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Consoantes epentéticas em português

 
Luiz Carlos Cagliari
UNICAMP

0. Introdução

Na literatura, há vários termos que se referem ao acréscimo de segmentos em palavras, como, por exemplo:

- paragoge: adição de um segmento no final de uma palavra (1a);
- prótese: adição de um segmento no início de uma palavra (1b);
- consoante intrusiva: acréscimo de uma consoante homorgânica;1
- epêntese: acréscimo de uma consoante ou de uma vogal em contexto diferente dos apresentados acima (1c) (Piggott & Singh, 1985).

(1)

a. amores (pl. de amor); clube (do inglês club)
b. escola (do latim schola); alevantar-se (de levantar-se)
c. cafeteira (cf. café + eira); ob(i)jeto (cf. objeto)

A epêntese vocálica (Cagliari, 1997: 75) tem com objetivo principal corrigir uma estrutura silábica mal formada, fazendo com que certas consoantes que ocupavam a posição de coda passem-na para a posição de onset (2a), dando um núcleo vocálico a uma sílaba que não o tem (2b) ou formando ditongos (2c).

(2)

a. /ob.Z E .tu/ > [o.bi.Z E .tu]
b. /a.moR.s/ > [a.mo.R is]
c. /xa.paS/ > [xa.pais]

No presente trabalho, somente serão considerados os casos de epêntese consonantal em Português.

2. O contexto

Diferentemente da epêntese vocálica, a consonantal aparece em juntura morfológica interna de palavras, com o objetivo principal de evitar a presença de hiatos (3).

(3)

chá + eira = chaleira
café + eira = cafeteira
tema + ico = temático

O ambiente de juntura reúne uma raiz ou radical mais um sufixo nominal ou verbal. A regra se aplica quando se encontram duas vogais (4a), com raras exceções (4b), mesmo que uma delas seja uma desinência de gênero (4b) e (4c).

(4)

a. leitor (cf. lei + t + or
b. cajueiro (cf. caju + eiro)
joelheira (cf. joelho + eira)
c. astronauta (cf. astro + nau + t + a)

Em muitas palavras do Português, a presença de uma consoante epentética veio diretamente do Latim, que aplicava a mesma regra (5a). Como os sufixos são elementos lexicais produtivos, que geram novas palavras, o processo de epêntese passou para o Português e continuou operante em palavras derivadas dentro da língua, sem uma origem latina (5b).

(5)

a. amplitude amplo + i + t + ude (do Latim amplitudine)
b. robótica robô + t + ica

De acordo com a interpretação feita neste trabalho, os sufixos da língua começam por vogal e a consoante que, tradicionalmente, tem vindo agregada no início, é um elemento epentético, usado para evitar a presença de hiatos.

(6)

chá    cha-l-eira    porta    port-eira
pé    pe-d-estre    terra    terr-estre
diabo    diabó-l-ico    tecno    técnica
pedra    pedre-g-ulho    bago    bag-ulho
cama    cama-r-im    flauta    flaut-im
bambu    bambu-z-inho    caso    cas-inho

A não aplicação da regra de epêntese ocorre quando se aplica antes a regra de sândi (Bisol, 1996). Neste caso, a vogal final da primeira palavra cai e a consoante que sobra nessa sílaba passa a compor o onset da sílaba seguinte.

(7)

joelho    jo.e.lhei.ra    *joelhe-t-eira
casa    ca.si.nha    *casa-z-inha

Quando a vogal final da primeira palavra for tônica, a regra de sândi não se aplica e cria, portanto, um ambiente mais favorável à regra de epêntese.

(8)

café    cafe-t-eira
chá    cha-l-eira
caju    caju-z-inho

No contexto acima, a língua admite a presença de hiato e, por esta razão, a regra de epêntese pode não ocorrer. Isto serve para criar palavras variantes com o mesmo sufixo, porém, com significado diferente da forma com a consoante epentética.

