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A água como lugar de liberação em
O ano da morte de Ricardo Reis
de José Saramago e Em liberdade de Silviano Santiago
Susana Ramos Ventura
USP
II - As Obras
O ano da morte de Ricardo Reis, romance do escritor português José Saramago, teve sua primeira edição em 1984. Em liberdade, ficção do escritor brasileiro Silviano Santiago, teve sua primeira edição em 1981. A ação ficcional de ambas as obras se dá no final da década de 30, ou seja, na fase imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial. José Saramago nos mostra o panorama de Portugal dominado pelo regime fascista de Salazar. O foco é Portugal, mas toda a Europa e África são retratadas no romance, que condensa a ação política que levou ao conflito mundial. Para tanto, Saramago transforma Fernando Pessoa, o grande poeta português, morto em 1936, e seu heterônimo Ricardo Reis em personagens de uma trama que parece feita à medida para questionar não apenas uma época histórica, mas sim todo um "ideário coletivo" sobre o "ser português". Silviano Santiago nos mostra o Brasil sob o regime ditatorial de Getúlio Vargas. Para tanto, transforma o escritor Graciliano Ramos - representante de uma corrente literária que visava retratar o Brasil através da representação de suas reais condições sociais em personagem de uma ficção onde uma trajetória pessoal marcada pela profunda consciência dialoga com a realidade. III - As Cidades
Lisboa e a cidade do Rio de Janeiro nos anos de 1936/1937. IV A Proposta
A proposta é destacar o papel da água em ambas as narrativas ( mar, rio, fonte, banho) e construir uma hipótese de significação como "lugar de liberação". V O ano da morte de Ricardo Reis
Qualquer obra que pretendesse tecer considerações sobre Portugal e o modo de ser e atuar de seu povo teria de levar em conta a importância da época das navegações. Quando o autor em questão é José Saramago, já se sabe de antemão que o questionamento e a crítica levantados pela obra serão, no mínimo, profundos. Naturalmente, um trabalho que, como este, se propõe a mostrar a água como espaço artístico significante, tem de levar em conta que, no caso de Portugal, o mar já vem com uma carga de significados anteriores, que nem sempre poderão ser plenamente explorados, sob pena de perder-se a possibilidade comparativa com o texto brasileiro, em bases equânimes. Passaremos, a seguir à primeira parte deste, onde se pretende selecionar no texto de José Saramago partes onde a água desempenha papel significativo: Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara.(T.p 11) Assim se inicia o romance, anunciando o final do mar e o princípio da terra. A própria maneira de enunciar indica que o ponto de referência tomado é o mar, já que, ao fim dele estaria a terra. A terra tem uma cidade pálida e coberta de chuva. As águas de um rio correm turvas de barro, o que provoca cheia nas terras alagadiças das margens. O início do período seguinte confirma que tal paisagem está sendo descrita desde uma embarcação, pois " um barco escuro sobe o fluxo soturno". Este barco "é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara". O leitor chega assim, por via marítima, à cidade de Lisboa, aquela que existe no final do mar. A cidade é pálida e está chovendo. O navio passa do mar ao rio ( Tejo) de águas turvas de barro. A chuva provoca cheia nas lezírias ( terrenos alagadiços às margens dos rios). Além da água turva, o barco é escuro e sobe o fluxo soturno do rio para chegar ao atracadouro. A cidade, pálida e úmida é vista através de uma cortina de água e o narrador afirma: Por gosto e vontade, ninguém haveria de querer ficar neste porto.(T.p.12) Os próprios viajantes, que devem desembarcar, hesitam em fazê-lo: Juntam-se no alto da escada os viajantes, hesitando, como se duvidassem de ter sido autorizado o desembarque, se haverá quarentena, ou temessem os degraus escorregadios, mas é a cidade silenciosa que os assusta, porventura morreu a gente nela e a chuva só está caindo para diluir em lama o que ainda ficou de pé.(T.p.13) Entre os passageiros que descem em Lisboa está um viajante. O carregador que leva suas malas até o táxi, informa que os barcos ancorados na doca ao lado são da marinha e que ali estão devido ao mau tempo: ... São contratorpedeiros, senhor, nossos, portugueses, é o Tejo, o Dão, o Lima, o Vouga, o Tâmega, o Dão é aquele mais perto. (T.p. 16) O viajante entra no táxi, e pede ao motorista que o leve a um hotel: ... Um que fique perto do rio, cá para baixo.(T.p.17) Pouco depois saberemos que o viajante é Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa que regressou à Portugal depois da morte de seu criador. Ele ficará hospedado no hotel Bragança durante toda a primeira parte da narrativa. Reis, já habituado à sua rotina de hóspede no hotel Bragança, vai uma noite ao teatro, onde está em cartaz uma peça que retrata o viver do povo de Nazaré, aldeia de pescadores de Portugal. Para tal representação foram convidados alguns pescadores de Nazaré que comparecem e são acomodados no teatro em "camarotes de segunda ordem". Ao final, os atores convidam os pescadores para descerem ao palco: Oh a alegria, oh a animação, oh o júbilo de ver a classe piscatória de Nazaré descendo pela coxia central e subir depois ao palco, ali dançam e cantam as modas tradicionais da sua terra, no meio dos artistas, esta noite irá ficar nos anais da Casa de Garrett, o arrais daquela companha abraça o ator Robles Monteiro, a mais velha das mulheres recebe um beijo da atriz Palmira Bastos, falam todos ao mesmo tempo, em confusão, agora cada qual na sua língua e não se entendem pior por isso, e tornam as danças e os cantares, as actrizes mais novinhas ensaiam o seu pezinho no vira, os espectadores riem e aplaudem, enfim, vão-nos impelindo suavemente para a saída os arrumadores, que vai haver ceia no palco, um ágape geral para representantes e representados, saltarão as rolhas dumas garrafas de espumoso, daquele que faz picos no nariz, muito se vão rir as mulheres da Nazaré quando a cabeça se lhes puser a andar à roda, não estão habituadas. Amanhã, à partida da camioneta, com assistência de jornalistas, fotógrafos e dirigentes corporativos, os pescadores levantarão vivas ao Estado Novo e `a Pátria, não se sabe de ciência segura se por contrato o tinham de fazer, admitamos que foi expressão de corações agradecidos por lhes ter sido prometido o desejado porto de abrigo, se Paris valia uma missa, dois vivas talvez paguem uma salvação.