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Do fato ao texto literário:
a subversão de valores estéticos femininos

 
Lealis Conceição Guimarães
UNESP – Assis/SP

A análise da crônica Feiúra não é desgraça. Beleza é., publicada no jornal Folha de São Paulo, em 3 de agosto de 1995, tem como objetivo mostrar como o escritor gaúcho Moacyr Scliar emprega a ambigüidade do humor crítico para salientar o aspecto insólito da subversão de valores estéticos femininos. A referida crônica retoma a notícia ‘Maria Basculho', 26, é eleita a mulher mais feia de Pernambuco, de Vandeck Santiago, veiculada no mesmo jornal, em 31 de julho de 1995, acompanhada de foto da vencedora. Trata-se, assim, de um estudo comparativo que visa a desvelar o processo de recriação paródica na crônica, para expor a forma como o autor trabalha literariamente o fato veiculado pela notícia jornalística.

A notícia conta que, incentivada pelo marido, a dona de casa, Maria de Lurdes de Jesus, cujo apelido Maria Basculho confunde-se foneticamente com "bagulho", participa de um concurso que elege a mulher mais feia do estado de Pernambuco, onde mora. O texto é ilustrado com uma foto de Maria, junto aos prêmios que ganhou e de uma entrevista em que ela afirma estar orgulhosa de ser a vencedora do concurso. Além de flores, ganhou como prêmios uma bicicleta usada, sem freios e com um pneu furado, e um cheque de duzentos reais.

O espaço em que se encontra a notícia tem subtítulo bastante significativo, As belas e a fera, que foge à objetividade da linguagem jornalística e recupera o conto da literatura francesa A bela e a fera, escrito por Madame de Prince Beaumont. Já que o concurso é para eleger a mulher mais feia, entende-se que "as belas" são as outras concorrentes, menos feias. Maria Basculho é a mais feia, "a fera". Fera é um vocábulo com duplo sentido, pois tanto pode estar relacionado à aparência (feiúra) de Maria Basculho, como à sua capacidade de vencer, sendo exímia representante das feias. Um sentido não pode ser dissociado do outro, porque justamente por ser tão feia é que ela conseguiu vencer o concurso. Com isso, além de explorar a subjetividade contida no espaço da reportagem, a crônica utiliza, como pretexto, outros elementos como o objetivo do concurso, o incentivo do marido para que a vencedora concorresse, os prêmios que ela ganhou e o orgulho dela por ser a feia vitoriosa. A intenção do cronista é causar impacto com a excentricidade do fato, visto que situações absurdas sempre despertam a atenção. No caso, tal situação já está contida no na notícia, que instiga o humor crítico de gosto indefinido: amargo pela situação (o objetivo do concurso) e doce pela satisfação da vencedora (os prêmios),

O título da crônica Feiúra não é desgraça. Beleza é. apresenta duas oposições que se complementam para sintetizar o insólito: feiúra representa felicidade; beleza, desgraça. Por meio de uma negação, o escritor circunscreve no texto dois pontos de vista contrários a respeito da estética física feminina e contesta um ideal de beleza convencionado, em busca da essência do ser humano. Scliar relativiza o valor das palavras "feiúra" e "beleza", a partir do título da crônica e, ao opor-se a cristalizados conceitos de beleza feminina, instaura o sentido ambivalente do humor, empregado como recurso artístico, para ressaltar a inversão de conceitos estéticos que valoriza a feiúra e não a beleza exterior.

Observa-se que o cronista aproveita o apelido da protagonista da notícia - Maria Basculho - como nome próprio, na ficção. O motivo pode ser a comicidade do nome próprio, empregada como um procedimento estilístico que reforça o efeito cômico da situação ou da trama, devido à assonância entre os vocábulos Basculho e "bagulho" (pessoa muito feia).

Nesta crônica, o narrador-observador apresenta a protagonista Maria Basculho, que vive momentos de felicidade por ter vencido o concurso de "Mulher mais feia", e de magia, quando encontra um sapo-príncipe que a transforma em uma linda moça. No entanto, fica revoltada porque não queria ser bela. Assim, Maria inverte os padrões estéticos conhecidos, já que ela desvaloriza os parâmetros determinados pela sociedade em geral, e passa a estabelecer seus próprios valores e objetivos.

Pode-se considerar, também, que o concurso "A Mulher mais Feia" pressupõe, simultaneamente, elogio e injúria, uma vez que os extremos do belo e do feio se juntam com a sublimação da feiúra de Maria Basculho. O belo e o horrível aproximam-se e tocam-se num ponto comum, que é o excesso, tanto na crônica como na reportagem jornalística. O destaque, em ambos os textos, é para o inusitado "Concurso da Mulher mais Feia", cuja vencedora é Maria Basculho, como se comprova, já no início da crônica:

Logo depois de ganhar o concurso da Mulher mais Feia, Maria Basculho embarcou na bicicleta que tinha ganho de prêmio e rumou para casa. Pedalava com dificuldade, porque o pneu traseiro estava furado (sendo prêmio de concurso de feiúra, o que se podia esperar?), mas ia contente: o marido vibraria com o titulo que conquistara. Afinal, fora ele quem a estimulara a concorrer - a vitória era uma homenagem à sua visão. Além disso, os R$ 200 que recebera do prefeito eram uma boa ajuda para o orçamento familiar. Isso sem falar na bicicleta propriamente dita: agora a família tinha um meio de transporte.

