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A questão da co-referência entre sujeito e objeto
nos predicados psicológicos: causatividade vs. resultatividade1 Rozana Reigota Naves
Universidade Católica de Brasília Resumo: Este trabalho objetiva examinar as interpretações semânticas causativa e resultativa atribuídas às construções com verbos psicológicos, procurando mostrar que a existência ou não de co-referência entre o sintagma nominal na posição de sujeito e o elemento encontrado na posição de objeto (sintagma nominal ou pronome clítico) é um fator determinante para que se obtenha uma ou outra interpretação. 0. Introdução Neste artigo, pretendemos analisar as interpretações semânticas atribuídas às estruturas sintáticas dos predicados psicológicos à luz da teoria gerativa. O objetivo é determinar que propriedade sintática é relevante no estabelecimento de uma ou outra interpretação para cada estrutura. A nossa pesquisa com relação aos dados do português mostrou que a co-referência entre o sujeito e o objeto é fundamental na atribuição das leituras causativa ou resultativa a esses predicados. 1. O fenômeno da alternância verbal nos predicados psicológicos Os predicados psicológicos (que expressam percepção, atividade mental ou emoção/sentimento) são constituídos por verbos diádicos cuja grade temática envolve um Experienciador e um Tema ou Causador.2 Esse tipo de predicado suscita o problema de mapeamento das relações temáticas do léxico para a estrutura sintática. A questão é que um certo grupo de verbos psicológicos apresenta como característica a possibilidade de se projetarem em duas estruturas sintáticas distintas. Esse processo é conhecido na literatura sob a denominação de alternância verbal. A alternância verbal apresentada pelos predicados psicológicos do português envolve uma estrutura com o argumento Experienciador na posição de objeto e o Causador na posição de sujeito (estrutura Experienciador-objeto (ExpObj)) e outra estrutura com o argumento Experienciador na posição de sujeito e, opcionalmente, o Causador introduzido por preposição (estrutura Experienciador-sujeito (ExpSuj)).3 Nesse último caso, um morfema clítico, às vezes não manifestado fonologicamente, marca a posição do objeto. Essas estruturas distintas, que caracterizam o processo de alternância verbal para um grupo de predicados psicológicos do português, estão representadas em (1):4
Pela comparação dos dados em (2) e (3) abaixo, percebemos que as estruturas alternantes dos verbos psicológicos recebem interpretações semânticas diferentes: a estrutura ExpObj recebe interpretação causativa enquanto a estrutura ExpSuj é interpretada como tendo um aspecto resultativo, entendido aqui como o estado emocional desenvolvido pelo Experienciador, resultante da interferência de um estímulo (Causador).5
Podemos observar também que a estrutura ExpObj dos predicados psicológicos alternantes apresenta, além da interpretação causativa, a leitura resultativa. De fato, a interpretação causativa contém a leitura resultativa, posto que, nesse caso, a experiência psicológica desenvolvida no Experienciador é o resultado de um processo de causação desencadeado pelo argumento Causador. O exemplo (4) ilustra esse fato:
2. Interpretação resultativa e co-referência entre sujeito e objeto Voltemos aos exemplos (2) e (3). Em (2), o Causador, na posição de sujeito, representa uma pessoa no discurso diferente da pessoa representada pelo Experienciador (Causador e Experienciador não são co-referentes) e a interpretação é causativa. Por outro lado, em (3), temos ainda dois sintagmas nominais, mas o argumento que está na posição de sujeito é o Experienciador, co-referente ao pronome na posição de objeto, e a interpretação é resultativa. No caso de haver co-referência entre sujeito e objeto, um sintagma preposicional pode introduzir o argumento Causador, conservando a leitura resultativa, como em (5):
