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Dicionário da língua portuguesa arcaica

 
Zenóbia Collares Moreira Cunha
UFRN

A idéia de escrever o Dicionário da Língua da Língua Portuguesa Arcaica surgiu de nossa própria experiência e dificuldades em sala de aula, onde alunos e professores de literatura portuguesa viam-se confrontados, a cada semestre, com a ilegibilidade dos textos literários produzidos no período arcaico da nossa Língua. Para solucionar o problema de forma mais imediata, preparávamos glossários para os textos em prosa que selecionávamos para estudo, sempre de forma muito lacunar e precária. Outras vezes, quando fazíamos uso de obras que dispunham de glossários, as coisas se complicavam ao constatarmos que tais glossários eram incompletos. E não poderiam ser diferentes, como mostrou-nos a própria experiência com a preparação de alguns deles, vez que a nossa subjetividade e os nossos conhecimentos da linguagem interferem no momento de decidir quais vocábulos devem integrar a lista das palavras supostamente desconhecidas do leitor que eventualmente irá fazer uso do texto.

O contínuo trabalho com obras medievais que vêm acompanhadas de glossários, nos fez descrer da eficiência dos mesmos. Eles funcionam, na maioria dos casos, apenas como uma modesta ajuda, dando a impressão de que se destinam a um leitor que já traz suficientes conhecimentos da língua portuguesa arcaica para ler grande parte dos textos, com desafogo e autonomia. Os alunos universitários não se ajustam a este perfil de leitor. Em suas pesquisas, necessitam de uma ajuda bem mais substancial que só um bom dicionário e estudos de certos aspectos gramaticais da língua do período arcaico poderão subsidiar as suas incursões no universo das obras produzidas, entre os séculos XII e XVI.

O estudo da poesia era menos problemático, em razão das antologias que traziam os textos originais e a sua adaptação para o português contemporâneo. Todavia, tal recurso é muito redutor, na medida em que não nos deixa muito espaço para escolhas mais condizentes com o programa de estudos que desejamos aplicar. Demais, não consideramos adequado o uso de tais adaptações, salvo nos casos em que os textos adaptados se fazem acompanhar dos originais, permitindo o convívio dos alunos com as formas que revestem a nossa Língua escrita no período medieval principalmente.

Nossa primeira tentativa para solucionar o problema resultou no Pequeno Dicionário do Português Medieval, elaborado em parceria com o Prof. Annecildo Batista de Carvalho. Publicado em 1992, este despretensioso trabalho teve, para surpresa nossa, a sua primeira edição logo esgotada, principalmente em razão da grande procura por parte de outras universidades do país para as quais enviamos alguns exemplares.

O resultado positivo do nosso trabalho, além de gratificar-nos pelo esforço expendido, serviu, dentre outras coisas, como indicador de que o nosso problema e aflições, com os textos arcaicos, eram compartilhados por professores de outros Estados, alguns deles responsáveis por disciplinas da área da Língua Portuguesa e da lingüística que lidam com textos do período arcaico. Também alunos de Mestrado ou envolvidos em projetos de pesquisas, que trabalham com obras medievais, procuravam avidamente adquirir exemplares do referido dicionário, já esgotado.

Tal interesse deve-se ao fato de não existirem no Brasil e em Portugal, dicionários modernos, produzidos no século XX, que tratem especificamente da língua portuguesa arcaica. O que há são obras escritas há mais de duzentos anos, já esgotadas, e outras que integram vocábulos desse período com todos os outros surgidos na fase do nosso idioma historicamente considerada moderna.

