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Cultura luso-brasileira na Romênia

 
Micaela Ghitescu
União de Escritores da Roménia

Situados à periferia do mundo românico, tanto os Romenos como os Portugueses e Brasileiros têm afinidades psíquicas, espirituais e linguísticas que se sentem desde o primeiro contato, até entre pessoas sem formação filológica e mesmo sem educação de nível superior. Quantas vezes fui eu própria interrogada sobre as assim-chamadas "similitudes" entre nossas línguas (um mito há muito arraigado entre nós), similitudes que, de verdade, não são maiores — e de longe — do que aquelas entre o espanhol e o português, ou o italiano e o romeno. Mas os Romenos continuam achando que nossas línguas são bem parecidas, para além do fato de, caso único entre os novilatinos, termos a mesma forma de 1a pessoa singular do pronome pessoal, derivada do "ego" — eu —, usarmos de fonemas inexistentes ou raros nas demais línguas românicas — como "â", "ã" e muitos "ch" — e termos, uns e os outros, uma gramática infernal, com inúmeras irregularidades.

Acrescentemos mais uma curiosidade: tanto a língua e cultura romenas como as portuguesas / brasileiras formularam, separadamente e de maneira recíproca inconsciente, uma identidade quase total da palavra-noção "saudade — dor". Todos nós consideramos-la intraduzível, por designar um sentimento e um conceito original e único. Lucian Blaga, notável poeta e filósofo romeno, surpreendeu certa simetria entre os dois conceitos, identificando a palavra romena "dor" — derivada do latim popular "dolus" — com o sentimento do pastor que, tal como o navegante nas ondas, está viajando através da paisagem ondulada (colina - vale - colina - vale) orientando-se, como ele, pelas estrelas, numa viagem do eterno retorno; mas Blaga esquivou-se a indicar uma perfeita identidade com a "saudade" portuguesa, sentimento atribuído antes ao horizonte e ao destino marítimo dos lusitanos.

O primeiro português de que se fala na História romena foi o Infante D. Pedro das Sete Partidas que, segundo carta de 1427, ter-se-ia encontrado na Transilvânia com um exército, prestes a se juntar ao príncipe romeno Dan IIo na sua luta contra os Otomanos que tinham instalado na Valáquia outro príncipe que lhes apoiava a política.

Por outro lado, um manuscrito de 1795, História da América (que se encontra na Biblioteca da Academia Romena), parece ter sido o primeiro texto romeno em que se fala, entre outros temas, da "Lei dos brasileiros e alguns costumes seus".

Após essas datas, as referências a Portugal e ao Brasil se multiplicam nos escritos romenos.

A independência romena uma vez conquistada, em 1877, uma ampla ação diplomática foi empreendida com vistas ao reconhecimento desse fato pelas grandes nações do mundo. Entre os reis D. Luís de Portugal e Carol 1o da Romênia houve um intercâmbio de medalhas, enquanto no outono de 1880 chegou ao Rio de Janeiro, junto ao Imperador D. Pedro II, um certo coronel Segiu Voinescu na qualidade de "enviado extraordinário em missão especial". Em 1896, o governo de Bucareste aprovou a instalação do primeiro consulado romeno em Lisboa; pelo contrário, a instalação do primeiro consulado português na Romênia, nomeadamente no porto de Brãila, teria de esperar até 1922. No Brasil, o primeiro consulado honorário romeno só foi inaugurado em 1921 no Rio de Janeiro. Por sua vez, o Brasil propôs ainda em 1914 a instalação de um consulado em Bucareste, e outro foi criado em 1919 no porto de Galati. Depois da primeira guerra mundial abriram-se consulados romenos honoríficos em Portugal, nomeadamente em Setúbal, Funchal, Faro, Ponte Delgada e no Porto. Em 1928 abriu-se um consulado português no porto romeno de Constantza.

A essa intensa atividade diplomática e comercial corresponde também uma atividade cultural.

Embora a primeira tradução para o romeno de um texto literário brasileiro date de 1915 (trata-se de Um Testamento, de Machado de Assis), o primeiro texto literário sobre Portugal, intitulado Lisboa, capital de Portugal, saiu numa revista literário da cidade romena de Iasi já em 1865.

Mas a influência mais importante, no sentido inverso (da literatura romena para a brasileira), se situaria à vésperas da grande revolução que se daria na vida intelectual do Brasil por ocasião da Semana de Arte Moderna, em 1922, porque seu inspirador foi um romeno, Tristan Tzara, pai do dadaismo.