Entretanto, se o argumento na posição de sujeito receber o papel temático de Causador (numa estrutura ExpObj), a co-ocorrência de um sintagma preposicional impossibilitará a interpretação desse sintagma como Causador e a leitura será semelhante à de um Instrumento. Comparemos o exemplo (6a) com (6b):
Nesses dois exemplos, os sintagmas introduzidos por preposição são interpretados como Instrumento, isto é, como o objeto ou ação utilizados para desencadear o processo emocional descrito pelo verbo psicológico. Nesses casos, o sintagma preposicional não deve ser tratado como um argumento Causador, porque não é selecionado pelo verbo e não possui uma relação metonímica com o argumento na posição de sujeito.6 Tomando como referência os dados em (5), podemos afirmar que, para que o sintagma o problema de Maria expresse o Causador, deve ocupar a posição de sujeito, numa estrutura ExpObj:
Os dados em (5’) confirmam a análise de Levin & Rappaport (1995: 103), segundo a qual verbos que têm alternância causativa não precisam da intervenção de um agente volitivo, permitindo que forças da natureza ou Causadores, bem como Agentes ou Instrumentos, funcionem como causas externas e, portanto, Agentes.7 Concluímos, portanto, que a co-referência entre o sintagma na posição de sujeito e o morfema clítico na posição de objeto é obrigatória a fim de que se obtenha a leitura resultativa atribuída à estrutura ExpSuj dos predicados psicológicos. 3. Proposta de análise para os predicados psicológicos8 3.1. A sintaxe da estrutura com interpretação causativa Levin & Rappaport (1995: 83) consideram que as estruturas causativas necessitam de uma análise "bieventual", segundo a qual essas estruturas contêm um subevento causal e um subevento central (referente à mudança de estado descrita pelo verbo), cada um associado a um argumento: o Causador associado ao subevento causal e o participante passivo ao subevento central. Essas considerações de Levin & Rappaport podem ser aplicadas aos predicados causativos psicológicos. A análise bieventual da estrutura ExpObj desses predicados implica que haveria, nessa estrutura, um subevento referente ao processo de causação e um subevento referente à experiência psicológica. Nesse caso, o Causador é o argumento associado ao subevento causal e o Experienciador é o argumento associado ao subevento psicológico. As conclusões acima não são arbitrárias. Observamos, na seção 2, que a interpretação causativa das estruturas ExpObj contém a interpretação resultativa. De fato, causatividade e resultatividade são o reflexo da configuração sintática bieventual desse tipo de estrutura. O exemplo em (7) ilustra a análise dos predicados causativos psicológicos em dois subeventos:
Admitindo a análise de Levin & Rappaport (1995), faz-se necessário postularmos duas posições de especificador para os sintagmas nominais argumentos dos verbos causativos psicológicos: a posição de especificador do subevento da causação e a de especificador do subevento psicológico. Com essa finalidade, adotamos, neste trabalho, a proposta de Lobato (1998) de que há duas projeções funcionais para argumentos: o sintagma temporal (TP) e o sintagma aspectual (AspP). Dada essa proposta, consideramos que as posições finais para o Causador e o Experienciador são, respectivamente, a de especificador de TP e a de especificador de AspP. 3.2. As noções de causatividade e de resultatividade Um dos pontos básicos da proposta de Lobato (1998), adotada neste trabalho, é o fato de que construtos conceituais, como a noção semântica de tempo, são composicionalmente derivados do uso dos traços formais. Na nossa análise, consideramos que, assim como a noção de tempo, também as noções de causatividade e de resultatividade são construtos conceituais, obtidos composicionalmente pela interpretação do uso dos traços formais no componente semântico da gramática. Partimos do pressuposto de que um verbo psicológico possui os mesmos traços formais nas duas estruturas alternantes