(T.p.113) Após este "teatro" que é representado dentro e fora do palco, para que a sociedade portuguesa veja "como é fácil entenderem-se as classes e os ofícios, o pobre, o rico e o remediado."(T.p. 113), vai Ricardo Reis de volta ao hotel caminhando e parece deparar-se, no cais, com algo mais real: Ricardo Reis encaminha-se para o hotel, não tem outros prazeres ou obrigações à espera, a noite está fria e húmida, mas não chove, apetece andar, agora sim, desce toda a Rua Augusta, já é tempo de atravessar o Terreiro do Paço , pisar aqueles degraus do cais até onde a água nocturna e suja se abre em espuma, escorrendo depois para voltar ao rio, donde logo regressa, ela, outra, a mesma e diferente, não há mais ninguém neste cais, e contudo outros homens estão olhando a escuridão, os trémulos candeeiros da Outra Banda, as luzes da posição dos barcos fundeados, este homem, que fisicamente estando é quem olha hoje, mas também, além dos inúmeros que diz ser, outros que foi de cada vez que veio aqui e que de aqui terem vindo se lembram, mesmo não tendo esta lembrança. Os olhos, habituados à noite, já vêem mais longe, estão além uns vultos cinzentos, são os navios da esquadra que deixaram a segurança da doca, o tempo continua agreste mas não tanto que não possam os barcos aguentá-lo, vida de marujo é assim, sacrificada. Alguns, que à distância parecem feitos pela mesma medida, devem ser os contratorpedeiros, aqueles que têm nomes de rios, Ricardo Reis não se recorda de todos eles, ouviu pronunciá-los ao bagageiro como uma ladainha, havia o Tejo, que no Tejo está, e o Vouga, e o Dão, que é este mais perto, disse o homem, aqui está pois o Tejo, aqui estão os rios que correm pela minha aldeia, todos correndo com esta água que corre, para o mar que de todos os rios recebe a água e aos rios a restitui, retorno que desejaríamos eterno, porém não, durará só o que o sol durar, mortal como nós todos, gloriosa morte será a daqueles homens que na morte do sol morrerem, não viram o primeiro dia, verão o último.( T.p.115) A narrativa segue e Reis, adoentado e com febre, sonha: Adormeceu, acordou, sonhara com grandes planícies banhadas de sol, com rios que deslizavam em meandros entre as árvores, barcos que desciam solenes a corrente, ou alheios, e ele viajando em todos, multiplicado, dividido, acenando para si mesmo como quem se despede, ou como se com o gesto quisesse antecipar um encontro, depois os barcos entraram num lago, ou estuário, águas quietas, paradas, ficaram imóveis, dez seriam, ou vinte, qualquer número, sem vela nem remo, ao alcance da voz, mas não podiam entender-se os marinheiros, falavam ao mesmo tempo, e como eram iguais as palavras que diziam e em igual sequência não se ouviam uns aos outros, por fim os barcos começaram a afundar-se, o coro das vozes reduzia-se, sonhando tentava Ricardo Reis fixar as palavras, as derradeiras, ainda julgou que o tinha conseguido, mas o último barco foi ao fundo, as sílabas desligadas, soltas, borbulharam na água, exalação da palavra afogada, subiram à superfície, sonoras, porém sem significado, adeus não era, nem promessa, nem testamento, e que o fossem, sobre as águas já não havia ninguém para ouvir.(T.p. 165)
Reis envolve-se com Marcenda, e marca um encontro com a jovem no Alto de Santa Catarina, de onde se avista o rio. É a primeira vez que ele se depara com um grande bloco de pedra esculpido - um monumento ao gigante Adamastor : ...se neste sítio o instalaram não deve ser longe o cabo da Boa Esperança. Lá em baixo, no rio, vogam fragatas, um rebocador arrasta atrás de si dois batelões, os navios de guerra estão amarrados às bóias, com a proa apontada à barra, sinal de que está a maré a encher.(T.p.181) No mesmo alto de Santa Catarina, em frente ao monumento ao Adamastor, é que, algumas semanas depois, pressionado, Reis aluga uma casa. Da janela, que dá para o largo, Reis vê: ...as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante. Os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar...(T.p. 206) Reis se muda para a casa e, no dia mesmo da mudança, observa a paisagem da janela de seu quarto: Da sua janela sem cortinas Ricardo Reis olhava o largo rio, para poder ver melhor apagou a luz do quarto onde estava, caía do céu uma poalha de luz cinzenta que escurecia ao pousar, sobre as águas pardas deslizavam os barcos cacilheiros já de fanais acesos, ladeando os navios de guerra, os cargueiros fundeados, e, quase a esconder-se por trás do perfil dos telhados, uma última fragata que se recolhe à doca, como um desenho infantil, tarde tão triste que do fundo da alma sobe uma vontade de chorar, aqui mesmo, com a testa apoiada na vidraça, separado do mundo pela névoa da respiração condensada na superfície lisa e fria , vendo aos poucos diluir-se a figura contorcida do Adamastor, perder sentido a sua fúria contra a figurinha verde que o desafia, invisível daqui e sem mais sentido do que ele.(T.p.211)
A partir da mudança, Reis começa a se sentir encerrado, as notícias do mundo exterior, filtradas pela censura do regime, começam a deixá-lo confuso. Aumenta seu grau de intimidade com Lídia, arrumadeira do hotel onde ele primeiro se hospedara. Lídia, que tem um irmão marinheiro, conhece o avesso das notícias divulgadas pela imprensa oficial. Duvida, questiona, expõe a Reis a realidade tal qual a vê e o irmão a informa. Reis se sente acuado e prefere fugir do confronto. Ele quer se manter na posição de espectador do espetáculo do mundo e se sente cada vez mais inútil e só: A solidão pesa-lhe como a noite, a noite prende-o como visco, pelo estreito e comprido corredor, sob a luz esverdeada que desce do tecto, é um animal submarino pesado de movimentos, uma tartaruga indefesa, sem carapaça.