(9)

café    cafe-eira    cafe-t-eira    cafe-ina
caju    caju-eiro    caju-z-eiro    caju-ina

Nas palavras terminadas com /S/, ao receber um sufixo começado por vogal, o arquifonema realiza-se como [z], e passa a ser o onset da sílaba seguinte, de acordo com as regras de sândi do Português (10a). No caso dos diminutivos, a regra geral diz que ocorre a consoante epentética -z-, se a raiz ou radical terminar por consoante (10b). Por semelhança com esses casos, os exemplos de (10a) poderiam ser interpretados como (10c). Deste modo, em vez da regra de sândi, aplica-se a regra de assimilação a favor da ocorrência sonora que é a que apresenta uma definição completa de traços, ao passo que o arquifonema vem sub-especificado.

(10)

a. lápis    la.pi.s-i.nho    la.pi.s-ei.ra
arroz    a.rro.z-al    a.rro.z-i.nho
 
b. mulher    mulher-zinha
jornal    jornal-zinho
jovem    joven-zinho
 
c. lápis    lapis-zinho    lapis-zeira
arroz    arroz-zal    arroz-zinho2

Algumas palavras que terminam por arquifonema, perdem-no quando é acrescentado um sufixo de aumentativo ou diminutivo. Sem a consoante da coda, aplica-se a regra de sândi, que faz com que a vogal átona final da raiz caia e ressilabifica o contexto, passando a consoante final da raiz para a posição de onset inicial do morfema seguinte.

(11)

Carlos    Car.l-i.nhos3    Car.l-ão
Válter    Val.t-i.nho    Val.t-ão
Mílton    Mil.t-i.nho    Mil.t-ão
órgão    or.gu-i.nho    or.g-ão
túnel    tu.n-i.nho    tu.n-ão4

No caso dos arquifonemas nasais na coda final de palavras, as consoantes [m] e [n], consideradas epentéticas ou não, apresentam um problema de interpretação nas palavras derivadas.

(12)

comum    comumente    descomunal
jovem    *jovemente    Juvenal
fim    fimente    final
grão    grânulo
órgão    organista

3. As consoantes epentéticas

Em Português, as consoantes epentéticas têm o lugar de articulação coronal, como se pode ver nos exemplos abaixo.

(13)

t    lava-t-ório    lei-t-ura    dance-t-eria
tS    temá-tch-ico    nau-tch-ico    aquá-tch-ico
d    lava-d-eira    pe-d-al    nu-d-ez
dZ    move-dj-iço
l    pau-l-ada    cha-l-eira
r    lingua-r-udo    cama-r-im    casa-r-ão
z    cafe-z-al    caju-z-ão    bambu-z-ito
s    trai-ç-ão    nomea-ç-ão

Há, entretanto, alguns casos em que se pode detectar uma consoante epentética não coronal, como se mostra abaixo.

(14)

g    nariz    nari-g-udo
v    pagá-v-el    cabí-v-el
m    feri-m-ento    orna-m-ento

O status dessas consoantes (14) como epentéticas não é muito claro. No caso de narigudo pode-se admitir uma regra que transformou a fricativa em oclusiva. Neste caso, o [g] não seria uma consoante epentética, mas a coda final da raiz. No caso da fricativa [v], embora haja uma distribuição contextual muito favorável a considerar tal consoante como epentética, o fato de não ser coronal destoa da regra geral. O mesmo comentário pode ser feito para os casos do tipo apresentados acima, em que ocorre a consoante [m]. Um argumento a favor da consoante epentética [m] surge quando se compararam palavras com (15a) e sem (15b) tal consoante, usando o mesmo tipo de sufixo.

Uma questão interessante, mas não explorada neste trabalho, refere-se à possível existência de processos derivacionais diferentes, envolvendo nomes que ‘passam’ antes por uma forma verbal, deixando uma vogal temática verbal no resultado final, daquelas que simplesmente juntam uma raiz ou radical nominal a um sufixo. Por exemplo, em uma palavra como casamento e ferimento, a derivação desses nomes passa por uma forma verbal casar e ferir, quando se incorpora à raiz a vogal temática verbal ‘a’ e ‘i’. Ao se acrescentar o sufixo ‘-ento’, aplica-se a regra de epêntese, inserindo o [m], e não se aplica a regra de sândi. Isto se deve, provavelmente ao fato de o status da vogal temática verbal ser diferente da vogal de desinência de gênero que costuma ocupar a última sílaba do radical.

