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A idéia de permanência no mundo em perspectiva irônica

 
Eunice Piazza Gai

Estranha sina tem o ser humano nesse mundo. Ao mesmo tempo que pode conceber a perfeição, não consegue vivê-la. Múltiplas têm sido as formas pelas quais a arte, a filosofia, a religião e a psicologia buscam justificar ou suplantar esse paradoxo fundamental. O desejo de perfeição e a busca do conhecimento das verdadeiras razões de estar aqui e, ao mesmo tempo, a constatação da impossibilidade de alcançar essas metas são motivos de reflexão dos grandes pensadores, desde os mais remotos tempos. Lá estão a Ilíada e a Odisséia a nos revelar, ao mesmo tempo, os grandes feitos e a insensatez das criaturas. Lá está o Eclesiastes a nos lembrar incisivamente das ilusões e da precariedade da vida humana:

Todos os rios correm para o mar,
e contudo o mar não transborda;
para onde os rios vão,
para lá tornam a ir.
Tudo é penoso
difícil de o homem explicar. (...)
O que foi, será;
o que aconteceu, acontecerá:
nada há de novo debaixo do sol (1990, p. 787).

Essa voz perene que disseca os detalhes da constituição mental dos seres e da condição humana em si mesma, encontra-se predominantemente nas grandes obras do passado que têm servido, no entanto, de fonte inspiradora e de consolo a muitas gerações. Apesar de estar situada na galeria mais nobre das concepções do espírito e de ser designada de sabedoria, não é e não foi determinante nas organizações de todos os tempos, pois não pode oferecer caminhos límpidos e seguros para a atividade positiva. Platão, em todo o caso, imaginou a República, mas é nesse ponto que os sábios posteriores o julgaram menos sábio e mais dogmático.

É possível que o conceito de sabedoria não seja outro que o da pura ironia. Afinal, Sócrates, foi considerado pelo deus o homem mais sábio do mundo e o filósofo, no entanto, dizia que nada sabia. Apesar de ser considerado o primeiro ironista, porque desenvolveu o método, aplicando-o na forma dos diálogos, não foi o único a praticar a ironia na Antigüidade. Há quem considere que os preceitos seguidos pelos céticos ou ironistas são tirados de Homero, dos sete sábios, de Eurípedes. Essa informação é dada por Montaigne num dos Ensaios: "Apologia de Raymond Sebond" (1987, p. 227).

Eça de Queirós, um ironista confesso, mesmo narrando histórias diversas, ao fim de contas, a situação de impossibilidade e insatisfação está sempre presente. O romance A cidade e as serras apresenta o herói Jacinto profundamente infeliz na Paris do século XIX; e o seu "desterro" posterior, em Tormes, junto à natureza, apesar de conclusivo, não comporta exatamente uma solução para o problema da inadequação do indivíduo no mundo, um aspecto inerente à constituição psíquica do ser humano, sempre perscrutado e jamais avaliado suficientemente.

O mesmo tema, abordado por Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas, assume proporções ainda mais dramáticas, porquanto o herói, um defunto autor, já livre dos condicionamentos da vida terrena, não tem nenhum pudor diante das forças cósmicas que todos os seres aprendem a temer e respeitar. Com efeito, Brás Cubas, se foi vencido pela morte, esse processo utilizado pela natureza para fazer cumprir-se os seus fins, absolutamente incomensuráveis para os humanos, considera-se vencedor na medida que, não tendo tido filhos, não contribui para que o círculo continue a girar.

O presente estudo é uma reflexão sobre a condição humana. Servem-nos de guias autores como Homero, Erasmo, Montaigne, Sócrates/Platão, Kierkegaard, Eça de Queirós, Machado de Assis. O ponto que liga diferentes pensadores é a ironia e os textos objetos de análise específica são os romances A cidade e as serras, de Eça de Queirós e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Para definir a ironia, é preciso recorrer à figura de Sócrates e ao método de conhecimento por ele empregado. O estudo de Kierkegaard, O Conceito de ironia constantemente referido a Sócrates (1991), segue um caminho exaustivo de delimitação de todos os componentes da personalidade e dos atos da figura histórica de Sócrates, conforme retratada por Platão, Xenofonte e Aristófanes, na Antigüidade e conforme avaliada por Hegel, na Modernidade. Com esse procedimento perscruta todas as possibilidades de existência de alguma positividade. Não encontra nenhuma. Alguns pontos importantes, analisados pelo autor, são os três princípios que caracterizavam a visão socrática: a enunciação do oráculo de que ele era o homem mais sábio, o significado de sua expressão "eu sei que nada sei" e o aviso do deus (Apolo) que determinava aos homens: "conhece-te a ti mesmo". Detém-se também, entre outros aspectos, na avaliação da profunda negatividade presente nas relações do filósofo antigo com o Estado ateniense, com a juventude e com os sofistas.

