A pop star Madonna chega aos 40 anos sem crise

O aniversário é amanhã e ela comemora a data em sua casa, em Los Feliz, com a filha Lourdes Maria e amigos. Depois de 20 anos de carreira e uma vida de camaleoa, que mudava de persona de tempos em tempos, a cantora e atriz entrou numa fase mais tranqüila e diz que o que a faz feliz agora é mesmo sua vida particular

MARCELO BERNARDES

Especial para o Estado

NOVA YORK - A escritora e feminista Erica Jong, autora do livro Medo dos 50, quase surtou com uma recente capa da revista Time. Enfileiradas em fotos preto-e-branco, os tripés do feminismo moderno, Betty Friedan, Germaine Greer e Gloria Steinem, faziam companhia ao rostinho colorido de Calista Flockhart, protagonista da série de TV Ally McBeal - Minha Vida de Solteira, enlatado de estrondoso sucesso nos EUA agora àa disposição dos brasileiros na Rede Bandeirantes.

O título vinha com uma pergunta: O Feminismo Está Morto? Para a jornalista Ginia Bellafante, autora da reportagem, o movimento feminista vai mal das pernas nos anos 90, a era do egocentrismo, com musas como a personagem Ally McBeal, uma independente e articulada advogada que tem fantasias com o ex-namorado, que trabalha na sala ao lado e é casado com outra funcionária do escritório; a cantora Courtney Love que, em festas, mistura discussão de temas do feminismo com a nova coleção de Donatella Versace, a designer que aposentou o jeans rasgado dessa ex-grunge; e a escritora Susan Faludi que, em artigo na revista Nation, perdoa os deslizes sexuais de Bill Clinton, reconfortando a primeira-dama dizendo que "entre outros poderes, a mulher conquistou o de perdoar os homens".

"Uma personagem de TV ser comparada com três mulheres históricas? Para mim, é apenas um artigo estúpido", contra-atacou Erica sobre a reportagem da Time. "De Clare Boothe Luce a Camille Paglia, escritoras tornaram-se famosas por atacar outras mulheres, mas isso é covardia, é o velho jeito do mundo, o mundo patriarcal", esbraveja Erica em sua coluna na Internet.

Para a feminista Madonna, um lado que a pop star cultiva desde que abandonou a pejorativa persona de mulher-objeto - diz até passar mal cada vez que vê a MTV reprisar o videoclipe Material Girl -, esses discursos inflamados, que movimentam a roda de intelectuais femininas de Nova York e Washington, funcionam como sonífero.

De acordo com Madonna, que amanhã completa 40 anos, nada melhor que um bom livro de cabeceira para espantar o tédio. E, na sua casa em Los Feliz, subúrbio de Los Angeles, a pop star diverte-se com um best seller de auto-ajuda, Como Adestrar seu Homem em Mais ou Menos 21 Dias, da escritora Karen Salmansohn, lançado no Brasil pela editora Best Seller. Karen parte do princípio de que não há muita diferença entre homens e cães e, como as mulheres são capazes de fazer um cachorro sentar ou urinar longe do tapete persa, por que não treinar seu homem para ficar de quatro?

Será que ao chegar aos 40 ela continuará sendo a mesma velha e boa Madonna, a provocadora? Para Camille Paglia, a feminista que gosta de falar mal das outras e se tornou uma espécie de analista ambulante de Madonna como ícone da cultura pop, o reino da diva quarentona está esfacelado. "Não acho que ela está lidando muito bem com seu aniversário", declarou Camille à imprensa inglesa na semana passada. "Madonna está passando por uma crise de identidade, porque é um símbolo sexual e 40 anos costuma ser uma idade considerada pesada; ela parece estar tendo problemas para mudar de persona hoje em dia, muito embora há algum tempo fosse uma boa camaleoa", afirmou.

Para Camille, Madonna aos 40, é um ser depressivo. "Ela me faz lembrar do tempo em que Barbra Streisand enfrentava uma crise de meia-idade e apareceu com aquele terrível penteado encaracolado à afro", provoca a escritora que elogia o desempenho de Madonna como feminista. "Ela realmente mudou algo; em 1980 afundávamos numa espécie de stalinismo e Madonna apareceu nocauteando muitos dos tabus feministas sobre moda e beleza", prosseguiu. "Nós já tínhamos visto o suficiente daquela coisa de estrelas de cinema como Meryl Streep ir ao Oscar mal vestida como se estivesse dizendo `eu sou boa demais para isso'", conclui.

Segundo a assessoria de Madonna, é bem provável que ela comemore seu aniversário amanhã em Los Feliz com a filha, Lourdes Maria, amigos e o namorado. Nos últimos meses, a pop star vem mantendo um relacionamento com o roteirista inglês Andrew Bird, de 28 anos.

Romances passageiros - Em entrevista exclusiva ao jornal New York Post, tablóide que adora seguir os passos da estrela, Madonna explica o porquê de nos últimos anos ter passado pelos braços de Sean Penn (com quem se casou em 1985, separando-se três anos depois), Warren Beatty, Dennis Rodman, Jack Nicholson, Esai Morales, Carlos Léon (o personal trainer e dublê de ator, pai da filha da cantora) e Mick Jagger.