Em viagem a Lisboa, um anos após a publicação do Pequeno Dicionário do Português Medieval, tivemos a grata surpresa de recebermos uma proposta do Diretor da Editora Vega, Assírio Bacelar, para publicar uma edição portuguesa do referido dicionário, do qual vira um exemplar na casa de amigos nossos a quem o déramos de presente. Aceitamos a oferta generosa e oportuna, sob a condição de que nos desse tempo suficiente para submetermos o nosso trabalho a uma leitura crítica severa. Esta atitude de prudência impunha-se porque, não obstante a excelente recepção do Pequeno Dicionário do Português Medieval, tínhamos detectado no trabalho falhas e imperfeições suficientes para não permitir que fosse reeditado, sem que passasse por uma rigorosa revisão. Todavia, trabalhar no mesmo projeto já não nos satisfazia. Tínhamos uma consciência crítica muito aguçada em relação a esse primeiro livro, concebido a partir de um grande esforço e tenacidade, mas que, em nosso julgamento, não bastava para suprir as necessidades de leitura dos pesquisadores, estudantes e interessados no estudo de textos antigos, posto que abrangia apenas o período medieval da nossa Língua. Era, portanto, preciso que voltássemos às pesquisas e partíssemos para um trabalho que oferecesse muito mais que um simples dicionário limitado ao vocabulário da Idade Média. Urgia, portanto, que ampliássemos a nossa pesquisa até o século XVI, abrangendo, deste modo, todo o longo período da língua portuguesa historicamente considerado arcaico. Tomada esta decisão, preparamos o projeto que, encaminhado à Pró-Reitoria para Assuntos de Pesquisa e Pós-Graduação, contou com o apoio de duas bolsistas para darmos início aos trabalhos, no segundo semestre de 1995.

É oportuno lembrar que não somos os primeiros a empreender esforços para resgatar o vocabulário arcaico. Antes de nós, há mais de duzentos anos, outras tentativas foram levadas a efeito por três sacerdotes. O primeiro deles, D. Bernardo da Encarnação, não chegou a publicar a sua obra, deixada em manuscritos. Em 1727, Raphael Bluteau publicou o seu Vocabulário Portuguez e Latino, em 14 tomos. Esta obra, de grande valor documental, está, no entanto, por várias razões ultrapassada, além de esgotada há muitos anos, encontrando-se disponível para consultas apenas nos acervos bibliotecários portugueses e em alguns brasileiros. Ainda no século XVIII surge o Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram, e que hoje regularmente se ignoram, de Frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo.

Este foi o primeiro e único dicionário exclusivo do português arcaico. Trata-se, portanto, de uma obra pioneira que, como tal, não poderia deixar de apresentar imperfeições e falhas, algumas delas inaceitáveis em obras deste gênero.

Se por um lado tais falhas não desmerecem o seu valor incontestável, por outro, o Elucidário não se impõe como um livro de fácil entendimento para o pesquisador dos dias atuais. Podemos citar alguns procedimentos que o prejudicam, como a inclusão de palavras que não existiram, resultantes de leitura equivocada ou falha de impressão, a incorrência de definições incorretas de termos; equívocos em muitos significados de palavras, que tornam ambíguas as informações ou vazias de sentido; inserção muito freqüente de um discurso de índole moralizante e doutrinária não condizente com a natureza da obra; prolixidade em inúmeros verbetes, mais das vezes dedicando desnecessariamente o espaço de várias páginas a uma única palavra, em razão das supérfluas divagações que faz acerca dos mais variados assuntos.

Além desses inconvenientes, a própria linguagem em que são redigidos os verbetes carece de objetividade, excede em floreios retóricos, além de usar termos e expressões em desuso, nos dias atuais, que dificultam a sua compreensão por parte do leitor do século XX. Some-se a isto tudo mais dois sérios inconvenientes: as mais variadas e abundantes informações, incompatíveis com o objetivo da obra, dentre as quais destacamos: as longas dissertações acerca da história das instituições sociais e religiosas, comentários prolixos sobre usos e costumes, legislação, geografia, moda, vestuário e outras coisas mais que escapam às finalidades do Elucidário, embora constituam excelente fonte de informações para pesquisas interessadas nestes campos de conhecimento.

