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As dimensões rítmicas da elisão em português arcaico*
Gladis Massini-Cagliari
Universidade Estadual Paulista UNESP/Araraquara 0. Introdução A elisão consiste na "supressão de uma vogal átona final quando a palavra seguinte começa por vogal" (Xavier & Mateus, 1990: 140). Por ter um condicionamento de aplicação que considera a tonicidade das sílabas envolvidas, é um fenômeno rítmico pela sua própria natureza. Em Português Arcaico (de agora em diante, PA)1, a elisão é um processo bastante atestado nos registros das cantigas profanas, em que costuma ser indicada através da união das palavras e da supressão das vogais elididas (cf. Se oiomeu amigo / soubesshyria migo – CBN721, p. 346; Se oj’o meu amigo / soubess,’iria migo – Nunes, 1973, vol. II: 142). No entanto, como nem todas as vogais que se encontram em contexto de elisão efetivamente caem, no PA, observa-se que, além da dimensão rítmica advinda da própria natureza desse processo fonológico, a elisão assume uma outra dimensão - também de ordem rítmica, mas da ordem do estilo -, através do uso que dela é feito pelos trovadores medievais (possibilidade de escolha quanto a elidir ou não as vogais átonas finais nos contextos propícios à sua queda). Neste sentido, o objetivo deste trabalho é descrever o processo da elisão em PA, determinando em que sentido se pode falar em obrigatoriedade ou opcionalidade de sua aplicação nas cantigas medievais portuguesas. 1. O corpus Como corpus, este trabalho utiliza uma seleção de cinqüenta cantigas de amigo do Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (de agora em diante, CBN), consideradas na versão da edição fac-similada de 1982 - um décimo do total.2 Tal seleção foi feita com base na representatividade quantitativa do trovador no CBN, procurando fazer presentes, no corpus, representantes de todas as épocas (uma vez que o trovadorismo, em Portugal, durou cerca de cento e cinqüenta anos), lugares (uma vez que conviviam trovadores galegos, portugueses e castelhanos) e classe social (uma vez que havia trovadores de alta sociedade, inclusive reis e nobres importantes, clérigos e jograis, de classe mais baixa). Quando se tem como objetivo a investigação de elementos prosódicos - como, no caso, processos fonológicos ligados ao ritmo - de um período de uma língua quando ainda não havia tecnologia suficiente para o arquivamento e transmissão de dados orais, a possibilidade de escolha entre material poético e não-poético para constituição do corpus não se coloca. No caso específico do processo da elisão, a divisão dos versos em sílabas poéticas permite determinar se a vogal que desaparece na escrita (candidata a ter sido suprimida, no processo da elisão) realmente não conta para a estrutura métrica do verso. Desta forma, todos os versos das cantigas foram divididos em sílabas poéticas, observando se as elisões anotadas na escrita do CBN deveriam ser efetivamente realizadas, com base na métrica do poema. Assim, foram mapeados todos os casos de elisão, bem como todos os casos de vogal átona final diante de vogal no início de outra palavra (contexto favorável à elisão), mas em que esse processo não acontece (ou, pelo menos, não está anotado na escrita do CBN). 2. Análise dos dados Depois de analisados todos os versos das cinqüenta cantigas do corpus, foram encontrados 366 casos aparentes de elisão anotada na escrita do CBN (conforme tabela 1, abaixo). Desses, apenas 5 ocorrem quando a vogal átona final da primeira palavra é a; 226, quando a vogal átona da primeira palavra é E3; e 134, quando é O4 - exemplos em (1). No entanto, como também pode ser observado através da tabela 1, a elisão propriamente dita ocorre apenas quando a primeira palavra envolvida nesse processo é terminada em /e/ ou /o/ átonos. Quando a primeira palavra termina em /a/ átono, esta vogal só pode se elidir com a vogal inicial da palavra seguinte se esta for também /a/: trata-se, portanto, de um caso de crase e não de elisão5 – o que pode ser comprovado através dos exemplos em (2), em que a aparente elisão só acontece entre dois /a/s, mas nunca entre untanto, como também pode ser observado6 através da tabela 1, a elisão propriamente dita ocorre apenas quando a primeira palavra envolvida nesse processo é terminadaem /e/ ou /o/ átonos. Quando a primeira palavra termina em /a/ átono, esta vogal só pode se elidir com a vogal inicial da palavra seguinte se esta for também /a/: trata-se, portanto, de um caso de crase e não de elisão – o que pode ser comprovado através dos exemplos em (2), em que a aparente elisão só acontece entre dois /a/s, mas nunca entre u Triste / amigassimi venha
3. Restrições rítmicas para a ocorrência da elisão A partir da análise da tabela 2, abaixo, pode-se concluir que existem algumas restrições de natureza rítmica, quanto à ocorrência da elisão. Como é possível observar, não foi constatada, no corpus todo, uma única ocorrência de elisão, quando a primeira vogal envolvida no processo, ou seja, a vogal final da primeira palavra, é tônica. E, através dos exemplos em (3a e b), fica claro que esta é uma restrição que envolve apenas a tonicidade da primeira vogal, não a da segunda.7 Um outro fato que comprova que as restrições rítmicas para a ocorrência da elisão levam em consideração apenas a tonicidade da primeira vogal envolvida no processo e não da segunda é a possibilidade real de haver elisão quando a primeira vogal da segunda palavra é tônica. Além disso, a aplicação da elisão não é bloqueada nem mesmo quando, depois da queda da vogal átona final da primeira palavra, um choque acentual é produzido – exemplos em (3c-e)8.
