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CD-ROM em PLE
Maria Isabel Vale Ferreira
Universidade Aberta - Portugal 1. Introdução Com esta comunicação pretendo fazer algumas considerações sobre a importância que o CD-ROM tem para o ensino das línguas, nomeadamente na área do Português Língua Estrangeira (PLE) bem como a contribuíção das TI (Tecnologias de Informação) para o avanço desta área. Se nos anos 60 o aparecimento do audiovisual modificou os métodos de ensino das línguas, hoje esse papel cabe às TI. Estas «permitem uma diversidade de actividades que podem passar pelo uso de software que permite ao professor, criar e desenvolver actividades de aprendizagem e de autocorrecção, abrangendo vários níveis e apontando para as dificuldades específicas do aprendente» (Filipe, 1997, 5). O aparecimento do CD-ROM para o ensino de línguas começa a tomar um lugar de relevo na aprendizagem do PLE. Tal como na década de 60 houve detractores que puseram em causa a utilização do audiovisual na sala de aula, o mesmo se passa hoje com esta nova ferramento tecnológica. «A modernidade tecnológica não é automaticamente acompanhada por uma maior eficácia pedagógica» (Jacquinot, 1997, 159). O multimedia actividade transversal a todas as áreas do conhecimento está presente na Internet, em programas culturais, na formação, no ensino de línguas, em jogos apelativos e atractivos, que deliciam as novas gerações. Em Portugal o decreto-Lei 15/99 refere pela primeira vez «… com o objectivo de estimular a oferta diversificada de obras interactivas em língua portuguesa, em suporte óptico ou para difusão em linha, incentivar os investimentos dos operadores de telecomunicações e de televisão na indústria de conteúdos e contribuir para o desenvolvimento e consolidação da indústria do multimedia» . Para o III Quadro Cominitário de Apoio, a área de multimedia terá um vasto campo de acção no desenvolvimento de iniciativas no âmbito do comércio electrónico, na informatização das escolas e no acesso à Internet. São atribuições do Instituto do Cinema do Audiovisual e Multimedia «…afirmar e fortalecer a identidade cultural e a diversidade no domínios do cinema, do audiovisual e do multimedia, apoiando a inovação e a criação artística, fortalecendo a indústria de conteúdos e a promoção da cultura e língua portuguesas». Todo este enquadramento vem dar força à publicação e divulgação de novos materiais em formato digital. 2. Centro de Estudos de Ensino a Distância (Cented) da Universidade Aberta Este centro tem pautado a sua acção na produção de material multimedia para o PLE. Já foram publicados produtos em suporte papel, cassetes audio e diapositivos e em CD-ROM, sob a direcção da Professora Maria Emilia Ricardo Marques (Filipe 1997, 39). Na continuação destes trabalhos e decorrente de parcerias com outras universidades ou instituições europeias de ensino passo a indicar três projectos que, presentemente, estão em curso. Projecto Select (Strategies for European Le-Enhanced Communication Training) Projecto da União Europeia apoiado pela DG XIII (Direction des Télécomunications, Marché de l’Information et Valorisation de la Recherche). Projecto coordenado pela Giunti Multimedia (Itália). Parceiros: Wolverhampton University ( Reino Unido) Office AudioVisuel de l' Université de Poitiers ( França) Thompson CSF (Franca) Universidade Aberta -Cented (Portugal) Giunti Multimedia (Itália) Ernest Klett Verlag (Alemanha) Início: Janeiro de 1998 Fim: Dezembro de 1999 Objectivo: Dar resposta às necessidades de comunicação transcultural nas empresas confrontadas com a globalização, fornecendo ferramentas culturais e linguísticas aos quadros das empresas que desejam aperfeiçoar-se trabalhando sózinhos com plataformas multimedia. Curso: módulos pilotos de formação linguística e cultural, na área dos negócios em Inglês, Francês e Português, acessíveis nestas três línguas bem como em alemão, espanhol e italiano. Nos últimos dez anos, a internacionalização das empresas tem feito acelerar a competividade e mobilidade das empresas e dos empregados dentro do mercado global e mais particularmente europeu. Todas as semanas, nos media, há rumores e anúncios de fusões ou aquisições de empresas dentro e fora da Europa. De facto, as empresas têm-se expandido para o exterior para atingirem um desenvolvimento mais rápido nos negócios. Mas, nem tudo parece ter sido tão fácil como se pensava. O jornal Le Monde do passado dia 22 de Janeiro publicava um artigo de Laure Belot (Belot, 