Nota-se aqui a ênfase dada ao tempo - Logo depois de ganhar o concurso da Mulher mais Feia - que destaca a realização do incrível concurso como ponto de partida para a evolução narrativa. A propósito, percebe-se, ainda, o tom irônico contido na interferência do narrador-observador com um comentário sobre o pneu furado da bicicleta que a mulher ganhara como prêmio: sendo prêmio de concurso de feiúra, o que se podia esperar? A carnavalização se manifesta até na realidade pois, segundo a reportagem, um dos prêmios dados a Maria Basculho era "uma bicicleta usada (sem freio e com o pneu traseiro furado)".

A realidade risível é instauradora do riso crítico e amargo da ficção. Nesta crônica, a oposição entre feiúra e beleza não se refere apenas ao aspecto estético. O mundo às avessas mostra também, nas entrelinhas, a crítica velada à situação calamitosa do povo do sertão nordestino, aqui representado pelos pernambucanos, como se observa em agora a família tinha um meio de transporte, isto é, a bicicleta já mencionada.

Na seqüência da narrativa da crônica, Scliar dá vazão à fantasia sugerida pela notícia e a transforma em história de bicho falante:

Ia, portanto, a Maria Basculho muito contente, quando de repente levou um susto: na estrada, à sua frente, estava um sapo. Tentou parar, não conseguiu - a bicicleta não tinha freio - e, para salvar o pobre bicho, não teve outro jeito senão sair da estrada. Na precipitada manobra, caiu, machucou o braço. Mas pelo menos o sapo tinha escapado; continuava ali, imóvel, olhando-a. Maria Basculho montou na bicicleta e já ia embora, quando ouviu uma voz grossa:

- Obrigado, comadre. A senhora é boa gente.

Neste trecho, insere-se a magia na crônica através do encontro casual de Maria Basculho com o sapo-príncipe, como acontece na literatura infantil. Para adequar-se ao vocabulário de pessoas com pouca instrução, o sapo, ao dirigir-se à Maria, emprega um exoressão popular: comadre. Assim, o contexto vivido traduz-se melhor por meio da linguagem coloquial específica, tendo em vista o regionalismo do ambiente e dos tipos humanos.

Pode-se observar, também, que o uso do pronome senhora indica um certo distanciamento respeitoso da personagem sapo. O mesmo tratamento é empregado por Maria (senhor), no diálogo travado entre os dois, no decorrer da narrativa. Já o realce à voz grossa do sapo estabelece uma relação de contigüidade metonímica com a masculinidade do animal, que se "humaniza" para "falar" com Maria.

No segmento seguinte, o narrador tece irônicas considerações sobre o inusitado encontro da personagem com um batráquio, ou seja, um sapo, que fala:

Maria do Basculho já tinha ouvido muitas histórias sobre sapos que falam, mas era a primeira vez que encontrava um destes _ e, sobretudo, era a primeira vez que era elogiada por um batráquio. Ficou muito admirada e, claro, muito contente.

Ao afirmar que Maria Basculho já tinha ouvido muitas histórias sobre sapos que falam, o narrador enfatiza a situação de encantamento, já mencionada, como se pode verificar no trecho:

Que é isso,compadre sapo? Não fiz mais que a minha obrigação. Então eu ia passar em cima do senhor, um sapinho tão simpático? Deus me livre e guarde. Mas me diga uma coisa: onde é que o senhor aprendeu a falar como gente, compadre sapo?

- Se eu lhe contar um segredo, comadre, a senhora não espalha? Promete? Bom, então lá vai: eu não sou um sapo, comadre. Sou um príncipe, sabe? Um príncipe encantado.

Para satisfazer sua curiosidade, Maria Basculho questiona o sapo, na tentativa de entender a insólita situação em que se encontra. Na evolução da narrativa, o humor irônico é percebido não só na referência a batráquio mas também no diálogo entre a protagonista e o sapo, quando ela passa a empregar o pronome oblíquo o (se eu o beijar), em oposição ao popular comadre e compadre. Tal linguagem, muito culta para a situação apresentada, certamente não deveria fazer parte do vocabulário de Maria Basculho, uma mulher simples, que se sujeita a esse tipo de concurso para melhorar sua vida miserável. A personagem parece ter se transformado, de acordo com o contexto mágico, pois já demonstra mais instrução.