De acordo com a tabela 2, apenas os monossílabos me, de, lhe, se (pronome) e xe podem ser elididos com a vogal inicial da palavra seguinte. Desta forma, conclui-se que estes são monossílabos essencialmente átonos, na medida em que não seria possível a aplicação da elisão, por causa da restrição rítmica que boqueia a ocorrência desse processo quando a primeira palavra acaba em vogal tônica, caso fossem acentuados. Por outro lado, existem monossílabos que nunca se elidem com a vogal inicial da palavra seguinte. Entre esses, Cunha (1961: 43) cita as conjunções E11, QUE, CA e SE12, que, segundo esse autor, mantinham sua "integridade" por serem "semifortes", na época. De fato, seu comportamento com relação a processos de elisão, confirma o caráter tônico, atribuído por Cunha a essas palavras (com exceção de e, em relação à qual restam dúvidas quanto à sua tonicidade, por não poder se elidir com a palavra seguinte, mais devido a restrições fonotáticas, de estrutura silábica, do que rítmicas, de tonicidade), uma vez que elas jamais se elidem com a palavra seguinte iniciada por vogal – conforme comprovam os exemplos em (4).13 Além desses monossílabos, é necessário citar a preposição so, que se comporta da mesma maneira que as conjunções que, ca e se, não se elidindo com palavra iniciada por vogal (4g).
4. Restrições fonotáticas Além das restrições rítmicas às quais está a ocorrência da elisão sujeita, existem também condições de natureza fonotática, ou seja, concernentes à estrutura da sílaba, que devem ser seguidas, para que o processo da elisão possa se aplicar: é necessário que a vogal átona da primeira palavra pertença a uma sílaba com "onset" preenchido.14 Do contrário, a elisão não pode se aplicar por questões de preservação de estrutura, uma vez que, caindo a vogal, nada sobraria da sílaba original – o que acarretaria problemas de ordem semântica, com conseqüências para a interpretação do enunciado. É por este motivo que a elisão não ocorre, nos exemplos abaixo:
5. Elisão: processo obrigatório ou opcional ? As restrições de natureza rítmica e fonotática, formuladas ao longo deste trabalho, deixam a impressão de que o processo de elisão era aplicado, no PA, de forma automática, sem exceções. A respeito da "margem de arbítrio" dos trovadores medievais galego-portugueses, na utilização desse processo de sândi, Cunha (1961: 43) afirma: Em relação ao hiato, 80% dos exemplos que aparecem nos textos examinados são decorrentes de impedimentos fonéticos, fonêmicos e morfológicos. E, dos 20% restantes, mais de 10% ainda se explicariam por fenômenos peculiares ao enunciado versificado. A margem de arbítrio – talvez artifício ou qualquer razão não apurada de métrica ou de língua – fica relegada a menos de 10%, ou seja, a uma fração insignificante dos exemplos estudados. No corpus analisado, a maior parte das exceções encontradas, isto é, casos em que há o contexto para a ocorrência da elisão, mas esta não está anotada na escrita, dizem respeito a versos irregulares quanto à métrica, se comparados com os demais versos da cantiga a que pertencem. Invariavelmente, possuem uma sílaba poética a mais do que deveriam. Desta forma, pode ser levantada a hipótese de constituírem esses casos apenas "erros" de cópia, em que o copista deixou de anotar a elisão que, efetivamente, deveria ser realizada, para que o verso pudesse ser isossilábico, em relação aos outros da mesma cantiga. Todas as ocorrências que podem ser encaixadas neste caso, encontradas no corpus, encontram-se listadas em (6):15
Os casos aparentemente inexplicáveis encontrados no corpus e que poderiam estar dentro do que Cunha chamou de "margem de arbítrio" dos trovadores são poucos (e, para os quais tentar-se-á apresentar uma explicação). O primeiro caso diz respeito ao refrão de uma conhecida bailada de Airas Nunes: " Já o caso de um exemplo retirado da cantiga 1298 de Fernando Esquio é um pouco mais complicado. Em três momentos dessa cantiga, aparece o seguinte verso: "Seu arco na mano alas aues tirar" (1298-11/13/16). No entanto, um verso semelhante a este aparece, em que a palavra mano é grafada diferentemente: "Seu arco na maão as aues ferir" (1298-8). Neste último verso, não