(15)

a.    fer-i-r    fer-i-m-ento
b.    barulho    barulh-ento
      poeira    poeir-ento
      ciúme    cium-ento

Os ‘sufixos’ diminutivos que começam com [z] (16a) e os advérbios em -mente (16b) (Cagliari, 1999) apresentam um problema morfológico particular (Câmara Jr,, 1985: 121) que tem levado alguns lingüistas a considerar essas formas como compostas e não como derivadas (Lee, 1995: 75-84)5. Neste caso, a fricativa [z] apresentada em exemplos anteriores também não seria uma consoante epentética.

(16)

a.    hoteizinhos    sozinho
b.    abertamente    somente

4. Alguns casos particulares

Por várias razões, incluindo a maneira como a palavra foi incluída na língua, podem-se notar certas ‘irregularidades’ na derivação de algumas palavras. Às vezes, o problema está no sufixo, às vezes, na maneira como a raiz ou o radical se apresentam. Algumas palavras acabaram se fossilizando na língua, deixando opaca a sua formação original de palavra derivada. Por isto, pode não ser claro e fácil o reconhecimento de sufixos em certas palavras, apesar da semelhança fonológica. O significado dos sufixos também é um assunto não muito bem esclarecido, o que dificulta o próprio reconhecimento da presença deles em palavras. Acrescenta-se a isto o fato de algumas formas apresentarem elementos pouco produtivos, de tal modo que o pouco uso de certos sufixos ou a não geração de palavras derivadas com determinadas raízes fazem com que se torne difícil julgar se a língua trata esses casos como sendo palavras primitivas ou derivadas. Alguns exemplos são apresentados e brevemente comentados, a seguir.

Da palavra lado tem-se lateral e não *ladal. A palavra jovial tem a ver com jovem, mas perdeu a nasalidade, não gerando *jovenial. A palavra homem apresenta algumas peculiaridades na raiz ou radical, nas formas derivadas hominho, homúnculo, homenzarrão, ao lado da forma homenzinho. Palavras como construtor, chapeleira, prateleira, leitor, apresentam modificação na raiz ou radical antes de receberem a consoante epentética.

A palavra conjuge troca a fricativa [Z ] pela oclusiva [g] em conjugal. A palavra manual vem de mão (/mauN/), que não produz *manal (cf. órgão, cuja forma fonológica é /oRgauN/, da qual deriva uma palavra como orgânico, com o sufixo -ico, e não *organúico). Palavras como maduro e maturidade alternam a sonoridade da oclusiva alveodental, diante dos respectivos sufixos. Constata-se também variação de sonoridade na consoante final da raiz em palavras como produzir e produção. Da palavra conceber vem a forma derivada concepção, mostrando mais um caso de variação de sonoridade da oclusiva final da raiz.

Uma palavra como acolhimento vem de acolher, e apresenta uma vogal temática verbal [i] e não [e], variação comum nos verbos de segunda conjugação (cf. acolhido, acolhendo, etc.).

Palavras como refeição e refeitório apresentam os sufixos -ção e -tório, ou apenas -ão e -ório6? Neste último caso, a consoante é epentética ou faz parte da raiz? Por que o modo de articulação da consoante mudou7?

Do verbo latino cohaerere vieram as palavras cohaerentia e cohaesus, que deram em Português coerência e coeso. Desta última, derivou-se a palavra coesão8. Vendo hoje essas palavras, pode-se dizer que uma apresenta o sufixo -ência e outra, o sufixo -ão. Na forma latina, pode-se dizer que existia uma consoante epentética, que variava entre "r" e "s". Tal consoante, entretanto, ainda existe em Português? Parece difícil justificar tal hipótese para o Português, mesmo sabendo da origem dessas palavras.

5. As regras de epêntese

De acordo com a fonologia gerativa, a regra de inserção de segmento dá conta da epêntese consonantal (17).

(17)

Æ ------> C / V (C) + ___ + V

Ocorre a inserção de um segmento (definido pela regra de epêntese) no contexto de juntura interna vocabular, no qual o morfema precedente termina por vogal, seguida ou não por consoante, e o morfema seguinte começa por vogal. Se a vogal do primeiro morfema for átona, aplica-se, de preferência, a regra de sândi e não de epêntese.

Dentro da teoria fonológica não-linear, a epêntese consonantal é vista como um preenchimento do onset vazio da sílaba inicial do sufixo.