Durante o regime comunista, as relações culturais com Portugal e o Brasil limitavam-se sobretudo à tradução literária, e isso apesar de ter sido a Romênia o primeiro país a reatar as relações diplomáticas com Portugal depois do 25 de Abril de 1974, e de não ter cortado essas relações com o Brasil durante a ditadura militar. Graças ao empenho de alguns tradutores entusiastas — entre os quais tenho a honra de me contar — e à grande abertura para a literatura universal demonstrada por uma importante editora bucarestina, saiu do prelo, no período 1948-1989, quase todos os anos, pelo menos um título da literatura clássica e / ou contemporânea portuguesa e brasileira. Ao mesmo tempo, uma importante revista de cultura universal, Secolul 20, consagrou um número especial a Fernando Pessoa, outro ao Brasil, e está a preparar um número especial dedicado à poesia portuguesa contemporânea. Ao lado de essas traduções, que contam, no que concerne à literatura portuguesa, obras de Camões (Os Lusíadas e Sonetos traduzidos em versos rimados), Eça de Queirós, Miguel Torga, José Saramago, José Cardoso Pires, Fernando Namora, Aquilino Ribeiro, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Dinis Machado, Urbano Tavares Rodrigues, Carlos de Oliveira, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Ruben A., Agustina Bessa-Luís, Augusto Abelaira, António Lobo Antunes, Manuel Alegre, Helena Marques, João de Melo, a História Trágico-Marítima em completo, Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, e, por último, José Augusto Seabra; e, no que concerne à literatura brasileira, obras de Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Erico Verissimo, Murilo Mendes, José Sarney, Manuel Antônio de Almeida, Antonio Olinto, Bernardo Guimarães, Paulo Coelho etc. (a ordem é mais ou menos cronológica, segundo o ano de publicação), cabe mencionar também obras de importantes personalidades romenas que trataram de temas luso-brasileiras.

Assim, por exemplo, o grande historiador Nicolae Iorga, sábio de reputação mundial, membro de inúmeras academias e sociedades estrangeiras, visitou Portugal em 1928 a convite da Sociedade de Geografia. Ele publicou em seguida um livro, O país latino mais afastado na Europa: Portugal, no que propôs, entre outras, a fundação, em Coimbra, de uma "escola da latinidade inteira", como "símbolo, afirmação e providência para o futuro". A guerra e, depois, o quase meioséculo de obscuridade e isolamento que engoliu nosso país, impossibilitaram até hoje a realização desse projeto, que só agora parece ter mais sorte, porque no IIo Congresso Internacional da Latinidade, realizado em 1998 na cidade romena de Cluj com o patrocínio do Presidente da Romênia e do Presidente da República Portuguesa, se decidiu a criação de tal escola, em moldes de itinerância.

Outro importante intelectual romeno interessado em Portugal, um dos nossos maiores diplomatas, Nicolae Titulescu, foi representante e delegado na Sociedade das Nações. Ao chegar a Lisboa, em 1929, ele dirá: "Portugal é, para nós, Romenos, um país amado e apreciado… porque obrámos conjuntamente no seio da Sociedade das Nações e nunca tivemos uma divergência".

A presença romena e portuguesa na Sociedade das Nações parece ter tido também outra bem surpreendente repercussão: foi lá que se encontraram a escritora e poetisa romena Elena Vãcãrescu (que visitou também Portugal) e o português Júlio Dantas. Este último já tinha um interesse real na Romênia, a julgar pelo grande número de livros romenos da sua biblioteca. Ele conheceu e admirou a poetisa romena e até escreveu sobre ela vários artigos, dos que poderíamos citar Três mulheres celebres, no que situou Elena Vãcãrescu à mesma altura de Marie Curie. Essa amizade — segundo outro importante romeno arraigado em Portugal, o Professor Victor Buescu — parece ter sido à origem da peça de teatro póstuma de Júlio Dantas, A Catedral, inspirada numa lenda romena muito popular, A Lenda do Mosteiro de Curtea de Arges.

Outra grande personalidade romena, o poeta, filósofo, dramaturgo e diplomata Lucian Blaga, foi ministro plenipotenciário e encarregado de negócios extraordinário da Romênia em Portugal, entre 1938 e 1939. O que interessa especialmente neste contexto das relações culturais romeno-portuguesas é o chamado "ciclo português" na sua obra poética, compreendendo pelo menos 11 poemas, a maioria integrando o volume Nas Cortes da Saudade, escrito durante sua estadia em Portugal. Mas, como diz o crítico literário George Ganã, além desses 11 poemas, imagens e temas ligados a Portugal podem reconhecer-se na obra de Blaga em outros numerosos poemas escritos durante um período de 22 anos (1938-1960), até quase pouco tempo antes de sua morte. Cabe mencionar aqui que esse insigne intelectual morreu em 1961, marginalizado e perseguido pelo regime ditatorial. Traduzi para português parte da obra poética da Lucian Blaga, integrando a antologia intitulada Nas Cortes da Saudade publicada em maio de 1999 pela Editora Minerva de Coimbra. Por outro lado, o poeta e ensaísta brasileiro Luciano Maia traduziu também poemas de Blaga, assim como um conjunto de poesias do poeta nacional romeno Mihai Eminescu, essas suas traduções saindo em Fortaleza, nas Edições UFC, em 1998, com o título: Mihai Eminescu & Lucian Blaga — Dois Poetas do Espaço Miorítico.

