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A face exposta da língua portuguesa
Maria Helena Mira Mateus
Universidade de Lisboa O convite que recebi para fazer uma intervenção nesta mesa redonda e que desde já agradeço levou-me a pensar em múltiplas coisas que gostaria de dizer sobre o português e que não caberiam no tempo que me foi atribuído. Resolvi portanto falar um pouco, e apenas para despertar o apetite, do meu especial amor na linguística: a fonologia, com particular relevo para a prosódia. Não é por acaso que o estudo desta roupagem sonora da língua tem longa e variada tradição. É esse nível sonoro que provoca as nossas mais imediatas reacções, de adesão ou de rejeição. É sobre ele que todos os indivíduos se sentem competentes para produzir julgamentos de valor e apreciações estéticas. Por isso lhe chamei a face exposta da língua, tão exposta e tão sensível, tão variável e tão indiciadora das nossas origens mais longínquas. Senão vejamos: é a brincar com os sons que aprendemos a falar, é imitando uma certa melodia que encetamos na vida os nossos diálogos, é pela forma de pronunciar que de imediato julgamos localizar o nosso interlocutor, é muitas vezes na alternância dos sons que entendemos os diferentes significados. Essa alternância provém dos traços específicos de cada som como elemento do sistema fonológico da língua. Quem não recorda as unidades distintivas de pala / bala / sala / mala / rala / tala /vala / sala / gala? Existem contudo certas propriedades sempre presentes em todos os sons a altura, a duração, a intensidade cujo reconhecimento decorre da relação que estabelecem entre os sons em sequência. Estas são as propriedades prosódicas, que podem incidir sobre um segmento ou um conjunto de segmentos, que são a base da melodia, as fascinantes propriedades da poesia da língua. Um dos traços prosódicos enraizados na nossa intuição é a sílaba. Não é difícil argumentar sobre a sua existência: na aquisição da linguagem, os meninos produzem sequências com o mesmo número de sílabas do que as daquelas palavras que ainda não sabem pronunciar; no grupo de amigos, criam-se linguagens secretas baseadas na sílaba; quando nos enganamos, não raro trocamos o lugar de partes ou da totalidade da sílaba; e ninguém desconhece que escritas silábicas surgiram nos tempos antigos. Mas o que é uma sílaba? Uma construção perceptual, isto é, criada no espírito do falante. Por isso nos é difícil aprisioná-la, escapa-se pelos entrestícios das definições. Uma sílaba tem obrigatoriamente uma rima: é o seu núcleo, o seu "clímax". Em português, as vogais, e só as vogais, são núcleo de sílaba, como em pé, em tu e em má. As vogais nucleares podem estar seguidas de uma semivogal um núcleo complexo como em pai e em boi. Precedendo a rima está o ataque que geralmente é uma consoante. Em português todas as consoantes simples podem ser ataque de sílaba. Se duas consoantes formam um ataque, elas devem dispor-se segundo o princípio da sonoridade, que estipula que a sonoridade de uma sílaba cresce em direcção ao núcleo e decresce para o final. O par de consoantes ideal para cumprir este pricípio é uma oclusiva (/p/, /t/, /k/, /b/, /d/ ou /g/, a menos sonora das consoantes) seguida de uma líquida (/R / ou /l/, a mais sonora das consoantes), como nas sílabas iniciais de prato, branco, cravo, claro, plano. Para o constituinte final da rima, a coda, existem poucos candidatos em português: apenas /R /, /l/ (que na maioria dos dialectos brasileiros é relizada como /w/) e /s/, como em mar, mal e más. A estrutura interna das sílabas é hierárquica, como se pode ver na representação das sílabas de prato e Em português europeu as duas consoantes em ataque violam muitas vezes o princípio estabelecido. Por isso temos amnésia, pneu, psicologia, absurdo, afta, captar. Esta violação é superficial, e muitos argumentos podem ser avançados para propor que, no nível subjacente, na nossa percepção da sílaba, há um núcleo vazio que separa as duas consoantes. Esse núcleo vazio é preenchido por uma vogal epentética no português do Brasil, e assim encontramos ami-nésia, pi-neu, pi-sicologia, abi-surdo, afi-ta, capi-tar. Esta é uma das evidentes diferenças entre as duas variedades que, afinal, se limita ao preenchimento, numa delas, o que na outra é deixado vazio. Mas a peculiaridade destes estranhos ataques aprofunda-se com a supressão constante da bem portuguesa vogal átona [ö ]. Surgem então nos dialectos europeus palavras que aparentemente (e só em superfície) têm três consoantes seguidas, como telefone, ou quatro como despegar, cinco como despregar e mesmo seis como desprestigiar. Sílabas de onde "voaram" (desapareceram) os núcleos porque a vogal alta [i], que já tinha recuado para o centro do sistema realizando-se como [ö ], sofreu a mais extrema das reduções: deixou de se pronunciar. E deste modo se criou uma das distâncias mais óbvias entre as duas variedades do português. Deixemos agora a sílaba e as suas distâncias para olharmos algo que, sendo prosódico, une as duas margens do Atlântico: o acento de palavra. A tradição diz-nos que as palavras em português podem ser agudas ou oxítonas, graves ou paroxítonas e esdrúxulas ou proparoxítonas conforme o acento tónico se encontra na última, penúltima ou antepenúltima sílaba, sendo predominantes as graves. Existe porém outra forma de as classificar que permite unir na mesma classe palavras como casa, mulher e avó que tradicionalmente se situam em dois grupos: o das graves e o das agudas. Essa outra classificação mostra também que os verbos e os não-verbos (nomes e adjectivos, advérbios e preposições) têm dois tipos de acentuação. Os não verbos (chamemos-lhes nomes por convenção) são acentuados na última vogal do radical; os verbos têm acentuação variável. Vejamos os nomes: palavras como casa, menino e sede terminam por vogais, [ ], [u], [ö ], que se seguem ao radical e que integram as palavras numa classe nominal. Essas vogais nunca são acentuadas e portanto o acento incide sobre a última vogal do radical. Em mulher, amor, funil, azul o radical termina em consoante, incidindo o acento sobre a sua última vogal. E finalmente avó, café, marajá, romã, espadachim têm radical terminado em vogal tónica, oral e nasal, que também exibe proeminência acentual. E até palavras como chapéu, calhau, irmão, com ditongo final do radical, são acentuadas nessa sílaba. Restam-nos as verdadeiras excepções, ou seja, as acentuadas na penúltima vogal do radical, como frágil e órfão, ou dúvida, e metáfora. A aplicação do acento nestas palavras, com a sua regularidade e a regularidade das suas excepções, tem portanto em conta a estrutura morfológica. E com os verbos, o que sucede? Um pouco mais de diversidade. Um grupo de tempos verbais chamemos-lhes 'tempos do passado' recebe o acento sobre a vogal temática, que marca a conjugação. É assim com cantava, falasse, partiu, comeste, andara, subirem e tantas mais. Outro grupo os 'tempos do futuro' tem acento na primeira vogal do morfema de tempo-modo-aspecto. E assim sucede com cantarei e encantaria. Os restantes os 'tempos do presente' recebem acento na penúltima vogal da palavra, como falo, falas ou falamos, e beba, bebas ou bebamos. Mas note-se, os morfemas de pessoa são imunes ao acento, tal como as vogais finais que marcam a classe dos nomes. Por todas estas variações, ainda que classificáveis, se considera que o português é uma língua de acento livre. Mas o acento é também um construtor de melodia. Como é isso possível se até agora só verificámos a sua relação com a estrutura morfológica das palavras? Sendo um facto prosódico, ele é passível de uma análise métrica. Sucede que, em português, tal análise métrica converge com os aspectos pertinentes da estrutura morfológica. Assim, imaginemos uma onda constituída por picos e cavas. Se a onda se espraiar da direita para a esquerda sobre a palavra, e a cava começar na primeira vogal encontrada ou, no caso de ausência, na margem direita da palavra, teremos uma acentuação adequada na última vogal do radical dos nomes. A acentuação das excepções é conseguida porque nessas palavras a última vogal do radical é marcada lexicalmente como não acentuável. Nas formas verbais a cava inicia-se sobre os morfemas de pessoa como mos, 1ͺ pessoa do plural (veja-se devemos) ou i e u,, morfemas pessoais do pretérito perfeito que são imunes ao acento (veja-se falei e bateu). Para incidir sobre a vogal temática, os morfemas de tempo-modo-aspecto dos tempos do passado que os possuem (o pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito do indicativo ou o imperfeito do conjuntivo), quando se encontam em penúltimo lugar, são marcados como não acentuáveis, (p.ex. cantáramos, dançássemos e comíamos). Para quê construir um modelo métrico de atribuição do acento? Exactamente porque o acento marca metricamente o nível sonoro da língua e é um factor constitutivo do ritmo da fala. E ainda, e sobretudo, porque um tal modelo, aplicando-se a todas as línguas sob o princípio do ritmo métrico, terá de definir somente os parâmetros que caracterizam cada uma. São parâmetros a direcção de espraiamento da onda (da direita para a esquerda em português), a ordem de sucessão das cavas e picos e o lugar dos elementos não acentuáveis. E finalmente, não posso deixar de me demorar um pouco sobre um dos aspectos mais marcantes do português: a harmonia vocálica dos verbos. Aqui saímos da prosódia mas mantemo-nos no nível dos sons, naquela alternância de vogais que escapa aos ouvidos de falantes de outras línguas. A que formas me refiro? À diferença entre devo e deves, ou como e comes, e a outra mais evidente, durmo e dormes, firo e feres. Antes de mais, uma afirmação: nos tempos do presente (presentes do indicativo e conjuntivo) a vogal temática é suprimida antes de outra vogal. Este facto torna-se evidente se olharmos a constituição interna destas formas:
No presente do indicativo a supressão só ocorre na primeira pessoa do singular. No presente do conjuntivo, ocorre com todas as pessoas porque o morfema desse tempo é sempre uma vogal Para explicar a harmonia vocálica, façamos primeiro uma incursão horizontal, uma viagem pelas três conjugações. No conjuntivo, analisamos apenas as formas em que a vogal do radical é acentuada, porque apenas essa manifesta a harmonia vocálica. Vejamos os verboslevar e morar, dever e mover, ferir e dormir
Como se verifica, as vogais acentuadas que alternam baixas [E ]e [ ], médias [e] e [o] e altas [i] e [u] ocorrem nas formas em que a vogal temática foi suprimida. Nestes casos, os verbos levar e morar, com VT baixa /a/, têm uma vogal baixa no radical; os verbos dever e mover, com VT média /e/, têm uma vogal média no radical; os verbos ferir e dormir, com VT alta /i/, têm uma vogal alta no radical. Trata-se claramente de uma uma assimilação condicionada pela vogal temática, e por isso habitualmente se denomina harmonização vocálica. Esta harmonização consiste no espraiamento dos traços de altura da vogal temática sobre a vogal acentuada. Deve notar-se que as vogais do radical só assimilam os traços de altura e mantêm os valores dos outros traços que as identificam: [recuado] e [arredondado]. Alguns tipos de verbos escapam à harmonização vocálica: os verbos com vogal do radical /i/ e /u/, como virar e furar ou viver e iludir (p.ex. furo f[ú]ro, não *f[ ]ro; vivo v[í]vo, não *v[é]vo, etc.). Mas não só estes. Também os verbos com vogal final do radical /a/ não exibem uma alternância, o que é evidente nas formas, por exemplo, de falar, bater e partir que mantêm a vogal baixa nas três conjugações, independentemente, portanto, da altura da vogal temática (cf. f[á]lo, b[á]to, p[á]rto; f[á]le, b[á]ta, p[á]rta , etc.). Assim, a vogal que sofre a assimilação tem duas restrições: não pode ser [+alta], /i/ ou /u/, e não pode ser /a/ ([+recuada, -arredondada]. No Presente do Indicativo existe uma outra peculiaridade das vogais acentuadas /e/ e /E /, /o/ e / / , mas agora nas formas em que a vogal temática se mantém (i.e., nas 2ͺ e 3ͺ pessoas do singular e na 3ͺ do plural). Nestas formas, apenas as vogais baixas ocorrem. Vejam-se os exemplos:
Estas vogais baixas são o resultado de um processo de abaixamento que afecta as vogais do radical /e/, /E /, /o/ e / / nas três conjugações. Trata-se portanto, neste caso, de uma segunda alternância de altura que se interrelacina com a alternância resultante da harmonização vocálica. Vejam-se as formas de (5) com os mesmos verbos:
O facto de na 1ͺ conjugação a vogal do radical ser sempre [+baixa] e não manifestar alternância deve-se ao facto de, na 1ͺ pessoa do singular, essa vogal do radical se harmonizar com a vogal temática, que é [+baixa] nesta conjugação. Os verbos com vogal do radical /i/ e /u/, [+alta], também não apresentam abaixamento (p.ex. vives v[í]ves e não *v[]ves, iludes il[ú]des e não *il[[]des, etc.). Perdoem-me o tempo e aceitem-me o entusiasmo. Afinal, se nós, os que gostamos do português, não olharmos com amor esta face exposta da língua, quem o fará? E se não procurarmos com atenção o que ela nos diz, não poderemos atar com mais força os laços que unem os nossos falares. No Brasil, em Portugal, em África, a base comum do português é também um rasto deixado pelas nossas histórias, que se encontra sedimentado em camadas mais ou menos superficiais. E a língua é, sem dúvida, um magnífico repositório dessas memórias. A Sílaba Representação das sílabas das palavra prato e bois (convenções: ( - sílaba; A - ataque; R - rima; N - núcleo; Cod - coda).
Princípio de sonoridade: "a sonoridade dos segmentos que constituem a sílaba aumenta a partir do início até ao núcleo e diminui desde o núcleo até ao fim"
Grupos de mais de duas consoantes Sequências no nível fonético de 3 consoantes (e.g. telefone [tlfn]- oclusiva+ líquida+fricativa), 4 consoantes (e.g. despegar [dS pgáR ] - oclusiva+fricativa+ oclusiva+oclusiva), 5 consoantes (e.g., despregar [dS pR gáR ] -oclusiva+fricativa +oclusiva+vibrante+oclusiva) e 6 consoantes (e.g. desprestigiar [dS pR S tiZ iáR ] - oclusiva+fricativa+oclusiva+vibrante+ fricativa+ oclusiva. O Acento
A harmonização vocálica
Verbos que escapam à harmonização: com V do radical /i/ e /u/, como virar e furar ou viver e iludir (p.ex. furo f[ú]ro, não *f[ ]ro; vivo v[í]vo, não *v[é]vo, etc.); com V do radical /a/ (p.ex. falar, f[á]lo, f[á]le, bater b[á]to, b[á]ta; partir, p[á]rto; p[á]rta).
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