Outrossim, há que referir o fato de o Elucidário ser incompleto, de faltar-lhe uma avultada quantidade de vocábulos que poderiam e deveriam estar alfabetados em suas páginas. Esta lacuna provém da ausência de uma quantidade considerável de obras não incluídas na bibliografia utilizada por Viterbo que, se utilizadas, teriam prestado um enorme contributo à ampliação e completude de sua obra. À guisa de exemplificação, citaremos apenas algumas que julgamos fundamentais, como os cinco volumes do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, a Copilaçam de Gil Vicente, as Ordenações Afonsinas, o Leal Conselheiro e O Livro da Ensinança de Bem Cavalgar, ambos de D. Duarte, a Crónica dos Frades Menores, A Corte Imperial, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Ajuda, o Livro de Vita Christi, o Fuero Real de Afonso X, o sábio, Boosco deleitoso, e uma quantidade expressiva de muitos outros escritos do período, inclusive obras literárias, doutrinárias, crônicas, livros de viagens, dentre outras. Em contrapartida, incluiu no seu Elucidário termos e expressões que hoje chegam ao nosso conhecimento graças ao seu cuidado em buscá-las em uma enormidade de antigos documentos depositados em Bibliotecas de Conventos e Mosteiros, em arquivos públicos de várias cidades de Portugal, como Documentos de Salzedas, de Pendorada, das Bentas do Porto, de Tarouca, de Almocave, de Pedroso, da Câmara do Porto, de Moncovo, de S. Tiago de Coimbra, de Vairão, do Maceiredão, de Bostelo, de Santo Tirso, de Almoster, de Lamego, de São Pedro de Coimbra, Códigos Alfonsino, Foral de Tomar , História do Preste João, e tantos outros preciosos e raros documentos hoje desaparecidos.

Face ao exposto, temos de concordar que têm pertinência as palavras de Leite de Vasconcelos, segundo as quais "o Elucidário deveria subintitular-se de palavras que antigamente se usavam, e não das palavras, pois não estão lá todas, só algumas, embora muitas."1

Com o objetivo publicar uma segunda edição do Elucidário, achou-se por bem submetê-lo a uma rigorosa revisão visando a extirpar-lhe as excrescências, corrigir-lhe as falhas e equívocos e acrescentar-lhe muitos vocábulos que escaparam às pesquisas do seu autor, no meado do século XIX, foi delegada a Francisco Inocêncio da Silva a execução dessa árdua tarefa. Todavia, o resultado esperado não correspondeu ao obtido: a referida edição praticamente deu continuidade às mesmas imperfeições da edição anterior, acrescida de tantas outras da sua responsabilidade. Os acrescentamentos que fez no Elucidário limitaram-se à inserção de "vocábulos constantes dos glossários dos Inéditos de Alcobaça de Frei Fortunato de S. Boaventura (tomos I e III), das Obras de Gil Vicente e da Crónica da Conquista da Guiné, de Zurara".2

Na década de quarenta do século XX, Augusto Magne, outro sacerdote de grande erudição, publicou o Dicionário da Língua Portuguesa, especialmente dos períodos Medieval e Clássico, obra que ultrapassa o período propriamente arcaico da língua.

Vale ressaltar que o contributo de Magne para a elaboração de um novo dicionário é de suma importância, não somente pela quantidade de vocábulos antigos verbetados em seu Dicionário e, especialmente, em razão dos inúmeros glossários que escreveu para obras do período medieval.

De todos esses dedicados estudiosos da língua antiga, é Viterbo o que nos parece merecer destaque especial pelo grande mérito de ter salvo em seu Elucidário uma quantidade enorme de vocábulos que hoje estariam definitivamente perdidos para o nosso conhecimento, considerando que foram extraídos de textos manuscritos em datas recuadíssimas, atualmente desaparecidos. Nestes termos, sua obra constitui uma fonte de pesquisa das mais preciosas para a elaboração do Dicionário que nos propomos escrever, porque supre as lacunas que decerto este também apresentaria, não fora a valiosa contribuição que representa. Esse dicionarista legou-nos tudo quanto as demais fontes não possuem. Sua obra é repositório de uma herança preciosíssima, não importando as imperfeições, tão corrigíveis, que acumula. Com efeito, as falhas da obra de Viterbo não foram obstáculos à sua publicação, apesar de percebidas desde a sua primeira edição, ainda no século XVI, inclusive por ele próprio.

Com o avanço da filologia, a partir das primeiras décadas do século XX, ocorre um sopro de renovação nesta área do saber, destacando-se várias personalidades que prestaram valiosos contributos para o estudo e conhecimento da língua e dos textos antigos. Surgem, então, críticas ao Elucidário de Viterbo, o único instrumento disponível para subsidiar a compreensão da Língua Portuguesa do período arcaico.