1999, 15) no qual o autor referia os estudos feitos por consultores que assinalavam o fracasso das fusões, fracasso esse superior a 50%. Nele referia que a fusão Pharmacia com a Upjohn americana tinha parecido uma boa operação. Mas, a duplicação de funções dentro do novo grupo levou a um crescimento desmesurado de pessoal. Com efeito, se durante o processo de negociação são abordados assuntos de carácter financeiro e estratégico, contudo é no período da pós-fusão que se exige uma grande atenção à organização, à cultura e mesmo aos empregados envolvidos nas empresas. Piero Morosini, antigo consultor da McKinsey, que fez estudos sobre uma centena de fusões recentes, é referido no mesmo artigo afirmando que «Les différences culturelles, bien gerées, peuvent être une vraie richesse». Curioso o que sucedeu aquando da junção dos grupos de telecomunicações americano AT&T e britânico BT. Para além da auditoria das contas foi feita uma auditoria cultural às duas empresas para identificar as diferenças existentes entre elas. É a este tipo de problemas que pretende responder o projecto Select. Pretende-se dar resposta à crescente necessidade sentida por gestores e homens de negócios com frequentes contactos e deslocações internacionais. E, também, à necessidade de uma formação centrada em situações de comunicação transcultural dirigida ao universo das empresas. E porquê? Todos sabemos que o Inglês é a língua privilegiada dos contactos internacionais. Mas, consultando o Relatório de Projecto ELUCIDATE (1997) «O Inglês pode ser a primeira língua do comércio mundial, mas, por si só, já não é a mais adequada para o comércio global». Com efeito neste projecto analisaram-se as competências linguísticas dos empregados de 1200 Pequenas e Médias Empresas (PME) em França, Alemanha, Espanha e Reino Unido. Daqui constatou-se que cada vez mais os trabalhadores europeus serão obrigados a ultrapassar barreiras linguísticas e culturais para uma efectiva comunicação e conhecimento do outro no mundo dos negócios. Muitas vezes perdem-se negócios por se desconhecer a língua e cultura empresarial do potencial comprador. Quanto ao Português verificou-se um significativo aumento percentual relativamente ao conhecimento da língua por parte dos quadros de empresas espanholas, francesas, inglesas e alemãs. Não basta só conhecer a língua do comprador. Há também que conhecer a sua cultura. A este propósito contam-se histórias curiosas. Num país da Europa Central ter um rato em casa é sinal de boa sorte. Um gestor inglês, que foi trabalhar para um desses países deu ordens para que o rato fosse retirado do seu gabinete! E qual não foi o seu espanto, quando mais tarde acabou por descobrir que os trabalhadores locais, em segredo, alimentavam o animal com medo de perderem a boa sorte. Com efeito começa a haver uma consciencialização das empresas face à(s) outra(s)cultura(s) e ao modo como o conhecimento dos factores culturais influenciam o desenvolvimento dos negócios a nível mundial, bem como as relações humanas entre pessoas oriundas de países e culturas diversas. Pretende-se, pois, proporcionar ferramentas culturais e linguísticas aos quadros internacionais que desejem aperfeiçoar-se sózinhos no seu trabalho. Neste projecto está-se a produzir: A) um programa de aprendizagem Este segue os princípios metodológicos do Cadre européen commun de référence pour l'apprentissage, l' enseignement et l' évalution des langues vivantes, elaborado pelo Conselho da Europa Strasbourg, 1996. É apresentado segundo seis níveis em crescendo a1,a2,a3,a4,a5,a6, que indicam as competências que se podem esperar do aprendente. Esperando rigor nas ferramentas de reconhecimento de voz que vão ser integradas na plataforma de aprendizagem as actividades que vão ser privilegiadas são as actividades de compreensão oral e escrita e de produção escrita. As componentes funcionais e gramaticais são apoiadas pela componente cultural. O conteúdo abarca os principais aspectos do dia-a-dia dos negócios. No entanto, não se pretende fazer uma focalização excessiva sobre as diferenças culturais o que iria facilitar o uso de lugares-comuns dado que as pessoas trabalham em ambientes idênticos, com hábitos de consumo próximos. A diferença cultural parece mais ligada à geração ou ao indivíduo do que ao próprio país. Também será posto em evidência as diferenças factuais ligadas à organização, à legislação do trabalho….. e distinções subtis que ultrapassam as representações mais marcadas. O humor será tido em