há possibilidade de elisão entre os termos maão e as, devido à restrição fonotática que proíbe a ocorrência de elisão quando a sílaba átona final da primeira palavra não tiver o "onset" preenchido. Ao comparar as duas grafias da palavra maão/mano, nota-se que a primeira forma é de cunho mais arcaizante, mais latinizante do que a segunda, que apresenta um hiato entre as vogais ã e o - mais próxima da forma atual, que resolve esse encontro vocálico como um ditongo. Como ambas as grafias querem representar a mesma palavra em uma mesma época da língua, produzida por um mesmo falante, em um mesmo contexto, a partir da existência das duas grafias variantes, pode ser levantada a hipótese de que as duas pudessem estar tentando representar uma realização, próxima da grafia maão, mais fiel à realização fonética dessa palavra. Se essa hipótese for correta, não há possibilidade de elisão entre as palavras em questão e, portanto, esse exemplo não constitui um caso de exceção. Também em caráter excepcional, o pronome me dativo não se elide com palavra iniciada por vogal, imediatamente posteriores a ele, neste verso da cantiga 932, de Rui Fernandes de Santiago: "Faredes me atã prazer" (932-6). Como havia, na época do CBN, muita variação entre as grafias me/mi, para representar o pronome dativo não-regido por preposição, pode ser formulada uma hipótese sugerindo que, nesses casos, o pronome grafado como me estaria representando, na verdade, a forma mi, que não está sujeita à aplicação da elisão porque não termina em e ou o – no caso de mi, o processo de sândi aplicado é o da ditongação do pronome à vogal inicial da palavra seguinte: não há, portanto, possibilidade de supressão da vogal do pronome dativo mi. Também a preposição de pode não se elidir em alguns contextos específicos. Para Cunha (1961: 92 – já citado), "a vogal da preposição de só não se elidia antes de vogal quando esta era o corpo do pronome átono o, a, os, as". Desta forma, deve-se considerar uma restrição, de natureza morfológico-semântica, que bloqueia a aplicação da elisão nos exemplos em (7), com a finalidade de diferenciar as sequências de + artigo de de + pronome acusativo.
6. Conclusão Feitas essas observações e aceitas as explicações dadas para as aparentes exceções, conclui-se que o processo da elisão, no PA, era de aplicação categórica e obrigatória. Em termos da Fonologia Lexical de Mohanan (1986), pode-se dizer que este é um processo pós-lexical, porque ocorre entre palavras, e aplicado sem exceções. Desta forma, conclui-se que a margem de arbítrio dos trovadores medievais portugueses para a aplicação da elisão é ainda menor do que considera Cunha (1961), podendo ser reduzida a zero. Referências Bibliográficas Bisol, Leda (1992) Sândi vocálico externo: degeminação e elisão. Cadernos de Estudos Lingüísticos, Campinas, (23): 83-101, jul/dez 1992. Cunha, Celso Ferreira da (1961) Estudos de Poética Trovadoresca - Versificação e Ecdótica. Rio de Janeiro: MEC/Instituto Nacional do Livro. Hayes, Bruce (1995) Metrical Stress Theory - Principles and Case Studies. Chicago/London: University of Chicago Press. Hogg, R. & C. B. 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Para se chegar ao número estabelecido de cinqüenta cantigas, a seleção constituída excluiu os trovadores pouco produtivos (que comparecem com até três cantigas de amigo no CBN). Com a exclusão destes, faltaram apenas duas cantigas para alcançar o número desejado; optou-se, então, por duplicar a contribuição de D. Dinis e João Airas de Santiago, por serem estes os trovadores que possuem as maiores contribuições ao CBN, na modalidade dos cantares de amigo. Para cada trovador que se encaixou no critério de representatividade utilizado, foi escolhida aleatoriamente uma cantiga de amigo de sua autoria. Para tal, foi usado como fonte básica de informação o estudo de Oliveira (1994), uma vez que são necessárias informações biográficas o mais seguras e completas o possível para poder efetuar escolhas quanto à colocação ou não de uma cantiga no corpus. 