(T.p. 224) Na primeira noite em casa, Fernando Pessoa visita Ricardo Reis e comenta olhando pela janela: Imperdoável esquecimento, disse, não ter posto o Adamastor na Mensagem, um gigante tão fácil, de tão clara lição simbólica, Vê-o daí, Vejo, pobre criatura, serviu-se o Camões dele para queixumes de amor que provavelmente lhe estavam na alma, e para profecias menos do que óbvias, anunciar naufrágios a quem anda no mar, para isso não são precisos dons divinatórios particulares.(T.p. 227 e 228) Lídia vai à casa de Reis para limpar. Após o término da limpeza, senta-se, cansada, à espera do regresso deste. Reis chega à casa e tenta abraçá-la, mas Lídia o impede, está suada e quer ir embora: Nem pensar, ainda é cedo, bebes uma chávena de café, trago aqui uns pastéis de nata, mas antes vais tomar um banho para ficares fresca, Ora, que jeito tem, tomar banho na sua casa, se já se viu, Não se viu, mas vai-se ver, faze o que te digo. Ela não resistiu mais, não poderia, ainda que o impusessem as conveniências, porque este momento é um dos melhores de sua vida, pôr a água quente a correr, despir-se, entrar devagarinho na tina, sentir os membros lassos no conforto sensual do banho usar aquele sabonete e aquela esponjam esfregar todo o corpo, as pernas, as coxas, os braços, o ventre, os seios, e saber que para lá daquela porta a espera o homem...(T.p. 255) Reis cria uma rotina para si, onde o largo sempre está presente: Se a manhã está agradável sai de casa, um pouco soturna apesar dos cuidados e desvelos de Lídia, para ler os jornais à luz clara do dia, sentado ao sol, sob o vulto protetor do Adamastor, já se viu que Luís de Camões exagerou muito, este rosto carregado, a barba esquálida, os olhos encovados, a postura nem medonha nem má, é puro sofrimento amoroso o que atormenta o estupendo gigante, quer ele lá saber se passam ou não passam o cabo as portuguesas naus. Olhando o rio refulgente, Ricardo Reis lembra-se de dois versos duma antiga quadra popular, Da janela do meu quarto vejo saltar a tainha, todas aquelas cintilações da onda são peixes que saltam, irrequietos, embriagados de luz, é bem verdade que são belos todos os corpos que saem rápidos ou vagarosos da água, a escorrer, como Lídia no outro dia, ao alcance das mãos, ou estes peixes que nem os olhos vêem. (T.p. 263 e 264) No entanto, na próxima visita de Lídia, Reis irritado pela falta de ereção manda, quase aos gritos que ela lhe prepare um banho: Ouve-se a água correr, cheira o ar a vapor quente que se expande pela casa, Ricardo Reis ainda se deixa ficar alguns minutos deitado, sabe que é imensa aquela tina, mar mediterrâneo quando cheia [...] Ricardo Reis fechou a torneira, despiu-se, temperou com alguma água fria o grande lago escaldante e deixou-se mergulhar devagarinho, como se renunciasse ao mundo do ar.(T.p.288) Depois disso, quando novamente Lídia vai à casa de Reis, cerimoniosa e retraída, e este, para tentar melhorar a situação, fica na cozinha com ela, conversando: Lídia já está na cozinha, faz correr a água quente para lavar a louça, em palavra e meia deu a entender que hoje não pode haver carnalidades [...] Ricardo Reis não se aventurou a averiguar das razões do impedimento, seriam os conhecidos embaraços fisiológicos, seria a reserva duma sensibilidade magoada, ou conjunção imperiosa de sangue e lágrima, dois rios intransponíveis, mar tenebroso.(T.p. 327) Reis segue com a conversa e pergunta pelo irmão de Lídia, de quem, até então, só sabíamos que pertence à marinha: O meu irmão está bem, por que é que pergunta, Lembrei-me dele por causa duma notícia que li no jornal, um discurso de um tal engenheiro Nobre Guedes [...] isto é uma conferência que o tal Nobre Guedes leu na Emissora Nacional, contra o comunismo, em certa altura fala dos marinheiros, Diz alguma coisa do meu irmão, Não, do teu irmão não fala, mas disse isto, por exemplo, publica-se e espalha-se às ocultas a folha repugnante do Marinheiro Vermelho[...] Eu já vi o Marinheiro Vermelho e não me meteu nojo nenhum, Foi o teu irmão quem to mostrou, Sim, foi o Daniel , Então o teu irmão é comunista, Ah, isso não sei, mas é a favor, Qual é a diferença, Eu olho para ele, e é uma pessoa como as outras [...] Agora me estou a lembrar que o Daniel me falou dum antigo marinheiro também chamado Guedes, mas esse é Manuel, o Manuel Guedes que está a ser julgado, são quarenta réus.( T.p.328 e 239) A narrativa prossegue e vemos que parte da marinha realmente está descontente com o estado das coisas no país: Há indícios de que a força mental de Salazar não consegue chegar a todos os lugares com a potência original do emissor. Deu-se agora um episódio demonstrativo desse enfraquecimento, ali na margem do Tejo, que foi o lançamento à água do aviso de segunda classe João de Lisboa, em cerimónia solene, com a presença do venerando chefe do Estado.[...] Muito chique, muito chique, gostei muito, já vão subindo os degraus que dão acesso à tribuna, são os altos dignatários da nação sem cuja vinda e presença nem um só barco se lançaria à água,vem um representante da igreja, a católica, claro está, de quem se espera profícua bênção, praza a Deus, barco, que mates muito e morras pouco, revêem-se os assistentes do cortejo luzido, estão as personalidades, o povo curioso, os operários do estaleiro, os fotógrafos dos jornais, os repórteres, está a garrafa de espumante da Bairrada, esperando a sua hora triunfal, e , por que não dizê-lo, explosiva, eis senão quando começa o João de Lisboa a deslizar carreira abaixo sem que ninguém lhe tivesse tocado, a estupefacção é geral, estremece o bigode branco do presidente, agitam-se os chapéus altos perplexos, e o barco lá vai, entra nas águas gloriosas, a marinhagem dá os vivas do estilo, voam as gaivotas como doidas, aturdidas pelos gritos das sereias dos outros barcos, e também pela colossal gargalhada que ecoa por toda a Ribeira de Lisboa, isto não tem mais que ver, foi partida dos arsenalistas, gente sobre todas maliciosa, mas já começou aí o Victor a investigar, a maré vazou de repente, as bocarras do esgoto exalam o seu pestilento cheiro a cebola... (T.p. 334 e 335) Dias depois, conversando com Ricardo Reis, Lídia revela que Manuel Guedes, o marinheiro, havia fugido quando era levado ao tribunal(T.p.342). A temperatura sobe em Lisboa, "nas terras baixas a cheia desceu de vez, do imenso mar interior não restam mais que algumas poças de água putrefacta que o sol aos poucos bebe"( T.p.343) e, do Alto de Santa Catarina, onde vive Reis, vêem-se os barcos entrando e saindo, os marinheiros que de tanto escutar a voz das sirenes nas tormentas marítimas, "acabaram por aprender a falar de igual para igual com o deus dos mares"( T.p.344). Mesmo aos dois velhos observadores do Alto, que nunca navegaram: não lhes espanta o sangue quando ouvem, quebrado pela distância, o poderoso rugido, e é mais no profundo que estremecem, como se pelos canais de suas veias vogassem barcos, perdidos na escuridão absoluta do corpo, entre os gigantescos ossos do mundo.