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Alegorizando as periferias:
pontos de articulação entre a crítica cultural de
Fredric Jameson e Roberto Schwarz

 
Malcolm K. McNee
U. Minnesota

Numa aula recente, dedicada à discussão de Dom Casmurro de Machado de Assis, uma estudante européia fez uma observação interessante, carregada com umas das questões mais perduráveis para escritores e críticos brasileiros, latino-americanos, e até "terceiro-mundistas" ou "pós-colonialistas". A estudante, com entusiasmo genuíno de louvação, disse que ao ler a obra de Machado sentia-se como se estivesse lendo um romance "europeu", que o livro tinha uma certa qualidade ou aura de europeidade que faltava aos outros textos que tínhamos lido. Ressaltando a hierarquia qualitativa invertível que a observação dela parecia sugerir, vale a pena mencionar que Machado de Assis, durante a sua vida, foi acusado de não ser brasileiro autêntico. Como Roberto Schwarz observa, Sílvio Romero, num livro escrito em 1897 contra Machado de Assis, classifica a arte do escritor como "anglomania inepta, servil, inadequada etc." (1989, 39).

De tal modo, uma das questões contidas na caracterização positiva da estudante e a negativa de Romero tem a ver com a dicotomia nacional/cosmopolita ou local/universal. Posicionar os elementos discursivos de um escritor ao longo de um espectro que corre do local até o universal tem sido uma estratégia de avaliação crítica perdurável mas também problemática, talvez ainda mais para as literaturas "periféricas", visto que a universalidade implica uma certa fidelidade à tradição formal e filosófica ocidental ou européia. Também implica a possibilidade de questionar a originalidade do texto periférico, de medir os níveis de dependência inescapável dos modelos ou antecedentes europeus, a fonte de uma longa conversa crítica no Brasil e na América Latina em geral.

Outra dimensão da observação da estudante tem a ver com a sua recepção do texto e a subseqüente construção do seu sentido. Paradoxalmente, para aquela leitora, saber das origens do romance num país periférico fez com que ela o classificasse como europeu (leia-se: universal ou cosmopolita). Pois, a questão que fica ressaltada é como este saber afetou conscientemente e subconscientemente a sua leitura e a sua participação na construção do sentido do texto.

Tomando a observação da estudante sobre Machado de Assis e as questões nela implícitas como ponto de partida, minha proposta para este trabalho é: uma análise de dois críticos literários que oferecem estratégias dialéticas para reformular ou matizar as dicotomias local/universal e cópia/original. Focalizo, especificamente nas suas construções teóricas de um papel da periferia, ou uma posição material e epistemológica do chamado Terceiro Mundo, na leitura de textos individuais, e na formação e reforma de cânones de literatura local e mundial.

Começo com uma leitura da obra de Fredric Jameson, especificamente do papel do Terceiro Mundo na sua crítica do pós-modernismo como expressão cultural de uma mundialização capitalista entrando numa nova época de consolidação. Como observa Santiago Colás, no argumento de Jameson, o Terceiro Mundo, como espaço material, mental e discursivo, tem uma dupla função: (1) a sua conquista, transformação, e eventual eliminação pelas forças de desenvolvimento capitalista representariam a consolidação do "capitalismo tardio" como sistema mundial hegemônico; (2) não obstante, também este seria o espaço que poderia oferecer as maiores possibilidades de resistência e oposição àquela consolidação. O espaço mais heterogêneo do Terceiro Mundo torna possível pensar o presente historicamente, uma capacidade relativamente limitada para o sujeito do Primeiro Mundo homogeneizado. Seguindo esta lógica, Jameson confere à literatura do Terceiro Mundo este papel contra-hegemônico, em oposição ao romance burguês, individualista, psicológico, primeiro-mundista, declarando que:

Os textos do Terceiro Mundo . . . necessariamente projetam uma dimensão política na forma de alegoria nacional: isto é, a história do destino individual e privado é sempre uma alegoria da situação de luta da cultura e sociedade públicas do Terceiro Mundo (1986, 69).