conta. O material de língua portuguesa será feito na variante do Português europeu. Com este material pretende-se: - desenvolver as competências relacionadas com a oralidade e a escrita - desenvolver nos aprendentes as capacidades linguísticas e comunicativas importantes com vista ao uso do Português como língua dos negócios; - possibilitar aos aprendentes a descodificação de significados culturalmente marcados; - desenvolver as capacidades interpessoais através de actividades que encorajem a interacção e a comunicação; - despertar o interesse pela cultura portuguesa vs. línguas dos aprendentes; - desenvolver a autonomia e a auto confiança dos utilizadores. Os títulos das unidades em Português são: apresentação de um produto, almoço de negócios, reunião profissional, negociação. São diálogos acompanhados de imagens vídeo sobre rotinas diárias numa empresa portuguesa. B) módulos piloto de formação em Inglês, Francês e Português, acessíveis em seis línguas (Inglês, Francês, Português, Espanhol, Italiano, Alemão) C) gestor de aprendizagem Este integra: - Um pré-estudo do perfil do aprendente, onde se identifica o tipo de aprendente, as suas preferências e estilo de aprendizagem em contraste com modelos conhecidos e pré definindo as linhas de orientação para o utilizador seguir a fim de atingir os seus objectivos - Um software flexível e orientador, partindo do modelo da aprendizagem que ajuda o utilizador a organizar e a gerir a sua aprendizagem e a navegar no ambiente multimedia. - Apoio às actividades do utilizador providenciando respostas modelo, possibilitando o acesso remoto de um tutor aos dados do utilizador, para acompanhar a evolução do aprendente e permitindo ainda dar resposta a necessidades específicas podendo interagir "online". D) Posto de Aprendizagem de Línguas que combina diferentes apoios dentro de um interface de uso fácil que permitirá ao utilizador navegar por todos os módulos disponíveis. Os módulos principais conterão recursos linguísticos (corpora bilingue e monolingue), bases de dados de fala, dicionários, material multimedia (video), verificadores ortográfico, gramatical e de estilo (nível de língua) além de outras ferramentas de ajuda na área dos negócios (modelos de cartas, etc..) ou exercícios de pronúncia, através de interfaces quer com a Internet, quer com uma Intranet e com outros suportes disponíveis em CD-ROM ou DVD. Para a criação de todo o curso foi desenvolvida uma aplicação informática chamada Mad Manager (Multimedia Application Data Management for CD-ROM Authoring). Projecto City Talk Projecto financiado pela União Europeia – Programa Lingua - Acção D Projecto coordenado pela Libra Multimedia. Parceiros: Libra Multimedia Limited (Reino Unido) Thames Valley University (Reino Unido) Universidad Politecnica de College Valencia (Espanha) Scheepvaart en Transport College Rotterdam (Holanda) University of Limerick (Irlanda) Universidade Aberta (Portugal) Objectivos: 1. Permitir que os aprendentes desenvolvam as suas competências linguísticas de modo a serem capazes de funcionar eficazmente na comunidade que fala a língua; 2. Permitir que os aprendentes descubram mais sobre a cultura da comunidade onde estão a estudar, a trabalhar ou a viver (com uma ênfase na vida contemporânea das cidades e nos interesses sociais e culturais dos jovens). Línguas abrangidas: Inglês, Espanhol, Holandês e Português. Início: 1997 Fim: 2000 Este projecto vai produzir materiais de aprendizagem para jovens entre os 16 e 25 anos, que desejem visitar outros países europeus por razões de trabalho, de estudo ou de intercâmbio cultural. Pretende-se desenvolver as capacidades linguísticas de forma a que os aprendentes possam compreender a língua e a cultura e movimentar-se na comunidade em que vão estar inseridos, compreendendo o quotidiano. Os aprendentes precisam de ter alguns conhecimentos da língua a aprender para que possam aproveitar bem o Programa. Todo o material será apresentado em CD-ROM, terá um caderno e uma ligação à Internet. O CD-ROM terá excertos de video, audio, gravação de voz e um leque enorme de exercícios interactivos. Haverá um concurso, um teste de gramática, notas gramaticais e culturais e um dicionário. As áreas abrangidas são: -competências práticas (conseguir que os outros nos façam coisas) -socializar-se, fazer conhecimentos (relacionar-se com os outros) -expressar opiniões e ideias (falar sobre coisas). http://www.libra.co.uk/city/city_ind.htm Projecto Viagens Virtuais Projecto da Universidade