(T.p.344) Reis participa da rotina do mirador, sai para almoçar, às vezes vai para a praça depois do almoço, mas quase sempre volta direto à casa: o jardim está deserto sob a chapada opressiva do sol, o rio refulge em reverberações que deslumbram os olhos, preso à sua pedra o Adamastor vai lançar um grande grito, de cólera pela expressão que lhe deu o escultor, de dor pelas razões que sabemos desde o Camões.(T.p. 346) Pouco depois, recebe de Lídia a notícia de que ela pensa estar grávida. É confuso que ele escuta a notícia, embora um médico saiba os segredos do corpo humano: sabe, portanto como operam os espermatozóides no interior da mulher, nadando rio acima até chegarem, no sentido próprio e figurado, às fontes da vida.(T.p.354) Inicia-se a guerra civil espanhola, e em Portugal a censura redobra o cerco à imprensa, o que é sentido no decorrer da narrativa pelo acompanhamento que o personagem Reis faz do noticiário oficial. Ele aguarda ansioso as visita de Pessoa para discutirem sobre a situação espanhola, mas este não aparece. O tempo arrasta-se como uma vaga lenta e viscosa, uma massa de vidro líquido em cuja superfície há miríades de cintilações que ocupam os olhos e distraem o sentido, enquanto na profundidade transluz o núcleo rubro e inquietante, motor do movimento. Sucedem-se estes dias e estas noites, sob o grande calor que alternadamente desce do céu e sobe da terra. Os velhos só à tardinha aparecem no Alto de Santa Catarina, não aguentam a torreira do sol, e é excessiva para os seus cansados olhos a refulgência do rio, sufocante a tremulina do ar para os seus fôlegos curtos (T.p.382) Cansado de aguardar que Pessoa o viesse ver, Reis vai até o cemitério: Ricardo Reis desce até a curva, ali pára a olhar o rio, a boca do mar, nome mais do que outros justo porque é nessas paragens que o oceano vem saciar a sua inextinguível sede, lábios sugadores que se aplicam às fontes aquáticas da terra [...] Por este mar que daqui vemos vem navegando um general espanhol para a guerra civil.(T.p.383) Um grande barco negro vem entrando a barra, depois desaparece no espelho refulgente da água. Não parece real esta paisagem(T.p.384) No dia seguinte, Reis sai de casa para almoçar. Observa, do Alto de Santa Catarina, os três barcos que liderarão a revolta. Lídia deve ter sonhado, ou divertiu-se o irmão à custa dela, com uma incrível história de conspiração e revolta, saírem os barcos para o mar, três daqueles que ali estão, nas suas bóias, tão por igual sossegados sob a brisa, e as fragatas de água-acima, e os cacilheiros no seu incessante ir e voltar, e as gaivotas, o céu azul, descoberto, e o sol, que tanto refulge lá onde está como sobre o rio expectante, afinal é mesmo verdade o que o marinheiro Daniel contou `a irmã, um poeta é capaz de sentir a inquietação que há nestas águas, Quando será que eles saem, Um destes dias, respondeu Lídia, uma tenaz de angústia aperta a garganta de Ricardo Reis, turvam-se-lhe os olhos de lágrimas, também foi assim que começou o grande choro de Adamastor.(T.p. 406) Reis almoça e como a tarde está bonita, desce para a beira do cais: Os barcos, vistos do meio da praça, pousados sobre a água luminosa, parecem aquelas miniaturas que os comerciantes de brinquedos põem nas montras, em cima de um espelho, a fingir de esquadra e porto de mar. E, de mais perto, da beirinha do cais, pouco se consegue ver, dos nomes nenhum, apenas os marinheiros que vão de um lado para o outro no tombadilho, irreais a esta distância, se falam não os ouvimos, e é segredo o que pensam.(T.p.408) Ricardo Reis é tirado de seu devaneio por Victor, o asqueroso agente da polícia política. Reis se desconcerta e a certeza da revolta iminente desce sobre ele. A tarde passou devagar, a noite desceu. Lisboa é uma sossegada cidade com um rio largo e histórico. Ricardo Reis não saiu para jantar [...]Estava nervoso, inquieto. Já passava das onze horas , desceu ao jardim para olhar os barcos uma vez mais, deles viu apenas as luzes de posição, agora nem sequer sabia distinguir entre avisos e contratorpedeiros. Era o único ser vivo no Alto de Santa Catarina, com o Adamastor já não se podia contar, estava concluída a sua petrificação, a garganta que ia gritar não gritará, a cara mete horror olhá-la.(T.p.409) O início da revolta não tarda, tem seu início na manhã seguinte. Os navios são bombardeados desde os fortes das margens, marinheiros são mortos. Ricardo Reis parte com Fernando Pessoa para o além. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.( T.p.415). VI Em liberdade
Passaremos, agora, a destacar de Em liberdade trechos onde a água desempenha papel significativo. Ao nos depararmos com esta obra em especial, não podemos nos esquecer de que o personagem Graciliano Ramos, cunhado na pessoa do escritor Graciliano Ramos, esteve preso na Colônia Correcional Dois Rios, na Ilha Grande, estado do Rio de Janeiro, tendo permanecido antes alguns dias no porão do navio Manaus, rumando nele para a Ilha. Por si só, este episódio biográfico já se prestaria a variadas interpretações simbólicas, o que, no entanto, não será feito, a não ser quando tais circunstâncias estejam mencionadas dentro do texto ficcional de Em liberdade. O personagem Graciliano Ramos, vai, logo de seu livramento do cárcere, viver como hóspede do escritor José Lins do Rêgo. O diário do personagem começa no dia 14 de janeiro de 1937: Não sinto o meu corpo. Não quero senti-lo por enquanto. Só permito a mim existir, hoje, enquanto consistência de palavras.(T.p.21) ... A caminhada matinal com Heloísa pela praia de Ipanema me fez bem. Não acredito que estaria escrevendo estas linhas se não me tivesse alheado do mundo e das pessoas esta manhã. Se não tivesse finalmente voltado os olhos para o estado lastimável em que se encontra o meu corpo.(T.p.33) ... Pisar a areia. Ver o mar. Sentir a brisa úmida de encontro à pele do meu rosto recém-escanhoado. Dia quente, céu azul, o sol brilhando sem tréguas. (T.p. 33) ... Caminhando em direção à praia, já de longe sentia o cheiro agridoce do mar e antes de enxergar o areal branco de Ipanema, com os olhos semicerrados pelo excesso de claridade, revia ilusoriamente praias nordestinas como se tivesse assistindo a um filme. A tela era o azul que o funil de casas configurava lá no fundo. Estava com a cabeça aqui e a mente lá.(T.p.34) ... Larguei por minutos o braço de Heloísa e apressei o passo para chegar logo e sentir-me tão forte como antes da cadeia.(T.p. 34 e 35)