Sigo esta leitura seletiva de Jameson com uma discussão do crítico, Roberto Schwarz. Focalizo não só na sua extensa obra sobre Machado de Assis mas também nos ensaios que enfatizam períodos ou movimentos na história cultural brasileira que abertamente tentaram resolver ou ultrapassar as problemáticas indicadas pelas dicotomias já mencionadas. Nos ensaios sobre Machado de Assis, Schwarz privilegia uma leitura alegórica mas também historicizada onde há uma contradição ou tensão evidente que merece mais atenção. Segundo a leitura de Schwarz, os melhores romances de Machado não só expõem cuidadosamente a dinâmica social do Segundo Império brasileiro e a difícil transição à Primeira República, mas também apresentam uma reflexão ainda relevante sobre a situação ideológica do Brasil como país periférico e dependente, e desta forma deixam uma lição alegórica sobre a essência ou marca supostamente inescapável da nação.

Por último, demonstro que o ponto mais saliente que Jameson e Schwarz compartilham e que parece sublinhar especificamente a construção teórica de um papel para as literaturas periféricas, é um privilegiar epistemológico da consciência subalterna. Os dois reafirmam a dialética hegueliana do patrão/escravo, evidente ao longo de toda a tradição marxista, que atribui ao marginal, periférico, subalterno, etc. uma consciência situacional superior à hegemônica para revelar sistemas de poder ou totalidades sociais. Por isso Schwarz e Jameson compartilham algumas das dificuldades ou fraquezas teóricas e metodológicas com o projeto de estudos subalternos em geral: isto é, ter que encontrar e representar a consciência diferencial, a negatividade do sujeito subalterno (uma "singularidade cultural") e, ao mesmo tempo, evitar uma política de identidades simplificante. Fazer isso ao nível da dicotomia Primeiro/Terceiro Mundo ou Centro/Periferia no contexto da mundialização atual é extremamente difícil mas também necessário para ressaltar dissimetrias de poder a estos níveis geo-políticos. Em fim, suas tentativas ou estratégias de representar singularidade cultural subalterna envolvem a formação e promoção de cânones literários ou culturais que teriam um fim pedagógico de expor criticamente a singularidade hegemônica do sistema mundial capitalista. A fraqueza teórica talvez inevitável que fica, claro, é a vulnerabilidade à fácil desconstrução teórica de qualquer dessas singularidades culturais, seja Centro, Periferia, Primeiro Mundo ou Terceiro Mundo. Alberto Moreiras identifica esta dificuldade: "A situação fundacional do subalternismo . . . é a vacilação constitutiva entre afirmação de singularidade cultural e seu abandono como ilusão ideológica (879)."

* * *

Embora Jameson declare que talvez seria orientalista de sua parte tentar formular uma teoria geral para a grande pluralidade que representa a literatura do Terceiro Mundo, no ensaio publicado em 1986, "Third-World Literature in the Era of Multinational Capitalism", ele oferece umas perspectivas "provisórias" e uma estratégia de leitura para abranger esta pluralidade. Segundo seu argumento, em geral os romances do Terceiro Mundo têm um "defeito" qualitativo (que reflete as condições e localidade da sua produção): uma mistura desafinada do pessoal e do político que não oferece ao leitor "típico" do Primeiro Mundo a mesma satisfação de um Dostoievsky, Proust, ou Joyce.

Aqui, Jameson parece reafirmar a posição de Georg Lukács sobre a forma romanesca e a ponte (que implica uma divisão) entre o particular e o geral que é um elemento essencial da relação entre o romance e um conjunto de problemáticas e ideologias burguesas. Segundo Lukács, o romance é a "épica burguesa", refletindo inicialmente a autoconfiança na consolidação de hegemonia burguesa, mas também eventualmente, a alienação e o desabrigo do sujeito numa sociedade moderna desprovida de uma totalidade de sentido. O romance reflete uma saudade do absoluto desaparecido. (Eagleton 27).

Os grandes romances são, portanto, aqueles que, num esforço para reconstruir uma realidade cada vez mais fragmentada ou uma inteireza humana, dialeticamente exploram as relações entre o pessoal e o social, o geral e o particular, o presente e os movimentos significantes ou a trajetória da história. Alguns escritores, posicionados temporalmente durante transições tumultuosas de épocas históricas, podiam perceber os seus presentes como história. Por isso, podiam construir o que Lukács privilegia como romances de realismo histórico, nos quais o sujeito é ligado à totalidade social e cada particularidade da sua vida social é informada com o poder dos movimentos significantes do processo histórico (Eagleton 28,29).