O ponto de vista de Sócrates, no domínio teórico era caracterizado por ele mesmo como ignorância, e ele era totalmente negativo, uma vez que essa ignorância não era empírica; ao contrário, tinha lido todos os poetas e filósofos e possuía muita experiência nas coisas da vida. Por outro lado, era ignorante no aspecto filosófico, eterno, divino, naquilo que está no fundamento de tudo, a respeito do que dizia sempre que nada sabia. Sócrates sabia que isso era, mas não sabia o que era, isto é, tinha a idéia como limite. A vida de Sócrates tinha por fim realizar a sua vocação divina, servir o deus que lhe anunciara no oráculo que era o homem mais sábio do mundo. Sua atividade - irônica - era, pois, interrogar cada um em particular, para despojá-lo de tudo o que lhe fornecia os alicerces para justificar sua existência. Despachava-o em seguida, de mãos vazias. Segundo Kierkegaard, Sócrates não viera para salvar o mundo e sim para julgá-lo.

As referências teóricas selecionadas a partir da visão socrática apontam para o fato de que a ironia não prevê nenhuma atividade positiva. Há uma certa necessidade humana de atribuir alguma finalidade aos atos dos indivíduos isolada ou coletivamente, razão pela qual a maioria dos estudos sobre as obras dos ironistas intenta vislumbrar algum ideal escondido sob os escombros da negatividade. A rigor, no entanto, a visão irônica do mundo não pretende instaurar ou indicar um melhor caminho do que o que está sendo trilhado; seu objetivo é criticar o existente, mas também está voltada para outros princípios, que a justificam como uma prática indispensável à liberdade de pensamento. A prática irônica consiste em desmistificar, desvelar formas carentes de valor, não obstante tidas como significativas por indivíduos isoladamente ou por grupos sociais.

Eça de Queirós e Machado de Assis são, geralmente, caracterizados como ironistas. É certo que a maioria dos estudos sobre eles pretende encontrar alguma positividade ou ideal por trás da crítica feroz que tecem aos homens e à sociedade de seu tempo. Em relação a Machado essa espectativa é frustrada mais diretamente, pois algumas obras do escritor, como Memórias póstumas e Quincas Borba, por exemplo, não deixam dúvidas a respeito da absoluta negatividade que contemplam. Já em relação a Eça de Queirós, ocorre uma situação ambígua, decorrente, em parte, da sua maneira específica de ser escritor. O estilo impecavelmente elegante e as sutilezas do pensamento de Eça, contribuem para a instalação de uma certa ambigüidade na interpretação de alguns de seus textos, ou mesmo do conjunto de sua obra. A respeito do romance A cidade e as Serras, por exemplo, debatem-se duas posições críticas há vários anos. Uma considera o romance conservador ou reacionário, por apresentar uma solução, um final feliz, aspectos que indicariam a desistência de lutar em prol dos objetivos propostos pelo escritor em textos anteriores (Simões, 1978); outra reconhece a presença da ironia, avaliando principalmente a discursividade referente ao narrador (Sousa, 1993).

Consideramos aqui que, apesar das diferenças de estilo e de personalidade entre Machado e Eça, ambos pertencem à tradição dos autores, cujas obras são pautadas pelo princípio da ironia. Trata-se de um modo específico de olhar para o mundo que pode ser encontrado em outros pensadores e ficcionistas desde a Antigüidade. Sócrates, Luciano, Erasmo, Montaigne, Cervantes, Shakespeare, Swift, Sterne, Voltaire são alguns dos ironistas que inspiraram tanto Machado quanto Eça. Avaliando as obras desses autores é possível encontrar inúmeras similaridades no que tange às idéias apresentadas e aos julgamentos formulados sobre a condição humana. Mesmo diante das diferenças formais ou dos assuntos em torno dos quais as narrativas são construídas, tanto Machado quanto Eça concebem a idéia de permanência no mundo na perspectiva da ironia. Vejamos como essa concepção se efetiva nos romances A cidade e as serras e Memórias póstumas de Brás Cubas.