... Respirava fortemente e aproximava-me do corpo de Heloísa percebendo quão indispensável era sua presença ali. O cheiro do mar se confundia com o seu cheiro.(T.p.35) ... O cheiro do mar confundiu-se de novo com o cheiro feminino, ativado que estava pelos corpos das moças que ondeavam correndo em direção ao mar. O sol cintilava contra as águas, lá no fundo, ferindo a minha vista já cega pela luminosidade do verão. Escondemo-nos por alguns minutos debaixo de uma amendoeira, seguindo sugestão minha. Abraçados como estávamos, parecíamos um casal de namorados em encontro furtivo. Agora, dava descanso à Heloísa, amparando-me contra o tronco da árvore. Era sólido e firme e invejei-o. Invejei a seiva que corria por dentro do seu cerne e alimentava galhos e folhas. Com palavras impensadas, lamentei a frustração da minha vida em liberdade. Heloísa levou a mão até os meus lábios e fez-me calar. Agradeci-lhe mentalmente o gesto e, em retribuição, recitei-lhe uns versos de Baudelaire, sem saber em que armadilha caía: Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes, O mer, nul ne connaît tes richesses intimes, Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!
Repeti em seguida as rimas, procurando um jogo de significados que a estrofe escondia: "discrets secrets", "abîmes intimes". Segredos discretos, abismos íntimos. Heloísa me olhava e me escutava. Os segredos discretos jazem para sempre em abismos íntimos. Do fundo dos abismos os segredos exalam odores semelhantes às flores do jardim protegidas por grades intransponíveis. Do jardim, no entanto, saía o perfume da mocidade em ruído e alegria. Os corpos bronzeados femininos dançavam em direção ao mar. "Quand tu as balayant l'air de ta jupe large/ Tu fais semblant d'un bateau Qui prend le large." ( quando vais varrendo o ar com a saia rodada/Pareces um navio que avança para o alto-mar.) Levantar âncoras. Soltar-me. Abrir as velas, ir à deriva, navegar em direção ao desconhecido, seguir com os olhos, com as narinas com o corpo, alcançá-las. Acariciar a pele tafetá de serpente. Heloísa devia perceber a minha sofreguidão, a minha ânsia de vida. Queria amparar-me e conduzir-me. Dar-me-ia o seu próprio corpo, se fosse possível. Vi que me contemplava penalizada, julgando-me um enfermo sem forças para poder ir até o fim do desejo. Percebia que a chama acesa da paixão se acendia apenas nos meus olhos e era logo apagada pelo desgaste corporal. Onde a seiva? Não quis que tivesse pena de mim. Larguei a amendoeira. Perguntei se continuávamos. Sátiro,* disse de mim para mim, com grande felicidade. Descobria que os meus sentidos não tinham sido embotados pela escrotidão da cadeia. O meu corpo pesava e me deixava triste, paralisado. Era preciso conduzi-lo à sua alegria de antes, ao seu ardor de buscas e encontros, de fugas e rompantes. Heloísa, os segredos não exalam odores, os segredos são narinas que se revelam ao capricho dos odores. O cheiro do mar, o cheiro de Heloísa, o perfume de flores encarceradas, a essência dos corpos. Por mais que esticessem escondidos no fundo dos abismos, por mais que os julgasse mortos e sepultados nos corredores e celas escuras e tenebrosas, os desejos voltavam a trabalhar à superfície da nossa caminhada matinal em direção ao mar. Os desejos encaminhavam-me para uma jovialidade de sensações que considerava coisa do passado.(T.p. 36 e 37) Alguns dias depois, num fragmento identificado como "[Sem data]", encontrado na narrativa após às páginas correspondentes ao dia 18/02/98, encontramos o seguinte: O meu corpo, no entanto, está doente. Não sei ainda como conviver com este calor úmido do Rio de Janeiro e com as possibilidades ( magníficas em outra ocasião) de um caminhar sem rotas marcadas, como este que é propiciado pela liberdade numa grande cidade.O périplo entre as quatro paredes deste quarto dá às pernas a rotina da marcha dentro de limites estreitos, calculada e reticente, econômica. No cubo protetor deste quarto, as pernas atrofiam-se, o corpo compraz-se com a horizontal, ou dobra-se ao meio no conforto da cadeira. Não piso terra, piso o chinelo; não vejo sol, vejo a lâmpada; não me lavo em rio, lavo-me na pia. (T.p.71) ... A paixão requer o desperdício. Requer que se gaste sem economias, sem o espírito de poupança. Requer o corpo e espírito em toda a sua plenitude. Sem perspectiva de futuro, existe o presente. Outro dia, na cadeia, riam de mim enquanto lavava voluptuosamente as mãos. Alguém, às minhas costas, queria que eu não gastasse o sabonete como estava gastando. Depois queria que eu me apressasse, pois desejava usar também a pia, o sabão e a água. "Está gastando demais, vai acabar", "usa e abusa", "deixa para os outros, seu egoísta" eram os pedaços de frases que se escutava, repetidos até a exaustão. O meu companheiro de cadeia queria que economizasse o sabão, a água e a pele das minhas mãos. Que até mesmo quem sabe economizasse a minha energia. Quanto `a mim, só sentia que queria interromper-me na metade. Tornar rotina o ato de lavar as mãos. Deixar-me sem a satisfação, frustrado. Entreguei-me com mais sofreguidão à água e ao sabão, ao esfregar. A voz sem rosto visível não soava mais. Fechara os ouvidos. De repente, eis que uma frase, precisa como um golpe de martelo na cabeça de um prego, abre os meus ouvidos e fura os tímpanos: Ele lava as mãos como se estivesse fodendo.