Na sua caracterização de romances do Terceiro Mundo e sua reflexão sobre vários escritores específicos, Jameson imputa-lhes essa consciência histórica, mas imbuída de uma dimensão situacional específica, relativamente à sua localidade na periferia ou limiar da expansão e consolidação de capitalismo mundial. Mas Jameson também imputa-lhes uma "deficiência" de não manter a dinâmica familiar entre o particular e o universal, esvaziando o sujeito do seu sentido imanente e, portanto, tornando-o conscientemente alegórico:

Todos os textos literários do Terceiro Mundo são, necessariamente, . . . alegóricos, e de uma maneira muito específica: devem ser lidos como . . . alegorias nacionais. . . . Uma das características determinantes da cultura capitalista, isto é, a cultura do romance realista e modernista ocidental, é uma cisão radical entre o particular e o público, entre o poético e o político, entre o que costumamos pensar como a esfera da sexualidade e a do poder político secular . . . (69).

Jameson propõe que esta deficiência, isto é, a tendência mais abertamente alegórica, seja um antídoto para a tendência oposta na literatura que domina a sensibilidade dos leitores do Primeiro Mundo. No Primeiro Mundo, segundo a generalização bastante abrangente de Jameson, o político e até o engajamento político são psicologizados, enquanto que, no Terceiro Mundo o psicológico é lido primariamente em termos políticos e sociais:

Tais estruturas alegóricas, então, não são tão ausentes dos textos culturais do Primeiro Mundo, como são inconscientes . . . . À diferença das alegorias inconscientes de nossos textos culturais, as alegorias nacionais do Terceiro Mundo são conscientes e evidentes: inferem uma relação objetiva e radicalmente diferente entre a política e dinâmicas libidinais (79-80).

A raiz desta diferença da dinâmica de sentido na literatura do Terceiro Mundo é sua subalternidade e a consciência situacional que esta subalternidade carrega. Longe de ser uma deficiência, a subalternidade e a sua tendência alegórica nas suas manifestações romancistas do Terceiro Mundo é uma força de privilegiar epistemológico segundo Jameson. Só o subalterno tem a possibilidade de alcançar uma consciência verdadeira da sua situação, da totalidade de forças materiais e dos sistemas de poder. Entretanto, o hegemônico é condenado ao idealismo, ao luxo de uma liberdade que torna impossível qualquer consciência da sua própria situação. Jameson afirma:

A visão de cima é epistemológicamente debilitante e reduz seus sujeitos às ilusões de uma multidão de subjetividades fragmentadas . . . sem passados nem futuros coletivos, sem qualquer possibilidade de perceber a totalidade social. Esta individualidade sem-lugar condena nossa cultura [do Primeiro Mundo] ao psicologismo e às projeções de subjetividade privada. Todo isto é negado à cultura do Terceiro Mundo, que tem que ser situacional e materialista . . . . E é isto . . . que explica a natureza alegórica da cultura do Terceiro Mundo, onde a narração da história individual, finalmente, não pode senão envolver a narração abrangente da experiência da própria coletividade (85-86).

Obviamente, a pergunta que fica é como Jameson pode ter escapado à fragmentação individualista e à epistemologia sem-lugar e sem-tempo da sua sociedade. A resposta, não diretamente articulada no seu ensaio, só pode ser através da capacidade supostamente esclarecedora dos romances periféricos, desafinados e alegóricos do Terceiro Mundo. E aqui se identifica seu fim pedagógico e sua justificação para a entrada destas literaturas nos cursos do Primeiro Mundo.

* * *

Para uma discussão de textos e dinâmicas culturais que supostamente demonstrariam ou manifestariam uma consciência situacional -- isto é, a subalternidade que Jameson tanto privilegia -- voltemos nossa atenção ao contexto brasileiro e à obra do crítico Roberto Schwarz. Numa coletânea extensa de ensaios sobre Machado de Assis, Schwarz oferece uma leitura menos psicologizada e mais historicizada e, num sentido limitado do adjetivo, alegórica, iluminando a dinâmica distinta entre: (1) idéias ou formas liberais rearticuladas pela elite brasileira, (2) a autoridade intelectualizada e estrutural dessa elite e (3) a realidade sócio-econômica do país "atrasado" ou periférico.