"Manter relacionamentos longos sempre foi um problema para mim", diz Madonna. "Crescer sem minha mãe por perto deixou-me com um medo real de intimidade - não querendo ser magoada, não querendo ser deixada de lado novamente por alguém que eu amasse." Procurada pela reportagem do Estado, a autora da reportagem, a jornalista inglesa Gill Pringle, diz ter encontrado pela frente uma Madonna decidida e sem traços de crise. "Ela me pareceu bastante profunda nessas mudanças que a maternidade lhe proporcionou", explica Gill.

Madonna Louise Veronica Ciccone nasceu em Bay City, Michigan, no mesmo ano em que Jorge Amado lançava o romance Gabriela, Boris Pasternak ganhava o Prêmio Nobel de Literatura, Leonard Bernstein começava a reger a Filarmônica de Nova York, Vanessa Redgrave estreava no teatro ao lado do pai, e, com a ajuda de Pelé, a seleção brasileira ganhava sua primeira Copa do Mundo. Quando tinha 6 anos, sua mãe morreu de câncer, deixando-a com uma sensação de perda que a pop star revela ter desaparecido somente recentemente, quando sua filha nasceu. "É minha vida privada que me proporciona satisfação no momento", disse ao Post.

"Estou realizada como nunca, o nascimento de Lourdes foi um renascimento para mim", explica. Foram álbuns como Like a Virgin, True Blue e Like a Prayer que, além da vontade furiosa de mudar de estilo e de vulgarmente dizer o que lhe dava na telha, catapultaram Madonna ao estrelato. Uma carreira cinematográfica acompanhou a trajetória da cantora com exemplares infelizes como Quem é Essa Garota?, Dick Tracy, Surpresa em Xangai e Corpo em Evidência. O retrocesso chegou em 1992 e bateu pesado em sua imagem, quando lançou o álbum Erotica e o livro Sex em que, entre outras poses escandalosas, ela aparecia beijando Isabella Rossellini na boca e pedindo carona, nua em pêlo, numa movimentada rodovia da Flórida.

"Madonna ficou parada tempo demais no bonde do sexo", avalia Camille Paglia. "O livro Sex foi um erro, todos nós já tínhamos visto aquelas fotos de sadomasoquismo antes", afirma. Interpretar a primeira-dama argentina Eva Péron no musical Evita, em 1996, foi um novo impulso em sua carreira. Nesse dramalhão de Alan Parker, Madonna não só mostrou que podia atuar , como descobriu que seu timbre vocal estava pronto para alcançar novas latitudes, após exaustivo treinamento enquanto gravava a trilha sonora do filme, que recebeu o Oscar de melhor canção.

É impossível não notar um aprimoramento em Ray of Light, seu mais novo álbum. Melhoraram também os arranjos, trabalho do mago da música eletrônica William Orbit, que mixa o melhor dos sons indianos e norte-africanos com a batida pop, além das composições que falam do mau uso da fama, egocentrismo, religião e até da chegada da filha, que chama de sua butterfly.

No dia 11, Ray of Light, seu primeiro hit em uma década, concorre a oito prêmios VMA, o prêmio da MTV para videoclipes. Seus clipes Ray of Light e Frozen foram dirigidos, respectivamente, pelo sueco Jonas Akerlund e pelo americano Chris Cunningham, duas grandes promessas de cineastas.

Seu tino comercial também melhora. O selo Maverick, que mantém dentro da Warner Bros. (cada parte tem 50% das ações), detém o passe de artistas como Alanis Morissette, Candlebox e Prodigy, banda inglesa considerada catalisadora de novas idéias do mundo pop. Entre as novidades de sua gravadora, estão a cantora sueca Ebba Forsberg e três irmãs negras de Manchester, que prometem ser a versão rap das Spice Girls. O nome da banda? Cleopatra.

De olho na TV - A Maverick recentemente se associou como o selo A Band Apart Records, de Quentin Tarantino, e já lançou a trilhas sonoras de Jackie Brown e The Wedding Singer, sucesso com Drew Barrymore. Em outubro, Madonna fará parte de The Emperor's New Clothes, um livro e CD de histórias infantis com renda revertida para uma instituição de caridade de Steven Spielberg. O novo alvo da cantora é a TV. Para isso, sua Maverick acabou de assinar contrato com a Imagine Entertainment, empresa do cineasta Ron Howard e do produtor Brian Grazer, que também fisgaram o passe de David Lynch.

A Madonna-atriz é o lado mais confuso da pop star. Assim como Leonardo DiCaprio e Sharon Stone, está sendo difícil para a atriz achar um veículo certo. Recentemente, recusou o convite para participar da montagem londrina da peça de Tennessee Williams, Gata em Teto de Zinco Quente.

Há duas semanas, abandonou um projeto para o qual se preparava desde o ano passado, o filme 50 Violins, sobre uma socialite novaiorquina que, depois do divórcio, vai dar aulas de violino para as crianças pobres do Harlem. Uma nota da Miramax, a distribuidora do filme, mencionava a costumeira "diferença criativa" entre Madonna e o diretor Wes Craven (de Pânico). Na quarta-feira, Meryl Streep assumiu o papel.

Sobram para Madonna dois projetos, a comédia The Very Best Thing, na qual interpreta uma mãe solteira que convence o melhor amigo (Rupert Everett) a assumir a paternidade da criança. Em janeiro, Madonna começa a filmar, sob a direção de Nicholas Hytner (de As Loucuras do Rei George) e ao lado de Goldie Hawn, a versão cinematográfica do musical da Broadway, Chicago. Ao contrário de Elizabeth Taylor que, aos 40 anos, tinha Hollywood a seus pés, Madonna precisará de munição pesada para continuar no topo na próxima década.