O diálogo travado entre a protagonista e o sapo-príncipe é o recurso que sustenta a transposição para o espaço fantástico, em que há uma reminiscência das leituras da infância. Contrariamente ao desenrolar da história infantil original, o sapo não quer virar príncipe, ao menos por Maria, a mulher mais feia: Sim, eu viro príncipe, mas não precisa tentar. Aqui passa tanta moça, sabe ... A fim de compensar o erro, o sapo prontifica-se a transformar a feia Maria Basculho na moça mais linda da região.

Importa ressaltar, ainda, que o narrador sempre introduz os diálogos com observações a respeito das personagens, como por exemplo, Ela estava maravilhada, (para apresentar a fala de Maria Basculho) e Viu que tinha cometido uma gafe, apressou-se a repará-la (antes da fala do sapo).

Apesar dos esforços, o sapo-príncipe, embora não possui a perspicácia necessária para entender a verdadeira escala dos valores importantes na vida desta personagem, pois, justamente por ser feia, ela ganhou o concurso. Numa época de supervalorização da aparência perfeita da mulher, uma heroína às avessas é premiada pela negação da beleza. É o positivo (premiação) inserido no negativo (feiúra), gerando a ambivalência típica de uma relação paradoxal.

A concretização dos poderes do sapo-príncipe, identificada como o poder da magia, é acompanhada de um clarão, um estrondo para complementar o efeito extraordinário, como se vê no final da crônica:

Um clarão, um estrondo - e, de fato, ela estava transformada numa moça lindíssima. Foi embora, resmungando. Como é que ia ganhar outro concurso de Mulher mais Feia? Aquele sapo não tinha mesmo o que fazer. Ela deveria ter passado por cima dele.

A aceitação da feiúra ja existia na notícia, especialmente no subtítulo Vencedora se diz orgulhosa, que encabeça a entrevista. No entanto, nota-se que o humor irreverente da crônica exagera quando mostra o desagrado da feia que não quer ser transformada em bela, uma vez que o segredo de sua vitória, naquele momento da vida, está em ser a mais feia possível. O dinamismo da narrativa se comprova com as palavras finais do texto, que demonstram a insatisfação com a metamorfose.

A situação veiculada pela notícia já contraria os preceitos de estética, em que o desejo de auto-afirmação é responsável pela felicidade de Maria Basculho ao ganhar o "1º. Concurso de Mulher mais Feia", incentivada pelo marido, o que também é inusitado. Maria Basculho está alegre com os atributos que tem, mesmo sendo feia. Ao parodiar a notícia, o quadro apresentado pela crônica desafia o leitor a revisar seus julgamentos sobre conceitos sociais preestabelecidos.

Assim, através do questionamento ao conceito de estética, transgridem-se todos os preconceitos e tabus, tanto na notícia como na crônica, permitindo-se louvar o que normalmente não se costuma celebrar. Exemplo disso é Maria Basculho, uma curiosa figura grotesca que se diz orgulhosa por vencer um concurso de feiúra, em entrevista concedida ao repórter do jornal Folha de São Paulo, como já foi comentado anteriormente. Ela simboliza a própria negação da beleza e insiste em se manter dessa maneira, para continuar merecedora das glórias conquistadas. Aqui o destaque dado à feiúra não só serve de contraponto à beleza feminina, como também pode implicar uma crítica às "feiúras" (agruras) da vida, tão habituais ao contexto vivido pelo povo do agreste pernambucano, que já não causam estranheza.

O desenvolvimento narrativo da crônica, tendo a excentricidade como centro de sua cosmovisão paródica, gira em torno da palavra-chave feiúra e obedece à seguinte seqüência: a felicidade de Maria Basculho, com os "estranhos" prêmios recebidos como vencedora de um "estranho" concurso; o susto provocado pelo quase atropelamento do sapo; o diálogo dela com o sapo-falante e a infelicidade da protagonista após a mágica do sapo.

Desse modo, Scliar deixa nítida a visão de mundo invertido na intertextualidade entre a crônica, a notícia e literatura infantil, com a valorização da feiúra, que representa a felicidade, em detrimento da beleza, que significa a desgraça, num gesto aberto à ambigüidade interpretativa da recriação paródica.


Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo, Brasília: Hucitec, 1993.

BERGSON, Henri. O riso: sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da paródia. Lisboa: Edições 70, 1985.

PROPP, Wladimir. Comicidade e riso. São Paulo: Ática, 1992.

SANTIAGO, Vandeck. ‘Maria Basculho’, 26, é eleita a mulher mais feia de Pernambuco. Folha de São Paulo. 31 jul. 1995, c.3, p.1.

SCLIAR, Moacyr. Feiúra não é desgraça. Beleza é. Folha de São Paulo. 3 ago. 1995, c. 3, p. 2.


Notas

* Centro de Estudos Superiores de Londrina, Município de Londrina, Estado do Paraná, Brasil.