Esta proposta de Schwarz de uma leitura historicizada mas também alegórica da construção de sentido pela ficção machadiana é mais sucintamente elaborada no ensaio "Idéias fora do lugar". O conflito ou as contradições ideológicas que, segundo este ensaio, são ressaltados claramente na obra de Machado de Assis, têm a ver com as diversas dinâmicas entre trabalho e capital no Brasil e na Europa no século passado. A dinâmica brasileira, baseada na escravidão, contrasta com o liberalismo operário europeu no seu sentido ideal ou utópico. O resultado deste conflito no Brasil é o que Schwarz designa "a comédia ideológica": uma tensão entre "vivência", a vida diária na sociedade escravista, e "experiência", a vida intelectual, formada principalmente por idéias liberais ou modelos culturais supostamente universais de origem européia. E a dinâmica social que marcava esta comédia ideológica brasileira era o favor.

O sistema de favor era marcado ideologicamente pelo uso da retórica liberal para esconder ou racionalizar relações autoritárias, decisões arbitrárias ou de capricho, e para justificar e manter uma hierarquia sócio-econômica e cultural:

Aí a novidade: adotadas as idéias e razões européias, elas podiam servir e muitas vezes serviram de justificação, nominalmente "objetiva", para um momento de arbítrio que é da natureza do favor (17).

É esta dinâmica social, o favor, que Machado de Assis expõe e critica através das suas personagens; personagens bastante individualizadas para merecerem décadas de interpretações primariamente psicologizadas.

Mas, não é esta exploração do espaço privado e subjetivo para iluminar as regras mais objetivas que ordenavam a vida pública de uma época específica que faz a obra de Machado alegórica na leitura de Schwarz. Há outra dimensão de sentido mais alegórico que Schwarz ressalta com a noção bastante abrangente de "idéias fora do lugar". Machado, além de poder problematizar e subverter as hierarquias da sociedade daquela época, pode relativizar as verdades universais encaixadas nos discursos e formas literários e filosóficos da Europa. Ele pode realizar isto, segundo Schwarz, não só devido ao seu gênio individual, mas também devido à sua "consciência situacional", a sua visão do centro a partir da periferia. É neste sentido que Schwarz parece definir um papel para a literatura brasileira como periférica, identificando a sua diferença e originalidade:

Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente o Brasil põe e repõe idéias européias, sempre em sentido impróprio. É nesta qualidade que elas serão matéria e problema para a literatura. O escritor pode não saber disso, nem precisa, para usá-las. . . . [D]efinimos um campo vasto e heterogêneo, mas estruturado, que é resultado histórico, e pode ser origem artística. Ao estudá-lo, vimos que difere do europeu, usando embora seu vocabulário. Portanto a própria diferença, a comparação e a distância fazem parte de sua definição. . . . (1981, 24-25).

Mas este papel periférico não esclarece se a estratégia de leitura que Schwarz propõe é ou não alegórica no sentido muito simplificado que Jameson sustem no seu ensaio. Esta questão encontra-se ainda mais desenvolvida em um dos mais conhecidos artigos de Schwarz sobre dinâmicas culturais brasileiras mais contemporâneas: "Cultura e política, 1964-69".

Um dos conflitos ou contradições possíveis que aparece na obra em conjunto de Schwarz é a valorização de certas qualidades alegóricas da obra machadiana e, em outro contexto, a desvalorização da alegoria como forma de pensar e representar a realidade brasileira. Sua noção de idéias fora do lugar demonstra uma dimensão alegórica porque parece transcender aquele momento e espaço histórico, revelando uma falta de especificação que Schwarz ressalta com sua comparação da consciência situacional de Machado com a dos grandes romancistas russos do século passado, também situados na periferia do liberalismo europeu. Numa entrevista Schwarz também reafirma a transcendência temporal e, porém, a alegoricidade desta tese:

Idéias estão no lugar quando representam abstrações do processo a que se referem, e é uma fatalidade de nossa dependência cultural que estejamos sempre interpretando a nossa realidade com sistemas conceituais criados noutra parte, a partir de outros processos sociais ("Cuidado com . . .", 120)

