Canadá de ponta a ponta: Uma viagem pela estrada de ferro que atravessa montanhas, lagos, cidades e florestas para unir as duas pontas do segundo maior país do mundo. E que muitos consideram o mais bonito.
Quem entende de longas caminhadas, sabe que o segredo de se chegar lá está em partir com um bom preparo físico e dar sempre um passo atrás do outro. Mas se a aventura é cruzar de trem, e em apenas dez dias, os mais de 6000 Km que separam as duas costas do território canadense? Neste caso, mais do que condicionamento do corpo, é preciso muito preparo mental. Só assim você vai poder colher, no fluxo incessante de imagens que passam pela janela a 150 Km/h, aquelas que valem a pena guardar na memória. E ainda assim sobram muitas. Afinal, começando pelo litoral recortado da costa atlântica, essa ferrovia permite conhecer as principais cidades canadenses, margear rios históricos e alguns dos grandes lagos, deslizar na plataforma achatada, quase infinita, das pradarias para, finalmente, escalar triunfalmente as montanhas rochosas da província de Columbia Britânica, antes do encontro derradeiro com o pacífico, em Vancouver.
Ainda que você tenha preenchido estes requisitos básicos e se considere bem preparado, não espere ver e compreender o Canadá inteiro nos dez dias da travessia. Isso é humanamente impossível. Nem mesmo quem passou metade da vida sobre os trilhos da Transcanadense tem a pretensão de esgotar as paisagens do trajeto. Tome o exemplo do camareiro Wilf Vermette, que já viveu 24 dos seus 43 anos de vida dentro do Canadian, o trem que faz a ligação entre Toronto, em Ontario, e Vancouver, na Columbia Britânica, que, com seus 4500 Km, é o trecho mais longo da Transcanadense. Mesmo depois de milhões de quilômetros rodados nessa estrada de ferro, ele ainda consegue se surpreender com o que vê das janelas. Às vezes, basta uma olhadela na paisagem para, num relance que não dura mais de uns poucos segundos, flagrar uma mamãe urso ensinando os seus filhotes a pescar.

Canadá do Atlântico: A parte atlântica do Canadá é marcada pela insistente presença da água na paisagem. Os trilhos primeiro atravessam um trecho do litoral, depois margeiam o comprido rio São Lourenço e, por fim, acompanham os Grandes Lagos.

Memórias de uma tragédia: Apesar de ter sido o principal porto do Canadá inglês, Halifax costuma ser lembrada mesmo pelo seu cemitério. Ali estão enterrados centenas de náufragos do Titanic, inclusive um certo J. Dawson, que inspirou o herói do filme estrelado por Leonardo DiCaprio.