(T.p.71 e 72) Em 22/01/1937, o personagem sai de casa, após dias de chuva que impediam-no de caminhar e se dirige à praia de Botafogo: Chegando ao destino, parei por alguns instantes junto a um repuxo que fica defronte à baía. É um repuxo onde, se não colaborou a mão do artista original, entrou a do artesão hábil e sentimental, desses que conseguem, se fazem filme ou escrevem peça de teatro, arrancar lágrimas de comoção da platéia. Sua intenção, bem lograda por sinal, foi a de fazer que os jatos circulares de água desenhassem no espaço uma gaiola líquida, dentro da qual se banhava uma ave em mármore. Um cisne, penso, pois tinha o bio voltado contra as penas da asa.Estava admirando a precisão e , por certo, a delicadeza da composição, quando de repente a imagem do repuxo é anulada pela do perfil de uma garota dos seus vinte anos. Atravessava a avenida, escapando dos carros. Ia bronzear-se neste dia de sol ralo, que se sucedeu aos dias chuvosos. A areia da praia, já tinha reparado, nem seca estava. Admirei o corpo e o andar, o torneado das coxas e a rigidez da carne, as curvas esculturais do traseiro, o vigor no busto e a limpidez de pensamentos no rosto e no olhar. Admirei o corpo e o andar e, sem o sentir, já estava amarrado à corrente da concupiscência, como se fosse o mais fiel dos cachorrinhos. A moça deixava atrás de si um rastro de perfume silvestre, impregnando o ar cm doçura e severidade. Deixava-me absorver por aqulea atmosfera cálida e esquecia passantes, trânsito, barulhos, vozes. Apenas os dois. Caminhava ela na direção do Morro da Viúva , e lá ia eu atrás. Nisso passou-se o inesperado: mais caminhava, mais sentia o meu membro enrijecer-se. Como tinha saído de paletó, não tive receio do escândalo que poderia causar. "Sátiro", "tarado", "ridículo" foram palavras que nem passaram pela minha cabeça na hora. Passam agora, quando não posso impedir-me de rever moralmente a cena, encontrando dificuldade em narrar, de maneira singela e verdadeira, o que aconteceu. Enfiei a mão esquerda no bolso das calças e arranjei-o de tal forma que ficaria todo o tempo protegido da curiosidade alheia pelas abas do paletó que se entrecruzavam. Obrigado a abotoar o paletó, já não sentia a aragem que circulava pelo seu interior, esfriando com a umidade da manhã as axilas. O suor ameaçava empapar a camisa. O membro enrijecido e sensação era extraordinária, tenho de confessar inchava e subia. Ao subri, levava literalmente consigo o meu corpo, dando-me a nítida experiência de estar em ascensão. Flutuava no espaço. Levitava, como diria um amante das ciências ocultas. Era tomado por uma força que vinha da junção das pernas, da fricção operada pelo movimento cadenciado delas, como se ali estivesse um dínamo que transmitia energia para o membro e toda a parte superior do corpo, esquentando-a, dando-lhe vigor. Tomava conta do tórax, deixava a transpiração solta e forte como um fole, atingia o esôfago, esquentava a boca, iluminava o rosto, fechva os ouvidos, clareava a vista, atiçava os cabelos curtos. Inchava como se fosse um balão de São João. Subia pelos ares. ( T.p.95) Após alguns dias, em 25/01/1937, o personagem acompanha a esposa ao cais, onde ela embarca para Maceió. Duas semanas depois, ele se muda para uma pensão, onde reflete, em 15/02/1937: Tenho o esqueleto tenso, tenho os músculos tensos. Gostaria de aprender a soltá-los, como que para deixar que o meu corpo exista sem os constantes enredos, mandos e desmandos da cabeça. Queria o meu corpo solto no ar do Rio de Janeiro, fazendo brincadeiras coma brisa marinha, como se travasse com ela uma relação sexual. Quando passo pela rua, sinto que abro caminho no ambiente como se fosse um navio torpedeiro, antagonizando o ritmo natural das ondas humanas. Viver no ar como se bóia na água.(T.p.188) A partir de então, já de novo pesquisando e escrevendo ficção, o personagem lança-se ao trabalho em seu quarto de pensão. Uma pesquisa sobre o inconfidente Cláudio Manuel da Costa passa a ocupá-lo por inteiro. Quase ao final da narrativa, na data de 20/03/1937 ele nos conta: Há dias saltei do trampolim. Há dias mergulhei. Retenho a respiração por dias seguidos; retive-a enquanto não explodiam os meus pulmões. Não agüento mais a pressão da água. Tenho de voltar à superfície para respirar. Quando mergulhar de novo, Cláudio já existirá na folha de papel em branco, onde jogarei as suas palavras. Não serei mais eu.(T.p.251) ... Fui eu quem escreveu: em golfos de esperança flutuando mul vezes busco a praia desejada; e a tormenta outra vez não esperada ao pélago infeliz me vai levando.(T.p.252) ... Sinto a energia e a intensidade que existem reprimidas na frase de Cláudio. Abro as comportas. Deixo que se espichem, se robusteçam, exercitando-se por algumas páginas mais. Volto à superfície.(T.p.252) O final da narrativa se dá em 26/03/1937, quando o personagem vai ao cais buscar a esposa. VII Pontos de reflexão: O ano da morte de Ricardo Reis
No início de O ano da morte de Ricardo Reis, vemos a cidade de Lisboa referida como uma cidade que ficaria onde termina o mar. Chove e a cidade é pálida. As águas do rio estão turvas de barro. O barco que chega à pálida cidade é escuro e sobe o soturno fluxo do rio. A cidade é tão silenciosa que cogita-se que todos os seus habitantes possam ter morrido e que a água da chuva tenha a função de limpar o que restou, de diluir em lama o que sobrou. Lama no mar pela cheia do rio, lama no rio, palidez e lama na cidade pálida. Possibilidade de que a morte haja varrido a vida por completo e que haja um trabalho de limpeza a fazer, o que estaria a cargo da chuva. Mas, por que a chuva faria diluir-se em lama o que sobrou, o que remete a outras perguntas: o que precisa ser limpo da cidade; o que gerará mais lama; a lama do rio é resultado da limpeza efetuada por água de chuva, rio ou mar? Os contratorpedeiros da marinha estão atracados ali devido ao mau tempo e têm nomes de rios. Ricardo Reis, em seu retorno à pátria, não sabe para onde vai, pede, então, ao motorista do táxi que o leve a qualquer hotel, desde que seja próximo do rio, "cá para baixo". Depois disso, Reis procura notícias sobre