ExpSuj e ExpObj. Isso é possível posto que se trata do mesmo item lexical, projetado em duas estruturas sintaticamente diferentes. O verbo aborrecer, por exemplo, projeta a mesma rede lexical de traços formais tanto na estrutura ExpSuj como na estrutura ExpObj. Dado que a rede lexical dos traços formais dos verbos é sempre a mesma e considerando que a interpretação semântica é a interpretação da rede formal lexical associada à interpretação da rede formal estrutural, propomos que a diferença na leitura das estruturas ExpSuj (leitura resultativa) e das estruturas ExpObj (leitura causativa) corresponde à interpretação lexical de redes formais estruturais distintas. A interpretação causativa e a interpretação resultativa são, portanto, resultado da interpretação de redes formais estruturais distintas, pelo componente semântico da gramática. A nossa proposta é a de que a interpretação das redes formais estruturais das construções com verbos psicológicos obedece aos princípios em (8):
Uma vez aplicado o princípio (8b), o morfema clítico aparece como a realização fonética (spelling out) de traços formais.10 Uma análise mais precisa dessa questão, no que concerne aos verbos psicológicos, requer, no entanto, uma continuação da pesquisa. 4. Conclusões A nossa análise dos predicados psicológicos alternantes do português mostrou que esses predicados possuem duas interpretações possíveis: uma causativa, para a estrutura ExpObj, e outra resultativa, para a estrutura ExpSuj. Nesse último caso, a co-referência entre o sintagma na posição de sujeito e o pronome na posição de objeto é fator determinante a fim de que se obtenha a leitura resultativa. Mostramos também que a interpretação resultativa está contida na leitura causativa das estruturas ExpObj. Neste trabalho, discutimos a idéia de tratar as estruturas causativas dos verbos psicológicos como contendo dois subeventos: o da causação e o da emoção descrita pelo verbo. Essa idéia adveio da implicação, já citada anteriormente, de que a interpretação resultativa atribuída às estruturas ExpSuj dos predicados alternantes está no domínio da interpretação causativa atribuída às estruturas ExpObj desses predicados. Trabalhamos então, adotando a proposta de Lobato (1998), com a hipótese de que existem duas projeções funcionais para os argumentos dos verbos: TP e AspP e sugerimos que o Causador e o Experienciador se encontram, respectivamente, nas posições de especificador de TP e de especificador de AspP. Em poucas palavras, a nossa proposta para os predicados psicológicos alternantes se resume ao fato de que existe uma certa configuração de traços formais gerada na estrutura sintática. A interpretação semântica dessa configuração é a responsável pelas leituras causativa ou resultativa das estruturas alternantes dos predicados psicológicos. Dado que o mesmo item lexical participa das duas estruturas, consideramos que os traços formais projetados na estrutura sintática são os mesmos. Sugerimos, portanto, que as leituras diferentes para a mesma configuração estrutural decorrem da existência ou não de co-referência entre os NPs especificadores: se NP1 for co-referente a NP2, a leitura é resultativa; se NP1 não for co-referente a NP2, a leitura é causativa. Referências Bibliográficas BELLETTI, A. & RIZZI, L. 1988. Psych-verbs and q
-theory. Natural Language & Linguistic Theory 6: 291-352. CANÇADO, M. 1995. Verbos Psicológicos: a Relevância dos Papéis Temáticos Vistos sob a Ótica de uma Semântica Representacional. Tese de doutorado. IEL, Unicamp, Campinas. CHOMSKY, N. 1995. The Minimalist Program. Cambridge, Mass.: MIT Press. CHOMSKY, N. 1998a. Linguagem e Mente: Pensamentos Atuais sobre Antigos Problemas. Brasília, Editora da Universidade de Brasília. CHOMSKY, N. 1998b. Minimalist Inquiries: the Framework. MITWPL 15, Cambridge, Mass.: MIT. HALE, K. & KEYSER, S. 1993. On argument structure and the lexical expression of syntactic relations. In: HALE, K. & KEYSER, S. (orgs.) The