No entanto, ao avaliar o surgimento da Tropicália no contexto da primeira fase do governo militar no Brasil, Schwarz critica negativamente sua estratégia de significação alegórica. Ele descreve a técnica básica do movimento como a justaposição de imagens de diferentes temporalidades culturais e estruturais coexistentes no Brasil. O efeito do pastiche entre um campo de ícones da modernidade, da modernização, e do cosmopolitismo e os símbolos "anacrônicos" do "subdesenvolvimento" ou "atraso" brasileiro transforma o país numa alegoria do absurdo. Schwarz escreve:

É literalmente um disparate – é esta a primeira impressão – em cujo desacerto porém está figurado um abismo histórico real, a conjugação de etapas diferentes do desenvolvimento capitalista ("Cultura . . .", 74).

Jameson talvez identificaria essa mesma conjugação que a Tropicália pareceria ressaltar; esta heterogeneidade de etapas ou modos de produção capitalista na nação periférica; como a fonte mesma da vantagem epistemológica do artista brasileiro (ou do Terceiro Mundo em geral). E sua forma mais óbvia de significação possível teria que ser alegórica consciente ou aberta. Enquanto Schwarz, no momento em que escreveu sua crítica da Tropicália, não via uma resolução possível a esta representação alegórica do Brasil como conjunção absurda do moderno e do atrasado -- isto é, a essência negativa e atemporal sempre pronta a ressurgir no presente eterno da nação -- Jameson talvez adotasse as alegorias da Tropicália como uma maneira efetiva de conscientização dos leitores do Primeiro Mundo às verdades da expansão capitalista na sua periferia. E, paradoxalmente, embora a leitura de Schwarz das idéias fora do lugar na ficção machadiana pareça ressaltar, ao parafrasear Benjamin, as "ruínas da história" brasileira, sempre presentes e, no seu processo lento de deterioração, sempre emitindo sentido(s) alegórico(s), Schwarz parece encaixar Machado na categoria estimada de Lukács de realismo histórico, ressaltando a capacidade de manter a conexão conceptual entre o sujeito, sua sociedade e as forças históricas de sua época.

Como explicar esta inconsistência na obra de Schwarz com respeito à (des)valorização da alegoria? À primeira vista, como Evalina Hoisel reconhece, no caso da Tropicália, Schwarz apropria-se de uma noção completamente negativa de alegoria, ressaltada na obra de Lukács: a alegoria, sem sentido imanente e sem ligação com uma especificidade histórica, é a "nadificação da história." Hoisel escreve:

A falta de especificação do Tropicalismo se apoia, e até se justifica para Schwarz, pela utilização da alegoria. Se o discurso simbólico realiza a identidade entre forma e conteúdo, a alegoria estabelece um distanciamento entre esse níveis estruturais, configurando uma relação externa e convencional, que não dá conta dos fundamentos da história, "encerrando o passado sob forma de males sempre ativos e capazes de voltar", sugerindo ainda que eles são o nosso destino (46).

A noção negativa de alegoria de Lukács é, por sua parte, uma leitura reducionista e simplificante do trabalho muito mais complexo e ambíguo de Benjamin sobre a alegoria do barroco e do modernismo europeus. Lukács, no seu ensaio "A Ideologia de Modernismo" escreve de Benjamin e cita-o:

Benjamin retorna, muitas vezes, a esta ligação entre a alegoria e a aniquilação da história: "à luz desta visão, a história aparece não como a realização gradual do eterno, senão como um processo de deterioração inevitável . . . . Como ruínas no mundo físico, assim são alegorias no mundo da mente (41).