De acordo com a teoria da otimalidade (Archangeli & Langendoen, 1997), a epêntese representa uma violação leve da restrição de fidelidade que espera que o output seja igual ao input. Desse modo, a violação da restrição Dep(i/o), introduzindo a consoante epentética, salva uma restrição mais forte na língua, que evita a presença de hiatos, sobretudo no contexto de juntura morfológica, representada, no tableau abaixo (20) pela restrição *Contig[V+___+V], primeira no ranking, se a primeira vogal for tônica9. Se o morfema precedente na juntura tiver a sílaba final com a coda preenchida, haverá também a aplicação da epêntese consonantal. Neste caso, a violação de Dep(i/o) salva a restrição de alinhamento de segmentos Align[F], segunda no ranking, que prefere manter no output cada elemento na posição silábica que ocupa no input. As duas restrições evitam a aplicação da restrição de sândi, ou seja, NoSandhi, que, nestes casos, geraria formas agramaticais na língua. A restrição Align[F] representa uma tendência universal da gramática, que diz que se deve manter as estruturas segmentais o mais possível na formação de palavras derivadas. No Português, essa restrição é superada pela exigência de não criar hiatos. Finalmente, a restrição Onset representa uma tendência universal para a estrutura da sílaba ter onset e núcleo. Tal restrição ajuda a definir melhor o valor marcado dos candidatos sob análise neste caso, porém, é uma restrição é redundante para definir a epêntese, sendo mais importante para os casos de sândi.

O ranking do EVAL, no caso das consoantes epentéticas, é o seguinte (19):

(19)

*Contig[V+V] >> Align[F] >> NoSandhi >> Dep(i/o) ; Onset

Um exemplo de EVAL das consoantes epentéticas do Português pode ser visto no tableau (20).

Padrão de input: V(C) + V = juntura morfológica interna de palavras derivadas

Padrão de output V(C) +  + V = inserção da consoante epentética

(20)

V(C) + V *Contig[V+V] Align[F] NoSandhi Dep(i/o) Onset
a. nu.dez       *  
b. nu.ez *!       *
c. mar.zi.to       *  
d. ma.ri.to   *! *!    

No caso de ocorrências como (21a), aplica-se a regra de sândi e, portanto, não se aplica a regra de epêntese consonantal. Em (21b) aplica-se a regra de epêntese, justamente porque não foi aplicada a regra de sândi. Para dar conta desses fatos, muda-se o ranking no processo de EVAL. Nos casos em que isto não pode ocorrer, as violações são fatais (21c). O ranking dessa avaliação é apresentado em (22) e o respectivo tableau com exemplo aparece em (23).

(21)

a.    casa    cas-inha
b.    casa    casa-r-ão
c.    casa    *casa-z-inha    *cas-ão10

(22)

Sandhi >> Align[F] >> Max(i/o) >> Dep(i/o)

(23)

V + V Sandhi Align[F] Max(i/o) Dep(i/o)
a. cas-inha   * *  
b. casa-r-ão *     *
c. casa-z-inha *!     *
d. cas-ão   *! *!  

O fato de uma restrição ser fatal num caso e não fatal em outro mostra que a língua apresenta algum tipo de variação. Por exemplo, a existência de palavras como casinha, caseiro ao lado de casarão tira o caráter categórico que se esperaria, em princípio, das restrições, colocando as violações numa escala de marca. Nestes casos, é de se esperar que haja algum contexto muito particular em que as violações fatais possam ocorrer como violações simples, como acontece com as formas casazinha e casão que podem aparecer na fala infantil, em uma variação estilística para se obter uma conotação muito particular.

6. Conclusão

O presente trabalho mostrou que a ocorrência das consoantes epentéticas em juntura morfológica interna de palavras ocorre para evitar a presença de hiatos ou para preencher o onset da sílaba inicial do segundo morfema, para não desfazer a estrutura silábica das palavras como acontece no caso de sândi, quando a consoante da coda final de uma palavra torna-se onset da palavra seguinte. Mostrou ainda que os processos de epêntese e de sândi se relacionam. Os segmentos consonantais que podem ser consoantes epentéticas apresentam o lugar de articulação coronal, com raras exceções. Finalmente, de acordo com a interpretação feita, pode-se concluir que os sufixos do Português começam sempre por uma vogal e que as consoantes que lhes foram atribuídas tradicionalmente podem ser interpretadas como consoantes epentéticas no sistema atual da língua.