a morte de Fernando Pessoa até que termina por se encontrar com o próprio Pessoa que, morto, passará a visitá-lo. Envolve-se com Lídia, não a musa de suas odes, mas sim a camareira do hotel onde está hospedado, e começa a flertar com a jovem Marcenda, eventual hóspede do hotel. A noite do teatro é outro ponto de interesse da narrativa. Uma representação de cunho melodramático "retrata" o povo de Nazaré, um reduto de pescadores. Para maior efeito, são trazidos, mediante contrato, "populares autênticos", que, em realidade pensam em conseguir para Nazaré a construção de um "porto de abrigo", de que necessitam seus habitantes "desde que pela primeira vez se lançou nesta praia um barco ao mar"( T.p.107). Chama-nos a atenção o fato da classe popular escolhida ser a dos pescadores, pessoas que retiram do mar seu sustento, e que são estereotipadas pela representação teatral que os reduz a protagonistas exóticos de dramas lacrimosos. Mais tarde, quando Reis caminha até o cais, de água noturna e suja, que vai e regressa aos degraus do cais de maneira cíclica. Não há mais ninguém no cais,mas outros homens olham a escuridão, o outro lado e os barcos fundeados. Quais seriam, então, os outros homens olhando a escuridão? Os vultos cinzentos dos contratorpedeiros podem ser vistos pelos olhos, desde que estes já acostumados à escuridão. Os navios que podem ser vistos se os olhos estão acostumados à escuridão "deixaram a segurança da doca". O tempo é agreste, mas nem tanto que não possa ser suportado pelos barcos, dura e real é a vida dos marinheiros... Um guarda se aproxima de Reis que está parado no cais. Teme que este pretenda cometer suicídio atirando-se ao rio. O contraponto formado pela feérica representação teatral da "vida popular dos pescadores" com a escuridão, tempo agreste e águas sujas do cais onde os marinheiros vivem uma vida dura e onde homens que não podem ser vistos espreitam a escuridão aparece codificado no sonho de Ricardo Reis quando este tem febre. Uma paisagem calma e bucólica ( a que tenta ser mostrada pela propaganda política), barcos de passageiros, acenos, até que os barcos entram num lago ou estuário de águas calmas e paradas. De repente, os marinheiros não conseguem se entendem, apesar de estarem dizendo as mesmas coisas, na mesma sequência. Os barcos, então, começam a naufragar sem que Reis conseguisse saber que palavras eram. Não havia ninguém sobre as águas para ouvir a mensagem. Reis marca encontro com Marcenda no Alto de Santa Catarina, um dos miradouros de Lisboa, que tão para o rio Tejo. Ali ele se depara pela primeira vez com a estátua do gigante Adamastor. Não podemos nos esquecer de que o gigante Adamastor, que aparece no canto quinto de Os lusíadas, é, no grande poema épico, o profeta das desgraças e azares que sucederão aos navegadores portugueses. O narrador diz que, se colocaram o Adamastor neste local, o cabo da Boa Esperança não deve estar distante. Mas lembremo-nos que o cabo também é chamado de Cabo das Tormentas. Embaixo no rio, fragatas, um rebocador arrastando dois batelões, os navios de guerra amarrados às bóias a vocação marítima do país simbolizada nos tipos de embarcações. A maré enche. Reis, forçado a sair do hotel, aluga uma casa no mesmo Alto de Santa Catarina, numa casa em frente à praça onde está o Adamastor. Da janela de seu quarto Reis observa o movimento das embarcações num final de tarde, e que se assemelham à paisagem de um desenho infantil. A tristeza da tarde é tanta, que comportaria que se chorasse encostado à vidraça. Reis se sente só, a solidão tem o peso da noite, viscosa, a solidão é um animal submarino, pesado e indefeso. Em visita a Reis e observando o Adamastor da janela, Pessoa lamenta havê-lo esquecido em Mensagem, afinal seu simbolismo é fácil: queixas de amor e a "óbvia" previsão de naufrágios a quem anda no mar. A outra única visita que recebe Reis é a de Lídia, que continua limpando sua casa e mantendo um relacionamento amoroso com ele. A relação é sempre de desigualdade. Ela o trata como patrão, ele a trata como empregada. Um dos poucos momentos de igualdade se dá quando Reis convida Lídia para tomar banho em sua casa. O momento é descrito como um dos melhores de sua vida, quando pode "sentir os membros lassos no conforto sensual do banho", e banhar-se pensando em Reis que a aguarda. Reis lê os jornais na praça e, como Pessoa reflete que Camões exagerou na figura do Adamastor : rosto carregado, barba esquálida, olhos encovados tudo, pensa ele, de puro sofrimento amoroso, que não quererá o gigante saber das naus portuguesas. O rio refulge e Reis está feliz, os peixes que saltam do rio lembram Lídia saindo nua do banho. O outro episódio de banho, este de Ricardo Reis, descreve o mergulhar como uma renúncia ao mundo do ar. Lídia, magoada com a reação de Reis, mostra-se reservada em sua próxima visita e Reis cogita se tal se daria por "conjunção imperiosa de sangue e lágrima, dois rios intransponíveis, mar tenebroso". Os misteriosos fluxos femininos são comparados a rios que não podem ser transpostos, a mares que não podem ser navegados. Reis comenta com Lídia notícias lidas nos jornais a respeito de um desacordo ideológico entre os marinheiros e o governo. Lídia informa que seu irmão, que é marinheiro, faz parte dos descontentes. Logo adiante sabemos que muitos devem ser os descontentes. Numa cerimônia oficial de lançamento de navio, as amarras são soltas e o navio cai n'água antes que a comitiva oficial consiga se aproximar dele para as solenidades. Sob a gargalhada geral, a maré vaza "de repente" e o cheiro do esgoto se faz sentir, enquanto a polícia política começa as investigações. O marinheiro Manuel Guedes foge quando era levado a julgamento. A temperatura "sobe" em Lisboa. As laterais dos rios secam, do imenso mar interior só restam poças putrefatas. Os barcos entram e saem do cais, marinheiros e não marinheiros desde que portugueses estão habituados ao movimento e ao ruído das sirenes dos barcos, como se aquela movimentação fizesse parte de seu corpo, comparável à circulação sanguínea. O sol oprime, o rio brilha e o Adamastor está prestes a gritar. Lídia conta a Reis que desconfia estar grávida e a concepção é descrita como espermatozóides "nadando rio acima até chegarem, no sentido próprio e figurado, às fontes da vida". A guerra civil espanhola começa e o tempo para Reis se arrasta como uma "vaga lenta e viscosa, uma massa de vidro líquido". A paisagem vista do Alto de Santa Catarina sob o sol é sufocante irreal. Reis vê um barco negro que entra na barra e desaparece em seguida. Lídia e Reis comentam a guerra civil espanhola e as notícias que chegam a Reis pelos jornais e pelo rádio, e a Lídia pelo irmão. Ela questiona Reis, afirma que os jornais mentem, diz que as verdades são muitas e estão umas contra as outras e que será preciso que haja luta entre elas para que surja o esclarecimento.