Outro lembrete importante: A ferrovia Transcanadense não atravessa apenas parques nacionais e zonas ermas de floresta de pinheiro como as vezes se imagina ao ler folhetos turísticos. Nada disso. Como do Canadá a função das ferrovias nunca foi unir o nada a coisa alguma, a Transcanadense foi planejada para cortar a parte Sul do país, onde está concentrada a maioria da população. Às vezes, ela até corre demoradamente junto à fronteira com os EUA, onde estão centro urbanos como Toronto, Montreal ou Vancouver. Nessa região vivem 80% dos cerca dos 30 milhões de habitantes do país. Ainda assim, o que mais se vê no caminho é a natureza selvagem. Primeiro porque os canadenses estão concentrados em algumas poucas cidades, segundo porque a ecologia aqui é realmente levada a sério. Por isso, durante a travessia, pode-se ver tudo o que o Canadá tem de mais bonito sem jamais sair da linha. A única regra aqui, é ficar atento ao apito do condutor para não perder o trem. Porque quando ele gritar "Todos a bordo", as engrenagens já vão estar rangendo.
Fio da Meada: Você  provavelmente nunca ouviu falar de Halifax, mas começar a travessia do Canadá por aqui é uma necessidade na qual não convém fugir. Nem tanto por suas atrações turísticas. Apesar de a cidade ficar diante de uma linda enseada e possuir uma orla marinha bordada por uma fileira de belos prédios vitorianos, ninguém atravessaria metade do mundo para visitá-la. O início da viagem é Halifax porque aqui está a ponta da Transcanadense. Ou seja, o Canadá ferroviário começa aqui. Mas você bem poderia lembrar, com muita propriedade, que uma estrada tem sempre duas pontas. Juntando esta esperta observação com uma outra ainda mais forte - de que as incríveis montanhas rochosas estão lá do outro lado, na ponta de Vancouver - , muita gente poderia concluir que o melhor é começar pelo lado do Pacífico. Ou, então, e aterrissar em Toronto, no meio do Canadá, e rumar direto para o paraíso de montanhas, lagos e florestas dos parques nacionais que estão no sonho de 10 entre 10 aventureiros no mundo inteiro. Contra esta observação sedutora, mas um tanto apressada, é preciso sacar logo os livros de história, evocando a sabia paciência de quem gosta de ver as coisas por inteiro. Em primeiro lugar, saiba que a costa atlântica canadense tem sido um insistente começo do país desde há muitos séculos. Foi ali que o italiano Giovanni Caboto aportou, em 1497, achando que era o primeiro europeu a avistar aquelas terras. Não era. Na verdade, a região já havia sido visitada 500 anos antes pelos vikings comandados pelo mítico Eric, o Vermelho. De qualquer forma, como Caboto era um assalariado da coroa inglesa declarou tudo posse da Inglaterra. Torre Indicativa: Quando o Ocean - o trem que faz o trajeto entre Halifax e Montreal - estiver cruzando o recortado litoral dos primeiros 1000 Km que separam as duas cidades, cheio de baías e enseadas, é possível identificar na arquitetura das casas a matriz cultural de seus primeiros colonizadores. Uma boa maneira de separar de longe o joio do trigo nesse balaio cultural é observar o estilo das torres e fachadas das igrejas. As sóbrias, de madeira, indicam um passado inglês e protestante, enquanto as de pedra e cheio de floreios eram preferidas pelos católicos franceses. Essa região também tem suas atrações naturais. Os moradores de Nova Escócia e de Nova Brunswik adoram dizer que concentram em seus pequenos territórios tudo o que o Canadá tem de melhor. Existe alguma razão nisso. Afinal, estes territórios têm sua superfície coberta em 80% por florestas e um número de lagos azulados contado em dezenas de milhares !! Mas a afirmação também contém algum exagero. Bem, como sempre acontece com os pequenos territórios, eles adoram dizer que são o máximo. Em Nova Escócia, prepare-se para ouvir muitas vezes que está província é a maior exportadora mundial de árvores de natal, de lagostas e de amoras silvestres, muito apreciadas no Canadá. E que Halifax, além de ter sido a cidade que recebeu mais corpos do naufrágio do Titanic, também tem entre seus records uma outra tragédia. Ali, no porto central aconteceu a maior explosão provocada pelo homem antes das nucleares do Japão, ao final da segunda guerra mundial. Foi numa colisão acidental entre dois barcos carregados de munições, em 1917, e que deixou um saldo de 2000 mortos.

Cidade Luminosa: Se existe uma cidade obrigatória do giro instrutivo do lado Leste canadense, é Quebec, Capital da província que leva o mesmo nome e centro do Canadá Francês. Desça do Ocean em Levis, na margem Sul do rio São Lourenço, e faça a rápida conexão de poucos Kms que leva à outra margem, entrando na histórica muralha da cidade até o centro velho, todo ele transformado em patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. O Ocean termina sua viagem na meio-subterrâneo Montreal, que é considerada o centro das artes do Canadá. O próximo passo é chegar a Toronto, coisa que leva menos de três horas de trem. Vale a pena conhecer um pouco dessa cidade que é considerada uma espécie de babel do próximo milênio. Entre seus arranha-céus, feitos de concreto e vidro espelhado, desfilam povos e culturas vindas de setenta países vindos do mundo inteiro, e que encontram nas margens frias do lago Ontario o ambiente para uma perfeita convivência. Antes de retomar a travessia Leste-Oeste, porém, vale a pena considerar uma esticada rumo ao Sul e, em pouco mais de uma hora de trem ver de perto as quedas do Niágara. De volta a Transcanadense, a natureza passa a protagonizar o espetáculo. De Toronto parte o Canadian, principal trem desta aventura, que ruma para o ainda inóspito Oeste Canadense. Para quem vai direto até Vancouver, são três dias de viagem. É nesse trecho que a estrada abre para os grandes planos das pradarias, que englobam as três províncias centrais do país. Este é o sertão canadense, uma plataforma de relevo levemente ondulado coberto ora pelas plantações de trigo ou pastagens, ora por florestas intocadas. Essa ainda é uma terra bravia, cheia de comunidades indígenas que lutam para conservar suas tradições. Mas é também uma terra de aventureiros, aberta à imigração dos que estão dispostos a enfrentar o frio e o isolamento. Nas últimas décadas, a região foi ocupada por comunidades vindas do Leste europeu, principalmente de Ucranianos. Um movimento que cresceu ainda mais depois que se descobriu que debaixo das rochas do Canadá central, consideradas entre as mais velhas do planeta, existiam não só milhares de fósseis de dinossauros, mas também milhões de litros de petróleo.