View from Building 20: Essays in honor of Sylvain Bromberger. Cambridge, MIT Press. LEVIN, B. & RAPPAPORT, H. 1995. Unnacusativity: at the Syntax-lexical Semantics Interface. Cambridge, Massachussets: MIT Press. LOBATO, L. 1998. What the form of Portuguese past participles reveals about formal features and language development. Manuscrito. PESETSKY, D. 1995. Zero Syntax: Experiencers and Cascades. Cambridge: MIT Press. Notas 1. Este artigo é parte da dissertação de mestrado, intitulada Aspectos Sintáticos e Semânticos dos Verbos Psicológicos (1998), defendida na Universidade de Brasília. 2. Chamamos Experienciador ao referente do sintagma nominal que vivencia a emoção (percepção ou atividade mental) descrita pelo verbo. O Tema é o argumento afetado por essa emoção, enquanto o Causador é o referente do sintagma nominal que desencadeia a emoção. 3. As notações ExpObj e ExpSuj foram inicialmente propostas por Pesetsky (1995). 4. Nem todos os verbos psicológicos participam do processo de alternância verbal. Verbos que expressam atividade mental ('pensar', 'imaginar'), verbos de percepção ('ver', 'ouvir') e uma subparte dos verbos que expressam emoção/sentimento ('temer', 'adorar') só admitem uma estrutura transitiva com o Experienciador na posição de sujeito e o Tema na posição de objeto: [O governo]Exp teme [revoluções populares]Tema. 5. É importante ressaltar que não estamos tratando aqui de construções resultativas, tais como as sentenças do inglês exemplificadas em (ia). Não há, no português uma contraparte gramatical desse tipo de construção, a não ser pela inserção de um sintagma preposicional, cuja obrigatoriedade está representada no exemplo (ib) pelo sinal *( ): (i) a. John painted the house yellow. b. João pintou a casa *(de) amarelo. Levin & Rappaport (1995: 34) definem o sintagma resultativo do inglês como sendo "um XP que denota o estado atingido por um referente do NP do qual esse XP é predicado como um resultado da ação denotada pelo verbo na construção resultativa". Ainda que não estejamos lidando com este fenômeno no português, é interessante observar que o que acontece com o argumento Experienciador nos predicados psicológicos é sempre um resultado da emoção descrita pelo verbo. Como esse resultado não é expresso por meio de um XP, não podemos utilizar o termo construção e, por isso, nos referiremos a essa interpretação como leitura/aspecto resultativo dos verbos psicológicos. 6. M. Kato (c.p.) observou que a análise do sintagma preposicional como Instrumento não serve para sentenças em que esse sintagma possui relação metonímica com o sujeito: 'Rosa preocupa a mãe com sua arrogância' (exemplo retirado de Cançado, 1995). Sentenças como essas não serào objeto de discussão deste trabalho. 7. Essa análise de Levin & Rappaport é feita para a alternância causativa prototípica, como (i) abaixo. Esse tipo de alternância admite que Causadores (incluindo forças da natureza) e Instrumentos funcionem como Agentes (ii) : i. João quebrou a vidraça. /
A vidraça quebrou. ii. A ventania/ A bola quebrou a vidraça. Estamos estendendo essa análise para os predicados psicológicos que também admitem Agente, Causador ou Instrumento como sujeito e possuem interpretação causativa para uma das estruturas alternantes. 8. A nossa análise para os predicados psicológicos se baseia na proposta teórica em termos de traços formais feita por Lobato (1998). 9. As siglas NP1 e NP2 estão sendo utilizadas aqui para representar os dois sintagmas nominais argumentos dos verbos psicológicos alternantes. Não há uma correspondência obrigatória entre a numeração dada a esses NPs e a ordem Causador - Verbo - Experienciador. 10. Nesse ponto também estamos adotando a proposta de Lobato (1998) de que as palavras gramaticais são a realização fonética (spelling out) de traços formais estruturais, ativos na estrutura sintática, mas não utilizados na interpretação semântica das redes formais estruturais. |