O filólogo brasileiro Augusto Magne critica no Elucidário as divagações prodigalizadas por Viterbo, ao longo dos dois tomos que constituem a obra, prejudicando-a com "intermináveis inquirições e, às vezes, em inúteis diatribes, sobre dúvidas de história antiga, que pouco ou nada se relacionam com a índole da obra"3.

Na década de quarenta e cinco do século XX, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, escritora de grande erudição na área dos estudos filológicos, refere à necessidade de um Dicionário que ofereça um repertório mais completo dos vocábulos em uso no período arcaico da nossa Língua. Mesmo reconhecendo o valor do Elucidário de Viterbo, não se exime de referir à pobreza do vocabulário nele reunido: "O Elucidário de Viterbo é uma contribuição preciosa, insubstituível pelas citações, tiradas de documentos públicos, em parte perdidos. Mas ainda assim é muito pobre, porque ele não podia no seu tempo aproveitar nenhum dos principais monumentos literários da época galego-portuguesa".4

O conjunto de falhas, apontadas por outros filólogos, respaldam e justificam os comentários de Carolina Michaellis e Augusto Magne. O mais incisivo de todos, no entanto, é Mario Fiúza, prefaciador da terceira e última edições de referido Elucidário, em 1962, que inicia o seu texto com as seguintes palavras:

Há muito tempo já que o Elucidário de Viterbo devia de estar definitivamente arrumado num museu de antigüidades. Mostrar-se-ia ao visitante como a primeira tentativa dum dicionário da nossa língua arcaica, um antepassado longínquo dos modernos dicionários, elaborados com espírito crítico e beneficiando do enorme desenvolvimento que a filologia e a história tiveram nos séculos XIX e XX. Mas ao invés disto, inicia-se hoje a publicação duma nova edição do Elucidário, que continua a ser o único dicionário da nossa língua arcaica. Apesar dos modernos e grandiosos progressos da filologia e da história, ninguém meteu ombros à empresa de elaborar um novo dicionário da nossa língua medieva. Justifica-se portanto a necessidade de publicar esta nova edição porque a obra continua a estar em uso e ainda não foi substituída ( e quando o será...?) por outra mais moderna e mais aperfeiçoada5.

O próprio Mario Fiúza escreveu uma nova edição crítica e atualizada do Elucidário. Todavia, ao fazê-lo, pouco acrescentou ou excluiu da versão original, que se conserva praticamente conforme a sua segunda edição.

Não obstante todas as suas imperfeições, o Elucidário de Viterbo, em razão da falta de um outro mais completo e atualizado, continua sendo um importante instrumento auxiliar de trabalho para os estudiosos de textos arcaicos. Contudo, em virtude de ter a sua derradeira edição esgotada, desde a década de sessenta do século ainda em curso, a sua consulta fica restrita aos pesquisadores que puderem ter acesso aos acervos bibliotecários que guardam exemplares dessa obra setecentista, editada em dois volumosos, demasiadamente grandes e pesados tomos, bem à moda da época em que veio à estampa.

É necessário, portanto, que, ao pretender elaborar um Dicionário dedicado à recuperação do vocabulário arcaico, não posterguemos o contributo valioso da obra que abriu os caminhos: o Elucidário de Viterbo. Ela deverá estar na base do seu repertório de termos da fase medieval do nosso idioma, embora corrigida, despojada dos excessos e da superfluidade; enfim, reescrita em linguagem atualizada, como um alicerce preciosíssimo, ao qual serão acrescentados milhares de novos vocábulos recolhidos em nossas pesquisas, que não constam da primeira tentativa do frade dicionarista.

Nestes termos, O Dicionário da Língua Portuguesa Arcaica assimilará o valioso contributo do Elucidário de Viterbo, acrescido de todos os outros legados hauridos em textos antigos de que foram escritas edições críticas, notadamente no século XX, além da contribuição de tantas obras consultadas, produzidas no período arcaico da nossa Língua, que não foram incluídas no repertório bibliográfico do autor do Elucidário.

Escusado dizer das dificuldades que temos enfrentado para levar a termo as pesquisas que resultarão na elaboração do Dicionário da Língua Portuguesa Arcaica.