O assunto de A cidade e as serras é o relato da trajetória de Jacinto, desde o seu nascimento até a maturidade, onde é deixado a usufruir das possíveis benesses que a natureza quase intocada das serras pudesse lhe proporcionar. Já na sua juventude o herói concebe a idéia de que "o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado", idéia que corresponde a uma meta e ao seu ideal de vida. Para alcançar esse patamar empreende múltiplos esforços, pois entende que o estado de civilização é uma conquista, uma busca, uma formação.

Entretanto, é preciso notar também que o estado civilizatório, caracterizado pelo desenvolvimento mecânico e erudição, traz implícito um outro componente que é o tédio, possivelmente pelo fato de que tudo o que é mecânico, repete-se sempre, embora, às vezes, falhe; e as possibilidades de saber, múltiplas e contraditórias entre si, acabam por saturar a mente do indivíduo. Na noite de seu aniversário, Jacinto preguiça, dominado por profundo tédio. Sobre o "monte facundo" de jornais de Paris, Londres, semanários, magazines, revistas, ilustrações, observa a seu companheiro: "É uma seca... Não há que ler".

Então vem a viagem às serras, realizada por Jacinto, em princípio, sem nenhum entusiasmo; porém, o contato com a natureza renova suas forças vitais, especialmente seu apetite, que ele perdera há muito. Ao final, parece ter conseguido um equilíbrio entre natureza e civilização, valendo-se desta, na medida em que o auxilia em suas necessidades afetivas. Desse modo, podemos considerar que Eça de Queirós contempla uma positividade, inventa um ideal? Onde ficaria a consciência irônica que, em sua natureza socrática, tudo nega? Consideramos que, mesmo assim, é possível, a partir do romance em questão, traçar a perspectiva irônica desse escritor que, às vezes, a dissimula tão bem.

A ironia no romance pode ser percebida a partir de duas perspectivas: a crítica à civilização e a ambigüidade com que retrata a possível felicidade e ventura alcançadas por Jacinto nas serras. A crítica à cidade é radical. Com efeito, não resta nada do projeto civilizatório do século XIX, enquanto bem supremo desejável pela humanidade. O que fica nas serras, o telefone e as benfeitorias, além dos remédios, são apenas artefatos resultantes da experiência e podem auxiliar os seres humanos, mas estão longe de representar um ideal. A idéia de civilização sobrevive apenas como realidade sem serventia. O 202, com sua tecnologia ultrapassada e seus livros mudos, conforme o encontra Zé Fernandes em sua última viagem a Paris, é deveras desolador. Portanto, a ironia é dirigida, sobretudo, ao projeto civilizatório e desenvolvimentista, que suplanta o indivíduo com a sua tirania ao ponto de aniquilá-lo física e moralmente.

Não obstante, a vida continua, a não ser que a personagem se suicidasse. Tendo de viver, como poderia? Para Jacinto, e também para Zé Fernandes, só há uma forma de continuar existindo: moderar os próprios desejos, aquietar-se e seguir as leis naturais, aceitando as condições que a natureza impõe. Seria isso uma positividade ou uma ironia tão-somente? Afinal, o romance acaba em um tom que mais parece melancólico do que idealizante, se levarmos em conta as atividades e ocupações a que se submetem herói e narrador naquele espaço específico.

Se o olhar do narrador sobre a cidade é decadente, o olhar sobre as serras não constitui exatamente o seu contrário, porquanto não parece isento de problemas e a utilização do verbo parece, ao final, é o indicativo pouco seguro a respeito das possibilidades de ter conquistado e de poder preservar para sempre a Grã -Ventura. Através do romance A cidade e as serras, Eça de Queirós continua a realizar a sua prática ironista. Afinal, o que ali ocorre é um exercício de negação, tanto direta e contundente, quando se refere à cidade, quanto indireta e ambígua, quando direcionada para as serras. Bem vistas as coisas, a retórica da narrativa queirosiana se empenha num único foco: toma um fidalgo riquíssimo, culto, super-civilizado, bela figura, um príncipe, em suma, e o transforma num pacato aldeão. O autor vai desvestindo as máscaras que conformam a figura desse fidalgo, digno representante do supremo ideal da sociedade desenvolvimentista do ocidente, até reduzi-lo à sua simplicidade natural. É assim que, também nesse romance, Eça de Queirós expõe o seu ponto de vista irônico sobre o mundo.

O romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, é o relato de um defunto que, do outro lado e numa situação privilegiada, pode então tecer sem nenhum constrangimento, a teia de sua vida. Há três aspectos que fazem parte da seleção de dados elaborada pelo autor para a construção da trajetória do protagonista que nos interessam no sentido de estabelecer a visão irônica do autor: o romance com Virgília, a amizade com Quincas Borba, o contato do defunto com as forças da natureza.

Através do romance entre Brás Cubas e Virgília o autor apresenta uma densa análise das relações sociais e amorosas, desvelando as máscaras da hipocrisia, do egoísmo, da falta de sentido das escolhas dos indivíduos. A paixão, por seu turno, é abordada a partir de uma perspectiva irônica, na medida que ela só se realiza sob o estigma da proibição. Trata-se de um caso de adultério, quando Brás Cubas e Virgília poderiam ter-se casado, não o fizeram, o filho que poderia nascer da união de ambos foi abortado. Ainda assim e a despeito da ironia, o caso de amor com Virgília foi o acontecimento mais significativo da vida de Brás Cubas.

A relação de Brás Cubas com Quincas Borba é o motivo para a construção de uma doutrina que é designada de Humanitismo. "Humanitas" é o princípio de todas as coisas, está na guerra, na inveja, na violência, na luta sem tréguas, no apego do homem à vida... Ao fim de contas, o Humanitismo é a filosofia da aceitação, do culto e da transformação desses princípios na razão última de viver. Atribuir um significado positivo a essas "falhas" ou "defeitos" da natureza humana é uma insanidade, todavia é a forma natural de ser no mundo. A visão do mundo como um grande palco onde impera a voz da loucura é uma ressonância da obra de Erasmo de Roterdam, Elogio da loucura, e constitui uma profunda ironia, uma forma de negatividade que explicita a dúvida sobre as possibilidades de conhecimento do ser humano.

O contato do defunto autor com as forças da natureza é narrado no capítulo do "Delírio". Em seu delírio o protagonista realiza uma viagem através do espaço e do tempo, montado num hipopótamo, animal que, na simbologia egípcia, é considerado como manifestação das forças negativas que existem no mundo e na Bíblia, no Livro de Jó, simboliza a força bruta que Deus subjuga, mas que o homem não consegue domesticar. No romance o animal simboliza a morte, uma força implacável contra a qual ninguém pode lutar. Nesse momento derradeiro, o narrador contempla todos os séculos, as grandes obras dos seres humanos, desde os mais remotos tempos e questiona: o que é o livro do Pentateuco, o que são os séculos, os grandes fatos ou heróis da história diante dessa força poderosa e implacável da Natureza, cujos desígnios escapam à capacidade de compreensão da humanidade? Trata-se aqui da expressão de uma negatividade absoluta, que desvela a incapacidade última do ser humano de desvendar o mistério de sua própria existência. É por tais razões que o protagonista, depois de ter vivido, considera-se vencedor pelo fato de não ter tido filhos.

A ironia é uma forma de olhar o mundo. É uma perspectiva que contempla sobretudo a negatividade de todos os aspectos da vida humana. O ironista elege o foco em que quer projetar toda a luz e ele surge enfim com uma nitidez espantosa, apesar das sinuosidades do discurso. É interessante notar, também que a negatividade não surge através das lágrimas e sim do riso, uma vez que o humor é a principal arma do ironista.


Referências Bibliográficas

ASSIS, Machado de. Obras Completas. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994.

BÍBLIA SAGRADA. Petrópolis, Vozes, 1990.

KIERKEGAARD, S. A. O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates. Petrópolis, Vozes, 1991.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Brasília, Hucitec, 1987. 3 v.

QUEIRÓS, Eça de. A cidade e as serras. São Paulo, Clube do livro, 1977.

SIMÕES. João Gaspar. Eça de Queirós: a obra e o homem. Lisboa, Arcádia, 1978.

SOUSA, Frank. "Zé Fernandes, personagem e narrador de A cidade e as serras de Eça de Queirós", Queirosiana 4 (Tormes, 1993) 13-42.