Prof. Agostinho da Silva

Texto 8


TRÊS NOTINHAS DE AGOSTINHO

2.

Batida a economia comunitária pelo de África surto capitalista que da Europa veio atraído pelas navegações que, sem ele, nunca poderiam ter sido o que foram;
derrubada a prática de ser um monarca o coordenador de municípios republicanos para se passar a governos centralistas e centralizadores como se fossem sem comando de nau;
substituída, para a maioria da população, o educar-se a na vida, para a vida pela vida, pelo que seria a disciplina, digamos militar, da escola: por fim, mas o mais significativo, suprimido o culto do Divino pela intervenção da Igreja Romana, o que resto fez que permanecesse nas Ilhas, se introduzisse no Brasil e na Califórnia ou na Nova Inglaterra.

Sentiu grande parte dos portugueses que tudo era como se seu país tivesse acabado e que as saudades de um passado que não voltaria juntas às saudades de um futuro que parecia não poder vir a existir os obrigava à saída, primeiro para os possíveis arquipélagos, depois para a costa da Guiné, para isso se dobrara o Bojador, depois para o Brasil que se acabava de descobrir como morada e em que parecia possível, com os indíos e a distância do Reino, viver de algum modo semelhante ao que fora o de Portugal em seus bons tempos; e é a esses fugitivos, da terra mas não do combate, como se continuou praticamente até nossos dias, que se deve o melhor resultado dos descobrimentos, esse Brasil que um dia se verificará ser modelo ou prenúncio de um mundo em que haverá pleno e íntimo contacto entre muitas etnias e muitas culturas, todas empenhadas, sabendo-o ou nao, no estabelecer de uma cultura universal que a nenhuma outra, mesmo que individual, oprimirá ou apagará.

Bom seria, para ajuda, que alguma coisa aparecesse que fosse um ponto de partida pela reflexão que sobre ela se fizesse, um guia para a procura de caminhos e, sobretudo, meta a atingir, sendo só boa meta a linha que se pode e se deve ultrapassar.

O que tudo sucede com dois criadores que eclodiram um após o outro e com dois textos que se sucederam e que são provavelmente os mais importantes da cultura portuguesa:
nos Lusíadas de Camões o episódio da Ilha dos Amores e na História do Futuro de Vieira, sendo neste tudo o que subjaz de fundamental, também na Ilha dos Amores, não na maneira do aventureiro mareante e guerreiro, mas como no jeito do disciplinado guerreiro e monge.

Dizem os dois que se tem, primeiro, de marcar o objectivo a atingir, dum lado a Índia, do outro o Quinto Império, a ele chegando pela navegação de Vasco da Gama, com toda a disciplina das tripulações, pelo outro com a Catequização dos primitivos que se forem encontrando, e aqui com a cerrada linha militar da Companhia de Jesus; que, em comum, se tem de se passar a ser o para que se nasceu, depois de ter sido certa peça, humilde sempre ainda que maioral pareça, nas máquinas que a vida estabelece para que o avanço seja possível e em bom rumo; numa fase, diriam os chineses, se tem de obedecer a Confúcio, na outra, a de ser poeta à solta, a de confraternizar com Lao-Tsu.

Nesta segunda se tem de apagar do espírito todo pesadelo que nos pode dar o corpo, por um meio ou outro, e de ouvir bem calmo o que nos diz a Criatividade Suprema, com a deusa grega, se nos fascina a estética do politeismo, com o Deus cristão se somos fiéis católicoa, como o era o jesuíta;
enfim com o aspecto ou designação que nossa religiosidade, mesmo se descrentes formos, tenha dado ao do geral Divino.

É essa criatividade, nela própria ou na centelha que dela em nós ficou por termos sido criados, que nos livrará daquelas prisões de tempo e de espaço que tanto afligiram os gregos e de que nunca se libertaram por não terem fim, em seus próprios círculos, nem a filosofia nem a geometria.

Todos os que nascerem em Portugal ou de Portugal, mesmo muito longínquo, tiverem sua semente, Têm de ser, acima de tudo, sacerdotes da criatividade e dela operários e dela místicos, até que na criatividade se fundam, e nela, inteiros todos, todos no tempo e na eternidade, jamais se possam distinguir uns dos outros:
nenhum de nós, gente viva, de nenhum de nós, vivos ou mortos.



Agostinho


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Compilado e transcrito por José Eduardo Moura Neves
Esta página foi criada com o WebEdit, Segunda-feira, 13 de Maio de 1996