Residente numa cidade do Nordeste, pobre em Bibliotecas, inclusive no âmbito da Universidade, uma das mais novas da rede federal, cujo acervo não dispõe de obras antigas de autores portugueses.

Sem ajuda financeira para custear as imprescindíveis viagens dentro e fora do país para colher o material necessário à redação dos verbetes, não fora a nossa obstinada vontade e paixão por este trabalho e a firme decisão de levá-lo às últimas conseqüências, de há muito teríamos desistido.

Mantivemo-nos resolutamente laboriosas ao longo dos quatro anos de pesquisa, ou melhor, de exercício de paciência e de cumplicidade com o nosso propósito de resgatar centenas e centenas de palavras relegadas ao esquecimento e desconhecidas do público dos dias atuais. Foi, portanto, sob o estímulo decisivo da nossa inabalável convicção acerca da pertinência e importância do nosso trabalho que empreendemos quatro viagens a Portugal, em nossos períodos de férias, para, em "peregrinação" nos seus acervos bibliotecários, empenharmo-nos numa exaustiva busca, em um universo bibliográfico constituído por obras publicadas desde o século XII até o século XVI, percorrendo fichários de "Reservados", folheando catálogos, devassando livros antigos, obras poéticas e em prosa, além de inúmeros dicionários etimológicos, elucidários e glossários de obras surgidas no período mais recuado da Língua Portuguesa.

A cada viagem de pesquisa, voltávamos mais estimuladas a continuar, trazendo na bagagem um precioso material que, cada vez mais nos dava a certeza da validade dos nossos esforços para atingir os objetivo colimados, especialmente ao darmo-nos conta de que não existiam dicionários modernos exclusivos da Língua Portuguesa do período arcaico. Os únicos livros usados como subsídio para a leitura de textos produzidos nesse período, como já foi dito antes, datam do século XVII.

O título do nosso trabalho, Dicionário da Língua Portuguesa Arcaica, evidencia claramente que o único e exclusivo interesse que nos move é o de resgatar da dispersão o vocabulário da nossa Língua em uso no período historicamente considerado arcaico, ou seja, o que vai do século XII até o século XVI, reunindo-o em um Dicionário que venha a ser um útil subsídio para a leitura dos textos produzidos nessa remota fase da nossa língua, anterior à sua maturidade e à gradativa evolução que, a partir do século XVI, a foi alterando e a enriquecendo, até modelá-la na forma que hoje apresenta.

Considerando que esta língua moderna, viva, pulsando de energia na linguagem oral e escrita, está prodigamente resguardada pelo uso e pelos modernos dicionários, enquanto a língua arcaica, de modo geral, é relegada ao olvido e está sob ameaça de perder-se na memória dos tempos futuros, deixamos bem claro que ficam à margem dos nossos propósitos os vocábulos surgidos a partir do século XVII, seja porque transcendem os limites do período arcaico, seja por estarem dicionarizados em Portugal e no Brasil.

Escusado, talvez, ressaltar que, apesar do empenhado esforço que temos em produzir um dicionário, o mais completo possível, procurando disciplinar o nosso trabalho, a partir de critérios modernos e das normas cientificamente concebidas para uma obra desse gênero, estamos conscientes de que, por mais que o tentemos, não esgotaremos a matéria, não conseguiremos recuperar todo o patrimônio vocabular do Português Arcaico. Decerto, muitas palavras escaparão à nossa pesquisa, exigindo que recomecemos tudo após algum tempo, na certeza de que "obras desta natureza não se constróem duma só vez".


Notas

1. José Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, Rio de Janeiro, 1959,p. 294,

2. Mário Fiúza, "Advertência Preliminar desta Edição" in Elucidário, 3ª Edição, Lisboa, 1962, p. 10.

3. Augusto Magne, A Demanda do Santo Graal, Vol.III, Glossário, Rio de Janeiro, 1959.

4. Carolina Michaellis de Vasconcelos, Revista de Portugal, vol. VII, 1945, pp. 275-276.

5. Mário Fiúza,ádvertência Preliminar desta Edição" in Frei Joaquim de Santa Rosa Vitrbo, Elucidário, 3ª ed, 1962, p. 7