Referências Bibliográficas

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Archangeli, Diana and Langendoen, D. Terence (1997) Optimality Theory: an overview. Malden, MA, Blackwell Publishers, Inc.

Bisol, L. (1996) "O sândi e a ressibilação". Letras de Hoje. Porto Alegre, Vol. 31-2, Nº 104

Cagliari, Luiz Carlos (1997) Fonologia do Português: análise pela Geometria de Traços. Campinas: Edição do Autor.

Cagliari, Luiz Carlos (1999) "Aspectos morfofonológicos dos advérbios em –mente. Comunicação apresentada no XXII Symposium on Portuguese Traditions, 1999, UCLA.

Câmara Jr., J. Mattoso (1985) História e estrutura da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Padrão – livraria e editora.

Clements, G. N. (1987) Phonological feature representation and the description of intrusive stops. in Parasession on autosegmental and metrical phonology. Chicago Linguistic Society, p.1-22.

Lee, Seung-Hwa (1995) Morfologia e fonologia lexical do Português do Brasil. Campinas: UNICAMP – IEL – DL. Tese de Doutorado. ms.

Piggott, G.L. and Singh, R. (1985) The phonology of epenthetic segments. in CJLIRCLl, Nº 30, 415-451.

Wetzels, W.L. (1985) The historical phonology of intrusive stops – a nonlinear description. in CJLIRCL, 30, p. 285-333.


Notas

1. Em Português, não foi encontrado exemplo de consoante intrusiva. Em Inglês, as pronúncias dentse, hampster para dense, hamster apresentam consoantes intrusivas (Ali et alii, 1979; Wetzels, 1985; Clements, 1987). O fenômeno de africativização (ou palatalização) (Cagliari, 1997: 53-66) poderia ser interpretado como um caso especial de inserção de consoante intrusiva, dado o caráter homorgânico dos segmentos envolvidos, embora o contexto 'diante de [i]' não corresponda ao ambiente 'entre consoantes', típico das ocorrências das consoantes intrusivas nas línguas.

2. É preciso observar que a forma fonológica da palavra é /axoS/, com o arquifonema /S/ na coda final. A forma ortográfica dessas palavras, por outro lado, pode mascarar os fatos fonológicos.

3. É muito curiosa a presença do 's' final em Carlinhos, dando a impressão de que o sufixo foi intercalado.

4. Esse tipo de formação lexical apresenta um estilo informal de uso da linguagem. Este processo não se aplica, se a palavra for oxítona, como em Luiz - Luizinho - *Luinho(s), canhão - canhãozinho - *canhinho.

5. Uma das razões refere-se ao fato de esses itens lexicais manterem a vogal média baixa do radical (cf. cafézinho, abértamente, etc.), tendo uma autonomia acentual e rítmica. Além de poderem ter dois acentos, podem ter a flexão entre os constituintes (cf. hoteizinhos). A questão é bastante complexa e exige uma longa discussão.

6. As palavras ato, agir e ação apresentam uma desinência de gênero 'o', desinência verbal da terceira conjugação 'ir' e um sufixo 'ão', mas qual é a forma de base da raiz? O que explica as mudanças na consoante?

7. Neste caso, não se aplica a regra comum da língua que muda uma oclusiva em fricativa, em palavras como 'presidente' - 'presidência', 'elétrico' - 'eletricidade', etc., uma vez que a consoante, no caso de 'refeição' não se encontra diante de vogal anterior e fechada.

8. Palavras derivadas de verbos, como elisão (de 'elidir'), com o sufixo -ão, pertencem ao gênero feminino: a elisão, a coesão, a coerção (de coagir), revelando que a terminação /-auN/ não é exatamente composta da base sufixal 'a' + desinência de gênero 'u' + arquifonema 'N'. Nesse sentido, essas formas se diferem do -ão aumentativo, que gera sempre palavras masculinas.

9. Se a vogal for átona, ocorrerá a regra de sândi e não de epêntese.

10. Como acontece também em outros exemplos, a existência possível de formas como casazinha e casão está confinada a estilos infantis, muito informais ou com conotações específicas.