Eu proponho que Schwarz, através de suas críticas aparentemente contraditórias da Tropicália e da obra de Machado, mantém a complexidade e ambigüidade de Benjamin com respeito à alegoria. Schwarz não desvaloriza a alegoria como modo de significação; reconhecendo sua inevitabilidade e que finalmente é uma questão da distinção entre alegorias conscientes e inconscientes; senão rejeita a lição que a alegoria dominante da Tropicália parece ensinar. Em contraste com a lição da alegoria das idéias fora do lugar – que tenta ressaltar a dependência cultural e ideológica dentro do contexto dialético da posição periférica da nação no sistema mundial capitalista – a Tropicália volta ou reverte a uma compreensão dualística em vez de dialética do desenvolvimento assimétrico no Brasil. A Tropicália propõe um contraste absoluto e chocante, em vez de interdependência lógica, entre o "velho"e o "novo". Estes contrastes ou justaposições celebrados como as fontes de originalidade brasileira, alegorizam a nação como um absurdo, segundo Schwarz – isto é, como "um país congenitamente dúplice", em vez de um resultado da expansão capitalista contínua na sua periferia. Paulo Eduardo Arantes descreve esta dimensão da crítica de Schwarz da Tropicália:

O que a ciência social desautorizava, a experiência estética [da Tropicália] voltava a sancionar. O antigo e o novo continuavam em presença um do outro – era o que parecia mostrar a experiência social de todos os dias, sobretudo quando filtrada pela forma estética --, variava apenas o plano da sua conjunção. . . . Éramos de fato o produto do movimento internacional do capital, mas embora este se desenrole em escala mundial, vai compondo elementos que são diferentes e assimétricos; distinguimo-nos assim do padrão geral na medida em que a primitiva exploração colonial está na base da articulação entre sociedades dependentes e dominantes. Mas a que se resumia a singularidade do país – posta a nu pela situação de dependência – senão a essa coexistência, sistemática, descompartimentada, de herança colonial e presente capitalista? . . . Essa a dualidade sem dualismo que escandia a nossa formação e definia os vetores básicos da experiência brasileira (37-38).

Ao criticar a natureza aparentemente afirmativa da Tropicália – ressaltando sua reversão a noções já rejeitadas pelas ciências sociais da dualidade reificada e irreconciliável do Brasil – a noção de alegoria de Schwarz, porém, é mais complexa e criticamente seletiva do que a de Jameson. Como já observamos, Jameson aceita todas as alegorias "conscientes" do Terceiro Mundo como igualmente elucidantes, pelo menos para o leitor "típico" do Primeiro Mundo. De qualquer modo, se pode observar que os dois críticos por fim demonstram um interesse profundo na formação de cânones com o propósito pedagógico de ressaltar as dinâmicas da expansão capitalista, no mundo pós-colonial no caso de Jameson, e especificamente no Brasil no caso de Schwarz.

* * *

Como conclusão, gostaria de voltar à leitura de Dom Casmurro da estudante européia – em si mesma uma mini-alegoria de eurocentrismo – que provocou meu interesse em ler paralelamente a obra de Jameson e Schwarz. O paradoxo desta leitura particular num currso no Primeiro Mundo de uma obra exemplar ou talvez excepcional do Terceiro Mundo pode ser narrado da seguinte forma: se ela realmente tivesse sentido como se estivesse lendo um romance europeu (ou do Primeiro Mundo), não teria sentido conscientemente como se estivesse lendo um romance europeu. Esta influência ou confluência de cânone, sala de aula, e suas posições relativas – em termos de um sistema mundializado capitalista – é o que é problematizado e valorizado na crítica de Jameson e Schwarz.

Neste sentido, acho que a distinção que Walter Mignolo propõe entre a formação e reforma de cânones epistémicos e cânones pedagógicos para o ensino e estudo de literatura comparativa é útil para ajudar-nos a ler além do orientalismo evidente nas classificações

de Jameson da literatura do chamado Terceiro Mundo, e além do determinismo e prescrições fastidiosas da leitura de Schwarz da Tropicália. Apesar da vulnerabilidade e fraquezas epistemológicas da sua crítica sociológica e seu privilegiar da singularidade cultural do subalterno – metodologicamente dependentes de dicotomias facilmente desconstruídas – num sentido pedagógico ou no sentido da conscientização, um termo que ambos críticos talvez considerariam prematuramente fora da moda, Jameson e Schwarz efetivamente ressaltam as dissimetrias persistentes de poder discursivo e estrutural que freqüentemente não são emfatizadas por teóricos culturais da mundialização contemporânea.


Bibliografia

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---, "Idéias fora do lugar", Ao Vencedor as Batatas; Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro, São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1981.

---, "Nacional por substração", Que horas são? Ensaios, São Paulo, Companhia das Letras, 1989.