3. Em relação ao grafema <e>, Maia (1986: 521) considera que ele pode representar, na posição átona, tanto o fonema /e/ como o fonema /i/. Além disso, há variação entre as letras e e i, nesse contexto. Para essa autora, "o fonema /i/ surge apenas nalgumas formas pronominais, nalgumas formas verbais e em algumas palavras invariáveis (advérbios ou numerais)". Portanto, na tabela 1, a abreviatura "e +" refere-se à grafia usual da letra ausente, uma vez que não é possível determinar qual a verdadeira representação dessa vogal. 4. Também à abreviatura "o +", na tabela 1, refere-se à grafia usual da vogal ausente. Segundo Maia (1986: 526), "desde o início da fixação escrita do galego-português, a vogal final, tanto quando representa 5. Os argumentos para considerar que, nesses casos, o processo de sândi externo vocálico que se aplica aos exemplos é um processo de crase e não de elisão foram apresentados em Massini-Cagliari (1999b,c). 6. Entre parênteses, aparece o número que a cantiga da qual foi retirado o exemplo recebe no CBN. O(s) algarismo(s) depois do hífen refere(m)-se ao verso da cantiga em que aparece o exemplo. Todos os exemplos são apresentados na ortografia do CBN. 7. "Contra-regrando o fenômeno essencial do regime da elisão, verificamos ser o hiato o efeito obrigatório do encontro em que a prepositiva é tônica ou semitônica." - Cunha (1961: 42) 8. A respeito da noção de choque ou colisão acentual (stress clash), podem ser consultados Prince (1983), Hogg & McCully (1987), Hayes (1995) e Massini-Cagliari (1994). 10. O que ocorre é a ditongação. A este respeito, veja-se Massini-Cagliari (1999c – em preparação). Mas é necessário dizer que não é possível determinar com precisão a qualidade da vogal, nesse contexto. O mesmo serve para os monossílabos aqui representados como de, lhe, se e xe. 11. Embora Cunha considere a conjunção e como "semiforte" (+ tônica), não há como se ter certeza a respeito do seu grau de tonicidade, analisando unicamente o processo da elisão, uma vez que, como será visto adiante, esta conjunção não pode se elidir com a vogal da palavra seguinte por restrições fonotáticas. 12. "Como os monossílabos e, que e ca – tudo faz crer -, a conjunção se era ineledível na métrica dos trovadores, e, nisso, contrastava com o seu equivalente gráfico, o pronome se. Dizemos gráfico, porque os dois monossílabos se opunham, na língua antiga, quanto à acentuação. A forma pronominal era átona, mas a conjuncional deveria possuir relativa tonicidade, a suficiente, pelo menos, para garantir-lhe a autonomia antes de palavras iniciadas por vogal e o emprêgo como vocábulo de apoio frásico." – Cunha (1961: 83) 13. É importante ressaltar que essa diferenciação de monossílabos tônicos e átonos não se relaciona com o seu caráter proclítico ou enclítico, já que os dois tipos de monossílabos se opõem nessas duas posições. 14. Considera-se a sílaba como tendo a seguinte estrutura – segundo Selkirk (1980: 5), posição que temos seguido desde Massini-Cagliari (1992): em que: s
= sílaba; R = rima; O = "onset"; N = núcleo; C = coda. 15. Para a perfeita compreensão dos exemplos listados em (6), faz-se necessário lembrar da peculiaridade métrica da poesia medieval galego-portuguesa, conhecida como Lei de Mussafia: "Há, no nosso lirismo antigo, uma particularidade de ordem métrica, muito dèbilmente representada na poesia francesa e provençal: o facto de poderem, em uma mesma composição e em uma mesma estrofe, misturar versos agudos com versos graves, contados até a última sílaba." – Lapa (1929: 317-318) "...o princípio rítmico dominante já no século XIII, sempre que havia mistura de versos graves e agudos, era o de fazer o verso agudo o padrão da medida. Contudo deverá notar-se, porque é um fenómeno característico da antiga métrica portuguesa, que não são raros os casos em que, entre nós, se alinhavam octossílabos e decassílabos agudos com setessílabos e novessílabos graves. É aquilo que impropriamente se chama a lei de Mussafia." – Lapa (1981: 222) 16. No caso deste exemplo específico, a disposição dos dois primeiros versos, no CBN, pode ter ocasionado a falta da notação da elisão entre triste e amigo, na medida em que o copista trocou de linha entre essas duas palavras. Cabe, aqui, lembrar que não é incomum, no CBN, a disposição de alguns versos diferentemente daquela que preserva a rima. |