NADA NADA NADA NADA 
É isso o deserto do Atacama, no Chile. De repente, eu abro a cortina do ônibus, e só vejo montanhas e mais montanhas, cobertas somente de montes de poeira, e mais nada. Nenhuma plantinha, nem mesmo cactos, o vegetal do deserto. Nada mesmo.
 

Difícil é imaginar como alguém pode viver por ali. Eu, acostumada a viver em Brasília, dou uma gargalhada agora quando dizem que nossa cidade tem clima de deserto. Certamente, frase de alguém que nunca esteve no Atacama pra saber o que é secura. Passam-se anos sem uma gota de chuva. A boca fica totalmente ávida por um gole d'água, a cabeça só pensa em água. As mãos, duras e secas.

A maior surpresa do deserto é encontrar tanta beleza nesse nada absoluto. Nessa secura total. E foi exatamente beleza o que encontramos, partindo de Antofagasta  num carro alugado e andando cerca de 300 km até chegar a San Pedro de Atacama, cidadezinha de 900 habitantes no meio do deserto, e com muitos, muitos turistas, a maioria europeus.
A estrada até San Pedro é maravilhosa, apesar de totalmente deserta (cruzamos com 15 carros em 100 km). San Pedro fica escondida entre um lugar chamado Vale da Lua, e o Salar do Atacama, bem perto da Bolívia. É muito simples, com ruazinhas de terra, pousadas cândidas, como seus proprietários, os índios. À noite, o programa é vestir um casacão (como todo deserto, faz um frio glacial à noite e um calor infernal ao meio-dia) e ir pra algum dos barzinhos, que por sinal, são bem interessantes para uma vila de 900 habitantes.
Às 3h da manhã, acordamos pra pegar uma excursão para ver os géiseres. Depois da tentativa bem sucedida de se vestir no escuro (o gerador fica desligado de madrugada), entramos numa Besta com mais 8 turistas. Além de nós três brasileiros, o único sul-americano era o motorista e guia. Todos os outros eram europeus, que escovavam os dentes com água mineral, certamente com nojo e medo de pegar alguma doença tropical.
A maior secura dentro da Besta, ainda mais porque meus digníssimos amigos se esqueceram de comprar água. Tínhamos só uma (a minha) garrafinha de 1/5 litro para abastecer três adultos sedentos (um com ressaca) até de tarde.

Às 7 horas da manhã,  depois de mais de 3 horas de viagem, vislumbramos um pouquinho de fumaça saindo do chão. Quanto mais nos aproximávamos, mais a fumaça ficava densa. Chegamos aos géiseres del Tatio, dezenas piscinas de água fervendo (a 85 graus a água fervia, pois estávamos a 4.500 m de altitude!), no meio do deserto gelado. Havia gelo em volta das piscinas ferventes!!! E as piscinas não paravam de borbulhar, o guia contando histórias de turistas que, sem querer, caíram naquelas águas e morreram queimados.
Àquela hora fazia cerca de 10 graus negativos, e as minhas luvas e meias já não adiantavam pra nada. Nem mesmo os géiseres me fizeram ficar lá fora, com aquele frio insuportável e dolorido. Mas esse frio intenso durou pouco tempo. Fomos parar numa piscina maior, que o guia chamava de termas, em que podíamos entrar e tomar banho. Num frio mais ameno, de uns 3 graus positivos, tiramos todos aqueles casacos e calças de lã e caímos n’água. Os italianos, escoceses e suíços ficaram lá fora, sem coragem de entrar, só nos olhando: os três brasileiros, um chileno e uma alemã, fomos os únicos  que tivemos coragem de entrar.
Depois disso, mais um banho, agora numa espécie de oásis, um riachinho com pequenas cachoeiras de água quente (uns 25 graus). Uma delícia, o único problema é sair (às 11h da manhã ainda fazia um pouco de frio lá fora).
Seguimos para San Pedro, pegamos nossas coisas e pé na estrada, num calor insuportável. O deserto, com todas as suas cores, nos convidando a passar mais um tempo em seus domínios. Mas um avião me esperava para voltar ao Brasil e deixar aquelas paisagens maravilhosas e inesquecíveis do deserto chileno. Mas um dia estarei de volta. Com um pouco mais que 1/5 litro d'água, quem sabe passo muito mais tempo por lá?
 

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