Parque Dos Sonhos: As pradarias são impressionantes por sua vastidão. E funcionam como perfeita antessala para a grandeza vertical das Montanhas Rochosas da Columbia Britânica. Se você algum dia sonhou em visitar o Canadá, muito provavelmente o que passou sobre a sua cabeça foram as paisagens espetaculares dos parques nacionais que protegem as Rochosas. O Principal deles é Jasper, que muitos experimentados aventureiros já elegeram como mais bonito parque natural do planeta. Pense numa atividade ao ar livre. E tenha certeza ainda maior de que vai encontrar muita vida natural ao longo do caminho. Visitar os parques é coisa fácil e pode ser feito de carro através da já mítica estrada que liga as cidades de Jasper e Banff. No entanto, para quem não quer perder o espírito ferroviário tão zelosamente mantido ao longo da Transcanadense, o mais indicado é cruzar as Rochosas através do Rock Mountaineer, um trenzinho simpático que atravessa toda a cadeia de montanhas para desembocar em Vancouver, já na costa do pacífico. E se a travessia das Rochosas tem alguma coisa de desagradável, é a constatação um pouco amarga que depois delas não resta outra coisa a fazer senão descer em direção ao fim da viagem. Saindo da envolvente paisagem de picos gelados, lagos coloridos e glaciares de até 100.000 anos de idade, a ferrovia vai perdendo altura rumo ao mar.

Berço da Ecologia: A vista do pacífico provoca nos passageiros a melancolia típica do fim de festa. E nada melhor do que Vancouver para confortar os mais tristonhos. Essa cidade, calorosa no clima e no espírito das pessoas, costuma ser comparada a californiana São Francisco. Berço do movimento ecológico, centro tecnológico, e ponto de encontro do que existe de mais moderno nas culturas ocidental e oriental, Vancouver é apontada como um exemplo de cidade que conseguiu unir a natureza com os avanços da civilização. Na última freada do trem, na estação high tech de Vancouver, é impossível disfarçar um certo orgulho pela missão cumprida. É uma sensação mais do que justa. Afinal, são poucos os que podem olhar a fabulosa mancha do Canadá no mapa-múndi e afirmar: "Eu atravessei esse gigante de ponta a ponta". Em se tratando de Canadá, esta frase merece ser dita de peito estufado.

 Pé no chão:

Como chegar: A Canadian Airlines(011/2599066) tem vôos diretos para Toronto a partir de São Paulo. A passagem ida e volta custa R$ 965,00 na baixa estação. Mas, se você pensa em cruzar o Canadá inteiro, o melhor é comprar uma passagem aérea que já inclua a conexão até Halifax. Bem como o retorno aéreo a partir de Vancouver. Essa opção sai por volta de R$ 1300.00. A Canadian também vende os bilhetes de trem. O trajeto inteiro, na classe econômica, sai por R$ 527,00. O preço inclui cabines e refeições durante as viagens nos trens Ocean e Canadian. Importante: você não precisa seguir sempre no mesmo trem. Pode descer nos lugares que escolher e seguir viagem em outro dia. Nos trajetos longos, porém, é bom se programar e fazer reservas com antecedência, pois os lugares se esgotam rapidamente.

Quando ir: O frio no Canadá é coisa séria. Nem pense em ir para lá nos meses de inverno de novembro a março. A melhor época é o verão, em julho ou agosto. O problema é que nestes meses de alta estação os preços sobem até 30%. Um meio termo é o mês de setembro, quando a temperatura ainda está agradável e os preços já abaixaram.

Quanto tempo: Pode-se cruzar o Canadá inteiro em menos de uma semana, só descendo do trem para as conexões. Porém, se você quer conhecer o que existe de mais importante nas cidades do trajeto, bem como fazer um giro pelas montanhas rochosas, programe sua viagem para 12 dias. O trem Ocean sai de Halifax todos os dias, exceto terças-feiras. de Montreal a Toronto, os trens são diários. Já o Canadian, que liga Toronto a Vancouver, sai as terças, quintas e sábados.

Dica do autor: "Por causa do sistema de aquecimento, não é possível abrir as janelas dos trens. Para fazer boas fotos e apreciar melhor a paisagem, vá aos conectores entre os vagões. Ali, as janelas podem ser facilmente abertas."

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