(T.p.387 e 388). Pelos jornais, Ricardo Reis se enteira de que o Afonso de Albuquerque, navio onde o irmão de Lídia está embarcado foi a Alicante buscar refugiados. Pouco tempo depois é procurado por Lídia que lhe revela, em prantos que haverá uma rebelião. Os marinheiros planejam ir para a Angra do Heroísmo, e tomar a ilha, libertando os presos políticos. Ali aguardarão adesões que provenham do continente. Reis observa os barcos do Alto de Santa Catarina e não pode crer que nada ruim vá ocorrer a paisagem é, aparentemente, de perfeita calma. Mas, em seguida, é surpreendido por uma angústia feroz e tem a certeza de que haverá uma revolta. Os olhos se lhe enchem de lágrimas, e a situação é comparada àquela que provocou o grande choro do gigante Adamastor. A paisagem é irrealmente bela e tranquila. Lisboa parece uma cidade sossegada com um rio largo e histórico. Reis observa a barra à noite. É o único ser vivo, com o Adamastor já não se pode contar, está completamente petrificado de horror, incapaz de gritar. A revolta se inicia e é desbaratada na manhã do dia seguinte, e a narrativa termina com Reis partindo para o além com Pessoa. O Adamastor não gritou no lugar da narração Lisboa onde o mar se acabou e a terra espera. VIII Pontos de reflexão: Em liberdade
Na ficção Em liberdade, o que nos chamou a atenção foi a necessidade da retomada física do personagem Graciliano Ramos. Ele, narrador que inicia o diário dizendo que não sente, nem deseja sentir seu corpo, vai retomar sua capacidade física e, junto com seu desejo, seu corpo e a capacidade de trabalho. São as caminhadas na praia, e as experiências à beira da água ou com água que, desde sua primeira menção, acompanham esta retomada. O mar, a areia, o ar que ele respira começam a coadjuvar seu regresso ao domínio pleno de sua força. No poema de Baudelaire citado pelo personagem, os abismos humanos são comparados às riquezas íntimas do mar. Mar e homem são tenebrosos e discretos. O personagem confessa o desejo de "levantar âncoras", "ir à deriva", "navegar de encontro ao desconhecido". Mas não tem forças e se pergunta onde está sua seiva. Constata que não sabe ainda conviver com seu corpo doente, no calor úmido do Rio de Janeiro. Está preso dentro das quatro paredes do quarto em que é hóspede. Diz "não me lavo em rio, lavo-me na pia. Em seguida, reporta uma cena passada na cadeia em que identifica a paixão com o ato de lavar voluptuosamente as mãos, de entrega total. Lava as mãos como se mantivesse uma relação sexual, intensidade percebida e criticada pelo colega de prisão. Então ocorre a liberação. Depois de dias de chuva, ele sai para passear à beira-mar. Encontra um jardim onde uma fonte jorra formando uma gaiola líquida e dentro da prisão um pássaro. A água do desejo, da vitalidade, o pássaro como símbolo do falo, aprisionado no corpo doente. A visão do repuxo se anula por um corpo de mulher que ele segue. Com crescente satisfação percebe a excitação chegando, e tem uma fabulosa ereção enquanto segue a moça que vai à praia. Com a retomada do desejo vem a mudança, da casa do amigo para um quarto de pensão. A esposa viajou por mar para Maceió. Ele constata, antes de mergulhar numa pesquisa que também o libertará, que desejava ter o corpo solto no ar do Rio de Janeiro, travando uma relação sexual com a brisa marinha. Na rua, sente-se como um navio, abrindo caminho entre ondas humanas. Mergulhado em trabalho, as últimas reflexões de seu diário dizem "saltei do trampolim", "mergulhei", "em golfos de esperança flutuando mil vezes busco a praia", "abro as comportas", "volto à superfície". IX A água como liberação
A água é, em O ano da morte de Ricardo Reis, uma promessa de liberdade. A cidade de Lisboa, que fica onde o mar termina está pálida e se assemelha a uma cidade fantasma. A água pode está-la lavando dos males ( chuva ). A promessa de salvação, testemunhada pelo Adamastor, vem também do mar, do movimento dos marinheiros. À figura do gigante Adamastor vemos sempre enfatizadam - por Reis e Pessoa, bem como pelos livros escolares o sofrimento amoroso, em detrimento das previsões de desgraças para o povo português. O Adamastor olha o rio, e testemunha praticamente toda a narrativa. Por fim, a revolta fracassa, e a promessa de liberação também. Já em Em liberdade, a liberação de que necessita Graciliano Ramos é de ordem pessoal e vem representada pelas cenas à beira mar, quando se dá a retomada da virilidade do personagem. A água é sempre límpida e a cidade do Rio de Janeiro é descrita como um lugar de libertação, a não ser quando mencionado o calor úmido, que incomoda o personagem pois este está doente. Na medida em que Ramos se envolve com o trabalho de pesquisa sobre Cláudio Manuel da Costa, a umidade e incômodo físico deixam de ser descritos. Só o discurso final compara a entrega ao trabalho de ficcionista com atitudes que se têm tipicamente na água ( mergulhar, prender respiração, flutuar, buscar praia). A liberação ocorre, o pássaro deixa a gaiola de água e o personagem efetivamente mergulha, depois de saltar de um trampolim e prenuncia seu voltar à tona. Bibliografia CAMÕES, Luis Vaz. Os lusíadas Rio de Janeiro Biblioteca do Exército Editora sem data LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico Lisboa Estampa 1978 PESSOA, Fernando. Obra poética Rio de Janeiro Editora Nova Aguilar 1983 SANTIAGO, Silviano. Em liberdade Rio de Janeiro Editora Rocco 1994 SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis Lisboa - Editorial Caminho- 1986 |