Aberta Projecto coordenado pela Profª Doutora Maria Emilia Ricardo Marques Os princípios básicos deste projecto relacionam-se com a aprendizagem de línguas num ensino aberto a distância e em tutorias telemáticas, organizando-se em duas grandes áreas temáticas: Comunicação e Conteúdo. Ao nível da comunicação, o projecto desenvolve a utilização de novas ferramentas próprias da Internet para a organização de uma comunidade não geográfica, explorando estratégias de aprendizagem personalizadas. Ao nível dos conteúdos ressalta o papel organizativo dos percursos de aprendizagem através de etapas ou níveis linguísticos. Os principais propósitos deste projecto são a criação de relações pedagógicas online. O próprio processo para alcançar estes objectivos conduzirão a uma optimização dos recursos existentes, ao mesmo tempo que pela criação de uma relação digital entre outros projectos e materiais se irá procedendo à maximização dos conteúdos. Desta forma estar-se-á a re-organizar a oferta portuguesa no domínio da educação a distância. O projecto desenvolve-se em três fases: 1. Módulos de aperfeiçoamento de língua Baseados em CD-ROM já existentes, e no uso de utensílios de comunicação da Internet, quer síncronos (chat, ICQ, Conferências audio e/ou video, MOO, etc.), quer assíncronos (correio electrónico, "mailing lists", ftp, etc.) e ainda a WWW para responder a necessidades individuais ou propor actividades alternativas ou complementares; 2. Cursos online Conteúdos acessíveis na Internet, o uso de utensílios de comunicação da Internet e o uso de outros media (CD-ROM, audio, video, etc) permitindo actividades de aprendizagem sistemáticas e de exigentes no aspecto do volume de informação. A Internet constitui-se assim como um ponto de encontro interactivo . 3. Comunidade de aprendizagem Online A existência desse ponto de encontro interactivo permitirá aos participantes enriquecer-se e enriquecer os recursos existentes facilitando aos aprendentes a criação dos seus próprios percursos de aprendizagem, possibilitando uma personalização cada vez maior, mas também a partilha de percursos e conteúdos de aprendizagem. A gestão das dinâmicas de experiências de aprendizagem e das pessoas envolvidas terá como objectivo a criação de universos comuns. Este projecto permitirá ainda a possibilidade de estudar a implementação de uma situação pedagógica telemática, permitindo, não apenas aos seus participantes alcançar conhecimentos de outra forma difíceis de isolar, assim como facilitar a realização de experiências semelhantes, nomeadamente de exploração telemática de outras disciplinas. http://www.univ-ab.pt/cursos/cp99 Conclusão Da experiência recolhida gostaria de referir uma preocupação constante e que é comum a todos os trababalhos. Para a efectivação destes trabalhos há que ter equipas em que exista uma comunicabilidade interdisciplinar entre uma equipa produtora de conteúdos e formada por: -linguistas da área da Linguística Aplicada ao Ensino das Línguas ; -professores do PLE, nomeadamente leitores com experiência e sensibilidade do ensino da Língua e Cultura Portuguesa no estrangeiro; -especialistas em Cultura Portuguesa; -especialistas da área do audio ou do video; -criativos e uma equipa de informáticos (analistas e programadores) que compreenda os conteúdos e que saiba explorar didacticamente as crescentes possibilidades que uma aprendizagem através destes meios tecnológicos põe, hoje, ao nosso dispor. Pretende-se que haja convergência. Que o linguista tenha ideias informáticas já tratadas e que o informático apresente propostas linguistica e didacticamente aceitáveis. A integragào do "facilitador" na equipa poderia melhorar a qualidade do produto. Bibliografia Belot, Laure, "Les histoires de fusions finissent mal…en général", Le Monde (Paris, vendredi 22 janvier 1999). Cadre européen commun de référence pour l'apprentissage, l' enseignement et l' évalution des langues vivantes, Strasbourg, Conseil de l’ Europe, 1996. Filipe, Mário, "Produção de Materiais Multimedia para Português Língua Estrangeira", Anais do I Congresso, UFF, Instituto de Letras, Niterói, Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira, 1998, p. 38-43. Filipe, Mário, "Novas Tecnologias da Informação e o Ensino do PLE no Limiar do Século XXI", Anais do I Congresso, UFF, Instituto de Letras, Niterói, Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira, 1998, p. 3-9. Jacquinot, Geneviève, "Apprendre avec le multimedia. Où en est-on?", Retz, 1997, p. 159. |