Outro romeno, Mircea Eliade, filósofo e escritor, professor à Universidade de Chicago, insigne especialista da História das Religiões, foi durante a segunda guerra mundial adido de imprensa da Romênia em Portugal, onde viveu cerca de cinco anos. Escreveu naquela altura o romance O Bosque Interdito, cuja intriga se desenrola parcialmente em Lisboa, Cascais e Coimbra, e que foi traduzido ao português pela Professora Maria Leonor Buescu. Também escreveu ali o estudo Os Romenos, Latinos do Oriente, publicado em Lisboa na mesma época, um ensaio sobre Salazar e um diário português, ainda inédito.

Recentemente, o poeta e ensaísta José Augusto Seabra, nomeado embaixador de Portugal na Romênia, escreveu e publicou neste país um volume de versos, Conspiração da Neve, com poemas inspirados na sua estadia em Bucareste. "A Romênia que, pouco a pouco, toma corpo nos versos de José Augusto Seabra, escreve no posfácio o crítico e historiador literário Mihai Zamfir, é uma Romênia concreta, material, mas também cultural(…). O vestuário hibernal não é apenas um elemento da paisagem, ele cumpre uma função simbólica precisa. A Romênia destas páginas é ainda uma Romênia gelada, apenas saída dos << anos da peste>>; o país hibernou, durante meio século, sob o gelo do terror, e a primavera ainda não chegou lá" diz Mihai Zamfir, aludindo ao fato que o poeta se implicou também moralmente na realidade social e cultural deste país que chegou a conhecer profundamente.

No concernente às relações literárias com o Brasil cabe mencionar que elas tem um importante "torcedor" na pessoa de Luciano Maia, o incansável "representante honorífico" de meu país em Fortaleza, que não só traduziu importantes obras romenas ao português, mas também não se cansa de escrever ensaios, dar aulas, publicar artigos na imprensa e estar presente em toda a parte onde se trata de assuntos romenos no espaço brasileiro.

Outro importantíssimo promotor dessas relações é o embaixador do Brasil em Bucareste, Jerônimo Moscardo, que conseguiu dar uma nova vida ao relacionamento Brasil – Romênia, abrindo um Espaço Cultural na própria sede da Embaixada, que está facultando aos romenos e brasileiros acesso direto e informal à formulação e execução de programas de intercâmbio por grupos de voluntários dedicados ao estudo do português, ao cinema, ao teatro, à dança, às artes plásticas, à literatura, à fotografia, etc. Com a ajuda de tais voluntários entusiastas e o patrocínio da Embaixada criou-se em Bucareste uma biblioteca "Antonio Olinto" assente na doação de 3000 livros, a maioria deles tendo pertencido ao escritor, grande amigo nosso, Antonio Olinto.

E mais algumas palavras sobre nossos próximos projetos literários. Segundo minhas informações, estão a ser traduzidos, ou se encontram já no prelo, os seguintes volumes: O Manual dos Inquisidores de António Lobo Antunes, o Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago, uma Antologia do Conto Português do realismo ao modernismo, O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, uma Antologia de Textos Políticos e Sociais, também de Fernando Passoa, Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, Breve História do Brasil de Hernani Donato e O Imbecil Coletivo de Olavo de Carvalho.

Há departamentos de português nas Faculdades de Letras de quatro Universidades romenas. A publicação em Bucareste, recentemente, de uma Gramática da Língua Portuguesa estimulou o Embaixador de Portugal a convencer o ministro romeno da Educação Nacional de introduzir o português como língua estrangeira também em quatro liceus da Romênia. Isso se realizará, no próximo ano letivo 1999-2000, com a ajuda do Instituto Camões de Portugal, que vai patrocinar a abertura de um Centro Cultural em Bucareste.

Apesar destas ajudas e destes patrocínios, a atividade de relacionamento – que eu própria comecei há 31 anos – entre a Romênia por um lado, Portugal e o Brasil por outro, não teria sido possível sem o empenho direto e desinteressado de algumas pessoas apaixonadas que, por seu trabalho muitas vezes anônimo, mas nem por isso menos eficaz, construíram, até nos tempos pouco propícios da ditadura, isoladora e inimiga de toda a abertura, essa ponte de amor entre irmãos da mesma origem.