na metade de seu segundo ano de exibição, o seriado
confirma seu apelo cult. "Ally McBeal" é o mais
forte candidato a substituir o posto de "Seinfeld" entre
o público jovem, embora, nos índices de
audiência, a série escrita por David Kelley e estrelada
por Calista Flockhart não atinja as marcas de
"Seinfeld" e "Plantão Médico".
No Brasil, o seriado é exibido pelo canal pago Fox às
segundas-feiras, às 21h.
A estrutura de "Ally" não trás muita novidade.
Trata-se de mais um programa sobre romance, advogados, leis e
processos, um gênero consagrado na TV dos EUA. A maior parte
das sequências é gravada em estúdio, em cenários
que representam locais como a casa de Ally ou o escritório
onde ela trabalha. O interesse de "Ally McBeal" está
na capacidade que o seriado demonstra de
fazer alusões a temas contemporâneos, explicitar
expectativas latentes, provocar os espectadores com delicadeza.
No episódio da semana passada, por exemplo, mostrou o Natal
dos personagens. Com isso, Ally sugere que sua narrativa se passa
em um presente simultâneo ao tempo do espectador, mas a
coincidência entre o tempo ficcional e o tempo real dos
espectadores não se restringe às datas
festivas.
A coincidência de tempos reforça a sensação
de que a agenda dos personagens como que antecipa ou explicita
a do espectador. Ally lida com casos penais que problematizam
os problemas polêmicos do cotidiano dos americanos. O seriado
trata com irreverência alguns temas tabus por aqui, e seus
casos ou os de seus colegas problematizam o excesso dos preceitos
politicamente corretos.
E, com coragem, em horário nobre e com visual moderno,
discute a partir de que ponto o politicamente correto se confunde
com uma ortodoxia dogmática que no limite cerceia a liberdade
de pensamento e expressão.
Mas o que faz dessa personagem representada por uma atriz magra,
sensual e de sorriso largo um estrondoso sucesso é sua
relação visceral com o trabalho.Ally dirige a seus
clientes as emoções que não consegue realizar
em sua vida privada. Longe da postura resignada de quem trabalha
sem prazer, a advogada de saias justas e curtas de Boston é
apaixonada por seus casos e clientes. O
seu envolvimento afetivo não burocrático com o trabalho
contrasta com a frieza de seus colegas e com a futilidade de outros
personagens, como "Frasier". A relação
de Ally com seu trabalho é de verdade, e é essa
autenticidade que garante a força do seriado.
Folha de São Paulo